Entre espiar ou expiar a Copa

Por Saulo Krichanã Rodrigues

Não sei quanto a Vocês: mas, quase todo mundo que conheço está a esconjurar a Copa.

E não tem nada ver com a escalação do time (coisa que o Felipão sequer ainda divulgou): na área da educação, as aulas do semestre terminam em mais 10 dias, se tanto. E só recomeçam em agosto, daqui entre 45 a 60 dias!

Na produção, há quem veja no acúmulo dos estoques nos pátios das montadoras, uma antecipação da produção com duplo sentido: de um lado protegem-se as margens com a produção antecipada a custos mais baixos do que deverão estar ao final do ano. E com a dispensa antecipada de mão de obra, pode-se desovar a produção no segundo semestre a preços mais altos o que (com a desoneração dos impostos assegurada pelos acordos pré- eleitorais), maximizará os lucros e se esterilizarão os custos com a redução das folhas de pagamento.

Comenta-se, por outro lado, que na produção agrícola, a estiagem de agora não passa de uma reprimenda de São Pedro àqueles que insistiam em rogar ao todo-poderoso para, também, segurar o tempo por um bimestre, de forma a possibilitar que as safras se fizessem ao ritmo do calendário da FIFA. Mas, deve ter sido apenas uma infeliz coincidência, que o verão se tenha antecipado no sul – secando reservatórios de usinas e da produção da água potável (?) -, e o inverno no norte, antecipando as monções e a sufocando a piracema.

O tempo trazido a valor presente pela Copa também havia antecipado o calendário eleitoral; e a não ser a classe perversa dos marqueteiros, poucos se deram conta disso. Tanto é que a situação saiu muito na frente correndo o risco de antecipar a rejeição. Em compensação a oposição como só agora acordou para a Copa (digo, para as eleições antecipadas), demorou a escolher os vices que, ao que parecem , são eles que anteciparão mais votos ou menos votos para os candidatos dito principais (sic).

Ou seja, ate o calendário eleitoral se transmutou: qual aquele rio franciscano, do qual ainda não se fez a cabal transposição. Talvez, até por isso mesmo: deve estar a esperar a normalização do tempo, para também autorregular o ciclo das águas e das secas…

Os hotéis que armaram preços estratosféricos foram atropelados pelos “hostels” e por suas primas pobres, as pousadas e os sobrinhos bastardos dos quartos, cômodos e puxadinhos improvisados. Como que a seguir a transmutação do tempo, as taxas de ocupação e de lucro devem se inverter de modo a recompensar os últimos e a mandar para o chuveiro (como se diz na Copa) os espertalhões que estavam antecipando os lucros e (dizem as malditas más línguas) gastando por conta dos turistas distraídos.

Aliás, seria bom que a Copa não demorasse mais do que 10 dias mesmo, pois – cala-te boca malsinada –, até as embaixadas da Guiné e da Somália, estariam recomendando cautela aos seus maganos mais abastados ao circular entre os irmãos do outro lado deste oceano outrora tão saudosamente paradisíaco.

Na mesma linha da antecipação de fases lunares e não lunares, estão os que já comemoraram a diversidade dos gêneros assim como os que disputam (ou querem retomar) pontos de apoio logístico nos morros onde se trafica o vício.

O que, aliás, antecipou a estratégia de ocupação daquelas plagas, antecipando o estado de sítio e os toques de recolher subliminares que deverão acontecer em decorrência deles.

Alheio a tudo e a todos, — ou talvez, sabiamente, até por causa disto tudo – a escalação do escrete segue impávida e cuidadosamente escondida: dizem até que a CBF cogita de terceirizar o time, enquanto arruma as malas para mudar a sua sede para um puxadinho já em frenética construção em Zurique, na Suíça, ao lado da sede da FIFA, embora tenha sido fundada em Paris a exatos 110 anos a serem completados no próximo dia 21 de maio deste ano da graça, já  tá sem graça alguma…

Esta antecipação forçada de fatos, datas, efemérides, estações do ano e ouras tantas “cositas más” – típicas de quem pode se dar ao desfrute de sublimar o tempo –, deve espicaçar os ânimos para expiar (e não espiar) a Copa.

Ou seja, para que num suceder de catarses espasmódicas e convulsivas, talvez queiramos regurgitar ao mundo, nosso arrependimento tardio pela festança (quase) cívica que se seguiu ao bicampeonato da atração dos dois maiores eventos internacionais na área esportiva: a Copa e as Olimpíadas.

Não sei não! Não sei o que está na mente dos que leem estas mal traçadas linhas: mas, como os jogadores de Gana, Argélia ou da Costa do Marfim, está a correr um friozinho pela espinha. E não sei bem se só pelo medo de temidos e previsíveis adversários…

Ou se é por descobrir que o nosso maior adversário está bem ali, a nos mirar no extremo oposto do espelho, a mastigar a dúvida cruel da esfinge verde e amarela que nos fita: afinal, iremos espiar ou expiar a Copa?

Na política, isto equivale saber se é preciso atacar a situação (fazendo o jogo tramado pelos seus marqueteiros); ou se encher de coragem e assumir o que de bom se fez de fato no presente e conclamar a todos para desejar um pouco mais do que o que já foi dado. Ou seja, se deixar de lado ou sujeito (ou a sujeita) e se falar de projetos e de futuros, mostrando que o consumo de viagens, automóveis e até da casa própria não prescinde de melhor educação, de melhores serviços de saúde, de mobilidade e de cultura. Para que não se precise sempre remedar o velho Zé Rodrix, e acabar parecendo (sempre e tanto) como os nossos pais…

Pois é, antecipar projetos, impessoalizando as eleições, é o sonho de horror dos marqueteiros.

Já pensou, se a oposição purga a situação e, sem desmerecer os bem-feitos (e a sublimar os malfeitos), se passe a falar de que é possível, sim, ter mais consumo?

Mas, consumo de saúde, de educação, de saneamento, de mobilidade, o que pressupõe a retomada de investimentos em áreas que alavancam o crescimento, a inclusão e a inserção definitiva dos quase 50 milhões que estão a chegar ao mundo visível da sociedade?

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