Arquivo de Julho 2014

A importância de ser polido

Julho 30, 2014

por Renato Nalini

O Estudando a “ficção jurídica” denominada Ética nas últimas décadas, pude constatar que uma das carências do convívio contemporâneo é a polidez. A indigência vernacular dos que não leem pode suscitar a indagação: “O que é polidez?”. Não custa, então, fornecer sinônimos: amabilidade, civilidade, cortesia, delicadeza, diplomacia, educação de berço, gentileza, lisura, urbanidade.

Um ser “polido” é a criatura afável, amável, atenciosa, ática, áurea, bem-criada, bem-educada, cerimoniosa, correta, cortês, distinto, galante, luzidio, urbano.

Dá para entender por que falta polidez na convivência? O que mais se vê é a grosseria, a indelicadeza, a falta de modos. Mesmo pessoas escolarizadas – nada a ver com polidez o fato de ostentar diplomas – não cumprimentam, não se levantam diante de mulher ou de pessoa mais velha. Ignoram a presença do próximo.

Daí para a rispidez, para a irritação, para a impaciência em grau crescente, até a violência, é um caminho inevitável. Refletir sobre isto é fundamental para um Brasil cada vez mais pródigo em ostentar níveis preocupantes de violência. Aquela escancarada, a resultar em número absurdo de mortes – somos o 5º país em perdas vitais resultantes da violência – e aquela disfarçada na insensibilidade, na frialdade do trato, na indiferença que não deixa de ser uma espécie de crueldade.

O mundo inteiro se apercebeu de que algo há de ser feito para reverter a tendência egoística. Foi assim que aplaudiu Tony Blair que, em 2003, declarou guerra à incivilidade. Após sua terceira vitória nas eleições legislativas, insistiu na urgência de restabelecer a “cultura do respeito”.

Para nós, militantes da arena jurídica, o respeito não é senão reflexo do princípio norteador da dignidade humana. Ver o outro – qualquer outro – como finalidade intrínseca, não como meio, é imperativo categórico kantiano. Mas não precisamos de sofisticação alguma, nem de singular erudição para sermos polidos. “Sem a polidez”, dizia o ensaísta Alphonse Karr, “não nos reuniríamos senão para combater. É preciso, portanto, ou viver só, ou ser polido”.

É o que pais e mães – ou os que exercerem seu papel – têm obrigação de lembrar a seus filhos.

Domingo no Clube: 5º aniversário do programa “Solo Tango” – Rádio Trianon AM

Julho 30, 2014

Solo-Tango convite 3 de agosto

SALAZAR

Julho 23, 2014

Por Fernando Pessoa

António de Oliveira Salazar.
Três nomes em sequência regular…
António é António.
Oliveira é uma árvore.
Salazar é só apelido.
Até aí está bem.
O que não faz sentido
É o sentido que tudo isto tem.
……
Este senhor Salazar
É feito de sal e azar.
Se um dia chove,
A água dissolve
O sal,
E sob o céu
Pica só azar, é natural.
Oh, c’os diabos!
Parece que já choveu…
……
Coitadinho
do tiraninho!
Não bebe vinho.
Nem sequer sozinho…
Bebe a verdade
E a liberdade.
E com tal agrado
Que já começam
A escassear no mercado.
Coitadinho
Do tiraninho!
O meu vizinho
Está na Guiné
E o meu padrinho
No Limoeiro
Aqui ao pé.
Mas ninguém sabe porquê.
Mas enfim é
Certo e certeiro
Que isto consola
E nos dá fé.
Que o coitadinho
Do tiraninho
Não bebe vinho,
Nem até
Café.

10 de Junho – Dia de Portugal, Camões e das Comunidades Portuguesas

Julho 10, 2014

trecho_santa_cruz_camoes

Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Dia_de_Portugal

TERAPIA INTENSIVA

Julho 8, 2014

 por Dalila Teles Veras

A ceifeira ronda
à volta das máquinas
ao redor dos tubos
no ar infectado de dor
 sombra indesejável

A ciência brinca
experimenta, põe e tira
mórbido esconde-esconde
fingida presença de Deus

Um corpo respira
(a máquina opera o milagre)
um corpo não mais senhor
do gesto, do gosto, do querer
corpo, cobaia, objeto
à mercê do progresso

A ceifeira espera
e sabe da hora
A ciência não

Domitila – D. Pedro deu a Domitila o título de Marquesa de Santos

Julho 7, 2014

Por Raquel Naveira

Partindo do Páteo do Colégio dos jesuítas, desço a antiga rua do Carmo, onde se localiza o rosado solar da Marquesa de Santos.

O piso assoalhado range um pouco sob meus pés. Em cada cômodo, pinturas, pedaços expostos da parede de taipa de pilão e pau-a-pique. Alguns canapés, o piano, a penteadeira e a pequenina cama da Marquesa, de madeira entalhada e florões, desnuda e sem dossel.

A um canto, o quadro retratando Domitila, essa personagem fascinante. O vestido é de seda cor de pérola, com uma faixa trespassada, um broche em forma de medalhão perto do decote. Os cabelos dispostos em cachos negros de cada lado do rosto um pouco duro, de olhos escuros e enviesados. Quais os segredos dessa mulher? Que mistério há nesse sorriso de lábios finos? Que gestos teriam esboçado essas mãos agora pousadas sobre o colo de marfim?

Uma mulher que viveu setenta anos. Uma trajetória de amores, viagens e peripécias. Vários ciclos numa só existência. Casou-se a primeira vez com um oficial do Corpo dos Dragões, o alferes Felício, homem violento, que a espancava. Com ele teve três filhos: Francisca, Felício e João, morto com poucos meses. A separação do casal foi trágica, depois dele a ter esfaqueado numa crise de ciúmes.

Alguns dias antes da proclamação da independência do Brasil, Domitila é apresentada a D. Pedro I. Apaixonam-se, tornam-se amantes, trocam cartas ardentes. Titila e Demonão, assim se chamavam na intimidade.

Fogoso, impulsivo, sensual, D. Pedro teve outros casos paralelos, mas Domitila foi a concubina mais importante, aquela que ele levou para uma mansão perto da Quinta da Boa Vista. Domitila torna-se dama camarista da sofrida imperatriz D. Leopoldina, que, sabendo de seu papel num casamento dinástico, jamais perdeu a compostura diante das infidelidades do marido, granjeando a admiração e o espanto do povo.

D. Pedro deu a Domitila o título de Marquesa de Santos, afrontando os irmãos Andradas, nascidos em Santos.

O imperador e a marquesa tiveram cinco filhos: um menino natimorto, Isabel Maria, Pedro, Maria Isabel e Maria Isabel II. Sobreviveram Isabel Maria e Maria Isabel II.

Intrigas, perseguições, demissões, prestígio abalado, tráfico de influências. O clima era negro, após a morte de D. Leopoldina. D. Pedro contrata segundas núpcias com a princesa Amélia, noiva de sangue nobre. Domitila é banida da Corte, voltando para São Paulo.

Nessa fase, conhece o brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar. Casa-se com ele e tem seis filhos: Rafael Tobias, João Tobias, Antônio Francisco, Brasílico, Gertrudes e Heitor. Torna-se o centro da sociedade paulistana. O Palacete do Carmo é palco de bailes de máscaras, saraus literários, reuniões sobre ensino, artes e política.

Com a maturidade, Domitila revela-se uma dama devota, caridosa, protegendo os miseráveis, famintos e doentes.

De repente, eu a vi, velha, sentada no soalho de tábua, rindo, enquanto preparava escondido um cigarro de palha. Foi só uma imagem, uma presença, logo fixei novamente o olhar enviesado do retrato.

O que admiro nessa mulher? A resiliência, essa capacidade de lidar com problemas, de superar obstáculos, de resistir às pressões, sem entrar em surto, sempre com esse olhar duro que a todos encara. Maravilhosa a sua vontade de vencer, de jogar, de acreditar que tudo podia mudar para melhor, de investir na esperança, de alcançar e seduzir pessoas. Domitila procurou sempre soluções.

Lembrei  de uma canção de Edith Piaf, “Non, je ne regrette rien”, que diz assim: “Não, não lamento nada, nem o bem que me fizeram, nem o mal, tudo para mim é igual.// Não, nada de nada, não lamento nada, porque minha vida, minhas alegrias, hoje tudo isso começa com você.”

Domitila me olha do retrato com ar desafiante. Como ela, não sinto mais receio, nem medo do fracasso. Há beleza em recomeçar do zero.

Aniversário de 94 anos do Clube Português

Julho 7, 2014

convite Clube Portugues


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