Archive for the ‘Cinema’ category

Abutres das letras

Novembro 12, 2012

Por Dalila Teles Veras

Os escritores, não é novidade pra ninguém, passam a vida “estranhados” pelos parentes. Seres esquisitos e desprezíveis, trancafiados em seus soturnos esconderijos, vagabundeiam durante horas, dias,  anos, envolvidos com artefatos incompreensíveis ao senso comum, até que são encontrados mortos e, não mais do que de repente, descobrem eles (os parentes abutres) ou, em alguns casos, dizem-lhes baixinho aos ouvidos, que ali, naquele amontoado de papéis, há um veio a ser explorado e lançam-se, famintos, ao garimpo. Em muitos dos casos, os agora denominados “herdeiros” passam a viver daquilo que ali encontram, “defendendo” com unhas, dentes e ganância os “direitos” do falecido, agora transformados em “patrimônio” concreto.

Li recentemente que os herdeiros do escritor norte-americano William Faukner moveram uma ação judicial contra os produtores do filme “Meia-noite em Paris”, pelo “uso indevido” de uma frase (uma única frase, acredite-se) do escritor no roteiro daquele longa metragem de Woody Allen, usada “sem autorização” dos abutres de plantão.

Anote-se que o personagem Gil, interpretado por Owen Wilson, diz: “O passado não está morto! Na verdade, ele nem sequer é passado. Você sabe quem disse isso? Faulkner. E ele estava certo. E eu também o conheci. Eu o encontrei durante um jantar” ou seja, a “fonte” está incluída na fala do personagem e a tal frase, tirada do romance Requiem for a Nun (publicado em Portugal com o título Réquiem por uma Freira), traduzida ao pé da letra:  “O passado nunca morre. Ele nem sequer é passado”.

Interessante lembrar que o escritor morreu em 1962, há exatos 50 anos, tempo mais do que suficiente, convenhamos, para que suas frases tenham sido apropriadas pelo uso comum, tendo em vista que se trata de um escritor fartamente lido e traduzido em toda parte.

Considerando-se que isto ocorre em tempos virtuais e “reproduzíveis”, o episódio seria risível se não fosse patético, mas compreensível em se tratando de americanos, completamente tarados por “direitos” (autorais e com rendimento garantido) e, consequentemente, também por processos (igualmente rentáveis).

Guardadas as devidas proporções (e honráveis exceções) em exageros do gênero e talvez influenciados pelos sempre imitados irmãos do norte, os abutres das letras tupiniquins também estão aprendendo a fazer varredura diária e integral na esperança de encontrarem eventuais “pepitas” que lhes renda o sagrado direito de processar todo aquele que ouse “se apropriar” de um verso, uma imagem, uma citação que seja dos seus “entes queridos” desaparecidos, mas sempre vivo$ em sua memória. Que o digam da trabalheira e burocracia implícita aqueles que se aventuram a organizar uma antologia, escrever um ensaio crítico ou uma biografia de alguns de nossos imortais literatos ou, pior, um detalhe sequer de uma das imagens de nossos imortais artistas plásticos.

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Exibição do Filme “Camões”

Maio 24, 2011

 

“ Amália, o Filme”

Maio 16, 2011

Por Raquel Naveira (*)

 Meu sangue português está em festa. Nascida e criada no sul de Mato Grosso, numa casa portuguesa, pelos meus avós, José Dias de Carvalho e Emília, imigrantes de Figueira da Foz, é uma alegria ter aportado aqui em São Paulo, no Clube Português, convidada pelo professor João Alves das Neves, para apresentar este documentário sobre Amália Rodrigues, a Rainha do Fado, a cantora, a atriz, a voz de Portugal.

Logo que cheguei a São Paulo, escrevi o poema “Sangue Português”, cheio de perplexidade, que diz assim:

Fiz jus

Ao meu sangue português,

Este foi o meu fado:

Deixar o passado,

Arremeter-me contra o desconhecido,

Acima da minha pequenez.

Desejei tudo:

Uma nova estrela,

Uma nova sorte,

Atribuí ao fado

O meu cansaço

De alma forte.

Estaria morto,

Absorto em mim mesmo,

Se não tivesse partido;

Velas ao vento

Entre rosas e cruzes,

Viajei em busca do meu ideal,

Bem ou mal,

Não sei quando chegará minha hora,

Minha vez,

Mas sei que fiz jus

Ao meu sangue português.

E também foi aqui que escrevi uma crônica intitulada “Amália Rodrigues: a Fadista” em homenagem a Amália e ao meu avô Carvalhinho, fruto do tesouro de minhas recordações de infância:

“Meu avô português, o Carvalhinho, amava ouvir fados, principalmente os interpretados por Amália Rodrigues, verdadeiro ídolo para ele. Lembro-me das capas de seus discos, a fadista sempre sorridente, lábios vermelhos e xales estampados. O fado, na verdade, se origina do bem brasileiro lundu, música de nossos negros, cantada ao som da viola. Levado para Portugal por D. João VI o lundu mudou de nome, perdeu o ritmo acelerado e se fixou nos tons menores, mais adequados às lamentações e aos melodramas sentimentais, ao som das guitarras repinicadas. Tornou-se manifestação urbana dos bairros populares e operários de Lisboa. Com o advento da Rádio e do disco, as vozes das fadistas Ercília Costa, Ermelinda Vitória, chegam a  um público cada vez mais vasto. O fado saltou das ruas e vielas de Lisboa para as casas de fado como o Retiro da Severa, onde Amália começou sua carreira.

Amália, a lisboeta humilde, foi a renovadora do fado, uma voz singular, uma intérprete com intensidade dramática que afirmava que o que interessa é sentir o fado, porque o fado não se canta, acontece. O fado sente-se, não se compreende, nem se explica.

 Quando Amália esteve no Cassino de Copacabana em 1944, meus avós vieram de Mato Grosso assistir ao espetáculo e voltaram maravilhados com seu fascínio, seu vestido de crepe azul da China. O avô gesticulava: Só faltei ajoelhar aos seus pés, tanta a emoção! Não há melhor embaixadora de Portugal no mundo!

 Os fados preferidos de meu avô marcaram profundamente minha forma de ser, de escrever e de sentir: o doloroso e retumbante “Barco Negro”, de David Mourão-Ferreira:

  De manhã, que medo que me achasses feia

 Acordei, tremendo, deitada n’areia,

Mmas logo os teus olhos disseram que não,

E o sol penetrou no meu coração.

Em outro trecho aquele tom de melancolia das mulheres que veem seu amado partir:

 Eu sei, meu amor,

Que nem chegaste a partir,

Pois tudo, em meu redor,

Me diz que estás sempre comigo.

E nas horas de alegria, espalhava-se pela casa o som da “Casa Portuguesa”:

 Numa casa portuguesa fica bem pão e vinho sobre a mesa.

 Quatro paredes caiadas,

Um cheirinho de alecrim,

Um cacho de uvas doiradas,

Duas rosas num jardim,

Um São José de azulejo

Sob um sol de primavera,

Uma promessa de beijos,

Dois braços à minha espera…

É uma casa portuguesa, com certeza!

É com certeza, uma casa portuguesa!

Quando Amália Rodrigues morreu, no dia 06 de outubro de 1999, meu avô José já tinha partido. Acompanhei o noticiário em lágrimas, lembrando dele, de quando eu dançava ao som dos fados, segurando as pontas da saia e ele me chamava de “Minha borboleta”. Vi como Lisboa chorou: as flores, os lenços brancos acenando, os sinos das igrejas tocando. Nas ruas, nos carros, nas lojas, por todo lado o fado de Amália. O Fado da Bica, dos Caracóis, da Saudade, do Ciúme, do Silêncio. Ó Flor do Verde Pinho que lavava Portugal, lavava, nas madrugadas de Alfama, Lisboa em Festa, Lisboa das cantigas de amigo, dos fadinhos serranos da Esquina do Pecado. Nunca mais o Tiro Liro Liro. Ai, meu amor, o marinheiro está longe e sou dele e sou tua. Todas as guitarras ficaram tristes. Gaivota. Libertação”.

Vamos então assistir agora ao “Amália: o Filme” do cineasta Carlos Coelho da Silva, argumento de Pedro Marta Santos e João Tordo, realizado pela Valentim de Carvalho Filmes. Amália é encarnada pela atriz Sandra Barata Belo. Um filme que conta uma história de amores e de glória, uma história dramática e exaltada. Um filme que retrata o gênio artístico de uma mulher de sucesso planetário, mas que também conheceu a frieza familiar, as desilusões amorosas e pagou o preço da melancolia do fado. Com vocês, lances secretos e momentos memoráveis em “Amália: o Filme”.

(*) A autora é escritora, professora universitária, Mestre em Comunicação e Letras, membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras e do PEN Clube, diretora da União Brasileira de Escritores/SP, autora de diversos livros, entre eles, Portão de Ferro (poesias), Literatura e Drogas e outros ensaios e Caminhos de Bicicleta (crônicas).

Apresentação do filme “Amália, O filme” exibido no Clube Português de São Paulo em 27 de Abril de 2011

Convite: Exibição de “Amália – o Filme”

Abril 18, 2011

O Centro de Estudos Luís de Camões, órgão cultural do Clube Português, tem o prazer de convidar V. Exª. e Exmª. Família para assistir à projeção do filme português Amália – O Filme” de Carlos Coelho da Silva, direção de produção de Gerardo Fernandes. 

Apresentação da escritora e professora universitária Raquel Naveira – a sessão integrará as comemorações do Descobrimento do Brasil.

Exibição do filme, 27/4/2011 às 19h30.

Após o filme, será servido um “cocktail”, oferecido pela Diretoria do Clube Português e pelo Moreno’S Buffet.

 Prestigie a reunião com sua presença e convide os seus Amigos

Entrada franca

 E-mail: centrodeestudosluisdecamoes@clubeportuguessp.com.br

Rua Turiassu, 59 – Tel: 3663-5953

O lixo extraordinário – o extraordinário do lixo – o luxo do lixo

Fevereiro 16, 2011

Por Dalila Teles Veras

A história e as circunstâncias do filme Lixo Extraordinário, documentário ora em cartaz no circuito comercial em São Paulo, já são um paradoxo:

1) Coprodução Brasil e Reino Unido, rodado em sua quase totalidade no Brasil, mais precisamente no aterro sanitário do Jardim Gramacho, em Duque de Caxias, Rio de Janeiro;

2) O protagonista e estrela principal, o artista Vik Muniz, é brasileiro que fala inglês (a língua do país onde reside há tempos) e, no início do filme, tem uma idéia um tanto quanto confusa de seu próprio país, o Brasil, ainda que seja dono de grandes e inusitadas idéias artísticas;

3) Aqueles que seriam figurantes (todos brasileiros, catadores de materiais recicláveis – não gostam de serem chamados de catadores de lixo) transformam-se em verdadeiros protagonistas e passam a roubar a cena e a conduzir toda a ação;

4) dois co-diretores (João Jardim e Karen Harley) são  brasileiros, bem como o produtor executivo (Fernando Meirelles), mas o filme foi indicado ao Oscar na categoria “melhor documentário estrangeiro” representando a Inglaterra, na figura de Lucy Walker (codiretora) e Angus Aynsley, produtor. (A Academia exige que sejam indicados apenas dois nomes para receber a possível estatueta e, nesse caso, os britânicos foram indicados).

 O problema mesmo será se o filme se tornar ganhador do Oscar. Para que país irá a estatueta?

Augusto de Campos, em sua fase concretista mais radical, vale-se apenas de duas palavras (luxo e lixo) que, engenhosamente  repetidas e distribuídas tipograficamente, constroem um poema, cujo resultado de “leitura”  possibilita a compreensão do quanto de lixo pode ser composto o luxo.

Datado de 1965, esse poema (visionário?) serviria hoje para ilustrar lindamente a abertura do filme.

Neste caso, o do filme, o extraordinário (o luxo) do lixo são as vidas que ali palpitam e que fazem com que toda aquela parafernália do alto capitalismo em prol da arte como produto se rendam à força de sua determinação. São eles(as), homens e mulheres que por força das mais variadas circunstâncias, ali foram parar, travestidos em aves de rapina,  assimilaram as piores forma de precarização de trabalho e vida e, aparentemente (mas só aparentemente) mostram-se “felizes” ou “conformados” com aquele way of living.

É justamente no momento em que lhes são apresentadas outras formas e possibilidades de vida (a arte de permeio) que se miram  no espelho e, sem pudor, se revelam por inteiro, seres de uma grandeza que comove e perturba.

O artista Vik Muniz, indutor de todo o processo, vai pintando gente/lixo/retratos, transformando figurantes em estrelas que já eram estrelas só não sabiam ainda disso. Antes de se embrenhar no mau cheiro, de mergulhar no outro, o artista Vik Muniz também não sabia nada daquilo. De surpresa em surpresa, diante da transformação do outro, é transformado também, retratos ampliados pela técnica da emoção.

As luxuosas galerias de Londres, Paris e Nova York, renderam-se ao “luxo” kitsch daquilo que veio do lixo, sem desconfiar que, para além do exotismo que move endinheirados colecionadores, ali, inclusive, há vidas, vidas que pensam.

Falta agora fazer o Lixo Extraordinário II, que conscientize aqueles que desembolsam altas somas na compra dessas obras, bem como aqueles que assistiram ao filme e vão às galerias e museus, que é preciso repensar o consumo e a já não mais suportável produção de lixo do Planeta que, a continuar sem a destinação adequada, acabará por transformar em lixo, não mais extraordinário, a própria humanidade.


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