Arquivo de Outubro 2009

Aos amigos dos Blogs

Outubro 16, 2009

Em virtude de viagem a Portugal do Prof. João Alves das Neves, onde foi contactar um grupo de futuros colaboradores, informamos os amigos dos nosso blog que só retomaremos as nossas atividades jornalísticas normais no início de novembro.

A Equipe da Revista Lusofonia
(96) 245-9660

Anúncios

“OS SERTÕES” de Euclides da Cunha e o Sebastianismo de António Conselheiro

Outubro 10, 2009
Centenário 

“OS SERTÕES” de Euclides da Cunha e o Sebastianismo de António Conselheiro

João Alves das Neves (*)
Retrato de Euclides da Cunha - fonte: blog.estadao.com.br

Retrato de Euclides da Cunha - fonte: blog.estadao.com.br

Com aproximação do centenário da morte de Euclides da Cunha (19 de Agosto de 1909) impõe-se nova leitura da reportagem de Canudos e do livro Os Sertões.

Recorda-se que a viagem foi realizada  por sugestão de  Júlio Mesquita, diretor de O Estado de S. Paulo, após a publicação neste jornal dos 2 artigos de Euclides sobre A nossa Vendéia (em 14 de Março e 17 de Julho de 1897), estabelecendo paralelos entre a insurreição dos “vendéanos” (1793 a 1796), que combateram os excessos da Revolução Francesa,  reprimindo as atividades religiosas. No caso do Brasil, era o combate republicano aos monarquistas. 

Neto do comerciante português  Manuel da Cunha e filho do também comerciante Manuel Rodrigues Pimenta da Cunha e de D. Eudóxia Moreira, o futuro militar, engenheiro e escritor nasceu em 20 de Janeiro de 1866 numa fazenda de Cantagalo (Rio de Janeiro) e morreu em Piedade (RJ) no dia 15 de Agosto de 1909, mas foi com os artigos comparando os acontecimentos da Vendéia e de Canudos (no Vale do Iripiranga ou Vaza-Barris) que começou verdadeiramente a sua carreira literária. 

Euclides salientava que Canudos albergava “a horda dos fanatizados sequazes de Antonio Conselheiro, o mais sério inimigo das forças republicanas” e citava a Vendéia,  acrescentando: “A mesma coragem bárbara e singular e o mesmo terreno impraticável aliaram-se, completaram-se. O chouan fervorosamente crente (dos vendeanos) ou o  tabaréu  fanático, precipitando-se impávido à boca dos canhões que tomam a pulso, patenteiam o mesmo heroismo mórbido numa agitação desordenada e impulsiva de hipnotizados”. 

No 2º. artigo, Euclides comenta a “notícia do lamentável desastre” sofrido pelos militares que haviam enfrentado “a horda dos fanatizados sequazes de Antonio Conselheiro” e compara o “desastre” aos suportados pela Inglaterra, França e Itália ou pela Espanha  no combate aos insurretos de suas colônias, no início do século XIX e aguardava \a vitória das tropas da República, “quando forem desbaratadas as hordas fanáticas do Conselheiro.  Não foi tanto assim…  mas as informações de Euclides levaram Júlio Mesquita a convencê-lo a fazer a reportagem sobre o fenômeno de Canudos e no dia 7 de Agosto de 1897 ele escrevia a primeira crônica, ainda a bordo do vapor “Espírito Santo”, pelo qual chegara a Salvador  (“O Estado”, 18-8-1897). E mais uma trintena de crônicas seriam divulgadas, a última das quais  sob o título de “O Batalhão de São Paulo” (26-10-1897). 

Em 10 de Agosto, o repórter escrevia de Salvador: “A opinião geral, entre os combatentes que voltam, é que estamos no epílogo da luta.” E em 12 de Agosto falava do regresso dos feridos, dando outros pormenores dos combate e em  13, 15, 16, 18, 19, 20 e 21. Somente em 1º. de Setembro seguiu para a “frente” do conflito, informando de   Queimadas: “o dia esgota-se em preparativos de viagem”, mas voltou a escrever da mesma povoação no dia 4 e, no mesmo dia, enviou carta já de Tanquinhos. A 5 deu notícias de Cansação e, nesse dia, escreve de Quirinquinquá e, em  6, 7, 8, 9, 10 e 11 de Monte Santo, dizendo que no dia 10 já avistara “o imenso arraial de Canudos”, sublinhando: “Dois meses de bombardeio permanente não lhe destruiram  a metade sequer das casas (…) E olha-se para a aldeia enorme e não se lobriga um único  habitante.” 

A narrativa prosseguiu  em 24, 26 e 27 e  adiantou que nesta última  madrugada a fuzilaria  tinha durado 2 horas e meia, adiantando que desde as 9 da noite houvera mais tiroteio até às 9 da manhã seguinte. No dia 29 de Setembro, mais tiros. E em 1º. de Outubro ‘”foi ordenado o assalto” às posições do Conselheiro, esclarecendo: “A noite desceu serenamente  sobre a região perturbada do combate e rasgando o seio da noite, caindo, insistentes, sobre todos os pontos da linha do cerco, sibilando em todos os tons, sobre o acampamento, inúmeras, constantes,  da zona reduzida em que se encontravam os jagunços, irrompiam as balas”. E com estas palavras Euclides da Cunha fecha a reportagem. 

                                  

O Sebastianismo do Conselheiro

Os paralelos que possam estabelecer-se entre a série de textos jornalísticos  e Os Sertões são evidentes,  apesar de haver pormenores do repórter que não foram repetidos na obra literária – um dos mais importantes clássicos das Letras Brasileiras. 

A reportagem não entro, porém, na análise da influência que Antonio Conselheiro recebeu, inequivocamente, do Sebastianismo , que pairou igualmente sobre outros místicos brasileiros  (um estudo que ainda não se fez, apesar de numerosas aproximações, tanto no Brasil como em Portugal). No entanto, o escritor de Os Sertões fala claramente desse misticismo que tão profundamente é guardado pelo espírito lusíada. 

Euclides da Cunha comenta essa ligação dos dois povos atlânticos e documenta-a expressicamente no seu livro principal: 

            “E no meio desse extravagante adoidado, rompendo dentre o messianismo religioso, o messianismo da raça levando-o  `insurreição contra a forma republicana: 

            “ Em verdade vos digo, quando as nações brigam com as nações, o Brazil com o           Brazil, a Inglaterra com a Inglaterra, a Prússia com a Prússia, das ondas do mar  D. Sebastião sahirá com todo o seu exército e o restituio em guerra.

             “Desde o princípio do mundo que encantou com todo seu exército e o restituio 

            em guerra. 

            “ E quando encantou-se afincou a espada na pedra, ella foo até aos copos e elle

             disse: Adeus mundo! 

            “Até mil e tantos e dois mil não chegarás! 

            “Neste dia quando sahir o seu exército tira  a todos no fio da espada deste papel da República. O fim desta guerra se acabará na Santa Casa de Roma e o   sangue hade ir até á junta grossa…”

 

Intervém  Euclides da Cunha para completar:

“O profetismo tinha, como se vê, na sua boca, o mês,o tom com que despertou em Frigia, avançando para o Ocidente. Anunciava, idêntico, o juízo de Deus, a desgraça dos poderosos, o esmagamento do mundo profano, o reino de mil anos e suas delícias”. E Euclides vai mas longe ao indagar: “Não haverá, com efeito, nisto, um traço superior de judaísmo?”  

É com base nas trovas Sebastianistas da época que Euclides reproduz algumas delas:

                         “Sahiu D. Pedro segundo

                        Para o reyno de Lisboa

                        Acabou-se a monarquia

                        O Brazil ficou atoa!

 

E atacava os incréus:

                        “Garantidos pela lei

                         Aquelles malvados estão,

                        Nós temos a lei de Deus

                        Elles tem a lei de cão! “

 

                        “Bem desgaçados são elles

                        Pra fazerem a eleição

                        Abatendo a lei de Deus

                        Suspendendo a lei do  cão! “,,  

 

                        “Casamento vão fazendo

                        São para o povo illudir

                        Vão casar o povo todo

                        No casamento civil. “

 

            E logo  cantam os trovadores a pregação de Antonio Conselheiro:

                         “Dom Sebastião já chegou

                        E traz muito regimento

                        Acabando com o civil

                        E fazendo o casamento! “

 

                        “O Anti-Christo nasceu

                        Para o Brazil governar

                        Mas ahi está o Conselheiro

                        P’ra delle nos livrar! “

 

                        “Visita vos vem fazer

                        Nosso El-Rei D. Sebastião

                        Coitado daquelle pobre

                        Que estiver na lei do cão! “

 

A-par da sua permanente pregação, eram distribuídos em toda a parte  os tradicionais folhetos de cordel, que ainda hoje  circulam pelo Brasil, em especial no Nordeste, versos em que os militantes de Antonio Conselheiro difundiam os seus propósitos. Aliás, outros autores têm  estudado o Sebastianismo no Brasil, relevando-se dois romances, a título ilustrativo: Pedra Bonita, romance  de José Lins do Rego, e A  Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta, de Ariano Suassuna, que ficcionou a existência de cinco “Impérios Sebastiânicos” no Brasil, com vários reis, um dos quais foi degolado pelos vassalos que descobriram a farsa, mas nas lutas entre eles morreram cerca de 140 pessoas (em Portugal, também apareceram diversos “Reis D. Sebastião” e alguns  acabaram na cadeia ou foram condenados à morte). 

Escritores portugueses de mérito estudaram seriamente o problema do Sebastianismo, lembrando-se os nomes do historiador João Lúcio de Azevedo, de Antonio Machado  e de  António Quadros, devendo figurar também nesta lista o folclorista brasileiro  Luís da Câmara Cascudo e a pesquisadora Maria Isaura Pereira de Queiroz, que se pronunciou deste modo: “Anteriormente ao aparecimento de movimentos messiânicos propriamente ditos, existiu no Brasil uma crença proveniente de Portugal, o Sebastianismo, que mais tarde chegou a servir de base para pelo menos dois movimentos (…) – o  da Cidade do Paraíso Terrestre e o da Pedra Bonita”. 

 Porém, o mais ilustre defensor do Sebastianismo foi o Padre António Vieira (a seu modo, é claro), conforme  referenciamos no livros Temas Luso-Brasileiros (1963) e  Pe. António Vieira, Profeta do Novo Mundo (1,  bem como em Congressos e artigos.E oportuno será apontar a breve mas significativa  menção de Fernando Pessoa: “À memória de Antonio  Conselheiro, bandido, louco e santo, que, no sertão do Brasil,  morreu, como um exemplo, com seus companheiros, sem se render, batendo-se todos, últimos Portugueses, pela esperança  do Quinto Império e da vinda quando Deus quizesse, de El-Rei D. Sebastião, nosso Senhor, Imperador do Mundo. (in Pessoa Inédito, pref. e org, de Teresa Rita Lopes). 

Merece esta citação vir antes do remate final de Euclides da Cunha, n’Os Sertões: “Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a História resistiu até o esgotamento. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo,caiu no dia 5, ao  entardecer. Quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram; Eram 4 apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados.”                

                                                           ***

 Bibliografia Euclidiana:

Os Sertões (1902), Relatório da Comissão Mista Brasileiro-Peruana  de Reconhecimento do Rio Purus (1906), Castro Alves e seu Tempo  (1907), Peru  versus Bolívia (1907), Contrastes e Confrontos (1907), À Margem da História (1908), Canudos (Diário de uma Expedição, 1939), Discurso de Recepção na Academia Brasileira de Letras  (em Obras Completas, 1966).     

(*)  João Alves das Neves é  escritor, foi redator-editorialista de O Estado de S. Paulo e professor/pesquisador da Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero. Tem  mais de 25 livros publicados (6 sobre temas pessoanos), nasceu em Portugal e vive em São Paulo há 50 anos.

Manuel Bandeira: narrador de si mesmo

Outubro 10, 2009

Manuel Bandeira: narrador de si mesmo

Por Rita Alves
Manuel Bandeira - fonte: opinativas.wordpress.com

Manuel Bandeira - fonte: opinativas.wordpress.com

Embora muito se tenha escrito sobre a poesia cotidiana de Manuel Bandeira, gostaria de salientar o seu caráter dialético em que, a partir de um tema trivial, rotineiro, se é possível avaliar, questionar, fazer reflexões sobre o Homem, sobre o mais íntimo de seu ser, sobre questões universais que nascem a partir do nosso pequeno mundo, da casa, do ambiente que frequentamos diariamente, dos pequenos cantos e recantos em que nos permitimos a solidão que traz o devaneio e a força para a criação.

Alcides Vilaça, em seu ensaio “O Resgate Íntimo de Manuel Bandeira”, faz essa análise sobre a profundidade das coisas vulgares como ponto de partida para a singularidade:

“No impulso da simplicidade, com que logo nos cativa, a poesia de Bandeira projeta-nos a um só tempo no interior e na contra-mão do cotidiano: no interior, porque os elementos poéticos estão todos nele, reconciliáveis e familiares (inclusive os sonhos e as fantasias); e na contra-mão, porque a composição poética desses elementos, com seus critérios de proximidade atenta e afetiva, contraria o estado de dispersão e a impessoalidade que lhes impõe o ritmo moderno”.  

Bandeira se apropria do mundo (pequeno) ao seu redor de maneira a restaurar o caos que presencia, juntando em estrofes a dispersão dos elementos contraditórios que estão fora e dentro de si.  O poeta conquista um espaço só seu, amplia o sentido de solidão para qualificar o espaço, negando-o, recriando-o em poesia.

Em carta ao jovem Mário de Andrade, Bandeira mostra seu senso crítico não só em relação à forma – foco de atenção dos modernistas – mas também em relação ao tema tratado e à composição estrutural gramatical.  A crítica ao “lirismo comedido” é anterior à parnasianisação formal da poesia: “Eu gosto de você -, mas muito, – quando exprime seu alto e puro lirismo na cortante ironia da linguagem terra-a-terra (…) Compreendo e sinto agudamente o seu lirismo geométrico que me dá um gozo análogo ao que me deu  a Ética de Espinosa.”  (Carta de 03 de outubro de 1922)

É nessa vertigem ao tradicional superficial que Bandeira encontra a possibilidade de refazer assimetricamente o mundo espacial em oposição ao mundo pessoal.  Do conflito entre o socialmente permitido e o intimamente desejado nasce o sonho, o desejo, o objeto de confecção de sua poesia e a proposta de       uma nova realidade socialmente mais justa e de sentimentos mais profundos.  E é assim que podemos nos certificar de que, embora os temas do dia a dia permeiem sua poesia, estes são frutos de pesquisa, análise aprofundada da língua e da história e que o prazer que o leitor tem ao apropriar-se de sua poesia é compatível ao trabalho/esforço, ao empenho de criação (estrutural e de idéias) que Bandeira dispõe em cada ato, artesanalmente criativo, como um verdadeiro garimpo latentemente profícuo.  A poesia bandeiriana é poesia de fidelidade, especialmente à memória, desde que esta esteja intimamente ligada ao mundo presente, à certificação de que o micro-espaço se define pelo acúmulo de vivências passadas, gerando incansavelmente um novo presente historicamente justificado.

Aproveito-me da citação feita por Davi Arrigucci, em que abre seu ensaio “A Festa Interrompida”, com um fragmento de “Em Busca do Tempo Perdido”, in: “A Prisioneira”, de Marcel Proust “[…] o espaço e o tempo tornados sensíveis ao coração”, para proclamar, na poesia de Bandeira, o trânsito inequívoco entre a memória racional e a memória emotiva.  Fragmentos do que viveu e aquilo que se permitiu fixar em poemas, sensações tornadas concretas em palavras.

_______________

AUTO-RETRATO

Provinciano que nunca soube
Escolher bem uma gravata;
Pernambucano a quem repugna
A faca do pernambucano;
Poeta ruim que na arte da prosa
Envelheceu na infância da arte,
E até mesmo escrevendo crônicas
Ficou cronista de província;
Arquiteto falhado, músico
Falhado (engoliu um dia
Um piano, mas o teclado
Ficou de fora); sem família,
Religião ou filosofia;
Mal tendo a inquietação de espírito
Que vem do sobrenatural,
E em matéria de profissão
Um tísico profissional.

Bandeira toma a posição de narrador de suas experiências e sua poesia um épico de beleza tanto visual, conceitual e plástica, com o principal recurso da memória do espaço em que viveu, onde a própria história contrasta com o lirismo imanente em seus versos recheados de dor disfarçada de ironia, construídos com técnica e responsabilidade formal, ideológica, ampliando as dimensões do emergente modernismo brasileiro sem desatar as mãos dos tradicionais sonetos, enraizados em sua memória de origem portuguesa, criando uma tensa corrente de forças opostas, onde a fixação da imagem pictórica da infância perdida é estendida até a maturidade criativa, atualizando a memória do passado numa presença palpitante no presente da visão poética.

Este é o mais explorado espaço da poesia bandeiriana, o espaço da memória, onde vive e revive sensações que acumulou e que se desmancham, destilam-se letra a letra em cada poema, independente do tempo, da forma ou do espaço externo.

Um livro da Sociologa Maria Beatriz Rocha-Trindade

Outubro 10, 2009
Movimento Regionalista 

Um livro da Sociologa Maria Beatriz Rocha-Trindade

 
Maria Beatriz Rocha-Trindade

Maria Beatriz Rocha-Trindade

 

Depois de se ter notabilizado como pesquisadora dos problemas da Diáspora Portuguesa  através do Mundo, a Profª. Drª. Maria Beatriz da Rocha-Trindade,  que dirige o Centro de Estudos das Migrações e das Relações Interculturais (CEMRI) da Universidade Aberta de Portugal, vai lançar o livro A Serra e a Cidade (O triângulo dourado do Regionalismo).

Quer dizer, chega o estudo que faltava, embora não sejam de menosprezar os vários livros já publicados sobre o Movimento Regionalista em Arganil, Pampilhosa da Serra e Góis. No entanto, a documentação reunida pela autorizada ensaísta da nossa Emigração é pormenorizada, fundamentada  e cientificamente interpretada. Afinal, as questões da Diáspora e do Regionalismo cruzam-se freqüentemente, conforme observou a autora no decurso  de duas dezenas de anos de investigações na Imprensa e em numerosos depoimentos e acções que pôde acompanhar. .

A primeira parte do estudo que tivemos o privilégio de ler antes da publicação destaca “A Serra” – vistas e perspectivas da desertificação, referindo a seguir, entre  outras questões, as aldeias dos 3 concelhos, além de analisar a “História da migração interna” e o Regionalismo das Gentes da Serra,  “Associativismo Regionalista” , os eventos regionalistas,  financiamento da actividade regionalista, “Os caminhos do sucesso e a construção da notoriedade”,  “Novas imagens da Serra”: evolução e funcionalidade das estruturas associativas, o  problema da Regionalização e do Regionalismo, o futuro do Regionalismo e, baseando-se em documentos  (com vasta bibliografia) o dia a dia de um movimento que teve como pontos fulcrais as comissões, ligas e uniões de melhoramentos, etc.  Releva as actividades em Lisboa da Casa da Comarca de Arganil e das Casas dos Conselhos da Pampilhosa da Serra e de Góis.

E é ao falar do  Movimento Regionalista que a escritora Maria Beatriz Rocha-Trindade  sinalisa o futuro:  após as obras realizadas, a partir da 2ªdécada do século XX, acrescenta: “Aquilo que no passado poderia por algumas pessoas ser considerado apenas como acessório ou lateral passou a ter duas funções principais, nitidamente Diferentes uma da outra: por um lado, visar a  melhoria da qualidade de vida dos mais idosos, quer os residentes nas aldeias quer aqueles que a elas regressarão após a reforma; por outro, criar atractivos às populações mais jovens, tanto os residentes como os visitantes por ocasião de férias, além de proporcionar às crianças e jovens o gosto de estar na terra dos seus ascendentes.”

Não menos significativas são as interpretações sobre o Regionalização e o Regionalismo: “A criação (ou não) de Regiões Administrativas (…) foi submetida a referendo em 1998 e, nesse processo, foi rejeitada”. E diz ainda: “O conceito de Regionalismo, pelo contrário, nada tem a ver com a criação de Regiões Administrativas  ou com a organização dos poderes do Estado. É (…) um sentimento que resulta da iniciativa da sociedade civil, logo de natureza estritamente não-governamental.” 

´É muito valiosa a contribuição da Profª. Drª. Maria Beatriz Rocha-Trindade ao salientar a importância do Movimento Regionalista dos 3 concelhos, até porque  não tem similar em Portugal, nem sequer nos outros municípios da Beira-Serra, embora se trate de uma área empobrecida e em  fase de desertificação, mas, por isso mesmo, não deve ser ignorada pelos poderes públicos, antes pelo contrário. Porém,  essa é outra história… e vamos limitar-nos, por agora, ao registo das informações reunidas pela autora de A Serra e a Cidade, sublinhando que, salvo erro,  somente no município de Arganil existem 59 entidades regionalistas,  outras 48 em Góis e  63 na Pampilhosa da Serra. O total é impressionante: 170 associações regionalistas!

A estudiosa oferece dados sobre as datas de fundação: 3 no período da I República, 4 nos anos da ditadura militar  (1926-1930) e na época do Estado Novo foram implantadas mais 42 associações  e mais 4 (no período de 1960 a 1974), além de outras 6 após 1974.  Aliás, os governantes de ontem e de hoje pouco se têm empenhado pelo progresso das vilas e aldeias. Infelizmente, não dispomos dos dados que permitam identificar os gastos governamentais nos anos  ditatoriais e depois de 1974.

No capítulo da “Construção e Notoriedade”, a Directora do Centro de Estudos das Migrações e das Relações Interculturais da Universidade Aberta aponta, “entre os filhos da Serra”,  o Professor António Nogueira Gonçalves, que tanto contribuiu para prestigiar os intelectuais da Beira-Serra, mas certamente que o tempo e o espaço não lhe permitiram enumerar os inúmeros  Mestres Universitários oriundos da Beira-Serra (são em torno da cinquentena desses Beirões que constam da  Memória Professorum Universatatis Conimbrigensis de 1290 a 1937).

A autora do livro A Serra e a Cidade cita também entre os estadistas ligados à região o Prof. Dr. Marcello Caetano e na lista poderiam figurar José Dias Ferreira,  António José de Almeida e outros, ao passo que na Literatura jamais poderão ser omitidos Brás Garcia Mascarenhas, Visconde de Sanches de Frias, José Simões Dias, António Francisco Barata, Alberto da Veiga Simões e o historiador António Gonçalves Matoso (e seu filho José Matoso), merecendo ser ainda lembrados, entre os contemporâneos, a-par dos pintores Guilherme Filipe e Augusto Nunes Pereira, os escritores António de Vasconcelos e José V. de Pina Martins, ao lado do poeta Vasco de Campos. E o poeta D. Luís da Silveira com mais de duas dezenas de poesias seleccionadas por Garcia de Resende para o  Cancioneiro Geral?

Como figura ímpar da Religião é mencionado D. Eurico Dias Nogueira, Arcebispo Eméritode Braga e escritor de grandes recursos; de resto, mais uma dezena  de Bispos “da terra”poderiam ser apontados em Arganil (já biografamos  6 deles), de Seia e de outros municípios da nossa Serra, bem como alguns intelectuais,  cientistas e artistas   que nasceram ou estiveram ligados à região (o Dicionário de Autores da Beira-Serra inclui perto de 300 verbetes!)

Por tudo isto se deduz que será necessário consultar, futuramente, A Serra e a Cidade, de Maria Beatriz Rocha-Trindade, que nos oferece uma ampla visão  do Movimento Regionalista nos Municípios  de Arganil, Góis e Pampilhosa da Serra.

(*) J.A.N.

O Peso da Burocracia

Outubro 10, 2009
Política Brasileira

O Peso da Burocracia

por Ives Gandra da Silva Martins (*)

 

A carga tributária brasileira é reconhecidamente elevada. Se comparada com a esmagadora maioria dos países emergentes, está muito acima da média, nada obstante os serviços públicos nacionais serem de má qualidade.

Por outro lado, o desestímulo do governo ao setor privado é alarmante. Apesar de a lei suprema ofertar a imunidade para as instituições sem fins lucrativos que atuam nesses setores, o esporte preferido das autoridades fazendárias é negar-lhes o direito constitucional, lavrando contra elas autos de infração ciclópicos.

Segundo informou-me o vice-presidente da Confederação Nacional de Estabelecimentos de Ensino-Confenen, foram fechados 6.000 escolas, nos últimos tempos.

O Brasil, por outro lado, continua em 1º lugar no ranking das exigências inúteis da burocracia.

Não é sem razão que o “super simples” tem sido a principal causa pela qual a maioria das empresas, que se formam, resistem poucos anos.

As próprias medidas judiciais para que o Estado devolva o que não lhe pertence são um calvário, em face da complacência judicial com expedientes nitidamente protelatórios da Fazenda.

É bem verdade que, quando o contribuinte deposita importâncias em juizo para discutir seus direitos, tais recursos, em 24 horas são transformados em receita governamental.

Neste quadro, que transforma o Brasil na “República da Burocracia”, o número de servidores públicos aumenta de forma fantástica, lembrando-se que todo o esforço de Fernando Henrique para reduzir os quadros de 661.100, em 1995, para 598.500 servidores, em 2002, foi anulado pelo governo Lula, que os elevou para 670.800.

É de se lembrar que o palácio do Planalto tem mais de 3.400 servidores, enquanto o Presidente Obama, na Casa Branca, tem apenas 1.800.

O país não evolui mais, devido à trava burocrática institucionalizada pelo governo, ao ponto de os pouco mais de 1 milhão e meio de servidores ativos e inativos da União receberão quase 160 bilhões de reais de vencimentos, em 2009. Já os mais de 11 milhões de beneficiários do Bolsa Família receberão pouco mais de 10 bilhões de reais, ou seja, 15 vezes menos.

Ora, os cidadãos “não governamentais”, que constituem a manifesta maioria da nação, é que têm que suportar uma carga tributária quase confiscatória, para sustentar a esclerosadíssima máquina oficial.

Cada vez me convenço mais que o cidadão brasileiro é um autêntico escravo da gleba dos dias atuais, destinado a sustentar, com seu trabalho e tributos, aqueles que controlam o governo.

Ademais, cresce consideravelmente a cada dia a categoria dos que entram no serviço público, não pela porta difícil do concurso público, mas apenas por serem amigos do rei, inchando uma máquina que continua inoperante.

A justificação governamental de que o número de servidores públicos em nosso País não é elevado, se comparado ao existente na Alemanha, na Irlanda e na França, peca pela qualidade de serviços públicos que são prestados nesses países, muito acima que aquela do Brasil.

Creio que o nó górdio do desenvolvimento brasileiro reside em como o futuro governo, qualquer que seja, resolverá esse problema, pois a saída da crise econômica mundial exigirá uma competitividade empresarial cada vez maior.

Ou o Brasil reduz sua burocracia ou a burocracia reduzirá o crescimento nacional e nossos tributos serão na quase totalidade destinados apenas a sustentá-la. 

(*) Professor Emérito da Universidade Mackenzie (São Paulo), autor de valiosos estudos jurídicos e de obras literárias de reconhecido valor o Dr. Ives Gandra é membro destacado da Academia Paulista de Letras

%d bloggers like this: