Bairro de Judeus – As mulheres de saias abaixo dos joelhos, mangas compridas, golas altas

Por Raquel Naveira

Vim morar em São Paulo num bairro de judeus. Gosto de vê-los na rua, os homens com suas barbas longas, capotes pretos, faça frio ou calor, sol ou chuva. As mulheres de saias abaixo dos joelhos, mangas compridas, golas altas, meias, de mãos dadas com os filhos. Os homens usam chapéus de feltro ou kipás, pequenas toucas em forma de circunferência, que representam respeito no momento das orações e a certeza de que há alguém acima de nós. As mulheres protegem a cabeça com lenços de seda ou perucas, pois só os maridos podem ver seus cabelos soltos na intimidade. Parecem saídos de um livro de história ou terem chegado recentemente do Leste Europeu. Há uma aura de dignidade e temor de Deus ao redor deles, carregando no rosto e nas vestes as marcas de sua fé, de sua disciplinada devoção.

A cada esquina, uma sinagoga. Colunas altas, soleiras de mármore negro. Tudo muito fechado, mas consigo imaginar a arca sagrada, a luz entrando pelos vitrais, projetando-se sobre o altar iluminado pelo candelabro de sete velas, o menorá. Posso ver o rabino desdobrando os rolos do Torá, espalhando as bênçãos divinas e os clamores ressoando desde o Muro das Lamentações até esta terra de uma América distante. Posso sentir a energia que se potencializa na hora em que o sol se põe e salpicam no horizonte as primeiras estrelas, tímidas no céu desta cidade cinzenta.

Nos supermercados e sacolões da região, vendem-se produtos kosher, como carne salgada sem sangue, selecionada, abatida e preparada de acordo com regras específicas. Os animais, por exemplo, não devem sentir dor na hora do sacrifício. Os comerciantes colocam faixas, enfeites e frases saudando as festas judaicas como o Yom Kippur, dia do Perdão; o Chanucá, Festival das Luzes e o Purim, Festival das Sortes. São celebrações de uma tradição de mais de cinco mil anos. As compras irão para a mesa judaica que é rica e de reforçados alicerces. Sobre ela as couves, as frutas, os vinhos, as hortaliças, as especiarias, as castanhas, os molhos, os peixes com escamas e o pão, sem fermento e do trigo mais fino e branco. Ao redor da mesa contam-se fatos notáveis ocorridos na vida do povo judeu; transmitem-se conhecimentos; dividem-se alegrias, tristezas, crenças e utopias. É o momento também dos questionamentos, das perguntas feitas para se renovar sempre o pacto de um laço que é ao mesmo tempo família, religião, filosofia, cultura e estado.

Como é lindo ser judeu. É ato de resistência, busca de identidade, visão de uma obra, sede de imortalidade da alma. Quando Davi feriu Golias, o fraco se impôs ao mais forte. Deus ao lado dos fracos: que grande novidade para um mundo acostumado com a força bruta, a violência ou com a esperteza sagaz dos lobos e das raposas.

Quando entrei naquela rua de prédios altos e árvores verdes que dão na sinagoga, que poderia ser o próprio Monte Sinai perto do espigão da Paulista, deparei-me com um judeu de camisa branca e kipá, que ia atrás do filho de uns três anos, loirinho, já também de kipá na cabeça, esforçando-se em pedalar um triciclo. No meio da quadra, o menino voltou-se e gritou: “- Aba, aba.” Fui colhida por aquele grito, “Aba”, “Papai” em hebraico. Que forma carinhosa de chamar o pai.

Marcos em seu evangelho registra que Jesus, ao orar a Deus, pouco antes de sua morte, disse: “- Aba, Pai, tudo te é possível, afasta de mim este cálice. Todavia não seja o que eu quero, mas o que tu queres.” Que fervoroso apelo, como Jesus foi obediente ao seu Pai, marchando para sua morte de cruz.

O menino repetiu: “- Aba, aba.” A emoção tomou conta de mim e me cobriu como um talit, aquele xale de franjas.

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