Arquivo de Dezembro 2010

Boas Festas !

Dezembro 22, 2010

 

Legenda: Livro de obras de D. Duarte – Autor Anônimo

O NATAL NA BEIRA-SERRA

Dezembro 21, 2010

Por João Alves das Neves (*)

Por não haver estudos sobre as tradições da quadra festiva que está a aproximar-se projectámos, na Beira para cá da Estrela, a divulgação de alguns poemas, crônicas e contos alusivos, mas poucas contribuições recebemos, até agora.  E não obstante têm aparecido na imprensa regional alguns textos que poderiam ser colectados.

Recordamos as excelentes evocações do prof. António Gonçalves Matoso de Veiga Simões, de Monsenhor Augusto Nunes Pereira e de outros autores que nos últimos tempos se interessaram pelo tema, mas desta vez não chegamos aonde queríamos.

Quem sabe se, persistindo, poderemos organizar a antologia que ainda não temos, abrindo-a hoje com 3 trabalhos, todos de inegável interesse para a Cultura da Beira-Serra e que ficarão ao dispor de quem quiser repeti-los, desde que refira as fontes – o que nem sempre acontece.

Antecedemos o “Natal na Beira-Serra” com o belo poema A noite de Natal, de José Simões Dias, que foi primeiro para o livro “Canções Meridionaes”, antes de passar para as obras completas de “As Peninsulares”. O poema começa evocando a Benfeita (sem a citar nominalmente), conforme se deduz da abertura:

“Filha do meu povoado. É meia noite,

E um canto festival

Atroa os ares e se repercute

Nas quebradas do vale.

São os ranchos que vêm cantando

As loas do Natal.

O poema é extenso e canta, quase no fim, a referência inaugural:

 A meia noite é dada, ao templo, ao templo

Vamos ouvir cantar

Os pastores que estão no adro à espera

Que o padre suba ao altar” (…)

Oportuno seria reproduzir o texto por inteiro, mas é forçoso lembrar o conto “Manuel Maria”, do lousanense “João Luso”, pseudônimo de Armando Erse de Figueiredo, que emigrou para o Brasil em 1893 e se notabilizou como jornalista na imprensa de São Paulo e do Rio de Janeiro, bem como na Literatura, através de cerca de duas dezenas de livros de ficção e de crônicas, abordando muitos dos temas da emigração e dos países natal e de adopção (nasceu em 12-6-1874 e morreu no Rio de Janeiro em 6-2-1950).

Finalmente, escolhemos para representar o Natal na Beira-Serra a crônica O Natal na minha aldeia, de António Lopes Machado, que está no livro “Crônicas Regionalistas (Arganil)”.  Lembrança mais do que necessária, porque o autor dedicou boa parte da sua vida ao jornalismo, além de ter já editado perto de vinte livros sobre as terras que conheceu no mundo e, em especial, as terras da Beira.

Com Simões Dias, que foi um dos poetas mais populares do seu tempo, de João Luso e de António Lopes Machado ilustram bem o Natal da Beira-Serra. (Os 3 textos serão divulgados por inteiro nos blogs www.joaoalvesdasneves.blogspot.com e www.revistalusofonia.wordpress.com, nos próximos dias).

(*) O articulista é escritor português, jornalista e professor universitário; vive no Brasil e publicou mais de 30 livros – os últimos foram “Dicionário de Autores da Beira-Serra”, “Fernando Pessoa, Salazar e o Estado Novo” e o volume “90 anos do Clube Português (de São Paulo)”.  E continua a colaborar na imprensa portuguesa e brasileira. 

A NOITE DE NATAL

Dezembro 21, 2010

Por José Simões Dias

Filhas do  meu povoado, é meia- noite,

E um canto festival

Atroa os aros e se repercute

Nas quebradas do vale.

São os ranchos que vêm cantando agora

As loas do Natal

“Esta noche ex noche buena,

Y no es noche de dormir,

Que está la Virgen de parto

Y a las doce há-de parir;

Esta noche es noche buena,

Y no es noche de dormir.”

 

Já se ilumina a torre e o templo se abre,

E já de par em par

Estão as portas, e em tropel festivo

Os ranchos a entrar:

E o sineiro sentado na ventana

Contínuo a repicar.

“Sinos, tocai; falai, sinos,

Sinos da minha paixão:

Morda-se o moiro e o gentio,

Exulte meu coração,

Que os sinos hoje celebram

A noite da redenção.”

 

 

Em liras de ouro os anjos nos espaços

Cantam hinos de amor,

E sobre a terra os homens jubilosos,

Longe a tristeza e a dor,

Ao templo acodem, celebrando em cânticos

O ansiado Redentor.

“Harpas d’ouro, liras de ouro,

Anjos do céu afinai;

Sobre cúmulos de nuvens,

Querubins, cantai, cantai;

Paz na terra e nas alturas

Glória e louvor a Adonai.”

 

Os instrumentos rústicos atroam

Por toda a povoação;

A bomba retumbante no ar se inflama

De um súbito clarão;

A alegria endoidece: à festa, à festa,

Meu triste coração.

“Buena noche, noche buena,

Quem a não festejará?

Noite d’ano como esta

No calendário não há!

Que a missa da meia-noite

Paz e alegria nos dá.”

  

Longe da minha terra e dos meus lares,

De irmãos, de mãe, de pai;

Oh! Ninguém sabe que tristeza agora

Pela minha alma vai;

Moças de alheia terra, enquanto eu gemo,

Por mim folgai, folgai.

“Ó meu Jesus pequenino

Nos braços da alegre mãe,

Que nasceste sobre palhas

No presépio de Belém,

Bendito Jesus que vieste

Ao mundo por nosso bem.”

 

Vamos à igreja descantar louvores

Ao soberano Rei,

Que da altura do céu propício vendo

A transviada grei,

Por ela ao mundo veio, ao mundo dando

Lição, exemplo e lei.

“Repica o teso pandeiro,

E a ronca fá-la gemer;

Que as festas da noche buena

Festas são dignas de ver;

Festejos que d’alma nascem

Deus é que os sabe entender.”

  

Na sacristia o padre se reveste,

Vai ao altar subir.

Já o trono de luzes se retouca,

E flores a florir;

Quem é que a missa do Natal não há-de

À meia-noite ouvir?

“Padre cura, meu bom padre,

Padre dos nossos avós,

Já que esperaste por eles

Espera também por nós;

Para o ‘bendito e louvado’

Estamos compondo a voz.”

 

Cantai ao desafio a noche buena;

Que também lá nos céus

Cantam os anjos cânticos de glória

À glória do seu Deus.

Cantai, donzelas, e que os vossos carmes

Supram os cantos meus.

“Tangedores de viola,

Tirai-lhe cânticos mil;

Pastores das cercanias

Tangei flauta e tamboril,

Enquanto eu vou afinando

As cordas do arrabil.”

 

Quem sabe no futuro, tão incerto,

Os dias que lá vêm?

Se tornaremos de hoje a um ano à igreja

A ver a Virgem Mãe,

Que tem nos braços o divino Verbo

Hoje nascido em Belém?!

“Filho da Virgem Maria,

Bendito sejas, Senhor,

Que entre palhinhas de pobre

Nasceste por nosso amor;

Bendito sejas, bendito,

Meu divino Redentor.”

 

A meia-noite é dada, ao templo, ao templo

Vamos ouvir cantar

Os pastores que estão no adro à espera

Que o padre suba ao altar;

Vamos à igreja, pressurosos vamos

A Deus Menino orar.

“Que esta noche es noche buena,

Y no es noche de dormir,

Que está la Virgen de parto

Y a las doce ha-de parir…

Esta noche es noche buena,

Y no es noche de dormir.”

 

*****

 * De Canções Meridionais, vol. IV, incorporado depois ao livro As Peninsulares, que recria a obra poética do autor.

Biobibliográfica de José Simões Dias

Dezembro 21, 2010

(n. Benfeita, 5 de fevereiro de 1844 – f. Lisboa, 3 de março de 1899)

É breve, mas naturalmente fiel a biobibliografia de Simões Dias que abre a edição de 1876 de As Peninsulares: após mencionar a “pequena aldeia beirã” onde nasceu, refere a continuação dos estudos de latim (após os primários) em Pedrógão Grande, a conclusão do Liceu (1858) e do Curso Teológico no Seminário de Coimbra (1881) e a formatura “laureada com as primeiras classificações universitárias”. Seguiu-se a nomeação de professor-proprietário de Línguas, Economia Rural e Administração Pública em Elvas (1868) e a transferência para Viseu (1871).

Ainda antes de se tornar professor, diz que “viveu exclusivamente da pena e da palavra, já escrevendo nos jornais literários daquela época”. E fala também da atenção que a sua obra despertara na Espanha, onde os seus versos eram enaltecidos com o “mais vivo colorido”, enquanto “o povo das nossas Beiras os assimilavam vulgarizando-os em suas toadas, nos serões, nas romarias e nas sestas, levando-os de porta em porta na voz dos cegos e dos mendigos”.

1863

1868

1869

1870

 

 

1871

1872

 

1875

1877

 

 

 

1880

1881

 

1895

1898

1899

1906

1944

Mundo Interior, poesia

Sol à Sombra, poemeto

Hóstia de Ouro, poema herói-cômico.

As Peninsulares (1ª das 5 edições revistas pelo autor);

Cartas a um Bispo, de Emílio Castelar (tradução);

Estudos sobre a Literatura Espanhola Contemporânea.

Ruínas, poesia.

Compêndio de História Pátria (para escolas primárias);

Compêndio de Poética e Estilo (depois, Teoria de Composição Literária).

Lições de Literatura Portuguesa (depois, História da Literatura Portuguesa).

Espanha Moderna (depois, Estudos sobre Literatura Espanhola);

As Mães, romance;

Histórias Contemporâneas, contos (depois, Figuras de Cera);

Curso de Filosofia Elementar, de Balmes (tradução).

A Instrucção Secundária.

A Flor do Pântano, de Carlos Rúbio (tradução);

História da Filosofia, de Balmes (tradução).

Pedagogia Oficial (sobre a reforma oficial).

Figuras de Cera (novas Histórias Contemporâneas).

– 5ª e definitiva edição de As Peninsulares.

– Publicação de Figuras de Cera com prefácio de Sanches de Frias.

– Comemorações em Lisboa e em Arganil do centenário da morte do escritor José Simões Dias.

MANUEL MARIA

Dezembro 21, 2010

Por João Luso

Foi o ano passado, na terra, que ouvi contar este caso, passado com uns vizinhos nossos. Era noite de Natal. Esperávamos a hora da Missa na sala íntima, perto da cozinha, onde se não recebem visitas mas faz menos frio que no resto da casa. Conversávamos, as senhoras com os pés enfiados em seirões felpudos, sobre botijas de água quente, os homens com capotes pelos ombros; ouvia-se o crepitar festivo da lareira; e toda a gente gozava com delícias aquele conforto, enquanto lá fora, o vento norte, – de que, de vez em quando alguém nos trazia notícias – assobiava, agudo e retalhante… Nisto, começou minha tia Adelaide a falar do que acontecera, há muitos anos, a um certo Manuel e a sua mulher, Maria… Sem a velhinha certamente dar por isso, a narrativa tomou logo a feição e o tom das histórias de serão, repetidas pelas avozinhas que já não podem fiar o linho nem fazer meia, para entreter os netos que não querem nunca ir tão cedo para a cama… Era a mim que a linda octogenária especialmente se dirigia; as suas palavras, envolvendo-se de carinho, readquiriram a ternura do tempo em que ela ajudava minha Mãe a criar-me; e eu sentia comover-se, dentro do meu coração, um coração de criança…

Pudesse eu reproduzir aquela linguagem e fazer-vos experimentar, um momento que fosse, aquela emoção!

 A casa estava às escuras. O Manuel descera ao sótão, a buscar lenha para o lume, e a mulher, sentada como se deixara ficar no degrau da lareira, chamava por ele, ralada da demora:

 – Avias-te ou não te avias?

 – Lá vai, que pressa!

Subia já a escada, com um braçado de cavacas, das mais enxutas, e trazendo pendurada na outra mão a candeia de três bicos, cuja luz subia, cor de ouro velho e doce como o azeite que a alimentava.

 – Nem que fôssemos tirar alguém da forca, rapariga! Ora não te doa a cabeça enquanto tivermos que esperar pela Missa do Galo. Pega lá a candeia.

Depôs a lenha a um canto, separou as achas, as mais delgadas ali à mão e as outras para depois. Com uma mão cheia de agulhas secas de pinheiro, preparou o fogo; ajoelhou; longamente, com as bochechas inchadas, soprou; e por trás do seu vulto acocorado em breve a fogueira rompia, garbosa e estralejante, arremessando ao ar as labaredas que faziam dançar pelas paredes, estranhamente aumentada, a sombra dos petrechos caseiros.

 – Ora, aí tens, vês? Traz para cá isso.

Era o alguidar vidrado, onde a massa leve de abóbora menina já certamente apurara. Atiraram então ao fogo uma larga trempe de ferro, assentaram-lhe em cima, bem firme, a sertã maior, com dois dedos do azeite do novo, do acabado de colher. Gravemente, a Maria foi lavar as mãos, enxaguou até os fortes braços tão afeitos a bater a roupa como a brandir a enxada… Armou-se depois duma colher de pau, só usada naquele cerimonial; e enterrando-a na mesa cor de roa, entornando-a sobre a sertã, deixava cair do alto os bolos informes que logo à flor do azeite cresciam, empolavam e se arredondavam, e se afofavam, dando essas prodigiosas filhós de Natal que até aos anjos – afirmava a Maria, vaidosa de possuir, como poucas, o segredo de tal manjar – até aos anjos fariam água na boca!

Do outro lado, o Manuel, com um garfo, caçava-as alegremente. Mas era um desajeitado, enganava-se, fisgava duas duma vez – e isto com grande aflição da mulher que a cada momento lhe sustinha o bote desastroso, o ameaçava com a colher.

– Essa não, a outra, tira para fora que se não esturra! Ai, que és mesmo os meus pecados!

Quanto mais ela falava, mais ele ria, ria. Para a amofinar, fazia menção de levar o garfo à boca quando tirava alguma das mais tentadoras. Capaz era ele, o mafarrico, de quebrar um jejum tão sagrado como o da véspera de Natal! Só a lembrança, brincalhona embora, de tal sacrilégio, sacudia de terror a alma da companheira:

 – Olha, quem não jejua em véspera de Natal, ou é herege ou animal. Não te digo mais nada!

E ele, numa galhofa:

 – Só para te ouvir, criatura; só para te ouvir!

Entretanto, ia o monte das filhós crescendo no outro alguidar, onde, de vez em quando, a Maria espalhava um grosso fio de mel. A massa acabava-se: era preciso rapar em volta, para juntar as colheradas; e a Maria, dá-lhe que dá-lhe, apressava a tarefa, com o pensamento numa caridade que tinha a cumprir antes da Missa do Galo. Na torre da freguesia bateram horas.

– Hão-de ser dez… opinou ela.

– São mas é nove! Afirmou ele.

Três, quatro, cinco… e no silêncio da noite, pausadamente, bateram onze. Então a Maria, arrancou o garfo das mãos do marido, espetou as últimas filhós, numa azáfama, esquecendo-se do mel, só pensando em terminar, abalar para a sua obra de misericórdia. Como o tempo passara. E a pobre Carolina, que seria dela, talvez sozinha no casebre, a morrer…

– Então, para pior, a Carolina? Perguntou o homem.

– Sempre, coitadinha!

Enquanto arrumava os alguidares e dava outra enxaguadela às mãos laboriosas, contou a Maria como se agravara a doença da vizinha desde manhã cedo, quando ele partira para a cidade, a vender um cesto de aves de sua criação. Estava desenganada, a Carolina. E aquelas dores, aquelas dores! Por mais que o mestre cirurgião fizesse, não houve dar-lhe ao corpo martirizado um momento de alívio. E sem consentir nada na boca, nem à mão de Deus Padre… A Maria, com tanta pena da desgraçada, matara-lhe um frango – pois nem o caldinho provara! Depois, uma perdida, sem família, toda a gente fugia dela…

– Mas sozinha, sozinha? Perguntou o Manuel apavorado.

Sozinha ou aquilo era a mesma coisa. As Senhoras das Poças tinham mandado para lá a pastora das ovelhas, a Tinhosa. Mas a Tinhosa que jeito tinha para aquilo – ou fosse para o que fosse? Assim, a Carolina se via em cima de uma enxerga, tão desamparada, tão castigada, Jesus, da sua má vida!

Diante de tal infortúnio, o Manuel começava já a lacrimejar, com o seu puro coração de rústico a transbordar de piedade…

– E o menino?

– Uma medalha, para tu veres! A ti’ Ana até se admirou – que nunca lhe viera às mãos anjinho tão perfeito!

Estava tudo no seu lugar para a Consoada. Combinaram então que, quando tocasse para a missa, o Manuel passaria pela azinhaga, para levar a companheira.

– Sim, fazes bem, eu lá vou ter. Leva o capote, criatura! Pois com uma inverneira destas! E vai descansada. Assim que tocar…

A fogueira esmorecera. Sentado no degrau da cozinha, com um cigarro esquecido nos beiços, ficou o Manuel a cismar… Mundo de Deus, só Ele o entendia; graça de Deus, só Ele sabia por que mãos a distribuía, conforme as boas ou más ações de cada um… Mas ali estava a Carolina, uma perdida, com um menino assim robusto, assim escorreito, que ela decerto não desejara, ao passo que ele, Manuel, e a companheira tanto pediam, sem serem ouvidos – pelos seus muitos pecados! Tinham até feito uma promessa a Nossa Senhora de Vale de Nogueira, que, para milagres, digam o que disserem, não há outra… Quando a Maria, um dia, segredou ao seu homem que andava com umas desconfianças, foi uma folgança, uma loucura naquela casa! Um filho, pequenino primeiro e tatibitate; logo, crescendo a olhos vistos, crescendo até dar um esperto e chibante garotaço, com diabruras de fazer rir às pedras; depois homem feito, a ajudar o pai no amanho das terras, a fazer finalmente as suas vezes, quando viesse a fraqueza e as molezas da velhice… Ambos desejavam que fosse menino e já estava decidido que juntaria no nome os nomes dos pais, continuando a união dos seus corações. E perguntavam um ao outro: – Manuel Maria, que tal? – Parecia um nome de oração. Ou então, um nome para cantar, Manuel Maria… Que lindeza de nome!

Nas últimas semanas, volta e meia trazia o Manuel alguma coisa para o “Morgado”. Era uma touquinha, uma figa, uns sapatinhos… O berço foi encomendado ao melhor marceneiro dos sítios. Uma doidice, uma doidice!

Mas aí, grandes pecados eram os seus! O anjinho veio ao mundo, já morto. As roupas de boneca que a mãe talhara e alinhavara durante tantos serões não chegaram a sair da arca de castanho; o rico berço lá ficou para o canto; e nunca mais a Maria murmurou ao ouvido do seu homem aquela nova vinda do céu…

Afundado nessas recordações, o Manuel fumava cigarros a eito, deixando, à falta de lenha, apagar-se o fogo da lareira – como àquela hora se devia estar apagando a vida da Carolina. Um repique de sinos alegrou os ares. O lavrador sentiu-se como sacudido por dentro; levou as mãos aos olhos, com a impressão momentânea de ter adormecido diante da fogueira extinta. Era a primeira chamada para a Missa do Galo. Teve ainda um suspiro profundo, desoprimente; cobriu-se com o grosso chapéu alentejano, pôs aos ombros o gabão de saragoça e foi-se a buscar a companheira.

Encontrou-a à cabeceira da Carolina, rezando, com o menino ao colo, a pastora das Poças, encolhida a um canto, coçava a cabeça que a tinha escalavrada; uma candeia triste e fumarenta derramava o calor da sua luz mortiça; e no catre, a enferma sumia-se sob a coberta de retalhos, esfiapada.

– Então, Maria?

– Está a decidir, a pobrezinha.

O Manuel fazia rodar nas mãos o chapeirão alentejano, embaraçado, sem saber… Mas, então, teria que ir sozinho à Missa do Galo?

– Que remédio! Por que, também, deixar aqui esta alminha, ao desamparo… Vai tu, meu homem, vai. Nosso Senhor há-de perdoar.

– Se há-de!

A Maria recomeçou as suas orações; e ele saiu muito triste de ir só – pela primeira vez, imaginem – mas consolado de pensar na generosa ação da companheira. Ninguém no lugar quisera saber da Carolina, vissem que gente! Todos haviam passado o serão cantando loas ao Menino Deus, ou entretidos com histórias de bruxedo, diante dos tachos da ceia. Por via dela ter andado em más companhias, por feiras e arraiais… Mas não era uma alma cristã como as outras? E então à hora da morte… Gente sem coração!

Entrou na Igreja quando a missa ia começar. Ajoelhou com toda a devoção; mas benzia-se e batia no peito maquinalmente, por ver os outros. Não lhe saía do pensamento aquela miséria, aquela criança. A mãe de certo ia para o céu, perdoada, enfim, pois que tanto sofrera; mas ficava o inocente, só no mundo… Quando o abade saiu do altar, o Manuel foi com os outros beijar o pé do Menino, deixar-lhe na salva uma moeda de prata que, de nova, reluzia. O Presépio estava naquele ano mais rico, enfeitado pelas Fidalgas da Gândara, com muitos bordados, muitas camélias, muitas velas cor de rosa. O divino Inocente sorria no seu berço de ouro; e foi ao curvar-se para lhe depor no pezinho o beijo da devoção que o Manuel com mais veemência, mais lá de dentro, pensou no filho da Carolina. Também ele nasceu naquele dia – mas sob tão má estrela, tão desgraçadinho…

Tomou de novo o caminho do casebre, quase às carreiras. Era uma ansiedade de chegar, saber… Na quelha, tropeçou duas vezes, por um triz não rolou sobre os pedregulhos. E não pôde entrar logo; estacou à soleira, olhando a mulher que, sempre com o embrulho ao colo, ia buscar duas velas, as acendia à cabeceira do catre…

– E então?

– Finou-se agora mesmo.

O Manuel deu dois passos, tirou o chapéu, no respeito da morte que ali entrara. E o pouco que sabia de orações, tudo murmurou, pelo descanso daquela alma sofredora.

– Agora vamos… disse a Maria. E como a despedir-se ou a desculpar-se, olhando a morta: – Já não precisa de nós… nem de ninguém.

Recomendaram à Tinhosa que não saísse dali antes de chegar alguém, e partiram, mais tranquilos, aliviados, para a sua casa, para a sua Consoada.

Enquanto a mulher aconchegava no vasto leito doméstico o inocente adormecido, tratava o Manuel de reavivar a fogueira, soprando a cinza, donde as fagulhas irrompiam num júbilo de ouro vivo.

 – Dorme como um anjo… disse ela, afastando-se do leito, mas ainda de olhos no órfãozinho.

 – Amanhã arranjamos o berço do nosso, não é assim? E fica para ele.

 O Manuel, num alvoroço:

 – Mas… Olha lá, é sério? Tu queres?

 – Como não, meu homem! Isto, foi Nossa Senhora de Vale de Nogueira, nem mais, nem menos. A nossa promessa… Não vês que a nossa Senhora nunca falta, quando é do coração?

Aturdido, o Manuel não respondeu logo. Cravava os olhos na companheira, no fogo reanimado…

– Pois viva! Exclamou por fim, num arrebatamento: – Louvada seja Nossa Senhora, e abençoada tu sejas, cachopa de minha alma!

Abraçou-a, soluçando. Pela face barbada, corriam-lhe, duas a duas, lágrimas grossas como bugalhos.

– E há-de-se chamar Manuel Maria, pois então? Ai que rebento de alegria! Vamos às filhós!

Biobibliografia de “João Luso”

Dezembro 21, 2010

(n. Lousã, 16 de janeiro de 1874 – f. Rio de Janeiro, 6 de janeiro de 1950).

Depois dos estudos secundários em Coimbra, Armando Erse de Figueiredo – que se tornaria conhecido como jornalista e escritor – emigrou aos 17 anos para São Paulo, empregando-se no comércio, até que decidiu enviar um primeiro artigo ao Diário Popular, que tinha como figura de proa o jornalista português José Maria Lisboa. O artigo saiu, Armando/João insistiu e acabou destacando-se como jornalista, atuando no jornal de estreia e em O Estado de S. Paulo, no Correio Paulistano e na Revista Literária e Paulicéia.

Publicou o seu primeiro livro em 1896 (Contos da Minha Terra) e foi também secretário da redação do Diário de Santos. Mais tarde, mudou para o Rio de Janeiro, secretariando a redação do jornal Imprensa, dirigido pelo grande tribuno Ruy Barbosa, além de colaborar no Jornal do Commercio, na Revista da Semana e no jornal A Noite, sendo considerado um dos grandes nomes do jornalismo brasileiro.

Teve igual êxito no teatro, quando escreveu a peça Nó Cego, além de ter traduzido mais de duas dezenas de textos teatrais, ao mesmo tempo em que foi publicando livros. Eleito sócio-correspondente da Academia Brasileira de Letras (a mais alta expressão literária do País), o Governo de Portugal condecorou-o com o Oficialato da Ordem de Santiago da Espada e o do Brasil atribuiu-lhe a Comenda da Ordem do Cruzeiro do Sul.

Famoso, “João Luso” usou também os pseudônimos de “Clara Luzia”, “Leopoldo Maia” e outros, mas foi o primeiro que lhe deu maior glória. E não só o nome (“Luso”), mas também o sentimento mantiveram-no sempre ligado à Pátria-Mãe, conforme testemunham os inúmeros artigos que consagrou a Portugal, alguns dos quais foram reunidos no volume Assim falou Polidoro. Temos notícia de que revisitou Portugal em 1930: “Acaba de regressar à Lousã, sua terra natal, após largos anos de ausência, o sr. Armando Erse de Figueiredo, vigoroso jornalista que sob o pseudónimo de ‘João Luso’ colabora no jornal A Noite, do Rio de Janeiro, onde conquistou uma situação de destaque. /Hoje realiza-se no Grémio Recreativo de Lousã um jantar de homenagem a João Luso, ao qual assistirão muitos lousanenses e admiradores do homenageado. /O serviço é fornecido por um dos principais restaurantes de Coimbra” (in A Comarca de Arganil). Bons tempos!

Sonho ou realidade? Lembro que pode ser conto ou crônica, assinalando que no volume Textos Dispersos, publicado em 2001 na Lousã, há outros trabalhos que continuam a digressão lousanense: seguem-se à “Volta a casa”, os contos meio ficção, meio de evocação, “O Castelo e a Capela”, “Um pastor”, “Nossa Senhora da Nazaré” e “A bruxa”, indicando-se que terão sido publicados em 1909 no Rio de Janeiro. É há outros de 1932, 1935 e 1941, assim como diversos não datados, entre os quais o intitulado “Lousã no Coração (fotografias de Francisco Ferreira)”. E foram reproduzidos outros dois com o mesmo título, “Dez de Junho” (um de 1932 e o outro de 1942).

Todas estas considerações de “João Luso” devem salientar-se entre os documentos irrefutáveis que acompanham os emigrantes nos chamados “países de acolhimento”. Era assim no tempo dele – e ainda hoje é assim!

Enumeramos, por fim, alguns dos principais livros (com várias edições) de “João Luso” – o lousanense Armando Erse Figueiredo: Contos da Minha Terra (1896), Prosa (1904), Histórias da vida (1907), O Amor, a Tragédia e a Farsa (1907), Ao Sol e à Neve (1909), Elogios (1916), As entrevistas de Expedito Faro (1917), Comédia Urbana (1920), Reflexos do Rio (1923), O Despenhadeiro (1925), Os Menezes de Haddock Lobo (1925), Alegria e Ternura (1925), Contos de Natal (1930), Viajar (1932), Terras do Brasil (1932), Ares da Cidade (1935), Os animais vossos irmãos (1937), Vocês Criminosos (1938), Assim falou Polidoro (1941), Orações e Palestras (1941), Fruta do Tempo (1945), Louvores (1946), Quatro Conferências (1949). *

 * Reproduzido do volume Textos Dispersos (2001), editado na Lousã.

O NATAL DA MINHA ALDEIA

Dezembro 20, 2010

Por António Lopes Machado 

Na minha aldeia também havia Natal, mas era diferente.

Não. Não havia chaminé, quanto mais brinquedos.

Mas havia cozinha com lareira, as paredes negras de fumo, que se ia escapulindo por entre uma ou duas telhas levantadas no telhado. E quando se fechava a porta ou a janela, por causa do frio, o fumo saía mal, espalhava-se pela cozinha e enchia-nos os olhos de lágrimas.

Lá ao longe, para as bandas do Norte, via-se perfeitamente a Serra da Estrela coberta de neve durante o dia ou até naquelas noites de luar muito claro. Quando os ventos vinham de lá, a aragem gelada era como facas a cortar-nos os lábios e a encher-nos as mãos de frieiras, por andarmos sempre que podíamos a aquecê-las à chama da fogueira.

À noite, aconchegados à lareira, com o fogo acariciador a aquecer-nos só daquele lado, ouvia-se por vezes lá fora o latir das raposas famintas e enregeladas.

O meu pai não tolerava o frio e preferia aguentar o fumo, sempre com a garrafinha do vinho a amornar junto da pilheira de cinza.

A minha mãe deitava-se sempre tarde, sem ninguém que a ajudasse a arrumar as coisas da casa e a fazer ferver os panelões de comida para o porco. Mas preferia a porta aberta e aguentar o frio, do que aquela fumarada que quase nos sufocava.

Na noite de Natal fazia as filhós, deliciosas quando estavam ainda quentinhas. Mas nunca antes da meia-noite.

No inverno as noites são muito longas e nas aldeias as pessoas deitam-se normalmente cedo.

Mas eu gostava sempre de me deitar na lareira, pertinho do lume, a regalar-me com o calor da fogueira. Mas depois era sempre um martírio para me fazerem ir para a cama. Havia barulho todas as noites.

Uma vez fizeram-me a partida. Foram-se todos embora e deixaram-me ficar sozinho. Às tantas da madrugada acordei estremunhado e cheio de frio na cozinha negra, com a “vizinha” aos gritos e um forte cacarejar de galinhas.

A raposa viera andar a rondar as casas e farejar a capoeira dela. Fez um buraco na terra por baixo do tapume de madeira e entrou lá dentro. Em pouco tempo fez uma razia. As galinhas começaram a fazer um barulho infernal. Quando acorri à varanda, assustado e mal desperto, ainda vi a vizinha na noite enluarada, descalça e em fralda de camisa, com uma galinha na mão e a gritar à raposa que fugia com outra nos dentes.

Serviu-me de emenda. Creio bem que nunca mais deixei de despertar quando me chamavam para ir para a cama.

 *****

Mas na noite de Natal, a pensar nas filhós, não havia sono.

Com um dos meus irmãos e o Zé Rafael resolvemos entreter o tempo, preparando um “Cepo de Natal”. Mas quando pensamos nisso já era noite.

Nós gostávamos sempre de acamaradar com o Zé Rafael, porque ele era valente, desenrascado e tomava sempre a iniciativa. Muito embora na hora do perigo, se fosse preciso fugir, não olhasse para trás nem esperasse por ninguém…

Não tínhamos Cepo? Era fácil resolver o problema.

 – O Ti “Ferreiro” costuma ter aqui o machado no “coberto” – diz o Zé Rafael.

Tateia com as mãos no escuro e logo o encontra. Junto ao barroco paramos, como que a orientar-nos. Noite silenciosa e fria. Só se ouvia o correr da água entre as pedras ali ao lado. E lá muito longe o latido de um cão.

Logo ali, uns metros acima, no meio do pinhal havia um pinheiro seco, já meio tombado, encostado aos outros.

– Vamos já aqui – diz o Zé Rafael, marinhando pelo pinhal acima, orientando-se no escuro.

A cada golpe de machado, manobrado com força, o pinheiro ia dando de si. Até que, quase degolado, inclinou-se e caiu no chão com grande estrondo.

Por momentos ficamos silenciosos a ouvir os efeitos.

Despertado por barulho estranho, Ti “Ferreiro” veio à varanda e bradou para a escuridão da noite: – Quem anda aí a esta hora?!…

Ninguém respondeu.

Repetiu a chamada. O mesmo silêncio. Ficou uns momentos mais e recolheu-se, meio convencido de que terá sido impressão sua.

Passados alguns momentos, Zé Rafael pega num grosso toro aos ombros, o meu irmão pegou no outro, e eu, que era o mais pequeno, levei o machado, que coloquei no mesmo sítio, e um panelo de resina para atiçar o lume e servir de acha.

No Largo da Fonte, que era o ponto de encontro na povoação, atiraram com os dois rolos para o chão e acenderam-lhe ao pé o panelo de resina, que ardia como uma tocha.

A madeira seca em breve começou a crepitar e nós ficamos ali algum tempo a sentir o calor agradável da fogueira.

Quando chegamos a casa a minha mãe estava a fazer as filhós.

Assim quentinhas, acabadas de fazer, eram deliciosas. Foram sempre a melhor guloseima da noite de Natal na minha aldeia, quando eu era pequeno.

 *****

No dia de Natal íamos à missa a Pombeiro, que nesse tempo ainda não tinha o complemento da Beira. Era um dever e uma tradição. O Cepo ainda ardia e ali nos juntamos todos estendendo as mãos para o calor que vinha das brasas em que se iam transformando os dois troncos.

A viagem era longa. Quase duas horas de caminho. Mas íamos em grupo, fatinho novo, era uma festa.

Durante a noite todas as gotas de água solidificaram e se transformaram em caramelo, e debaixo dos pés sentíamos o gelo quebrar-se como vidro, porque Natal sem neve ou geada não era um verdadeiro Natal.

As raparigas casadoiras, todas embonecadas, levavam calçadas umas tamancas no caminho enlameado e à entrada da vila guardavam-nas e calçavam os sapatos, escovados e engraxados, para entrarem na igreja impecáveis.

A missa de Natal era sempre mais demorada. Mas o que mais me maravilhava era o Presépio. Foi o primeiro Presépio que vi na minha vida.

Andava ali por certo a mão do bom padre Benjamim, que era um artista, constantemente agarrado ao seu banco de carpinteiro, como um S. José.

A figurinha do Menino na manjedoura, com as outras figuras do burro e da vaquinha, a Nossa Senhora e S. José, os Reis Magos vindos do Oriente, os pastorinhos todos com as suas oferendas, percorrendo acidentados caminhos de montanha em direção a Belém, guiados por uma estrela luminosa, tudo preparado com musgo autêntico, aquele Presépio era uma verdadeira maravilha.

Ficou-me para sempre na memória. Aquele Presépio, que enterneceria a curiosidade e o interesse de qualquer criança, é das coisas mais maravilhosas que recordo do Natal da minha aldeia..


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