Arquivo de Fevereiro 2009

A Fonte e a Reflexão

Fevereiro 15, 2009

Crônica

 

A Fonte e a Reflexão

(Uma Espiga Vaidosa)

Teodoro A. Mendes (Tamen)

 

Sobre o mar verde do trigal, destacava-se a promessa solitária de uma espiga. (…)

Em certa manhã de Maio, o sol beijando-a na fronte, prometeu-lhe: – “Tu serás a espiga dos grandes destinos!”

Desde aquele instante a espiga cresceu, afagando a sua altíssima vocação. Por sobre a ondulação verde do trigal soprou demoradamente o vento abrasador de Julho. Baforadas de fogo doiraram as messes.

E noutra manhã apareceram uns homens armados de brilhantes foices recurvas. Na aldeia tinha soado a hora da ceifa. A espiga, ao ver como as suas outras irmãs se dobravam ao golpe da foice, exclamou, jactanciosa:

 – “A mim não me cortarão. Eu sou a espiga dos grandes destinos.”

Momentos após sentia na sua carne a mordedura do aço. E caiu de bruços sobre o sol ardente

 

Lopez Arroniz

In, Momentos

 

 

O autor coloca-nos diante de uma espiga, que pela descrição, sobrepunha o seu porte altivo bem acima das outras, o que lhe merecera um galanteio enamorado do sol que a fazia crescer, mas numa vaidade tal, que ela muito ciosa do que ouvira passou a julgar-se superior às outras companheiras do trigal, a ponto de não aceitar de modo nenhum a hora da ceifa.

Assim não aconteceu.

A reflexão que esta espiga vaidosa sugere na linha do que nos diz Lopez Arroniz, que conduz o leitor por reflexões teologais que não cabem neste apontamento, embora nos tenham moldado o reflexão, é que num certo dia, após o mangual ter desfeito a espiga sobre as lajes da eira e a mó a ter feito em farinha, sentiu uma grande alegria ao sentir-se transformada em pão.

A vaidade transformara-se em humildade e cumpria, afinal, a missão para que fora criada no trigal do lavrador. Quantos de nós, fomos ou ainda somos, como aquela espiga vaidosa, crescendo em bicos de pés, cheios de uma importância falsa?

A este propósito merece ler ou reler o Pricipezinho, de Saint-Exupéry, quando ele nos fala do quarto planeta , propriedade de um homem de negócios, que a si mesmo, para garantir, supostamente, a sua importância passava os dias ocupado em coisas menores, como contar: três e dois cinco. Cinco e sete doze… até concluir por quinhentos e um milhões, seicentos e vinte e dois mil, setecentos e trinta e um.

Interrogado pelo Principezinho sobre o que representava aquele número imenso, respondeu que era uma soma de estrelas.

– E o que fazes com quinhentos milhões de estrelas?- perguntou-lhe, este.

– O que faço? – Nada. Possuo-as.

O Principezinho após uma delonga em que ouviu outros argumentos do homem importante, disse-lhe:

– Quanto a mim, continuou ele, possuo uma flor que rego todos os dias. (…)

E rematou, afirmando, que era útil à sua flor. Quanto a ele não era útil às estrelas.

Aquele homem tinha de si mesmo uma importância falsa

A espiga vaidosa, correu o risco de se igual àquele homem de negócios. Era rica de muitos e fartos grãos que quis esconder avaramente, por cima das outras: –  A mim não me cortarão. Eu sou a espiga dos grandes destinos.

E afinal, não era.

O seu destino era outro e muito mais alto.

Por fim, devemos concluir que há imensos homens de negócios por aí, que gastam os seus dias contando e recontando estrelas, sem tempo para pensar se o que fazem é útil a alguém, deixando-se enredar no dia a dia e  tomando como essenciais, gestos inúteis que consomem tempo e paciência, num turbilhão de somas, às vezes de resultados nulos de que ninguém se serve, a começar por eles mesmos.

Como isto não conduz o homem a qualquer parcela de felicidade própria nem colectiva, é preciso rever a importância que damos a nós mesmos, e abaixada a vaidade de sermos espigas de grandes destinos, tenhamos a humildade de sermos fraternos, fazendo da espiga humana que somos pão para os outros.

 

Teodoro A. Mendes (Tamen)

Livros e Autores IV

Fevereiro 15, 2009

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa dito por Sinde Filipe e Música de Laurent Filipe
Pedidos a DinaLivro: info@dinalivro.pt

Livros e Autores III

Fevereiro 15, 2009

Dicionário dos Autores da Beira-Serra

Dicionário dos Autores da Beira-Serra

Autor: João Alves das Neves

 

E25

Pedidos ao Autor: jneves@fesesp.org.br

O centenário de Manuel de Oliveira – Parte II

Fevereiro 15, 2009

Yahoo

fonte: Yahoo

 

 

 

1931 – DOURO FAINA FLUVIAL

O primeiro filme é uma curta-metragem documental sobre o Porto e a sua relação com o Rio Douro. Originalmente, o filme é mudo. Mais tarde foi acrescentada uma banda sonora de Luís de Freitas Branco. E, em 1995, o próprio Oliveira montou uma nova versão com música de Emmanuel Nunes.

 

1932 – HULHA BRANCA

Curta-metragem de apenas oito minutos sobre a Central Hidroelétrica do Ermal. Foi assinada com os seus nomes do meio, Cândido Pinto.

 

1932 – ESTÁTUAS DE LISBOA

Documentário desaparecido.

 

1937 – OS ÚLTIMOS TEMPORAIS

Com apenas quatro minutos, documenta as cheias do Rio Tejo.

 

1938 – MIRAMAR, PRAIA DAS ROSAS

Documentário desaparecido.

 

1938 – PORTUGAL JÁ FAZ AUTOMÓVEIS / JÁ SE FABRICAM AUTOMÓVEIS    EM PORTUGAL

Documentário sobre a transformação de três automóveis Ford, em modelos de corrida Edford. O próprio Oliveira conduziu um desses carros. 

 

1941 – FAMALICÃO

Documentário sobre Vila Nova de Famalicão que inclui imagens da casa de Camilo Castelo Branco, em Ceide.

 

 

1942 – ANIKI-BOBÓ

Baseado no conto Meninos Milionários, de Rodrigo de Freitas, a primeira longa-metragem de ficção do realizador é uma história da infância passada na zona Ribeirinha do Porto. Porventura, é o mais consagrado filme português que tem a mais valia de documentar o Porto daquela época.

 

1956 – O PINTOR E A CIDADE

O primeiro filme a cores de Oliveira, 14 anos depois de Aniki-Bobó, é um documentário sobre a cidade do Porto. É também a primeira vez que usa planos longos.

 

1958 – O CORAÇÃO

Filme inacabado sobre uma cirurgia cardíaca do médico Manuel Gomes de Almeida.

 

1959 – O PÃO

Média-metragem documental encomendada pela Federação Nacional dos Industriais de Moagens que conheceu duas versões.

 

1962 – ACTO DA PRIMAVERA

A sua segunda longa-metragem é uma docuficção a partir do Auto da Paixão, de Francisco Vaz de Guimarães. Faz um retrato da representação da Paixão de Cristo numa aldeia de Trás-os-Montes.

 

1963 – A CAÇA

Curta passada na Ria de Aveiro, com referências a Luiz Buñuel. A censura obrigou a um corte no final, por considerar demasiado pessimista. Em 1998, Manuel de Oliveira “repôs” a versão original.

 

1964 – VILA AVERDINHO, UMA ALDEIA TRANSMONTANA

Documentário encomendado pela Sociedade Clemente Meneres.

 

 

 

1965 – AS PINTURAS DO MEU IRMÃO JÚLIO

Documentário com textos de José Régio sobre o seu irmão, o pintor Júlio, como poeta Saúl Dias.

 

1965 – 2008 – A VIDA E A MORTE, Romance de Vila do Conde

Segundo a idéia original, José Régio recitava o seu Romance de Vila do Conde (incluído no livro Fado). Mas Oliveira deixou o filme inacabado. Em 2008, com ajuda de Luís Miguel Cintra, conclui-o.

 

1965 – 2008 – O POETA DOIDO, O VITRAL E A SANTA MORTA

Tal como o filme anterior, só foi concluído em 2008, com a ajuda de Luís Miguel Cintra.

 

1972 – O PASSADO E O PRESENTE

O regresso às longas-metragens, oito anos depois de Acto da Primavera. A adaptação de uma peça de Vicente Sanches. Um filme surpreendente com um forte traço de humor negro.

 

1974 – BENILDE OU A VIRGEM MÃE

Adaptação de uma peça de José Régio, marcou a consagração internacional do realizador. É a sua primeira obra com música original de João Paes e conta com Maria Barroso num papel secundário.

 

1979- AMOR DE PERDIÇÃO

Respeita quase na íntegra o texto do romance de Camilo Castelo Branco. Começou por ser uma série televisiva, em seis episódios, e acabou por conhecer uma versão cinematográfica, de 261 minutos. É a primeira obra a ser produzida por Paulo Branco.

 

1981 – FRANCISCA

Primeira adaptação de Agustina Bessa-Luís, que viria a ser a sua escritora de eleição. O filme parte do romance Fanny Owen e é considerado um dos expoentes máximos da sua cinematografia. Marca também a primeira participação de Diogo Dória.

 

1982 – VISITA – MEMÓRIAS E CONFISSÕES

Documentário autobiográfico, de que o próprio Oliveira é narrador, que só será exibido depois da sua morte.

 

1983 –  LISBOA CULTURAL

Documentário televisivo encomendado pela RTP com algumas das mais ilustres figuras da cultura portuguesa, como Amália Rodrigues e Eduardo Lourenço.

 

1983 – NICE – A PROPOS DE JEAN VIGO

Documentário sobre Nice que tem como ponto de partida o filme A Propos de Nice, de Jean Vigo, realizado em 1930.

 

1985 – LE SOULIER DE SATIN (O SAPATO DE CETIM)

O maior filme de Oliveira tem uma versão longa de 415 minutos e uma versão televisiva, em quatro episódios, de 360. Parte da obra homônima de Paul Claudel e é, quase na sua totalidade, falado em francês. A ação decorre em Espanha durante a dinastia Filipina.

 

1985 – SIMPÓSIO INTERNACIONAL DE ESCULTURA EM PEDRA – Porto

Realizado a meias com o seu filho, Manuel Casimiro, documenta a preparação de trabalhos de escultura para uma exposição no Palácio de Cristal.

 

1986 –  MON CAS (O MEU CASO)

Nova adaptação de uma peça de José Régio, com uma declarada ligação ao universo do teatro. Inclui também citações do Livro de Job e de Samuel Beckett.

 

1987 – A PROPÓSITO DA BANDEIRA NACIONAL

Documentário sobre a pintura do seu filho, Manuel Casimiro.

 

1988 – OS CANIBAIS

Porventura a única ópera cinematográfica da história. O libreto foi escrito por João Paes a partir do conto de Álvaro de Carvalhal. Todas as personagens cantam. As vozes dos atores são dobradas por profissionais.

 

1990 – NON, OU A VÃ GLÓRIA DE MANDAR

Uma leitura muito pessoal da História de Portugal vista em flashback a partir da Guerra Colonial em África. A chave para o desígnio de um povo está nas derrotas e não nas vitórias. Na altura, foi o filme mais caro alguma vez já feito no nosso país.

 

1991 – A DIVINA COMÉDIA

Não se trata de uma adaptação de Dante. Num asilo psiquiátrico, os pacientes encarnam personagens mitológicas e entram em grandes discussões filosóficas com o auxílio de textos da bíblia, Nietzsche e José Régio. Interpretações de grande nível de Mário Viegas, Luís Miguel Cintra, Maria de Medeiros, Leonor Silveira e Diogo Dória. E a participação especial da pianista Maria João Pires.

 

1992 – O DIA DO DESESPERO

Depois de Amor de Perdição, Oliveira regressa a Camilo para retratar os últimos meses da sua vida, sobretudo baseado em cartas do escritor.

 

1993 – VALE ABRAÃO

Baseado no romance de Agustina, é uma espécie de versão moderna de Madame Bovary, passada nas margens do Douro, com esplendor fotográfico (o diretor de fotografia foi Mário Barroso). O filme sofreu um corte para poder ser estreado no Festival de Cannes.

 

1994 – A CAIXA

Registro aproximado da comédia que se situa numas escadas da mouraria, centrado em Luís Miguel Cintra, que faz o papel de cego.

 

1995 – O CONVENTO

Novamente a partir de Agustina, no caso o romance As Terras do Risco, conta com um elenco internacional que inclui Catherine Deneuve e John Malkovich.

 

 

 

1996 – PARTY

Desta vez Agustina escreveu os próprios diálogos numa história passada nos Açores, com interpretações, entre outros, de Michel Piccolli e Irene Papas.

 

1996 – EN UNE POIGNÉE DE MAINS AMIES

O encontro no Porto de dois velhos amigos, realizado em conjunto por Jean Rouch e Oliveira.

 

1997 – VIAGEM AO PRINCÍPIO DO MUNDO

Na última aparição de Marcello Mastroianni, o ator é um alter-ego de Oliveira, num filme marcadamente autobiográfico. Ganhou o Prêmio da Crítica do Festival de Cannes.

 

1998 – INQUIETUDE

Cruza três histórias a partir de obras literárias distintas: Os Imortais, de Prista Monteiro; Suzy, de António Patrício, e Mãe de um Rio, de Agustina. Estréia do neto Ricardo Trêpa e da neta de Agustina, Leonor Baldaque.

 

1999 – LA LETTRE (A CARTA)

Adaptação de La Princesse de Clèves, de Madame La Fayette, com a participação de Pedro Abrunhosa, que fez também a música para o filme. A obra, falada em francês, conta ainda com Chiara Mastroianni e Maria João Pires.

 

2000 – PALAVRA E UTOPIA

Retrato biográfico do Padre António Vieira a partir das suas cartas e outros textos.

 

2001 – JE RENTRE À LA MAISON (EU VOU PARA CASA)

Reflexão sobre o cinema, o teatro e a vida, a partir da relação avô-neto, com Michel Piccolli no principal papel. O filme é falado em francês.

 

2001 – PORTO DA MINHA INFÂNCIA

Viagem autobiográfica à infância do realizador com o seu neto, Ricardo Trêpa, a fazer de Manoel de Oliveira.

 

2002 – MOMENTO

O único teledisco que Oliveira realizou é uma forma de agradecer a participação de Pedro Abrunhosa no filme A Carta.

 

2002 – O PRINCÍPIO DA INCERTEZA

Regresso a Agustina, desta vez a partir do livro Jóia de Família. É o primeiro da sua trilogia intitulada, justamente, O Princípio da Incerteza.

 

2003 – UM FILME FALADO

Mãe e filha fazem um cruzeiro pelo Mediterrâneo, durante o qual vão recordando a história dos povos do Sul. Leonor Silveira e John Malkovich nos principais papéis.

 

2004 – O QUINTO IMPÉRIO – ONTEM COMO HOJE

Dom Sebastião, o homem e o mito, revisitado através de uma peça de José Régio. Ricardo Trêpa no papel do monarca.

 

2005 – DO VISÍVEL AO INVISÍVEL

Segmento de um projeto de longa-metragem, intitulado Os Invisíveis, que fala sobre a incomunicabilidade e passa-se na Avenida Paulista, em São Paulo.

 

2005 – ESPELHO MÁGICO

Segunda parte da trilogia O Princípio da Incerteza, a partir de Agustina. Reencontram-se as mesmas personagens do filme de 2002.

 

2006 – BELLE TOUJOURS

Homenagem à Belle de Jour, de Luís Buñuel. As mesmas personagens encontram-se 39 anos depois, sendo que Michel Piccolli volta a representar o papel de Henri. O filme foi aclamado no Festival de Veneza.

 

2006 – O IMPROVÁVEL NÃO É IMPOSSÍVEL

Documentário sobre Calouste Gulbenkian, encomendado pela Fundação para assinalar 50 anos de existência.

 

2007 –  REENCONTRE UNIQUE

A convite do Festival de Cannes, Oliveira roda esta curta em que imagina um encontro entre o papa João XXIII e o presidente soviético Nikita Krutshev.

 

2007 – CRISTÓVÃO COLOMBO – O ENIGMA

Um médico e uma professora universitária defendem a tese de que Cristóvão Colombo é português e procuram provas no Alentejo. Com este mote, Oliveira fala dos Descobrimentos.

 

2009 – SINGULARIDADES DE UMA RAPARIGA LOIRA

O seu próximo filme, que está atualmente a rodar em Lisboa, é uma adaptação de um conto de Eça de Queirós. Deverá estrear no Festival de Berlim.

 

2009 – O ESTRANHO CASO DE ANGÉLICA

Projeto dos anos 50, recusado pelo SNI, que o realizador agora recuperou e espera poder realizar e mostrar no Festival de Cannes.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Livros e Autores II

Fevereiro 15, 2009

Astronomia na Amazônia

 

 

Astronomia na Amazônia no século XVIII (tratado de Madri)

Os astrônomos Szentmártonyi e Brunelli

Instrumentos Astronômicos e Livros científicos

Autor: Carlos Francisco Moura


R$ 35,00 | U$ 30  |  €21
Pedidos ao Autor:
astronomiasetecen.amazonia@yahoo.com.br

IV Centenário do Pe. Vieira em Lisboa

Fevereiro 11, 2009
O congresso do IV centenário do Padre Antonio Vieira em Lisboa.

Padre Antonio Vieira

Padre Antonio Vieira


 

Professores universitários, escritores e outros especialistas reuniram-se na capital portuguesa para analisar e discutir a vida e obra do maior estilista das Letras Portuguesas, de 18 a 21 de Novembro na Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa.

 

Além de inúmeros estudiosos do nosso País, estiveram presentes representantes do Brasil, Itália, Espanha, França, Alemanha e Estados Unidos, a maioria professores universitários que vieram testemunhar o interesse que o grande prosador continua a despertar no mundo intelectual. De São Paulo foi o escrito João Alves das Neves.

 

Indiscutivelmente, António Vieira, é um escritor cujos, Sermões e cartas continuam a despertar curiosidade cultural que só pode ser comparada a Luís de Camões, no tempo da Renascença, ou a Fernando Pessoa, no século XX. E os congressistas Vieirinos exemplificaram que o Padre Vieira, paralelamente à sua interpretação da Bíblia e da importância da Igreja Católica, foi e é um dos mais altos cultores da espiritualidade que Portugal ofereceu nos cinco continentes, assim se explicando o conceito científico que o colocou na vanguarda das mais significativas realizações universais com as navegações, desde o século XIV ao XVIII.

 

Nas diferentes secções do conclave ficou perfeitamente documentado o alcance da obra de Vieira na Universidade e na Literatura mas alguns aspectos dessa ação merecem realce, desde a missionação nos sertões e centros urbanos do Brasil até às cidades de Portugal e em Roma, assim como às diligências que cumpriu na França, Holanda e Espanha. E a repercussão que tiveram os seus comentários em torno da Bíblia, por exemplo, revelaram que ele estava intelectualmente na dianteira dos seus interlocutores, conforme ainda hoje se reconhece. Por isso é que o último Congresso Internacional demonstram que a obra de António Vieira terá sempre uma posição importantíssima na Cultura Portuguesa de ontem e hoje.

 

Outras observações poderiam ser assinaladas nos estudos apresentados na reunião de Novembro, em Lisboa, mas devemos anotar o inesperado episódio que envolveu o Padre Vieira e o Bispo D. Mathias de Figueiredo e Melo, que foi interinamente Governador da Província de Pernambuco: o Prelado (que nasceu em Arganil no dia 14 de Fevereiro de 16551 e morreu na cidade brasileira de Olinda em 17 de julho de 1694), teve vida breve, mas distinguiu-se pela missão religiosa – que desenvolveu como Bispo, assim como pela assistência social que prestou ao Povo, auxiliando os mais pobres na luta contra a fome, que assolou o território pernambucano durante um dificílimo período de seca. E, simultaneamente, foi um criterioso e firme administrador do governo provincial, zelando pelo respeito à lei, apesar dos poderosos, e esse foi o motivo que levou o Padre Vieira (então Visitador da Companhia de Jesus no Brasil) a pedir clemência ao Bispo-Governador em favor de dois padres que abrigaram um fidalgote criminoso.

 

Não obstante a contrariedade do extraordinário pregador, o Padre Vieira não hesitou recomendar o Bispo D. Mathias para o cargo de Arcebispo do Brasil, quando o mais alto posto religioso ficou vago. Não teve êxito na recomendação, mas a diligência, bem como a carta vieirina de 12 de Abril de 1689, ilustram a consideração que Vieira consagrou ao Prelado olindense natural de Arganil. E deduz-se da referida missiva que outras cartas podem ter sido endereçadas por Vieira ao Bispo de Olinda e Recife – uma das glórias da Igreja de Roma e de Portugal.

O Brasil já escreve com nova ortografia

Fevereiro 11, 2009

Língua Portuguesa

 

O BRASIL JÁ ESCREVE COM A NOVA ORTOGRAFIA

 

Desde o dia 1 de Janeiro de 2009, os jornais e revistas mais importantes do Brasil (O Estado de S. Paulo, O Globo e Folha de S.Paulo, entre outros, assim como a revista Veja e todas as publicações da Editora Abril adoptaram a nova ortografia, enquanto o Diário Oficial (do Estado Federal) e o Diário Oficial (do governo estadual de São Paulo, que tem a característica de ser o maior jornal do Mundo, pois uma das suas edições já alcançou a cifra recordista de 800 páginas!) anunciaram o propósito de seguir as duas formas, eliminando gradualmente a antiga. O Diário Oficial paulista apresenta já o seu noticiário com o vocabulário aprovado,mas os editais, portarias e resoluções governamentais devem manter as normas recém-aprovadas – o mais tardar até ao fim de Dezembro de 2012.

 

De um modo geral, a Imprensa acolheu as mudanças ortográficas sem críticas,

enquanto os leitores confessam que vão enfrentar dificuldades que só com tempo hão-de ser vencidas e perguntam: quando é que se usam – ou não – o hífen, os acentos agudo, grave e circunflexo? E quando é obrigatório o recurso – ou não – do h? E os casos dos rr duplos ou separados ou com hífen? E o trema foi definitivamente eliminado? E as letras k. w.y. que voltaram ao alfabeto, depois de terem desaparecido por largos decénios? E aquelas palavras que os portugueses abriam com os acentos tônicos e os brasileiros fechavam com o circunflexo? E a pronúncia que diverge entre o Brasil, Portugal e os outros 6 países de língua oficial comum?

Dúvidas é que não faltam, mas os especialistas que apóiam (os brasileiros

escreviam com o acento “ó”) as regras oficializadas garantem que o sistema afeta somente 0,4% do velho alfabeto que costumavam seguir) , isto é,as alterações são tão poucas que muito em breve serão absorvidas pelas populações dos 8 países de idioma camoniano – a palavra correcta que certas vezes era grafada com “i” ou com “e”… cada um tinha a opção pessoal. E vai continuar a mantê-la , mas dizem o defensores “modernistas” que no ensino devem ser cumpridas as regras, pelo menos até 2012!

 

Tomando as determinações a sério há quem se divirta e chame a atenção para a evolução lingüística (e não se diga que os outros idiomas nunca mudaram!). Porém, o que interessa é o nosso evoluir, de acordo com o oportuno texto redigido no dia 1 de Maio de 1500 por Pero Vaz de Caminha, cuja bela prosa foi sempre elogiada por todos os gramáticos daquém e dalém-mar (e não só!):

 

“neeste dia a oras de bespera ouuvemos vista de terra,s, primeiramente d huu

gramde monte muy alto e rredondo e doutras serras mais baixas ao sul dele

e de terra chã com grandes aruoredos, ao qual monte alto o capitam pos nome o ascoal e aa tera a terá da Vera cruz” (…)

Aí se redescobre o português quinhentista da época de “Pedralvares Cabral” e se repete, agora, o português redigido por brasileiros (e o de portugueses será diferente?):

 

 

“Neste dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra! Primeiramente dum

grande monte, mui alto e redondo; e doutras serras mais baixas ao sul dele; e de erra ch, com grandes arvoredos; ao monte alto o capitão pôs nome, o Monte Pascoal e à terra, a Terra de Vera Cruz” (…)

Ninguém poderá negar que as palavras evoluíram, embora os homens tenham mudado muito mais!

 

O Prof. Godofredo de Oliveira Neto, Presidente da Comissão de Língua Portuguesa do Ministério da Educação (Brasília) e do Instituto Internacional de Língua Portuguesa (Rio de Janeiro), declarou há dias: “A reforma já está valendo. É compreensível que as editoras demorem um pouco mais”. Entretanto, a Academia Brasileira de Letras acaba de anunciar que deve ser apresentado em Fevereiro de 2009 o Vocabulário da Língua Portuguesa, que destacará com certeza as palavras que devem ser grafadas com a nova ortografia. E então os do “contra” não deixarão de observar que o vocabulário “di cá” não será igual ao “di lá”, esquecidos de que o Vocabulário da Academia das Ciências de Lisboa não era exactamente igual antes da reforma que entrou em vigor.

 

Houve várias mudanças ortográficas e até lingüísticas e assinala-se que a de 1911 foi decidida por Lisboa, sem consulta ao Rio de Janeiro, falta que Fernando

Pessoa condenou e que provocou outras discordâncias em Portugal, mas tudo ficou como dantes porque os brasileiros não aceitaram as imposições dos acadêmicos lisboetas. Contudo, relembram-se agora os acordos entre Portugal e Brasil, assinados em 1931 (a pretendida unificação ortográfica não se fez), em 1943 (com um “Formulário Ortográfico”, que não vingou) e em 1971 o Brasil sugeriu alterações, incluindo a supressão de acentos.

 

Em relação ao último acordo para a nova ortografia, as reuniões principiaram, em Maio de 1986, no Rio de Janeiro, e admitiu-se um “projecto de reforma”. As reuniões prosseguiram em Lisboa (Outubro e Dezembro de 1990), Brasília (Abril de 1995 e Julho/Agosto de 2002), São Tomé (Julho de 2004), prevendo-se a entrada emvigor de um acordo (em Janeiro de 2007), já subscrito pelo Brasil (2004), Cabo Verde (2005) e São Tomé (2996).O Presidente Cavaco Silva sancionou-o em Julho de 2008 e o Presidente Lula da Silva em Setembro do ano passado. Finalmente, o acordo começou a vigorar no Brasil no dia 1 de Janeiro de 2009! Para valer? Espera-se que sim!

Os Portugueses e a Emigração

Fevereiro 11, 2009

Diáspora

OS PORTUGUESES E A EMIGRAÇÃO

A. Gomes da Costa*

 

Dos países do Mediterrâneo, Portugal foi sempre o que mais dependeu da emigração. Outros, como a Itália e a Espanha, que durante o século XIX e a primeira metade do século XX tinham sido grandes exportadores de mão de obra, começaram a reduzir a saída de trabalhadores logo depois do término da II Grande Guerra. Mas em Portugal o fenômeno não ocorreu tão depressa por várias causas, desde a falta de trabalho às guerras coloniais, ou desde a estagnação econômica à política de aperto do Estado Novo. Somente com a Revolução de 25 de abril de 1974 e, principalmente, com a entrada do país na Comunidade Econômica Européia, que lhe permitiu o acesso aos fundos estruturais de Bruxelas, é que se deu uma profunda reforma na sociedade portuguesa e a emigração chegou ao fim.

Quer no tempo da Monarquia, quer durante a República, os governos nunca tiveram em relação aos portugueses espalhados pelo mundo uma posição que não fosse a de se aproveitarem, por um lado, de parte das riquezas que conseguiam obter lá fora, e, por outro, do prestígio que, por portas travessas ou pelas chancelarias, poderiam trazer para a grei.

Primeiro, foi o Brasil a receber os jovens e “engajados” das províncias mais pobres sob o impulso do imaginário de sucessivas gerações – era das terras de Vera Cruz que vinham as libras esterlinas para comprar títulos da dívida pública e as quintas no alto Minho e era para lá que seguiam, pela via marítima, os produtos importados pelas casas comerciais do Rio de Janeiro, de Santos, do Recife ou de Belém do Pará. Em troca, o Rei distribuía títulos e mercês como prova de reconhecimento aos que participavam das campanhas para socorrer as vítimas dos terremotos dos Açores, para a aquisição da canhoneira “Pátria” ou para a luta contra a tuberculose no país.

Depois do Brasil, vieram os Estados Unidos, o Canadá, a Venezuela, a Argentina, a África do Sul, a Austrália, etc. como destinos finais da emigração portuguesa, e, mais tarde, numa dimensão muito maior, os países do norte da Europa, onde se chegava tanto pela via legal, como “a salto” pela fronteira da Espanha.

Eram entre 3 a 4 milhões de portugueses a viver e a trabalhar no exterior e a sua contribuição, em termos de remessas cambiais, chegou a representar quase o mesmo montante das receitas da exportação do país.

Sem embargo desse papel importante que a diáspora tinha – e não era apenas no âmbito do balanço de pagamentos, mas também em outros quadrantes – os governos, a não ser nos discursos e nas celebrações das datas cívicas, altura em que mandavam emissários em visita às diversas comunidades, pouco se importavam com a situação e a sorte dos emigrantes.

No início da década de 80, no entanto, para seguir o exemplo de outros países europeus, foram atendidas algumas aspirações da chamada “nação peregrina”, quer no campo político – como o direito do voto e a representação parlamentar – quer na área administrativa – como os incentivos fiscais, a taxa de juros para depósitos a prazo, as facilidades para a compra de moradia – quer no quadrante constitucional e jurídico – como o estatuto da bi-nacionalidade concedido aos filhos nascidos em terra alheia, a dupla cidadania, etc.

Para um país que tinha para cima de um terço de sua população a viver no estrangeiro, essas mudanças poderiam ter sido aproveitadas de forma eficaz para o funcionamento de circuitos econômicos, culturais, sociais, artísticos e científicos entre a Mãe-Pátria e os países de destino.

Na prática, entretanto, o que se verificou é que muitas dessas conquistas acabaram por se desfazer e, outras, somente foram utilizadas pelos partidos políticos para barganharem votos e ajudas financeiras no exterior.

Veja-se, por exemplo, o que vem ocorrendo em termos de apoio e de serviços do Estado junto às comunidades: fecham-se repartições consulares e deixam-se completamente ao abandono focos importantes da presença portuguesa no mundo; não se dá o mínimo apoio às associações de raiz portuguesa, onde diariamente se cultuam e preservam os valores e as tradições de um povo e de uma cultura; o ensino da Língua é cada vez mais precário; a assistência aos emigrantes doentes e desprotegidos é minguada – e até o direito de voto por correspondência pretendem extinguir, como se valesse a pena a um patrício que mora nos cafundós de Judas ou interior do Acre comprar uma passagem de ida e volta para chegar ao consulado mais perto e votar num candidato a deputado da Assembléia da República!

Como diria o Fernando Pessoa: português sofre-se para sê-lo…

 

* Economista e advogado, presidente da Federação das Associações Portuguesas e Luso-Brasileiras.

O centenário do cineasta Manuel de Oliveira – Parte I

Fevereiro 11, 2009

Cinema

O centenário de Manuel de Oliveira – Parte I

 

embaixada-portugal-brasil.blogspot.com

Fonte: embaixada-portugal-brasil.blogspot.com

 

1931 – DOURO FAINA FLUVIAL

O primeiro filme é uma curta-metragem documental sobre o Porto e a sua relação com o Rio Douro. Originalmente, o filme é mudo. Mais tarde foi acrescentada uma banda sonora de Luís de Freitas Branco. E, em 1995, o próprio Oliveira montou uma nova versão com música de Emmanuel Nunes.

 

1932 – HULHA BRANCA

Curta-metragem de apenas oito minutos sobre a Central Hidroelétrica do Ermal. Foi assinada com os seus nomes do meio, Cândido Pinto.

 

1932 – ESTÁTUAS DE LISBOA

Documentário desaparecido.

 

1937 – OS ÚLTIMOS TEMPORAIS

Com apenas quatro minutos, documenta as cheias do Rio Tejo.

 

1938 – MIRAMAR, PRAIA DAS ROSAS

Documentário desaparecido.

 

1938 – PORTUGAL JÁ FAZ AUTOMÓVEIS / JÁ SE FABRICAM AUTOMÓVEIS EM PORTUGAL

Documentário sobre a transformação de três automóveis Ford, em modelos de corrida Edford. O próprio Oliveira conduziu um desses carros.

 

1941 – FAMALICÃO

Documentário sobre Vila Nova de Famalicão que inclui imagens da casa de Camilo Castelo Branco, em Ceide.

 

 

1942 – ANIKI-BOBÓ

Baseado no conto Meninos Milionários, de Rodrigo de Freitas, a primeira longa-metragem de ficção do realizador é uma história da infância passada na zona Ribeirinha do Porto. Porventura, é o mais consagrado filme português que tem a mais valia de documentar o Porto daquela época.

 

1956 – O PINTOR E A CIDADE

O primeiro filme a cores de Oliveira, 14 anos depois de Aniki-Bobó, é um documentário sobre a cidade do Porto. É também a primeira vez que usa planos longos.

 

1958 – O CORAÇÃO

Filme inacabado sobre uma cirurgia cardíaca do médico Manuel Gomes de Almeida.

 

1959 – O PÃO

Média-metragem documental encomendada pela Federação Nacional dos Industriais de Moagens que conheceu duas versões.

 

1962 – ACTO DA PRIMAVERA

A sua segunda longa-metragem é uma docuficção a partir do Auto da Paixão, de Francisco Vaz de Guimarães. Faz um retrato da representação da Paixão de Cristo numa aldeia de Trás-os-Montes.

 

1963 – A CAÇA

Curta passada na Ria de Aveiro, com referências a Luiz Buñuel. A censura obrigou a um corte no final, por considerar demasiado pessimista. Em 1998, Manuel de Oliveira “repôs” a versão original.

 

1964 – VILA AVERDINHO, UMA ALDEIA TRANSMONTANA

Documentário encomendado pela Sociedade Clemente Meneres.

 

1965 – AS PINTURAS DO MEU IRMÃO JÚLIO

Documentário com textos de José Régio sobre o seu irmão, o pintor Júlio, como poeta Saúl Dias.

 

1965 – 2008 – A VIDA E A MORTE, Romance de Vila do Conde

Segundo a idéia original, José Régio recitava o seu Romance de Vila do Conde (incluído no livro Fado). Mas Oliveira deixou o filme inacabado. Em 2008, com ajuda de Luís Miguel Cintra, conclui-o.

 

1965 – 2008 – O POETA DOIDO, O VITRAL E A SANTA MORTA

Tal como o filme anterior, só foi concluído em 2008, com a ajuda de Luís Miguel Cintra.

 

1972 – O PASSADO E O PRESENTE

O regresso às longas-metragens, oito anos depois de Acto da Primavera. A adaptação de uma peça de Vicente Sanches. Um filme surpreendente com um forte traço de humor negro.

 

1974 – BENILDE OU A VIRGEM MÃE

Adaptação de uma peça de José Régio, marcou a consagração internacional do realizador. É a sua primeira obra com música original de João Paes e conta com Maria Barroso num papel secundário.

 

1979- AMOR DE PERDIÇÃO

Respeita quase na íntegra o texto do romance de Camilo Castelo Branco. Começou por ser uma série televisiva, em seis episódios, e acabou por conhecer uma versão cinematográfica, de 261 minutos. É a primeira obra a ser produzida por Paulo Branco.

 

1981 – FRANCISCA

Primeira adaptação de Agustina Bessa-Luís, que viria a ser a sua escritora de eleição. O filme parte do romance Fanny Owen e é considerado um dos expoentes máximos da sua cinematografia. Marca também a primeira participação de Diogo Dória. (do quinzenario Jornal de Letras, Lisboa .)

 

 

Livros e Autores I

Fevereiro 11, 2009

“Dicionário de Autores da Beira Será”

À Guisa de Intróito
Profª Drª. Regina Anacleto da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

 

À GUISA DE INTRÓITO

Escrever a apresentação do livro de João Alves da Neves intitulado “Dicionário de autores da Beira-Serra” representa, para mim, uma dupla satisfação. Em primeiro lugar, porque se trata de um Amigo que, desde há muito, me habituei a admirar e a estimar; depois, porque o trabalho agora dado à estampa – mais um saído da sua brilhante pena – resultou de um labor de pesquisa levando a cabo ao longo de mais de vinte anos em jornais, arquivos e bibliotecas, transformando-se num instrumento de trabalho indispensável para todos aqueles que queiram conhecer melhor essa região, tantas vezes tão maltratada e esquecida pelos poderes públicos, mas tão rica de belezas naturais e de qualidades humanas.

Dar corpo, na escrita estilizada de um Dicionário, às gentes de uma região significa, pois, no livro que se segue, ultrapassar a geografia humana para pensar uma geografia cultural. Por isso, o Dicionário de J. Alves das Neves é uma espécie de memorial de um espaço, um pergaminho identitário fundamental para o futuro. Explico-me de seguida.

Um povo só é rico quando tem história e quando pugna pela salvaguarda desse valor, isto é, desse patrimônio, porque ele evidencia o significado estático ou cultural dessa sociedade e funciona como seu suporte e garante. Trata-se de um conjunto de “bens” que uma geração transmite à seguinte, a fim de que se constituam num meio de compreensão da essência da sua própria história.

Este patrimônio, ou se quiser esta história, este “dom”, engloba tudo o que tem significado perene, tanto para a vida cultural e física do homem, como para a existência e afirmação das mais diversas comunidades, passando pela vicinal, pela concelhia, pela regional, pela nacional ou até mesmo pela internacional.

As comunidades, como tais, necessitam de ancoradouros de memória, de sítios, de valores e de padrões. Dito por outras palavras, necessitam de um patrimônio, ou de uma história, que seja o fundamento da sua consciência e lhes garanta a perspectiva do futuro.

A memória coletiva de uma determinada população estende-se aos territórios onde vive, aos seus monumentos, aos vestígios do passado e do presente, aos seus problemas, à sua cultura (material e imaterial) e, nas suas mais diversificadas valências, às pessoas. No entanto, a mensagem que nos proporcionam, transmite-se de geração em geração, ultrapassa a morte e, através do lento, mas imparável, devir do processo histórico, fornece identidade ao ser humano. Esse passado, que é memória, toma corpo e, porque ninguém pode viver em permanente conflito com a sua memória, acaba por se tornar presente e futuro.

A história vive e projeta-se através do passado humano e quanto mais forte, profundo e saudável esse passado for, maior força imprime a essa mesma história, no sentido de ela se poder afirmar com uma vitalidade cada vez mais sólida.

Toda a comunidade humana, qualquer que ela seja, sempre teve e, antropologicamente, deverá ter as suas referências de memória, isto é, os seus “monumentos”, mesmo que estes sejam orais. Trata-se de um patrimônio que funciona como garante de identidade.

A defesa deste patrimônio, acumulado ao longo de séculos, é que nos individualiza, mas não pode deixar de ser valorizado, na medida em que marca a nossa identidade cultural e só a preservação dessa mesma identidade nos permitirá uma individualização forte, sobretudo frente à crescente globalização, ou, quiçá melhor dito, massificação.

Assim, João Alves das Neves, com seu “Dicionário de Autores da Beira-Serra”, que apresenta cerca de trezentas entradas, onde averbou a biografia de escritores, professores universitários, artistas, músicos,  cientistas e outros intelectuais nascidos ou ligados à região serrana, ajuda a preservar este patrimônio, não permitindo que ele se transforme em pó, passível de ser disperso por forte vendaval.

Alguns destes verbetes já foram publicados em “A Comarca de Arganil”, o primeiro jornal em que o autor, ainda um jovem sem créditos firmados, iniciou as suas, então amadoras, lides jornalísticas.

A opção por esta forma es escrita – a de um Dicionário – parece, de algum modo, espelhar o percurso biográfico do seu autor. Ensaísta e jornalista, João Alves das Neves nasceu no Pisão e estudou em Lisboa, Porto e Paris, onde se formou na École Supérieure du Jornalisme. Em Lisboa foi redator do “Diário Ilustrado” e da “Agência France Presse”, tendo, também, colaborado em “O Primeiro de Janeiro”, “Diário Popular”, “Nova Renascença” e na revista “Ocidente”.

Entre 1951 e 1954 trabalhou na Radiodifusão Francesa, mas, no ano de 1958, partiu rumo ao Brasil, onde se fixou.

Tornou-se editorialista de “O Estado de S. Paulo” e foi, naquele país, diretor da revista “Portugália”, fundador e diretor das revistas “Comunidades de Língua Portuguesa” e “Gazeta do Descobrimento”, em Portugal, fundou e dirige a revista “Arganília”.

Chefiou o departamento de Jornalismo e exerceu a docência na Faculdade de Comunicação Social “Cásper Libero”, a mais prestigiada escola de jornalismo do Brasil, tendo ainda lecionado no Porto, na Escola Superior de Jornalismo e no Instituto Superior de Ciências da Informação e da Empresa.

Alves das Neves conta com mais de duas dezenas de livros editados, onde aborda aspectos diversos das letras portuguesas, brasileiras e africanas de expressão portuguesa. Além disso, dedica uma atenção muito especial à obra pessoana, sendo até presidente do Centro de Estudos Americanos Fernando Pessoa, sediado em São Paulo. Dada a impossibilidade de enumerar, nesta breve nota introdutória, os seus muitos trabalhos, não gostaria, no entanto, de passar à margem de “Poesias Ocultistas de Fernando Pessoa” e “Padre Antônio Vieira, o Profeta do Novo Mundo”.

Não quero, ainda, deixar de referir o seu artigo “Homenagem a Fernando Pessoa” que lhe valeu a atribuição do prêmio Esso de Informação Cultural; trata-se de um prestigiado (e cobiçado) galardão que, no Brasil, promove o reconhecimento do mérito dos profissionais de Imprensa através da indicação e escolha dos melhores trabalhos publicados em jornais e revistas.

Com uma obra tão vasta e valiosa, desenvolvida ao longo de meio século, não admira que lhe tenham sido atribuídas várias distinções e condecorações, tanto pelo governo brasileiro, como pelo português; este agraciou-o com a Comenda da Ordem do Infame D. Henrique.

Soma-se, agora, a toda esta panóplia bibliográfica, o “Dicionário de autores da Beira-Serra”, obra que culmina um trabalho ingente e se vai transformar numa referência, até porque concede às personagens que, de algum modo, se encontram ligadas à cultura, tanto às do passado, como às do presente, a possibilidade de perspectivar o futuro.

Certamente que é este o objetivo do “Dicionário de autores da Beira-Serra” que a Dinalivro, pela mão de João Alves das Neves, ora coloca diante de todos nós; certamente que é este também o objetivo do autor, consciente de que a obra até agora publicada carecia de uma síntese humanista que, ao invés de a fechar sobre si própria, a abre ao seu mundo genuíno e às memórias que dela emanam.


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