Arquivo de Outubro 2012

Dia D – E Agora, José?

Outubro 31, 2012

Por Dalila Teles Veras

A poesia pertence a quem dela precisa, já aqui e alhures foi dito. Neste dia 31 de outubro, em que é celebrado o nascimento do nosso Poeta Maior, Carlos Drummond de Andrade, qualquer um de seus poemas me serviria, já que “me sirvo” deles sempre que posso e preciso, mas não resisto a postar aqui talvez o mais celebrado deles, José, publicado pela primeira vez em 1942 no volume Poesias. O conjunto de 12 poemas sob o título de José, ganhou neste ano pela primeira vez o direito a um volume (encantador objeto gráfico, diga-se) autônomo (Cia. das Letras), com um inestimável posfácio de Júlio Castañon Guimarães, que nos fala da história do poema, considerado por alguns como “o pomo das discórdia modernista” mas que acabou “tomando de assalto o nosso insconsciente literário”. Seu já emblemático primeiro verso, é quase um bordão do nosso imaginário coletivo, usado e abusado, paradiado,  musicado, citado em críticas, slogans publicitários e, claro, campanhas políticas. Neste outubro drummondiano em que o Brasil exerceu amplamente o seu dever cidadão e vontade democrática, aqui vai o poema na íntegra, acreditando novamente, além do inegável “poder” literário, no seu poderoso valor simbólico.

JOSÉ

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama protesta,
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,

seu terno de vidro, sua incoerência,
seu ódio – e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, pra onde?

Reforma tributária e pacto federativo

Outubro 31, 2012

Por Ives Gandra da Silva Martins

Em 12 de abril do corrente ano, o Senado Federal nomeou Comissão, hoje constituída por treze especialistas, objetivando um estudo para repensar o pacto federativo, a começar pelos questões tributárias, que amarram o desenvolvimento nacional e atrasam a evolução do País, na certeza de que, sem esses entraves, o Brasil já poderia ter atingido níveis muito mais elevados de progresso e competitividade.

Em diversas reuniões presenciais e em um número maior de reuniões virtuais, os treze participantes elaboraram 12 textos, objetivando: eliminar a guerra fiscal ou reduzi-la a expressão insignificante quanto ao ICMS; definir o nível das dívidas dos Estados, sem provocar descompassos orçamentários para a União, Estados e Municípios; definir as novas regras do Fundo de Participação dos Estados, assim como reformular a partilha do ICMS com os Municípios; equacionar o problema dos royalties do petróleo sem modificar as garantias, hoje outorgadas aos Estados e Municípios, com base no artigo 20, § 1º, da CF, mas universalizando participações para as demais unidades da Federação; agravar a punição de autoridades públicas que gerem o conflito tributário, em patamar penal, estabelecendo outras regras simplificadoras, como o cadastro único do contribuinte, medida esta também discutida e aprovada, ao lado de 19 outras soluções simplificadoras, pelo Conselho Superior de Direito da Fecomercio-SP.

 A linha mestra foi corrigir as desigualdades regionais, com o mínimo de resistência das entidades federativas e o máximo de eficiência nos resultados pretendidos.

Sob a presidência de Nelson Jobim e relatoria de Everardo Maciel, que se mostrou um incansável coordenador das reuniões virtuais, tem a Comissão a certeza de que, nas 12 propostas já articuladas de projetos de emendas constitucionais, leis complementares, ordinárias e resoluções do Senado, pela primeira vez, de forma coerente e sistemática, forjou-se um verdadeiro sistema equacionador dos problemas mais cruciais da questão tributária.

Em recente editorial (16/10), O Estado de S. Paulo alertou que a luta dos Estados pela preservação de sua autonomia financeira sobre o ICMS dificulta a reforma tributária, no que tem razão, visto que o ICMS, tributo de vocação nacional foi regionalizado no Brasil, ao contrário do que ocorre na esmagadora maioria dos países, que adotam o princípio do valor agregado. Tais países têm o IVA centralizado, mesmo nas federações como Alemanha e Argentina.

A guerra fiscal, todavia, só aconteceu, por força da omissão da União, que, desde a Constituição de 88, deixou de fazer políticas regionais reequilibradoras dos desníveis entre as unidades da federação, visto que perdeu 14% da arrecadação do IPI e I.Renda a favor de Estados e Municípios.

Esta perda, entretanto, foi recuperada com a elevação do Finsocial de 0,5%, para a Cofins de hoje, de 7,6%, assim como o PIS, de 0,65 para 1,65%, sob a alegação de permitir a compensação do tributo, em algumas hipóteses. Por ser, porém, um tributo não partilhável com as outras entidades federativas, transformou-se na estrela maior da arrecadação federal.

Tanto é assim que sua participação no bolo tributário atual foi elevada para aproximadamente 60%, ficando as demais unidades da Federação com apenas 40%.

Nesta primeira fase da tarefa de elaborar um projeto destinado a repensar o pacto federativo, houve por bem, a Comissão, buscar soluções que possam alcançar consenso no Congresso Nacional.

No ponto mais agudo do “nó górdio” tributário, a Comissão preservou a unanimidade do Confaz para a aprovação de estímulos por meio de Convênios, no âmbito do ICMS, abrindo uma única exceção: a possibilidade de aprovação por de 2/3 dos Estados para incentivos fiscais que atendam, simultaneamente, as seguintes condições: 1) aplicação apenas a produtos que saiam da fábrica para outros Estados; 2) o Estado beneficiário tenha uma renda per capita abaixo da renda per capita nacional; 3) prazo de duração do incentivo não superior a 8 anos; e 4) alíquota interestadual de no mínimo de 4%. A nova proposta de lei complementar contemplando esse regime substituiria a LC 24/75.

Paralelamente,  há a proposta de emenda constitucional para adoção de um regime de “quase destino” para o ICMS, com uniformização da alíquota interestadual em 4%, mas com um prazo de transição de 8 anos, dentro do qual as alíquotas atuais de 7% e 12% seriam reduzidas anualmente, até  chegarem aos 4% pretendidos.

Uma alíquota única interestadual reduzida, mesmo para os Estados que queiram burlar o Confaz, correndo o risco de sofrer as penas agravadas sugeridas pela Comissão, implicaria benefício muito pequeno e terminaria por desestimular as empresas a se arriscarem a receber estímulos reduzidos, inconstitucionais e contestáveis até sob o aspecto penal.

A Comissão, composta por Nelson Jobim, Everardo Maciel,  Bernard Appy, Fernando Rezende, João Paulo dos Reis Velloso, Luís Roberto Barroso, Manoel Felipe Rêgo Brandão, Marco Aurélio Marrafon, Michal Gartenkraut, Paulo Barros Carvalho,  Sergio Roberto Rios do Prado e por mim, está absolutamente convicta de que, nesta 1ª. agenda do “repensar o pacto federativo”, apresentará propostas que poderão auxiliar a simplificar o sistema tributário, no seus pontos mais polêmicos, auxiliando o desenvolvimento nacional.

Todas as propostas serão entregues no próximo dia 30 de outubro ao presidente do Senado, Acadêmico José Sarney, na esperança de que esta contribuição “pro bono” tenha valido a pena.

Os Caminhos (nada) Efêmeros da Poesia

Outubro 30, 2012

Por Rita Alves

Recentemente, no ano de 2011, fui convidada pelo diretor do parque mais frequentado da América Latina (cerca de 120 mil pessoas num único dia de maior visitação), Heraldo Guiaro, engenheiro agrônomo, responsável por gerir o Parque Ibirapuera, na cidade de São Paulo, a disponibilizar a minha poesia para o grande público.

Naquele dia, o engenheiro me levou até as margens do lago, onde raízes das árvores rompiam o asfalto, dando mostras de resistência da natureza sobre o urbano, golpeando meus olhos e despertando em mim todo um processo metafórico sobre a questão da resistência da palavra, especialmente da palavra poética, em tempos de multimídias, de suportes tecnológicos para textos, repletos de imagens, sedutores formatos digitalizados, que estão aos poucos – e velozmente – ocupando o espaço do livro em formato tradicional, em papel impresso.

Aceitei o desafio, escrevi 50 frases poéticas para que fossem pintadas pelos Gêmeos da Arte entre as raízes das árvores, contornando as fendas.

Ao mesmo tempo fazia-se necessário solidificar o ato de libertação do poema do suporte livro. Convidei um artista plástico para dar forma a minha ideia de colocar poemas em placas de concreto. Lee Swain sugeriu dez placas com poemas entre as árvores, mas por fim, a conversa toda se encaminhou para a criação de um relógio de sol (descompassado), em que doze placas teriam inscritos poemas em baixo relevo. Surgiu o Relógio de Poesia, instalação de arte permanente, num espaço tombado pelo Iphan, garantindo à palavra um instigante e provocador status de perenidade.

Frases sobre o Tempo estão definitivamente incrustradas em imensas placas de concreto, pesando mais de 300 kg cada uma, como um monumento à Poesia nunca visto antes no mundo das letras.

 

Outros três parques da cidade solicitaram a intervenção.  Às margens do Rio Tietê, lá no Parque Ecológico, fazendo referência a cidade de São Paulo, no Parque Villa Lobos, prestando homenagem ao maestro que nomeou o parque, criei poemas sobre música, pintados numa imensa pauta musical, nascida de uma clave de sol, das mãos do artista plástico Pedro Vicente, que convidei para a inusitada tarefa: grafitar poemas no chão.

No entanto, a ação mais significativa, que teve repercussão em todo o país e também fora dele, foi a intervenção no Parque da Juventude, antigo presídio Carandiru, em que poemas sobre a liberdade ocuparam as ruínas de um dos antigos pavilhões, entre as celas e muros.

Novamente a poesia saiu do suporte livro de forma duplamente libertadora, criando um antagonismo linguístico, ora procurei usar termos da prisão com o sentido antagônico, de modo a me apropriar inversamente do significado, rompendo o conceito dos signos “algemas”, “grades”, “amarras”, “confinamento”, “vigilância”, “limitação”, “muros”, enfim, instalando signos entre ruínas da prisão, criando a possibilidade da libertação através da palavra.

Para o Parque Villa Lobos e Ecológico Tietê convidei outros poetas para colocarem frases junto comigo, nomes como Roberto Piva, Claudio Willer, Alice Ruiz, Guilherme de Faria, Lívia Garcia Roza, Estrela Leminsky, Reynaldo Bessa, Flávio Viegas Amoreira, José Roberto Aguilar, Thiago de Mello, José Inácio Vieira de Mello, Antonio Peticov, ainda Pedro Abrunhosa e Luis Serguilha, de Portugal, foram alguns dos nomes a imortalizar suas frases sobre o Tempo.

 

Poetas, como eu, sabem o que significa tentar publicar um livro de poemas.  Ter poemas em instalações pela cidade ganha uma ultra dimensão sob todos os aspectos, especialmente ao observar o modo como a palavra poética chega ao público inversamente, não é o leitor quem vai até a livraria e escolhe o livro, e abre a página, lê o poema, mas num espaço de lazer ele é surpreendido pela palavra poética que lhe entra pelos olhos, causando as mais diversas reações, um estranhamento, um desejo de querer saber o que é.  E quem sabe seja o primeiro passo para adentrar ao mágico universo da leitura de poemas, restrito a tão poucos.

Dentre alguns artigos publicados sobre o trabalho que realizei, saliento o artigo de Sergio Telles, intitulado “Fugacidade”, em que ele, sem saber a autoria, ao caminhar pelas vielas do Parque Ibirapuera, intuía ser de autoria feminina, anotou, então, algumas frases, dedicou uma página inteira no estadão para falar sobre o inusitado suporte “chão”.

E que deste chão, semeado de palavras poéticas nasçam novos frutos libertadores, como o é a palavra.  Já há uma solicitação do MAM (Museu de Arte Moderna) do Rio de Janeiro, para que eu faça uma intervenção de poesia nos Jardins criados por Burle Marx e Lota Macedo Soares.  Vamos para mais este desafio.  Que nós, das letras, não nos intimidemos diante de novas perspectivas.

OS SUPERPODERES DOS JUÍZES

Outubro 29, 2012

Por Ives Gandra da Silva Martins e Antônio Cláudio da Costa Machado

Em que pese a defesa do Projeto de novo CPC por eminentes deputados e professores em artigo publicado em 1° de outubro, não podemos deixar de rebater as críticas para reafirmar o caráter profundamente autoritário do texto até aqui apresentado à sociedade brasileira pela Comissão Especial da Câmara.

Em primeiro lugar, é preciso insistir na ideia de que os juízes serão realmente senhores absolutos da prova.  Hoje, mesmo em matéria instrutória, cabe recurso de imediato se o juiz indefere uma perícia, se fixa honorários provisórios absurdos, se nomeia perito sem qualificação ou se não admite a exibição de documento relevante, bastando que se demonstre tratar-se de “decisão suscetível de causar à parte lesão grave e de difícil reparação” (dessas decisões cabe agravo de instrumento).  Tais possibilidades não existirão no novo CPC, como também não serão recorríveis as decisões que o juiz tomar em audiência (já que o atual agravo retido simplesmente desaparece com o projeto) e até decisões baseadas em regras novas (como a que proíbe a prova ilícita ou a que admite a prova emprestada) serão inatacáveis por recurso.  E mais: o juiz também fica com o poder de inverter, segundo a sua vontade, a ordem da produção das provas.  É preciso dizer mais?

Em segundo lugar, é necessário acentuar a circunstância de que o projeto de fato amplia o poder dos juízes para conceder medidas antecipatórias.  Bastará que o autor apresente ao juízo, em qualquer causa, um bom documento, para que o magistrado, à vista da não apresentação de um outro bom documento pelo réu, antecipe os efeitos da sentença de imediato. Hoje, o requisito do “perigo da demora” é uma barreira ao poder antecipatório, barreira que é simplesmente derrubada pelo projeto.  Estaremos todos sujeitos a decisões imediatas, de difícil combate, de um único homem.

Em terceiro, não podemos deixar de dizer com todas as letras que, segundo o projeto, já não existirão limites, nem disciplinas para a concessão de arresto, seqüestro, busca e apreensão, arrolamento, caução, o que exporá cada um de nós, pessoas físicas e jurídicas, a agressões patrimoniais de toda sorte sem condicionamentos severos ou limitações para os juízes.  Hoje, o arresto depende da existência de um cheque, uma promissória ou um contrato; no projeto apenas da interpretação judicial de um documento qualquer. O cumprimento de uma busca e a precisão depende de dois oficiais de justiça e de testemunhas, em caso de arrombamento; pelo novo CPC não depende de mais nada.  Além disso, faltará regulamentação para o arrolamento e a caução, o que empobrecerá o nosso processo civil.  Mas não é só: medidas cautelares poderão ser concedidas sem pedido da parte, segundo a exclusiva vontade do juiz e sem qualquer previsão legal.

Em relação às normas abstratíssimas que os magistrados poderão aplicar na sentença, o que nos cabe relembrar é que “dignidade”, “razoabilidade” e “proporcionalidade” são princípios constitucionais dirigidos ao Poder Legislativo, ao Executivo e ao STF,mas não a juízes de primeira instância que, com eles em mãos,poderão decidir o que quiserem ao arrepio do que diz a lei e ao arrepio da segurança jurídica a que todos nós temos o direito.

E, finalmente, em quinto lugar, que ninguém se engane: o fato de o projeto submeter a uma decisão do relator a liberação da execução provisória não significa nada para descaracterizar o autoritarismo que denunciamos.  A questão é que para o relator impedir a execução provisória, ele terá de dar razão ao recorrente e tirá-la do juiz,o que significará um trabalho enorme e a necessidade de proferir uma decisão longa e bem fundamentada; já para liberar a execução, bastará uma singela decisão de sustentação da sentença “por seus próprios e jurídicos fundamentos”, de duas ou três linhas.  Aliás, a apelação de instrumento que se cria é apenas mais um caminho para permitir que milhares de execuções provisórias tenham lugar no nosso futuro processo civil, em detrimento do direito ao duplo grau de jurisdição.

Os vários deveres que o projeto impõe aos juízes – não os desconhecemos  como avanços – não compensarão os múltiplos retrocessos que experimentaremos e os perigos que representarão para a cidadania e para a democracia no Brasil.

 

Editora na França Publica Livro do Poeta Cyro de Mattos

Outubro 26, 2012

Uma antologia poética do baiano (de Itabuna) Cyro de Mattos, De tes instants dans le poème ,  acaba de ser  publicada  pelas Editions du Cygne, em Paris, na Coleção Poesia do Mundo, com a tradução do poeta  Pedro Vianna para o francês. O desenho da capa é do baiano (de Ibicaraí) Ângelo Roberto. A antologia De tes instants dans  le poème (De teus instantes no poema) apresenta poemas selecionados dos livros publicados Cancioneiro do CacauVinte Poemas do Rio, Vinte e Um Poemas de Amor, Canto a Nossa Senhora das Matas, Os Enganos Cativantes e dos inéditos Rumores de Relva e Mar, Agudo Mundo e Devoto do Campo. A apresentação do livro é de Margarida Fahel, professora da Universidade Estadual de Santa Cruz, com especialização em literatura.

Poeta consagrado, da geração 60,  Cyro de Mattos bebe na tradição da poesia universal, existencial e humana sem perder de vista os muros da  aldeia. Purezas da infância, solidões na colheita do nada,  verdes visões na rota da felicidade, mundo cego do homem contra o homem, o erótico e o afetivo no encontro perfeito do amor, vozes do campo, ora fraternas, ora gemidos,  rumores de relva e de mar, idênticos  de ternuras e dores na paisagem do tempo, tudo isso se encontra  nesta antologia – De  teus instantes no poema,, uma amostragem feliz de versos  que inauguram novos sentidos na leitura da vida.

Com mais de 40 livros publicados, premiado no Brasil e exterior, Cyro de Mattos também tem livros editados em Portugal (2), Alemanha (1) e Itália  (2). Seus poemas e contos participam de antologias publicadas em Portugal, Alemanha, Itália, Dinamarca, Rússia e Estados  Unidos. Para adquirir  o livro De tes instants dans le poème (De teus instantes no poema  clique: www.editionsducygne.com

RODA DE LEITURA DE POETAS PORTUGUESES

Outubro 25, 2012
Hoje 25.10, às 19h30min, a escritora Raquel Naveira conduzirá uma roda de leitura de poemas de Cesário Verde, no Clube Português – R. Turiassu, 59, Perdizes.

E aguarda você que ama a Poesia e precisa dela para viver!! 

http://pt.wikipedia.org/wiki/Ces%C3%A1rio_Verde

http://www.clubeportuguessp.com.br

http://redeglobo.globo.com/ms/tvmorena/meumatogrossodosul/videos/t/edicoes/v/livro-de-raquel-naveira-e-a-dica-literaria-do-programa/2199620/

Radio Bienal

Outubro 25, 2012

Programa sobre Fernando Pessoa em homenagem ao Prof. João Alves das Neves Hoje as 15:20 na Radio Bienal – de artes de São Paulo (87,5 FM) com Rita Alves.

http://www.bienal.org..br/30bienal/pt/Paginas/radio.html

http://www.facebook.com/rita.alves.33886/info

30ª Bienal – A Iminência das Poéticas

Outubro 17, 2012

30ª Bienal de São Paulo – A Iminência das Poéticas De 7 de setembro a 9 de dezembro de 2012 Pavilhão Ciccillo Matarazzo, Parque Ibirapuera, São Paulo, Brasil Curador: Luis Pérez-Oramas Curadores associados: André Severo e Tobi Maier Curadora assistente: Isabela Villanueva Sob o título A iminência das poéticas, a 30ª Bienal de São Paulo tem como centro curatorial os temas da multiplicidade, transicionalidade, recorrência e permanente mutabilidade das poéticas artísticas. Por poéticas entende-se o repertório instrumental que permite que um indivíduo, uma coletividade, um campo disciplinar ou uma tradição estabeleça, de forma intuitiva, intencional ou inconsciente, as estratégias ou plataformas discursivas que tornam possíveis atos expressivos de caráter artístico.

 

A iminência representa, como traduz o curador Luis Pérez-Oramas, “o que está a ponto de acontecer, a palavra na ponta da língua, o silêncio imprevisto que antecede a decisão de falar ou de não falar, a arte como estratégia discursiva e a poética em sua pluralidade e multiplicidade”.

 

Procurando instaurar-se como uma plataforma de encontro para a diversidade das poéticas, o instrumento de trabalho fundamental na 30ª Bienal será a ideia de Constelação – e seu leitmotiv a noção de articulação. Mais do que uma Bienal de obras individuais e de artistas singulares, a 30ª Bienal pretende ser um evento capaz de produzir constelações de obras e artistas que conversam entre si: uma base para que essas relações sejam dispositivos eficazes de renovação e de produção de sentido e significação.

 

Componentes expositivos Tomando como base conceitual o entendimento de que as poéticas sobrepõem-se, desagregam-se, assimilam-se, parasitam-se e condensam-se, a 30ª Bienal – A iminência das poéticas define-se por quatro zonas curatoriais distintas: Sobrevivências, Alterformas, Derivas, Vozes e, uma zona transversal, Reverso. As zonas atuam como forma de articular, de maneira constelar e polifônica, os artistas e temas que irão compor o quadro geral da mostra.

 

Sobrevivências A noção de sobrevivência permite realizar analogias entre a seleção de artistas contemporâneos e obras referenciais, fazendo com que dialoguem em um campo histórico comum. Para a 30ª Bienal, a sobrevivência atua fundamentalmente através da inscrição de formas e práticas constituídas em âmbitos de vida e de temporalidades distantes no tempo e/ou no espaço, tornando possível a transição entre elas e a experiência humana do presente.

 

Alterformas Uma segunda zona curatorial complementa as questões conceituais propostas em Sobrevivências e norteia a seleção de artistas e práticas mais contemporâneas. Esta zona será trabalhada a partir da pista oferecida pela manifestação de alterformas ou deformações – isto é, a interpretação de obras como lugares da “transformação seletiva”, que, consciente ou inconscientemente, voluntária ou involuntariamente, os artistas realizam dentro do campo instituído em suas próprias práticas.

Um segmento a ser desenhado dentro de Alterformas consistirá em traçar o estado atual das releituras deformantes da modernidade na América Latina. Outro segmento deverá ser instituído a partir de uma interrogação sobre “o estado dos meios artísticos”: os sobejos da pintura, gravura, poesia, teoria, cinema, literatura, teatro e fotografia em um tempo caracterizado pelo monopólio da imagem como meio e arte-meio.

 

Derivas A ideia de deriva configura-se como uma noção-chave dentro do quadro conceitual da 30ª Bienal de São Paulo. Conjugado com Sobrevivências e Alterformas, a curadoria parte de certas derivações da modernidade encarnadas, sobretudo, nos artistas referenciais presentes na mostra e propõe um conjunto de formas alteradas, restos, deformações, nas quais a residualidade dos meios, sua hibridez e sua marginalidade possam ser entendidos como desvio, como deriva das formas, das linguagens e das imagens, tanto no campo da arte como na constelação de novos espaços que as tecnologias da informação e a digitalização tornam possíveis.

 

Vozes Considerada uma zona entre zonas dentro do quadro conceitual da 30ª Bienal, Vozes manifesta-se explicitamente através de obras em que a voz prevalece em suas vinculações com a dimensão performativa da arte e com o material fônico – som, rádio, música etc. Pretende levantar interrogações acerca das maneiras pelas quais se dão as relações entre poéticas visuais e poéticas discursivas ou verbais atualmente.

Pensando a voz como matéria plástica e artística em todas suas vertentes e possibilidades, Vozes atravessa Sobrevivências, Alterformas e Derivas e deverá configurar-se como a principal extensão da mostra na cidade de São Paulo. 

Esta zona curatorial estabelece uma ponte entre a noção de voz e as mais variadas dimensões performativas da arte contemporânea e permite pensar e organizar um momento participativo dos espectadores (ou interlocutores) por meio da ativação de dispositivos de diálogo presentes na mostra ou nas plataformas virtuais da Bienal.

 

Reverso Tratada conceitualmente como uma zona transversal aos componentes expositivos da mostra, Reverso é uma espécie de plataforma nômade que abraça, desde sua elaboração, todos os elementos curatoriais do projeto da 30ª Bienal de São Paulo – A iminência das poéticas e os estende para a cidade. São intervenções urbanas, mostras em parceria com outras instituições da cidade de São Paulo, exibições de filmes, apresentações teatrais e musicais encomendadas a artistas locais e/ou internacionais. Instaurando-se como uma forma de estender e potencializar o evento realizado no pavilhão localizado no Parque Ibirapuera, Reverso pretende constituir-se como uma possibilidade de desenvolver um diálogo aberto entre a 30ª Bienal, o público, as instituições e os demais agentes culturais e sociais atuantes na cidade. Farão parte desta rede a Casa Modernista, a Capela do Morumbi, a Casa do Bandeirante e outras instituições.

 

Encontros Pensado como um ciclo de seminários capaz de possibilitar ao grande público o contato com renomados artistas e intelectuais da atualidade, A iminência das poéticas propõe realizar um debate sobre o presente da atividade artística por meio de uma série de encontros em que a própria Bienal e os aspectos gerais de seus conteúdos se ofereçam como centro de discussão. O ciclo se dará sob a forma uma série simpósios realizados ao longo de 2012 na cidade de São Paulo; e um encontro de caráter poético/teórico, a ser organizado em duas ocasiões diferentes (fora e dentro do Brasil), como um diálogo transterritorial e transpoético entre duas cidades, Ciudad Abierta, Valparaíso, no Chile, e a cidade de São Paulo, no Brasil.

 

Educativo Bienal na 30ª Com curadoria educacional de Stela Barbieri, as ações do Educativo Bienal para a 30ª edição estão sendo elaboradas desde 2011 em parceria com a curadoria geral da exposição. Em janeiro deste ano, iniciaram-se os Encontros de Formação em Arte Contemporânea para professores, educadores sociais, jornalistas e público em geral, dando início à interlocução com os conceitos, artistas e obras da exposição A iminência das poéticas.

 

Um novo material educativo está sendo produzido, com tiragem prevista de 15 mil exemplares e distribuição gratuita. A publicação é elaborada pela equipe do Educativo em colaboração com a curadoria da mostra e a equipe de Comunicação da Bienal. Esse é o terceiro material produzido por esta curadoria educacional. O curso a distância para professores de arte do Estado de São Paulo, Tão Perto Tão Longe, também está em sua terceira edição e estará no ar a partir de setembro.

 

Outra ação de destaque é o curso para educadores da Bienal, estagiários que atenderão o público durante a mostra. Com início em maio de 2012, o curso dará continuidade à formação de 150 estudantes universitários, muitos dos quais já vêm trabalhando com este Educativo desde 2010. Alguns educadores, agora formados, se tornarão supervisores ou educadores profissionais. O Educativo Bienal tem por princípio a formação continuada em todos os níveis de sua equipe.

 

Dando continuidade a suas ações, após a abertura da exposição, o Educativo é responsável pelas visitas orientadas para grupos agendados e público espontâneo, ateliês, programação paralela, que inclui palestras e seminários, performances, exibição de filmes e eventos especiais para famílias.

 

O Educativo tem a preocupação de promover encontros com os mais variados públicos, atendendo a especificidade de cada um. Um programa para grupos de terceira idade, o +60, e ações para pessoas com deficiência, como as visitas em LIBRAS.

 

Lista de artistas participantes:

  1. Absalon, Israel
  2. Alair Gomes, Brasil
  3. Alberto Bitar, Brasil
  4. Alejandro Cesarco, Uruguai
  5. Alexandre da Cunha, Brasil
  6. Alexandre Moreira, Brasil
  7. Alfredo Cortina, Venezuela
  8. Ali Kazma, Turquia
  9. Allan Kaprow, EUA
  10. Ambroise Ngaimoko (Studio 3Z), Angola
  11. Andreas Eriksson, Suécia
  12. Anna Oppermann, Alemanha
  13. Arthur Bispo do Rosário, Brasil
  14. Athanasios Argianas, Grécia/Inglaterra
  15. August Sander, Alemanha
  16. Bas Jan Ader, Holanda
  17. Benet Rossell, Espanha
  18. Bernard Frize, França
  19. Bernardo Ortiz, Colômbia
  20. Bruno Munari, Itália
  21. Cadu, Brasil
  22. Charlotte Posenenske, Alemanha
  23. Christian Vinck, Venezuela
  24. Ciudad Abierta, Chile
  25. Daniel Steegmann, Espanha
  26. Dave Hullfish Bailey, EUA
  27. David Moreno, EUA
  28. Diego Maquieira, Chile
  29. Edi Hirose, Peru
  30. Eduardo Berliner, Brasil
  31. Eduardo Gil, Venezuela
  32. Eduardo Stupía, Argentina
  33. Elaine Reichek, EUA
  34. Erica Baum, EUA
  35. Fernand Deligny, França
  36. Fernanda Gomes, Brasil
  37. f.marquespenteado, Brasil/Portugal
  38. Fernando Ortega, México
  39. Franz Erhard Walther, Alemanha
  40. Franz Mon, Alemanha
  41. Frédéric Bruly Bouabré, Costa do Marfim
  42. Gego, Venezuela
  43. Guy Maddin, Canadá
  44. Hans Eijkelboom, Holanda
  45. Hans-Peter Feldmann, Alemanha
  46. Hayley Tompkins, Inglaterra/Escócia
  47. Helen Mirra, EUA
  48. Hélio Fervenza, Brasil
  49. Horst Ademeit, Alemanha
  50. Hreinn Fridfinnsson, Islândia/Holanda
  51. Hugo Canoilas, Portugal
  52. Ian Hamilton Finlay, Escócia
  53. Icaro Zorbar, Colômbia
  54. Ilene Segalove, EUA
  55. Iñaki Bonillas, México
  56. Ivan Argote & Pauline Bastard, Colômbia
  57. Jerry Martin, Peru
  58. Jiří Kovanda, República Tcheca
  59. John Zurier, EUA
  60. José Arnaud-Bello, México
  61. Juan Iribarren, Venezuela
  62. Juan Luis Martínez, Chile
  63. Juan Nascimiento & Daniela Lovera, Venezuela
  64. Jutta Koether, Alemanha
  65. Katja Strunz, Alemanha
  66. Kirsten Pieroth, Alemanha
  67. Kriwet, Alemanha
  68. Leandro Tartaglia, Argentina
  69. Lucia Laguna, Brasil
  70. Marcelo Coutinho, Brasil
  71. Marco Fusinato, Austrália
  72. Maryanne Amacher, EUA
  73. Mark Morrisroe, EUA
  74. Martín Legón, Argentina
  75. Meris Angioletti, Itália
  76. Michel Aubry, França
  77. Mobile Radio, Inglaterra/Alemanha
  78. Moris, México
  79. Moyra Davey, Canadá
  80. Nicolás Paris, Colômbia
  81. Nino Cais, Brasil
  82. Nydia Negromonte, Brasil
  83. Odires Mlaszho, Brasil
  84. Olivier Nottellet, França
  85. Pablo Accinelli, Argentina
  86. Pablo Pijnappel, Brasil/Holanda
  87. Patrick Jolley, Irlanda
  88. Paulo Vivacqua, Brasil
  89. Productos Peruanos Para Pensar (PPPP), Peru
  90. Ricardo Basbaum, Brasil
  91. Robert Filliou, França
  92. Robert Smithson, EUA
  93. Roberto Obregón, Venezuela
  94. Rodrigo Braga, Brasil
  95. Runo Lagomarsino , Suécia
  96. Sandra Vásquez de la Horra, Chile
  97. Saul Fletcher, Inglaterra
  98. Savvas Christodoulides, Chipre
  99. Sergei Tcherepnin with Ei Arakawa, EUA
  100. Sheila Hicks, EUA/França
  101. Sigurdur Gudmundsson , Islândia
  102. Simone Forti, EUA
  103. Sofia Borges, Brasil
  104. Tehching Hsieh, Taiwan
  105. Thiago Rocha Pitta, Brasil
  106. Thomas Sipp, França
  107. Tiago Carneiro da Cunha, Brasil
  108. Viola Yesiltaç, Alemanha
  109. Waldemar Cordeiro, Brasil
  110. Xu Bing, China
  111. Yuki Kimura, Japão​

Fonte: www.bienal.org.br

O ATO DE ESCREVER É INCENDIÁRIO

Outubro 17, 2012

Por Rita Alves

(título inspirado em Sandra Martinelli, pintora, artista, cantora e cuspidora de fogo)

Tenho feito textos críticos, históricos, algumas crônicas, contos, letras de música e poemas, obviamente.

Também tenho “brincado” seriamente com as artes plásticas, recentemente dei voz ao Cristo de Dacio Bicudo, num discurso em primeira pessoa. (O Cristo: obra de arte de Dacio, em exposição na Galeria Lourdina Jean Rabieh)

No entanto, é no uso diário da escrita que tenho percebido o modo voluptuoso das expressões racionais ou emocionais. As redes sociais são ótimas fontes de pesquisa e observação, análise das formas de lidar com a língua, as citações cada vez mais constantes de frases de pensadores, poetas, filósofos e até frases de música, como modo de se apropriar do falar do “outro”, para dizer o que precisa.

Avalanche de frases chavões, outras mais raras.  Algumas se popularizam surpreendentemente, vejam que Nietzsche está no topo da lista das frases mais “curtidas”, “compartilhadas”, e, em alguns casos, vão acompanhadas de imagens selecionadas cuidadosamente e que chegam a impressionar pela diversidade, pelo garimpo que faz surgir todo um contexto que relaciona frases desconexas a pessoas que nunca leram filosofia, ou ainda imagens de obras de arte, desde os clássicos à vanguarda, aliados a biografias, novos termos, enfim… Festa da linguagem, mesa farta para recortes e estudos.

Muito comum vermos personalidades da TV, do alto jornalismo, poetas respeitados, pintores de vasto currículo trocando ideias com iniciantes no mundo do pensar. E tenho acompanhado diálogos (multi-transversais) interessantíssimos.

Recentemente fui “corrigida” pelo amigo poeta Fernando Vasconcellos, do Recife, quando nomeei a criação dele de neoconcretista, colocando-o à frente do tempo dos concretistas… e eu  já achando ultra vanguardista, mas ele logo abaixo do meu comentário escreveu:

“pós-neoconcretista, amiga Rita Alves.”

Ninguém deixa barato… É preciso fundamentar, como sempre solicita outro “amigo virtual”, Mo Toledo, que adverte em um de seus “posts”:

há todas as perspectivas no horizonte de uma sentença;”

Sim, ele inicia a frase com letra minúscula e termina com ponto e vírgula.  Como se o pensamento já viesse antes do que escreveu e que continuem se quiserem, pois o tema não está encerrado…

E isso tudo é material precioso para meus olhos de poeta.

Percebo as farpas trocadas entre casais e amigos que se estranham.  Indiretas tão diretamente lançadas e muitas vezes prontamente respondidas, que fica impossível de imaginar que, há algum tempo, achávamos o e-mail algo rápido e altamente funcional.

Agora é o tête-à-tête. Falou (escreveu), tem a resposta na hora, publicamente.

Passo muitas horas em frente ao écran (para agradar aos amigos de Portugal), pois é minha ferramenta de trabalho, vivo da escrita… Por isso, um dos ícones na tela é sim a rede social, sempre levantando a bandeirinha de nova mensagem ou nova postagem, levantando também a bandeira da nova comunicação: rápida, ligeira, aparentemente efêmera, mas me dou a indulgência, especialmente depois que ouvi o Jorge Forbes dizendo que passamos da época das grandes manifestações e revoluções, pois agora é o momento das pequenas milhares, milhões de revoluções simultâneas, geradoras de grandes transformações.

Espero promover a minha revolução: a da palavra poética, em novos suportes.

E O CRISTO FALOU…

“Ainda  algumas palavras.

Recorro à chance que me deu Dacio Bicudo, após 2012 anos em que estive prostrado nesta cruz, sem dizer palavra, de me expressar numa exposição de arte.

Em primeiro lugar agradeço à tecnologia. À invenção do microfone, pelo amigo Graham, que depois deu um salto à frente inventando a telefonia…  E é através dela que vocês receberão meu discurso, pela internet.

Em segundo lugar faço aqui um protesto contra o poeta Fernando Pessoa.  Ele sedimentou a crença no Mito.  E ainda por cima me tirou a chance de me defender, afirmando que “O mito é o NADA que é tudo”; ora, sendo ‘nada’, jamais poderia reagir.

Faço um apelo aos homens de bem e aos que não são de bem, para que prestem mais atenção aos julgamentos e às condenações.  Há neste processo uma necessidade extrema, política e tanto mais psicanalítica de punir o outro como forma de redimir-se a si mesmo.

Afirmam há dois mil anos que morri na cruz para salvar a vocês todos.  Ora! Não acredito em redenção terceirizada! Cada qual é responsável pelas próprias atitudes e deve arcar com as possíveis consequências.  O problema é que há uma institucionalização da culpa, há uma burocratização dos pecados, há uma ‘sentencialização’ (peço licença ao Guimarães Rosa pelo neologismo) dos processos de evolução do pensamento absolutamente atrasada em relação ao tempo presente, presente este que, aliás, para mim, tem durado uma larga fatia de tempo.

Ainda preciso fazer uma reclamação sobre a atuação de marketing de Paulo.  A campanha parece ter sido um sucesso, mas também gerou tanta controvérsia, serviu de álibi para tantas guerras, que ainda não fechei minha opinião se foi uma campanha vitoriosa.  Além do mais, há muita gente ganhando em cima do meu inencontrável cadáver.  Abre-se uma igreja a cada segundo neste mundo, estes homens se elegem, têm ocupado cargos públicos diametralmente opostos aos meus ideais, mas dizem-se calcados em palavras que falei, mal interpretadas.

Ainda preciso dizer que amei.  E que tive sim uma adolescência, mesmo que renegada e arrancada das páginas de minha história.  Fui, como tantos, curioso, impetuoso, hormonal e historicamente contraditório e cheio de dúvidas sobre os meus ideais, como todo adolescente.  Por isso fugi um tempo de casa.  E retornei para me redimir das minhas próprias dúvidas.

No entanto, observo, hoje, que virei peça de museu.  Ou melhor, de galeria.  E que diabos está acontecendo com as artes?! Mercadorias desconstruindo todo o processo de criação e pensamento.  O capitalismo invadiu também a criação? Quase saltei da cruz e invadi a fatídica Bienal do Vazio, em 2008.  Mas desisti.  Depois assisti pela TV urubus presos lá dentro, grafiteiros tentando ocupar algum espaço de expressão.

Vejo que este sacrifício foi infecundo e estéril:  Prostituição das artes e prostituição infantil; arquitetura labiríntica do tráfico de drogas x consumidores de classe média alta e alta; governos financiando guerras para manter a lucrativa indústria das armas e da (re)construção civil; hipocrisia no trato de preconceitos com a instituição de leis antirracismo, contra a homofobia, sendo que isso deveria vir das mais profundas estruturas do ser, da bondade e compreensão da suprema igualdade entre os seres, do amor pleno,  pois a lei deve ser reflexo de uma sociedade e não o inverso.

Pensei em pedir que me tirassem daqui, que me dessem o digno direito do descanso. Não solicitei nenhum privilégio de ocupar vagas para idosos, nem pagar meia na vida, nem pular a vez na fila, pois nunca me permitiram sair dos meus 33 fatídicos anos, centenas de vezes multiplicados nesta peleja.

Que eu seja, ao menos, fonte de inspiração para artistas e poetas, diariamente crucificados pela burocracia das leis de incentivo a projetos culturais ou desdenhados por editoras.

E assim encerro meu discurso, estou cansado, com um torcicolo apavorante…  É, vou me inclinar agora para a esquerda.”


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