Arquivo de Julho 2010

Pessoa político, uma face que poucos querem ver

Julho 27, 2010

Por Vera Helena Amatti

 Fernando Pessoa é inegavelmente o gigante literário que assumiu quase 70 heterônimos e fizeram sua obra única no mundo. Em Portugal, entretanto, iniciava-se nos anos 20 a ditadura salazarista que teve, segundo o próprio poeta em uma de suas cartas, três fases distintas: a primeira, de simples defesa própria e de expectativa; a segunda, a de consolidação, obtida por ações enérgicas e controle de orçamento; e a terceira, integralista e preconizadora do Estado Novo, que revelaram Salazar, segundo Pessoa, “Francamente inimigo de duas coisas: da dignidade do Homem e da liberdade do Estado”.

O livro “Fernando Pessoa, Salazar e o Estado Novo”, de João Alves das Neves (Ed. Fabricando Idéias, Santo André-SP), nesse contexto, torna-se fonte de consulta e bibliografia compulsória para os estudos pessoanos, seja pelo ineditismo dos textos cuidadosamente pesquisados e escolhidos, ou pela organização e redação clara e elegante com que o autor expressa suas opiniões balizadas em mais de 60 anos de pesquisas e mais de seis livros sobre Fernando Pessoa. É autor também de 13 livros de ensaios, sendo que “A Nova África” e “Contistas Africanos de Expressão Portuguesa” foram proibidos pela ditadura salazarista.

O relevo dos estudos pessoanos de João Alves das Neves é reconhecido nacional e internacionalmente, com destaque para suas referências em recente livro do economista Gustavo Franco, e x-presidente do Banco Central, sobre o pensamento econômico do poeta. As informações contidas em artigos e livros de Neves, segundo Franco, foram fundamentais para inspirar o best seller “A Economia em Pessoa”,  publicado em 2007, pela Ed. Zahar.

Em seu novo livro, Neves, por meio de elementos presentes na obra de Pessoa, estabelece um diálogo de idéias entre a poesia, a epistolografia e a fortuna de críticas e ensaios do e sobre o autor. Na edição foi acrescido um dicionário breve, o que confere à publicação um formato leve, de agradável leitura. Paredes de texto, comuns em textos acadêmicos, nas novas edições cederam lugar a textos breves, pontuados e rapsódicos de jornalistas, a exemplo do ex-editorialista do jornal O Estado de S. Paulo e atualmente colaborador de inúmeros jornais e revistas luso-brasileiros.

Chamam atenção, logo de início, os cinco poemas recolhidos por João Alves das Neves e que representam o espírito de crítica bem-humorada com que Pessoa tratava questões delicadas, como a política salazarista. Em um deles, “Salazar”, publicado em 1960 no Suplemento Literário do Estadão, o poeta decompõe, ao estilo de Padre Vieira, o nome sugestivo do ditador: “Este senhor Salazar/ É feito de sal e azar,/ Se um dia chove,/ A água dissolve/ O sal,/ E sob o céu/ Fica só o azar, é natural.”. Em outro trecho, a ironia de Pessoa beira o sarcasmo: “Coitadinho/ Do tiraninho!/ Não bebe vinho,/ Nem sequer sozinho….”.

Entretanto, para tornar patente a resistência e quase aversão de Pessoa pelo poder descabido que Salazar adquiriu ao longo de sua trajetória na vida portuguesa, vale recorrer aos textos em prosa, especialmente o capítulo que trata do tema Ditadura e Ditador: “Para governar um país como chefe, falta-lhe, além das qualidades próprias que fazem diretamente um chefe, a qualidade primordial – a imaginação”.

O professor João Alves das Neves também fez questão de pesquisar as autobiografias pessoanas, entre elas a mais completa, publicada como introdução ao poema “À memória do Presidente-Rei Sidónio Pais” (Editorial Império, 1940), em que o próprio Pessoa define sua ideologia política: “(…) Conservador do estilo inglês, isto é, dentro do conservatismo, e absolutamente anti-reacionário.”

O argumento principal para os que defendem ter sido Pessoa até colaborador da ditadura salazarista está na publicação “O Interregno”, panfleto publicado em 1928, cujo subtítulo é sugestivo: “Defesa e justificação da ditadura militar em Portugal”. A ele, algum tempo depois, Pessoa interpôs objeção clara: “Dou hoje esse escrito por não escrito”, em revisão a suas opiniões e resposta aos críticos de suas posições políticas.

O professor Neves, com mais esta publicação, dá continuidade e aprofundamento à série de estudos pessoanos que perpassam sua poesia e mais recentemente, debruçam-se sobre suas outras facetas, inclusive a políco-econômica, menos conhecidas, mas não menos especuladas. 

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Carta da escritora Lygia Fagundes Telles, lida na mesa redonda sobre “As Idéias Políticas de Fernando Pessoa”, realizada em 20 de Julho de 2010, no Clube Português de São Paulo.

Julho 27, 2010

Meus caros amigos e caras amigas!

Antes de tudo eu queria cumprimentar João Alves das Neves pelo seu belo livro Fernando Pessoa, Salazar e o Estado Novo. Eis aí um trabalho que elucida, esclarece e apaixona o leitor. Sim, um belo livro que li com paixão. Digo sempre que o leitor é mais do que um parceiro, ele é um cúmplice do autor e nessa cumplicidade foi envolvida esta leitora que ama Fernando Pessoa, sim, Fernando Pessoa é amado por todo o Brasil.

Paixão antiga pois me lembro que quando me preparava para os vestibulares da Faculdade de Direito correu o boato que na prova de literatura iria cair Fernando Pessoa que eu já conhecia e admirava.

A liberdade na vida e na literatura! Estive em Lisboa na comemoração da bela Revolução dos Cravos e com um cravo na lapela, fui de braço dado com meus amigos e irmãos por esta Lisboa da minha paixão e que visito assim como aquele que atravessa a rua para ir à casa do Pai.

Teria tanta satisfação de estar aqui esta noite para cumprimentar João Alves das Neves e Teresa Rita Lopes, da Universidade Nova de Lisboa. Vai em meu nome o livro que não sofreu uma fratura do fêmur….

Sim, Navegar é preciso, mas também é preciso Viver e Criar, como diria o amado Poeta.

 Com o abraço fraterno,

A Lygia (*)

(*) A escritora Lygia Fagundes Telles é membro da Academia Brasileira de Letras desde 1987. Autora de grandes obras como a premiada As Meninas – Prêmio Jabuti de 1973. Tem mais de 40 obras publicadas que foram traduzidas em diversas línguas.

Carta do escritor João Manuel Simões sobre o Livro “Fernando Pessoa, Salazar e o Estado Novo” de João Alves das Neves.

Julho 27, 2010

Saudações, “abimo pectore”.

Li, com extremo agrado e proveito intelectual, o seu precioso “Fernando Pessoa, Salazar e o Estado Novo”. Parabéns por mais esse trabalho com que V. enriquece a sua já vasta e valiosa, diria mais, valiosíssima. “opera omnia”, em cuja textualidade Fernando Pessoa representa um segmento fundamental.

João Alves das Neves, jornalista de escola ensaísta e crítico eminente, vem se notabilizando, nas ultimas décadas, como um dos mais lúcidos e penetrantes exegetas da obra daquele “insincero verídico”, “indisciplinador das almas” e demiurgo dos heterônimos, que se chamou Fernando Pessoa, o maior poeta da Língua depois de Camões (e eu me pergunto às vezes se ele não será superior), e o maior poeta do mundo do século vinte. E que, em muitos aspectos da sua genialidade multímoda, pode comparar-se ao “primus inter pares” que se chamou Shakespeare.

Com o seu livro mais recente, Alves das Neves colocou mais uma pedra no edifício ensaístico representado pela sua análise da obra pessoana e do seu pensamento e da sua arte.

Figura maior da “inteligentzia”, Alves das Neves merece o maior respeito e consideração – e, direi mais, admiração – pelo seu trabalho fecundo em prol da Cultura Luso-Brasileira, que tem na Língua Portuguesa sus espinha dorsal e seu sangue vitalizador.

Cordialmente,

João Manuel Simões. (*)

(*) O escritor João Manuel Simões tem mais de 60 livros publicados no Brasil e em Portugal, poesia, ensaio, criticas e contos.

A ESCRITORA TERESA RITA LOPES DEBATE, EM SÃO PAULO, AS IDÉIAS POLÍTICAS DE FERNANDO PESSOA

Julho 26, 2010

João Alves das Neves (*)

Desde 1985 até hoje, a escritora Teresa Rita Lopes, da Universidade Nova de Lisboa, tem sido a presença portuguesa mais constante das reuniões, no Brasil, do Centro de Estudos Fernando Pessoa e, agora, do Círculo que mantém o nome do criador dos heterônimos.

Embora sem enumerar suas conferências e comunicações que fez, neste País, foi a mais assídua, entre os autores que estiveram no Brasil. Cremos que as suas intervenções começaram em 1985 quando, ao lado de João Gaspar Simões, António Quadros e vários pessoanos, analisaram o tema “Pessoa: O Marinheiro”. E nos anos seguintes apresentou uma série de estudos, o último dos quais terá sido “Pessoa e Vieira”, que foi inserto no volume “400 anos/Padre Vieira/Imperador da Língua Portuguesa”, editado pela Fundação Memorial da América Latina, no qual foram reunidos os 15 ensaios apresentados no decurso  do Colóquio Vieiriano, realizado em São Paulo, em Maio de 2008, no âmbito do XIII Encontro Cultural dos Países de Língua Portuguesa.

Diz Teresa Rita Lopes, no seu belo ensaio: “É comum a Vieira e Pessoa a convicção de serem profetas, isto é intermediários de Deus que se faz ouvir através das suas vozes. Aliás, como médium, também no plano literário, Pessoa se sente e apresenta, nomeadamente quando afirma que se limita a escrever o que alguém lhe dita – Deus ou essas criaturas através de si se manifestam, os seus heterônimos . Esta pode ser, entre muitas, uma das explicações da heteronímia”.

O seu primeiro livro sobre a obra do Poeta da “Mensagem” supomos que foi “Fernando Pessoa et le drame Symboliste. Héritage et création (1977), que teve por base a tese de doutoramento da pesquisadora portuguesa na Universidade da Sorbonne (Paris), onde ela lecionou. E muitos outros estudos vieram a seguir, relevando-se os não menos importantes “Pessoa Inéditoe Pessoa por conhecer(o último em 2 volumes), a edição crítica de “Álvaro de Campo  – Livro de Versos”  e muitos outros, que credenciaram Teresa Rita Lopes entre os mais destacados estudiosos da vasta obra pessoana.

De resto, a escritora alarga os seus trabalhos literários ao teatro e à poesia, assim como a criteriosas edições críticas de diferentes autores, entre os quis não podem ser omitidos O Privilégio dos Caminhos (1988), Álvaro de Campos – Vida e Obra do Engenheiro (1990), Álvaro de Campos, notas para a recordação do meu Mestre Caeiro (1997), etc.

Ao presidir, em 20 de Julho, a mesa-redonda em torno de “As idéias políticas de Fernando Pessoa” a professora Teresa Rita Lopes retoma a tradição cultural do Clube Português, onde se impuseram o arquiteto Ricardo Severo, que foi um dos mais prestigiados intelectuais portugueses no Brasil, no fim do século XIX e nos primeiros decênios do século XX, e bem assim Carlos Malheiro Dias e Fidelino de Figueiredo, próximos da vivência da instituição paulista, que foi continuada por Jaime Cortesão e, mais tarde, por Adolfo Casais Monteiro, Jorge de Sena e mais alguns, juntamente com vários escritores brasileiros, desde Afonso de Taunay, Guilherme de Almeida, Menotti Del Picchia – e não só historiadores, poetas, pesquisadores e conferencistas, artistas plásticos e de outros domínios.

Foi neste Clube Português que floresceu a Revista Portuguesa, capitaneada por Ricardo Severo, na década de 30, na qual colaboraram inúmeros intelectuais dos dois países. E por aqui passaram, além dos já consignados, Júlio Dantas, Antônio Correia de Oliveira, Albino Forjaz de Sampaio, Duarte Leite e até, em 1922, os “embaixadores” das artes e letras  portuguesas, Fernanda de Castro e António Ferro,.ambos na esteira da revolucionária  Semana de Arte Moderna de São Paulo.

E foi para consolidar esta aliança cultural luso-brasileira que recebemos nesta mesma sala onde estamos festejando agora os 90 anos da agremiação cultural de  14 de Julho de 1920, o escritor Fernando Namora, que proferiu (em 1968) a conferência “Breve perspectiva da Literatura Portuguesa Atual” – uma profunda reflexão sobre os  escritores lusitanos da sua geração.

Chegou a hora de Teresa Rita Lopes – professora que tanto honra a Universidade Portuguesa e as Letras Portuguesas deste início do século XXI, com a sua poesia, o seu teatro e a sua ficção, ao mesmo tempo que espalha de Portugal para o mundo literário dos cinco Continentes  os mais notáveis estudos sobre o Poeta que nos recordará eternamente que “a nossa Pátria é a Língua Portuguesa”. Morreu sem nos mostrar – por causa da censura fascista – o que pensava da longa noite de silêncio que os portugueses tiveram de suportar durante cerca de 40 anos.  E a escritora veio a São Paulo para analisar e debater o pensamento político do poeta da “Mensagem”, que é, só por si, um grito de liberdade e de esperança de melhores dias para Portugal.

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São Paulo (Clube Português), 20 de Julho de 2010.                             

(*) O escritor português João Alves das Neves, jornalista e professor universitário, vive em São Paulo desde 1958 e publicou três dezenas de livros, o último dos quais sob o título de “Fernando Pessoa, Salazar e o Estado Novo”

Heranças: Cantos e cartas de luso-paulistanos

Julho 26, 2010

Por Pablo Pereira

Há anos, viajando no interior de Portugal, encontrei no ambiente da fria Serra da Estrela um cenário de pequenas propriedades, com gente do campo vivendo em sítios cercados por muros de pedras. A bucólica paisagem pedrenta da bela região da Beira, que tem um parque nacional, levou-me a pensar nas dificuldades encontradas pelos desbravadores portugueses que aqui, no quinhentista planalto paulista, sem a abundância das pedras, tiveram de recorrer ao barro e às varas para erguer muros e paredes – na hoje escassa, porém famosa, engenharia da taipa.

Aquela São Paulo aparece em diversas obras literárias, ensaios, pesquisas, pinturas ensinando como um punhado de aventureiros d”além-mar criou do nada as bases da metrópole.

O Brasil não era Brasil e Portugal já tinha fronteira consolidada. Camões escrevia os cantos de seus Os Lusíadas mais ou menos nos mesmos dias, aí pelos 1550/70, nos quais Anchieta, por aqui, redigia suas cartas – que podem ser vistas no Mosteiro de São Bento. Pouco restou desse lastro português. Mas a São Paulo moderna soube conservar parte da gente ibérica, presente hoje menos na arquitetura e mais nos hábitos e costumes.

Semana passada, “viajei” novamente a Coimbra e região, desta vez pelas páginas de 90 anos do Clube Português, de São Paulo, livro lançado na sexta-feira. E encontrei lá diversas pistas da herança portuguesa na cidade. O clube, que tem rico acervo, foi fundado em 14 de julho de 1920, em Perdizes, mas está na Liberdade. Conta histórias de ancestrais dos Ermírio de Moraes, e de outros luso-paulistanos, como o arquiteto Ricardo Severo (1869-1940). Nascido em Lisboa, criado no Porto, mas que morreu em São Paulo.

“Queremos restaurar o clube”, diz o advogado José de Oliveira Magalhães vice-presidente da entidade, ele próprio “um brasileiro nascido em Portugal”. Magalhães é de Cabeceiras de Basto, Braga.

Relíquias: Obras raras no acervo português.

Um rico acervo mora no Clube Português. São obras raras, relacionadas no livro organizado por João Alves das Neves. Há adornos, coleções de revistas e jornais, telas e livros centenários, como Vocabulário Portuguez e Latino, de Raphael Bluteau, publicado em Coimbra em 1712, e as Rimas várias de Luis de Camões, comentadas por Manuela de Farias Y Souza, edição de 1685, de Lisboa. Ou, ainda, o Poema Épico A Liberdade de Portugal defendida pelo Senhor Rey D. João I, da Real Officina da Universidade, em 1782 – Há lá a História de Inês de Castro, a rainha morta do D. Pedro I português – os túmulos estão lado a lado no belo Mosteiro de Albobaça.

 Fonte: O Estado de São Paulo – 25 de Julho de 2010

As Raízes Portuguesas na Arte Colonial Brasileira

Julho 26, 2010

Por João Alves das Neves

Recentemente, foi divulgada a inesperada controvérsia sobre um retábulo sacro pintado sobre madeira que está sendo disputado entre as igrejas matriz da cidade paulista de Mogi das Cruzes e a igreja de Nossa Senhora do Brasil, na capital paulistana. Não foram revelados informes sobre o valor artístico do retábulo, nem tão pouco o que representa a imagem, mas tão somente que a peça religiosa datará de 1749. Quer dizer, a pintura é do tempo em que o Brasil era uma colônia portuguesa.

Curiosamente fala-se com freqüência da arte colonial, mas somente os especialistas costumam identificar, o riquíssimo acervo das cidades históricas de Minas Gerais que valoriza singularmente o barroco colonial, embora esse patrimônio assuma outras variações em Portugal e em alguns países ocidentais. Os estudos comuns da arte colonial pouco informam e a maioria dos dicionários quase nada esclarecem, mas o que tem de ser admitido é que a arte colonial, religiosa ou não, no caso do Brasil, revela com certeza o espírito lusíada, isto é, tem raízes lusitanas, apesar de realizada na terra brasileira.

O Atlas Cultural do Brasil do Conselho Federal da Cultura do Brasil, coordenado por mais de uma dezena de especialistas de diversas áreas certifica: “As Artes Plásticas no Brasil da era colonial se distinguem em dois períodos de autoria distinta. O primeiro se manifesta com maior relevância no século XVII, e seus principais autores são religiosos, monges e irmãos, europeus e nativos. Desses, mencionam-se com destaque os beneditinos Agostinho da Piedade, escultor, português de origem, que faleceu na Bahia em 1661; seu discípulo, Agostinho de Jesus, fluminense; o pintor Frei Ricardo do Pilar, originário de Colônia, Alemanha, falecido no Rio, em 1700, contemporâneo e companheiro de trabalho do toreuta entalhador Frei Domingos da Conceição da Silva. Entre os jesuítas, citam-se diversos que aqui viveram e produziram, sendo difícil a identificação de cada autoria no acervo restante.

Por pesquisa histórica sabe-se da presença, entre Olinda e Bahia, dos pintores jesuítas quinhentistas Belchior Prado, Lagott, Baptista e Mendonça, porém sem obra remanescente. Na centúria seguinte através de um depoimento do Padre Antônio Vieira, sabe-se que Eusébio de Matos fora dotado de todas as artes, pintura inclusive, e que diversos outros jesuítas continuaram produzindo até o meados Setecentos, para o fausto da Igreja de Jesus (atual Catedral, de Salvador) entre eles, Domingos Rodrigues, Carlos Belleville e Francisco Coelho”.

“As tentativas de identificação de autoria tem falhado diante do enorme acervo jesuíta. Uma obra de notável destaque é o forro da primitiva sala da congregação e biblioteca do Colégio, executado na primeira metade dos Setecentos e único, em todo o País, de perspectiva aerial corrigida em relação a cada uma das figuras representadas e a cada elemento arquitetural figurado” (…)(1)

O esclarecimento é válido e poderemos estabelecer o paralelo recorrente das igrejas de Minas Gerais, entre outras do Brasil, mas principalmente pode relacionar-se com as informações do Atlas Cultural do Brasil e com os elementos reunidos nos milhares de verbetes do Dicionário de Artistas e Artífices dos Séculos XVIII e XIX em Minas Gerais (2), que documenta a conjugação de esforços de portugueses e lusos-descendentes (do Brasil) – talvez a maior parte de quantos trabalharam em terras mineiras não foram identificados, mas conseguimos referenciar cerca de uma centena de portugueses que trabalharam nos projetos e na construção dos inúmeros templos e de alguns palácios, espalhados pelo território mineiro, onde atuaram, no total, milhares de pedreiros, carpinteiros, ferreiros e toda a sorte de artífices, ao lado de centenas de artistas dos mais variados ramos, incluindo perto de uma boa centena de pintores, escultores e outros portugueses.

O patrimônio histórico e artístico de Minas Gerais é tão vasto e rico que ainda não foi inventariado no seu conjunto. E se há outros núcleos em diferentes lugares do Brasil eles se conjugam para testemunhar o engenho e arte dos que viveram na colônia que chegou a ser a sede do Reino Unido de Portugal e Brasil em condições que não sofrem comparações no mundo de ontem e de hoje.

O inventário da participação portuguesa no Brasil continua incompleto: faltam milhares de igrejas construídas no tempo da colônia, assim como certos museus, com destaque para o de Arte Sacra de São Paulo, que soube reunir uma grande série de peças religiosas de origem lusa, bem como várias instituições culturais dispersas pelo vasto território brasileiro.

(1) Os estudos reunidos no Atlas Cultural do Brasil foram editados em 1972 pelo Conselho Federal de Cultura (MEC/FENAME), então presidido pelo Prof. e Escritor Arthur Cézar Ferreira Reis.

(2) Publicado sob a direção de Judith Martins, com o apoio de numerosos colaboradores – o 1º. vol. tem 406 págs, e o 2º. conta 396 págs. (Publicações do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Rio de Janeiro, 1974).

(*) Escritor português residente no Brasil, autor de cerca de três dezenas de livros, a maioria dos quais sobre temas luso-brasileiros.”

Crônica do Brasil: BASTIDORES DA CAMPANHA PRESIDENCIAL

Julho 26, 2010

                                                                             Por João Alves das Neves (*)

Certos dirigentes do PT-Partido dos Trabalhadores não escondem as suas antecipadas pretensões: quando abandonar a Presidência da República, Luís Inácio Lula da Silva assumirá com toda a certeza um lugar de assessor especial de Dilma Rousseff, se esta não for derrotada pelo oposicionista José Serra.

E é o primeiro equívoco político, assinalando-se muitos outros: por exemplo, apóia ostensivamente, pois propagandeia a sua candidata antes de o poder fazer, de acordo com a legislação eleitoral. Já cometeu mais de meia dúzia de infrações à lei, assim como Dilma (o candidato Serra é o terceiro em faltas).  Aliás, a posição do Presidente Lula é ambígua, porque se mostra à vontade, quando profere palavrões na TV. Não será por mal, embora se pondere que um Chefe de Estado e de Governo precisa de contenção, em especial quando fala para milhares de pessoas. A ex-ministra Dilma Rousseff também não se coíbe de fazer o que não pode: ainda há poucos dias, teve de se desculpar pela remessa ao Tribunal Superior Eleitoral de um programa do seu governo – e confessou que o assinou por engano – o texto era do seu partido político, que defende princípios radicais que a candidata não subscreve e que ela suprimiu no programa governamental nº 2… Dias antes, acusara o seu opositor de propósitos que o candidato Serra facilmente desmentiu, por serem falsos, o que provocou a demissão do chefe de imprensa da candidata “petista”.

Há certamente falhas do outro lado, mas José Serra age com maior cuidado quando opina. Entretanto, faltando pouco tempo para a eleição, os 2 candidatos presidenciais estariam tecnicamente empatados, mas tudo pode mudar. A consistência político-administrativa de Dilma Rousseff é mais frágil e ela não tem condições para responder à notícia acusatória da Veja (14-7-2010) – e a revista não  foi desmentida ao informar:  “Radicais e Incendiários – Marco Aurélio Garcia é o autor do programa autoritário, com a ajuda de Franklin, defensor do controle da imprensa e Paulo Vannuchi, o criador do PNDH”. (Os três são colaboradores muito próximos do Presidente Lula). Á publicação semanal diz abertamente que Dilma Rousseff foi “revolucionária comunista”, mas ser hoje do PC não é ilegal.

Por enquanto, as sondagens não apontam o possível vencedor, de modo que tudo pode acontecer. Os adversários de Lula dizem que, se ganhar Dilma Rousseff, o Partido dos Trabalhadores ficará no poder durante 12 anos (incluindo os 8 do presidente Lula).

Quer dizer, se Lula mantiver a popularidade que tem hoje, poderá ganhar a eleição de 2014 e nesta hipótese tentará nova reeleição. Isto é, o PT governaria, portanto 20 anos.

Tudo isto e muito mais acontece quando “a procissão” não chegou ao adro!

 (*) O articulista é escritor e jornalista, vivendo no Brasil.


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