Arquivo de Maio 2014

Bairro de Judeus – As mulheres de saias abaixo dos joelhos, mangas compridas, golas altas

Maio 26, 2014

Por Raquel Naveira

Vim morar em São Paulo num bairro de judeus. Gosto de vê-los na rua, os homens com suas barbas longas, capotes pretos, faça frio ou calor, sol ou chuva. As mulheres de saias abaixo dos joelhos, mangas compridas, golas altas, meias, de mãos dadas com os filhos. Os homens usam chapéus de feltro ou kipás, pequenas toucas em forma de circunferência, que representam respeito no momento das orações e a certeza de que há alguém acima de nós. As mulheres protegem a cabeça com lenços de seda ou perucas, pois só os maridos podem ver seus cabelos soltos na intimidade. Parecem saídos de um livro de história ou terem chegado recentemente do Leste Europeu. Há uma aura de dignidade e temor de Deus ao redor deles, carregando no rosto e nas vestes as marcas de sua fé, de sua disciplinada devoção.

A cada esquina, uma sinagoga. Colunas altas, soleiras de mármore negro. Tudo muito fechado, mas consigo imaginar a arca sagrada, a luz entrando pelos vitrais, projetando-se sobre o altar iluminado pelo candelabro de sete velas, o menorá. Posso ver o rabino desdobrando os rolos do Torá, espalhando as bênçãos divinas e os clamores ressoando desde o Muro das Lamentações até esta terra de uma América distante. Posso sentir a energia que se potencializa na hora em que o sol se põe e salpicam no horizonte as primeiras estrelas, tímidas no céu desta cidade cinzenta.

Nos supermercados e sacolões da região, vendem-se produtos kosher, como carne salgada sem sangue, selecionada, abatida e preparada de acordo com regras específicas. Os animais, por exemplo, não devem sentir dor na hora do sacrifício. Os comerciantes colocam faixas, enfeites e frases saudando as festas judaicas como o Yom Kippur, dia do Perdão; o Chanucá, Festival das Luzes e o Purim, Festival das Sortes. São celebrações de uma tradição de mais de cinco mil anos. As compras irão para a mesa judaica que é rica e de reforçados alicerces. Sobre ela as couves, as frutas, os vinhos, as hortaliças, as especiarias, as castanhas, os molhos, os peixes com escamas e o pão, sem fermento e do trigo mais fino e branco. Ao redor da mesa contam-se fatos notáveis ocorridos na vida do povo judeu; transmitem-se conhecimentos; dividem-se alegrias, tristezas, crenças e utopias. É o momento também dos questionamentos, das perguntas feitas para se renovar sempre o pacto de um laço que é ao mesmo tempo família, religião, filosofia, cultura e estado.

Como é lindo ser judeu. É ato de resistência, busca de identidade, visão de uma obra, sede de imortalidade da alma. Quando Davi feriu Golias, o fraco se impôs ao mais forte. Deus ao lado dos fracos: que grande novidade para um mundo acostumado com a força bruta, a violência ou com a esperteza sagaz dos lobos e das raposas.

Quando entrei naquela rua de prédios altos e árvores verdes que dão na sinagoga, que poderia ser o próprio Monte Sinai perto do espigão da Paulista, deparei-me com um judeu de camisa branca e kipá, que ia atrás do filho de uns três anos, loirinho, já também de kipá na cabeça, esforçando-se em pedalar um triciclo. No meio da quadra, o menino voltou-se e gritou: “- Aba, aba.” Fui colhida por aquele grito, “Aba”, “Papai” em hebraico. Que forma carinhosa de chamar o pai.

Marcos em seu evangelho registra que Jesus, ao orar a Deus, pouco antes de sua morte, disse: “- Aba, Pai, tudo te é possível, afasta de mim este cálice. Todavia não seja o que eu quero, mas o que tu queres.” Que fervoroso apelo, como Jesus foi obediente ao seu Pai, marchando para sua morte de cruz.

O menino repetiu: “- Aba, aba.” A emoção tomou conta de mim e me cobriu como um talit, aquele xale de franjas.

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Faleceu PÉRY LAMARTINE!

Maio 19, 2014

Por Silvino Potêncio

Está mais pobre a Literatura Norte Rio Grandense!…e lá se foi o Meu Querido e Dilecto Amigo Pery Lamartine, Escritor Imortal da Academia de Letras, Aviador Amador, um seguidor fiel das ideias de Saint Exupéry.

(Antoine-Jean-Baptiste-Marie-Roger Foscolombe de Saint-Exupéry nascido em Lyon no ano de 1900 e falecido algures no Mar Mediterrânico em 31 de Julho de 1944).

– Nós nos conhecemos em Natal logo no início dos anos 80 do Século XX quando aterramos aqui, neste que era (ainda é! ) considerado o aeroporto Trampolim da Vitória aérea dos Aliados na segunda Guerra Mundial.

– Pery Lamartine foi Secretário da Sociedade Luso Brasileira de Natal quando este, agora saudoso, Amigo nos passou os arquivos (básicamente um Livro de Atas das reuniões da comunidade Lusitana e uma Lista dos Portugueses que residiam por aqui naquela época, que se chamava Sociedade Luso Brasileira de Natal, Fundada no ano de 1950 pelo então Consul Honorário de Natal, Senhor Manuel Augusto Alves Afonso, outro admirador da Lusobrasilidade (tive fotos deste Patrício que mostrava ele, enquanto Cônsul Honorário de Portugal em Natal, junto a Gago Coutinho e Sacadura Cabral, os verdadeiros primeiros Aviadores a completar a travessia do Atlântico Sul).

 – A partir daí nós começámos então a ficar mais  perto da cultura literária do RN, quer fosse diretamente no IHG (Instituto Histórico e Geográfico) que, por sinal, era localizado nas proximidades do nosso escritório, que frequentámos por mais de 25 anos, até ao falecimento de outro Ilustre Artífice da Língua de Camões em Terras Potiguares, o Professor Enélio Lima Petrovich.

– Mais tarde fomos incentivados a Fundar uma nova Instituição que representasse a Comunidade Lusitana, e daí nasceu o CPN – CLUBE PORTUGUÊS DE NATAL do qual fui Presidente Fundador, por vários anos.

Hipérides Lamartine tinha adoração por Portugal,  que visitava com frequência pois era também dono de uma Agencia de Viagens e foi através desta amizade que, direta e indiretamente, nós entrámos em contato  com os vários outros órgãos da informação local daquele tempo, nomeadamente a TVU e Jornais de Natal, Tribuna do Norte, a Répública…

Ao aproximar-se a data de 10 de Junho de 1981, em conversa com Pery Lamartine, eu lhe propus escrevermos algo a respeito da efeméride do DIA DA RAÇA LUSITANA, e ele me apresentou ao então Magnífico Reitor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Doutor Diógenes da Cunha Lima, que é hoje Presidente da Academia de Letras do Rio Grande do Norte, e lá fomos os dois conversar sobre Camões em frente das camaras da TVU (Televisão Universitária de Natal)… foi uma entrevista longa mas absolutamente inolvidável e  profunda sobre a obra de Camões já que o Dr. Diógenes é um especialista, talvez o titular da maior Biblioteca Pessoal Particular da obra do Poeta por aqui.

Com o advento do ano 2000, completaram-se 500 anos da descoberta do Brasil, e nós fomos nomeados Membro da Comissão das Comemorações Oficiais Do Descobrimento do Brasil.

Por tal motivo, e como já não tínhamos o apoio das Entidades Oficiais e nem o CPN tinha instalações (nunca teve aliás) para expor algo a respeito, uma vez mais Pery nos aconselhou a mostrar o material alusivo aos 500 anos do Brasil no espaço público da Bienal do Livro – realizada no Midway Mall, onde nos encontrámos com o meio acadêmico e literário pela mão deste Excelso Amigo junto com o Professor Enélio Petrovich, nesta e em outras vezes. Como prova da sua dedicação à Cultura Lusófona, ele nos ofereceu o espaço do IHGRN para ali expor e guardar até,… se necessário fosse, essa mesma exposição.

– Não nos atrevemos a dissertar aqui sobre a obra do infausto Amigo ora falecido, sob pena de errarmos… e tal avaliação se tornaria omissa não pela falta de profundidade da nossa relação pessoal, mas sim pela pouca convivência que tivemos, nestes últimos anos motivada pelo nosso isolamento de certa forma forçado!…

– Nos basta então só deixar registrada aqui a nossa dor,a nossa saudade, sobretudo a nossa mais sentida homenagem com um epíteto que nos parece ser justo e apropriado!…” Lá se vai mais um Guerreiro da Lusofonia”… e assim o apelidamos pelo ténue conhecimento que temos pela nobre contribuição que ele deu à Cultura Lusófona.

Vale registrar também que o Aviador Pery Lamartine no seu/dele e nosso IHGRN que, temos certeza, mais considerava ser essa a sua “rota de voo” para a Literatura como um todo!… mais do que até a própria  Família,  agora enlutada, ele nos deixou a sua marca pessoal. – Por tudo isso, manifestamos a nossa solidariedade, de pronto, com um abraço de amizade aos seus descendentes, Amigos e Familiares,  na certeza de que Deus Pai Nosso Senhor o guarda já na sua Santa Paz Eterna…Adeus Amigo Pery Lamartine!…  e até sempre!…

Emigrante Transmontano em Natal (Brasil)

A Influência Russa na Literatura Brasileira

Maio 16, 2014

 Por Adelto Gonçalves

I

Que a literatura russa influenciou boa parte da literatura produzida no Brasil, especialmente no final do século XIX e na primeira metade do século XX, nenhum crítico de bom senso pode colocar em dúvida. Até que ponto chegou essa influência e como seu deu, pois, na maioria, por desconhecimento do idioma russo, os autores tiveram acesso apenas a traduções de segunda mão do francês, é que nunca ninguém havia estabelecido.

Essa questão, porém, já está devidamente esclarecida e aprofundada, depois da pesquisa de proporções ciclópicas empreendida pelo professor Bruno Barretto Gomide em sua tese de doutoramento apresentada ao Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em junho de 2004, que saiu em livro em 2011 pela Editora da Universidade de São Paulo (Edusp): Da estepe à caatinga: o romance russo no Brasil (1887-1936), Prêmio Jabuti 2012, da Câmara Brasileira do Livro, na categoria Teoria e Crítica Literária.

As fontes deste livro foram extraídas de arquivos particulares de escritores e de uma extensa pesquisa que o estudioso fez em jornais, revistas e livros publicados entre 1887 e 1936, valendo-se também de consulta não só em arquivos públicos e de universidades em Campinas, São Paulo e Rio de Janeiro como nos Estados Unidos, especialmente nas bibliotecas das universidades de Illinois, Indiana, Stanford e Califórnia.

Neste livro, a recepção da literatura russa no Brasil é estudada a partir de dois eixos: pesquisa documental da recepção crítica do romance russo e estudo da vasta bibliografia comparatista que lida com outros casos de recepção da literatura russa no Ocidente. Tudo isso acompanhado pelas discussões específicas fornecidas pela crítica literária e pela historiografia da cultura brasileira, como observa o autor na introdução.

Os primeiros textos que utilizavam os romancistas russos como contraponto a questões literárias candentes no Brasil datam da segunda metade da década de 1880. Já o final da década de 1930 marca um momento em que tais discussões perdem sua força e deixam de ser relevantes para a crítica. O trabalho conta ainda com um anexo que reproduz algumas fontes significativas, privilegiando as de mais difícil acesso.

II

É observar que a chegada do romance russo ao Brasil foi uma consequência marginal de um processo internacional iniciado na França, que o tornou uma sensação europeia em meados da década de 1880. Foi quando surgiram as traduções em escala industrial e livros de crítica que assinalavam a recepção desses romances em língua francesa.

Gomide aponta o ensaio O Romance Russo, de Eugène-Melchior de Vogüé (1848-1910), publicado em 1886, como o elemento basilar dessa recepção, pois era a ele que recorria a maior parte dos ensaístas, inclusive no Brasil. Entre os romancistas brasileiros, Lima Barreto (1881-1922) foi o que mais se deixou influenciar pelas ideias que o romances russos traziam implícitas, especialmente a partir do prefácio que Vogüé escreveu para Recordações da Casa dos Mortos, de Dostoiévski (1821-1881).

O pesquisador observa que já havia conhecimento da literatura russa no Brasil antes mesmo da década de 1880, mas esses contatos se davam em escala diminuta. A partir daquela data, o seu “surgimento súbito” no País, em função do que ocorria na França, passou a atiçar a criação de uma literatura genuinamente nacional, como observaram ao tempo José Carlos Jr. (?-?), um crítico paraibano hoje quase esquecido e justamente “ressuscitado” por Gomide, e Clóvis Bevilacqua (1859-1944). Mas, como constata Gomide, essa interpretação não foi unânime. Para Tobias Barreto (1839-1889), por exemplo, os romancistas russos eram a negação de tudo o que a cultura francesa representava.

Para Silvio Romero (1851-1914), os russos seriam também o melhor exemplo antípoda de Machado de Assis (1839-1908). Se o escritor fluminense construía delicados estados psicológicos de suas personagens à maneira do francês Paul Charles Joseph Bourget (1852-1935), Romero fazia o contraste com a estética radical do choque, exemplificada por Edgar Allan Poe (1809-1849) e Dostoiévski, observa Gomide. E acrescenta: para Romero, o autor fluminense ficava “bem abaixo de Dostoiévski, Poe e até de Hoffmann (1766-1822), quando este envereda, como o próprio Machado diria, pelo distrito da patologia literária”.

Portanto, o caráter inovador da prosa russa foi imediatamente detectado pelos críticos brasileiros, que passaram a utilizá-lo largamente como termo de comparação em suas críticas e recensões. E até a apresentá-lo como um modelo de emancipação          para a literatura brasileira.

III

Na primeira parte de seu livro, Gomide trata da divulgação dos romancistas russos a partir da metade dos anos 1880, especialmente de 1883 a 1886. E apresenta exemplos do aumento vertiginoso do número de traduções e do entusiasmo nos meios intelectuais pelo novo fenômeno literário. Mostra ainda que, quando a revolução de 1917 assustou o mundo, já havia no Brasil uma tradição de três décadas de discussão do romance russo em periódicos e livros de crítica.

Portanto, associar autores como Dostoiévski, Turgueniev (1818-1883), Leon Tolstói (1828-1910) e Alexandr Pushkin (1799-1837) ao bolchevismo só podia partir de mentes obnubiladas, o que não é de admirar, pois, à época da última ditadura militar (1964-1985), o livro Juan Rulfo: Autobiografia Armada (Buenos Aires, Corregidor, 1973), de Reina Roffé, teve a sua importação barrada, por volta de 1975, porque o censor fez uma interpretação beligerante da palavra “armada”, quando o título queria dizer apenas que a autobiografia havia sido “armada” com declarações do escritor retiradas de entrevistas publicadas em épocas diversas. Santa ignorância….

Na segunda parte de seu trabalho, Gomide estuda as décadas de 1920 e 1930, quando era flagrante o impacto da revolução bolchevique. E mostra claramente que, ao contrário do que se supõe, a literatura russa nunca foi uma espécie de patrimônio da esquerda, pois intelectuais católicos, como Alceu de Amoroso Lima (1893-1983), Tasso da Silveira (1895-1968) e Jackson Figueiredo (1891-1928), já discutiam sua influência na literatura mundial, especialmente a partir de Dostoiévski, Máximo Górki (1868-1936) e Leon Tolstói.

A segunda parte do livro apresenta, além de um panorama do mercado editorial da década de 1930, textos que desconfiam abertamente das interpretações geradas no fim do século e tentam cercar os romancistas russos por outros ângulos. E contestam a ideia de que o niilismo de Dostoievski e de outros escritores russos teria preparado terreno para o avanço do comunismo e a vitória dos bolcheviques em 1917, apenas porque a literatura russa sempre esteve associada a questões sociais. Na conclusão, Gomide defende que é anacrônico reler os primeiros momentos da recepção da literatura russa no Brasil de acordo com os resultados posteriores à revolução de 1917.

Como o livro vai até 1936, fora da análise de Gomide fica o recente renascimento do interesse do leitor brasileiro pelo romance russo que, a rigor, deu-se depois do lançamento, em 2001, da primeira tradução de Crime e Castigo, de Dostoiévski, feita diretamente do russo por Paulo Bezerra, pela Editora 34, de São Paulo. Em seguida, saíram vários livros traduzidos diretamente do russo por Paulo Bezerra, Boris Schnaiderman, Fátima Bianchi, Lucas Simone e outros. Em 2011, saiu também Gente Pobre, de Dostoiévski, com tradução de Luíz Avelima, pela editora Letra Selvagem, de Taubaté-SP.

IV

Bruno Gomide (1972) é doutor em Letras pela Unicamp, com estágio de doutorado na Universidade da Califórnia, em Berkeley. Realizou cursos nas universidades de Illinois, Indiana, Cambridge e Linguística de Moscou. Foi pesquisador-visitante no Instituto Gorki de Literatura Mundial, em Moscou, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp). É o organizador do grupo de trabalho de Literatura Russa da Associação Brasileira de Literatura Comparada (Abralic).

Organizou a Nova Antologia do Conto Russo (1792-1998), lançada recentemente pela Editora 34, que reúne nomes conhecidos no Brasil como Pushkin, Gógol, Dostoiévski, Tchekhov, Tolstói, Pasternak, Bábel e Nabókov e outros menos conhecidos, como Odóievski, Grin, Chalámov, Kharms, Platónov e Sorókin, num total de 40. Tem publicado artigos em periódicos internacionais, como Tolstoy Studies Journal e Vopróssi Literaturi, e participado dos principais congressos de eslavística.

AS MIL ESSÊNCIAS DO AMOR

Maio 15, 2014

Por Francisco Miguel de Moura

Quantas essências há pra se aspirar
Depois da noite. Sinta sutilmente,
Pela glória e a graça de ser gente,
As belezas que o vento traz do mar.

Ponha o nariz adiante da janela,
Sinta a criança a rua atravessando,
Sinta mais, sinta a vida começando
Cheia de flores pelos passos dela.

São as aves cantando em cada vão,
São as flores que coram, são as palmas,
Fortalecendo as fibras onde estão

A saltarem pra vida como estrelas.
Veja as essências todas, tagarelas,
Como a enfeitarem nossas próprias almas.

Retorno à polis

Maio 14, 2014

por Renato Nalini

Retorno à polisA polis grega é considerada o modelo de convívio ideal. Número razoável de cidadãos igualmente providos de condições de influenciar a gestão do interesse comum. Nenhum excesso. Apenas o suficiente para uma vida civilizada.

Aos poucos, a cidade se tornou pequena para abrigar todos os desejosos de usufruir da convivência a facilitação do subsistir. Repartição de tarefas, especialização, reciprocidade, solidariedade e fraternidade. Sonhos utópicos, mas que alimentaram gerações.

Sobrevieram as Nações, cujo invólucro afetivo concebeu a Pátria. Família amplificada, conjunto de cidadãos unidos pela consciência do passado comum, de um presente amorável e de irrecusável desejo de permanecer em comunhão.

Só que a Nação já não poderia acolher todos os cidadãos para decidir, na ágora, os destinos da polis. Os destinos nacionais passaram a depender da representação. Se as pessoas nem sempre são talentosas para gerir a coisa pública, ao menos têm condições de escolher aqueles que por elas o façam.

O fenômeno representativo se mostrou falível. Já que o representante responde por um ente abstrato – a Nação – e não ao povo, nem sempre este é atendido em suas aspirações.

Isso explica, de certa forma, o fracasso da política. A descrença do povo no seu representante. A generalização contaminadora de todo político. O representado não se sente vinculado àquele que elegeu e colocou em condição de influenciar a vida nacional.

Indaga-se o eleitor: para que serve a União? Na verdade, moro na cidade. É aqui que desenvolvo minha vocação, aqui alimento minha família, aqui conheço meus vizinhos e meus conterrâneos. É o porto seguro onde ancoro a minha embarcação vital.

Será que não é hora de revigorar a polis? Por que o município, que tem as maiores responsabilidades e atende à plenitude dos anseios de seus moradores, não tem por si o reconhecimento de sua verdadeira importância? Por que a sangria tributária que o “impostômetro” da Associação Comercial bem retrata, não contempla esta célula federativa que é pouco respeitada por nosso Federalismo assimétrico?

É hora de prestigiar a cidade, de fortalecer o município, de torná-lo capaz de responder aos anseios dos munícipes, que não moram na União, nem no Estado. Moram em suas cidades e querem que elas sejam respeitadas.

Seminário: 100 Anos do Projeto Estoril

Maio 14, 2014

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SAUDADES TENHO; SIM; DO NOSSO ESCUDO

Maio 12, 2014

por Clariesse Barata Sanches


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Do Escudo tenho, sim, Saudades, visto

Saber, que o Euro compra só, então,

Um cafezinho ou dois, apenas, isto;

E para um chocolate não dá, não.

 

Quem me dera o Escudo em minha mão;

Rendia muito mais que aquele cisco

Do euro que foi nossa perdição

E nem dá pra comermos um petisco.

 

 

Com Duzentos e tal eu compraria

Comida boa, sim, e me daria

Para comer três dias à vontade…

 

Ai, euro, nossa ruína na carteira

Que não dá pra comprar nada na feira…

Mas, só pra ter do Escudo mais Saudade!

 


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