Arquivo de Março 2012

EU INFANTE

Março 23, 2012

Por Ives Gandra

Meu ano acaba, volto a ser menino,

Encantos descobrindo pela lua,

Meus papagaios lúdicos empino

Enquanto elevo aos céus minh’alma nua.

 

Retorno no rever de meu destino,

Ao  moleque que andava pela rua,

Sonhando sonhos mil, em desatino,

Sem nunca perceber que a vida é crua.

 

Meu passado repasso num instante

E meu presente engolfo no futuro,

Que se torna de mais em mais incerto,

 

Mas que não tira obrilho de eu infante,

Que fazia ser claro o que era escuro

E plantava jardins pelo deserto.

PRESTAR CONTAS

Março 23, 2012

Para Ruth Por Ives Gandra

Depois de tantos anos, lado a lado,

Chegamos, sem querer, a nossa idade.

Na longa trajetória do passado,

Sentimos alegria com saudade.

 

O tempo, que nos resta, Deus conhece.

Nossa imagem se torna fugidia

E lançamos ao alto a nossa prece,

A prece que se faz a cada dia.

 

O tempo de colheita já se vai.

O tempo agora é de prestar as contas.

Muito resta chorar a nosso Pai,

Embora para o bem tu bem despontas.

 

Os céus só se conquistam na inocência,

Ou dos males, fazendo penitência.

Sincronicidades poéticas

Março 23, 2012

Por Dalila Teles Veras

Vias Oblíquas

     “Porque parte tudo um dia

    O que nos lábios ardia

    Até não sermos ninguém

       Paixões Diagonais, Miguel Ramos / João Monge

depois que a mulher voejou

levando consigo a

claridade dos cômodos e

duas décadas coabitadas, o

marido, no escuro

ensimesmado

deixou o cabelo crescer, o

mato tomar conta dos

canteiros, o

pó cobrir móveis e assoalhos

sete luas após a mulher

levar consigo a sonoridade

da alcova, o marido

às claras e resoluto

reagiu

engaiolou dez pássaros e

registrou em cartório o

certificado de propriedade

dos novos moradores

 (garantia do controle de vôos e

ingresso permanente a

concertos privados)

 

Poema livro inédito Estranhas Formas de Vida.

Colagem de Margarita Lo Russo, artista visual e escritora argentina, 2010.

Nota de Rodapé da autora: “A Colagem de Maregarita Lo Russo é prova mais do que viva do fenômeno. O poema foi escrito bem depois e sem que eu tivesse conhecimento dela. Quando a vi, porém, tive a certeza de que foi feita para o meu poema, não para ilustrá-lo, mas, antes, completá-lo. Sincronicidade poética. Fica aqui, portanto, registrada a minha homenagem a essa grande artista de quem tenho a honra de ser amiga e parceira há décadas”.

Poemas do “Sangue Português” – CAMÕES EM MACAU

Março 22, 2012

Por Raquel Naveira

Macau,

Entreposto português na China,

Às margens do rio das Pérolas

Que  adornam a fronte da deusa A-má

Refletida no mar de espelho,

Azul, manchado de vermelho.

 

Camões,

O poeta,

O soldado,

O aventureiro,

O exilado,

Desce da nau,

Sobe à colina,

Ali encontra uma gruta entre rochedos,

Um refúgio

Para armar sua rede,

Guardar a espada

E afiar a pena;

Escreve então um longo poema

De heróis trágicos,

De deuses mitológicos,

Paixões,

Intrigas,

Batalhas e cobiças,

Salvou a si mesmo

E ao nosso idioma.

 

Lá embaixo, na ilha,

O calor é sufocante,

Sopram  os tufões,

Há jogatina,

Licores,

Cavalhadas,

Amigos vadios

E saiotes de meretrizes,

O poeta perde a fibra

E o fôlego,

Afoga-se em tormentas

Nadando a vau.

 

Naufrágio…

Salta do barco,

Braçadas,

Mais braçadas,

O manuscrito colado ao corpo,

Dinamene,

Escrava de quem era escravo,

Engolida no turbilhão,

Terra firme,

Desmaia agarrado ao couro do gibão,

Febre,

Ânsias,

Ardência,

Dói seu coração.

 

Macau

Foi seu destino,

Rolar como um calhau,

Bastava-lhe amor,

Mas os erros,

A violência,

Os duros fados

Se conjuraram aos desígnios

De um terrível anjo mau.

Poemas do “Sangue Português” – VISÃO DE ANGOLA

Março 22, 2012

                                                                a Agostinho Neto Por Raquel Naveira

Vejo Angola

Da janela do avião:

Uma barcarola

No mar de Benguela,

A água lilás,

Guardiã da sabedoria,

Divide em ondas-

A guerra de um lado

E de outro, a harmonia.

 

Vejo Angola

Da janela do avião:

Uma casinhola,

A amoreira gigante

Onde enterrei a pistola

Com a qual me mataria.

 

Vejo Angola

Da janela do avião:

Tão verde,

Tão sagrada,

Nem parece que presenciei a degola,

O combate,

A afirmação de nacionalidade,

O canto dos poetas

Exigindo liberdade

Nas cordas da viola.

 

Vejo Angola

Da janela do avião:

Angola, minha escola,

Meu espaço de luta,

Minha infância crioula,

Mestiça,

Filho de português e africana.

 

Não  pintarei mais meu corpo de tacula,

Não ouvirei mais o tam-tam dos tambores,

Não tocarei a pele dos antílopes,

Não comemorarei ritos de passagem,

Não seguirei as abelhas do dia,

Nem penetrarei nas florestas de lianas.

 

Angola,

Da janela do avião,

Rola

Como um filme

No fundo das minhas retinas


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