Archive for the ‘História da Arte’ category

DESENCONTROS

Junho 25, 2013

por Rita de Cássia Alves 

O verde abriu o sarcófago dos templários

E de dentro do féretro saltam passados distantes

Em atividade de cacto.

Alguns olhos assustados e apartados pela linha do nariz

Outros, obtusos, buscam no chão um ponto luz.

Caravaggio perdeu a guerra da perspectiva

Pois o ataúde ignora o foco de projeção

Nucas e frontes disputam fachos esquizofrênicos

De uma iluminação nascida da ponta dos dedos.

Seres sem braços

Envoltos em fios de cobre

Ardem nas espreguiçadeiras de domingo

Imploram uma fatia de Tarte Tatin

E comem vorazmente com a memória.

Sobre as cabeças de pedra

Braços e pernas explodem do corpo-casulo

Um rosto emergido em pigmento

Desviando a ondulação da luz

Até o mais profundo vazio

Dos olhos negros.

“Desencontros”, Valdir Rocha, 2013. Pastel sobre papel tingido na massa.

“Desencontros”, Valdir Rocha, 2013.
Pastel sobre papel tingido na massa.

Retrato Régio de D. Carlos I

Fevereiro 27, 2013

Retrato Régio de D. Carlos I

MUSEU DA REPÚBLICA: MEU PALÁCIO PARTICULAR

Dezembro 5, 2012

Por Raquel Naveira

Somente este palácio poderia satisfazer totalmente o meu desejo de ter casa_republica texto raqueluma casa. Assim como minha sede de arte e de teatro só será saciada com o Juízo Final. Aqui é que eu gostaria de morar: a porta dupla de ferro dando para a rua agitada do Catete; as escadarias forradas de veludo vermelho por onde desceriam filhas vestidas de noivas; as salas cobertas de tapeçarias, móveis antigos, pinturas, lustres brilhantes de cristal; grandes águias encimando o telhado, pousadas  com a sabedoria dos que sempre se renovam e vencem desafios.

Se eu morasse neste palácio, conservaria com carinho os pertences dos barões de Nova Friburgo. Cuidaria também dos amplos jardins que dão para a praia, projetados pelo Mestre Glaziou, que também executara os da Quinta da Boa Vista. Minha  neta Maria Augusta brincaria entre as grutas e palmeiras e eu ficaria feliz com seu sorriso de menina (ela, que mora tão longe, pareceu-me agora mais distante ainda). Lembrei-me do poema “Jardim Público”, de Dante Milano, que diz assim:

Mundo estranho
De íris, lótus, ninfeias,
Aves pernaltas,
Plantas aquáticas,
Esquisitos bichos,
Rumor de águas de todos os lados,
Um silêncio que enche os ouvidos,
Estátuas de fronte cansada,
Bancos onde se medita no suicídio,
Homens caminhando para o passado.

*

Dos presidentes da República Velha, eu guardaria os jogos de porcelana com xícaras, colheres de prata e bules de café e o  moedor de grãos  da cozinha. Em homenagem a Juscelino Kubitschek, poderia colocar algumas fotos de Brasília nos corredores.
Ao porão, onde estão as fortes lembranças de Getúlio Vargas, o controvertido político quatro vezes presidente do Brasil , que se suicidou em seu quarto no palácio, com um tiro no coração, no dia 24 de agosto de 1954, para lá, eu não desceria. Fingiria que nada acontecera, esqueceria o pijama listado, o estampido da garrucha, a cadeira de palhinha e a escrivaninha onde ele escreveu a carta-testamento: “Eu vos dei a minha vida. Agora ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história.”

Pensando bem, é preciso ter coragem. Eu desceria, sim, ao porão, exorcizaria o demônio que está lá, faria uma oração de quebra das maldições que pesam sobre a vida brasileira, uma oração de libertação para o povo, um clamor de justiça que chegasse até Deus.
Ah! Eu acenderia as luzes, as velas, os lampiões. Enfeitaria tudo com muitas flores, arranjos que eu mesma faria e colocaria em vasos sobre toalhas de renda branca. Anunciaria um baile de valsas a cada pôr-do-sol. E não esqueceria de encher todos os ambientes com livros, muitos livros, nas estantes, nas mesas, nos cantos com abajures, penas de faisão em tinteiros, folhas de papel. Abriria até um espaço para um novo computador que me conectasse com mundos e galáxias-  pois bem que estou precisando.

Os portões eu manteria sempre abertos, nada dessa tristeza de greve. Receberia pessoalmente as visitas: artesãos, músicos, atores, cineastas, crianças, velhos, gente humilde. Como conheço bem as regras de hospitalidade, a todos eu daria atenção, serviria café com bolo de laranja  e contaria casos da história: da história do Brasil, do Rio, da minha vida desde que nasci em Mato Grosso e escutaria com paciência e calma as histórias da vida das pessoas.

Só este palácio poderia satisfazer totalmente o meu desejo de ter uma casa, afinal sou uma aristocrata no espírito. Mas, será que eu não poderia ter uma pequena janela que desse para o meu palácio?

Conferência: “O Desígnio da Lusofonia: nos 100 anos da Renascença Portuguesa”

Novembro 12, 2012

Será apresentada a revista NOVA ÁGUIA 10 Por Renato Epifânio

Biblioteca-Museu República e Resistência/Espaço Grandella

Estrada de Benfica, 419 – Lisboa

GUILHERME, O INICIADO

Março 17, 2011

Por Paulo Bomfim

Evocar Guilherme de Almeida no 40º aniversário de sua morte é algo que me deixa fascinado.

O amigo está de tal modo presente nos diálogos de meu caminho, tão moço entre os que participaram da revolução estética de 22 e da guerra santa de 32 que falar dele em termos do novo século, torna-se exercício de esperança.

Pergunto-me qual a mais antiga lembrança que possuo a seu respeito?

Mergulho no tempo e volto à casa de meus avós na Rua Rego Freitas, 59, esquina da Epitácio Pessoa, onde morava Antônio Cândido Camargo, cirurgião notável e personagem do romance “Madame Pommery”.

Nos dias que antecederam o 9 de Julho, os irmãos Guilherme e Tácito, Aureliano Leite, Carlos Moraes de Andrade, irmão de Mário e Ibrahim Nobre faziam do solar de meus avós centro de pregação revolucionária.

Depois, recordo todos cantando a Marcha do Soldado Paulista, com letra de Guilherme de Almeida e música de Marcelo Tupinambá.

Passados mais de dez anos, vou com Guilherme e Baby ao Atelier Bar, na Avenida Ipiranga, para cantar com eles em primeira audição, a Canção do Expedicionário, acompanhados ao piano por Paulinho Gontijo de Carvalho, o lendário “Polera” das madrugadas.

Em 1945 levo ao Poeta de São Paulo, os originais do “Antonio Triste” que sairia em 47 com seu prefácio consagrador e ilustrações de Tarsila.

Guilherme foi o companheiro paciente e sábio de minha adolescência extravagante.

Em sua casa, primeiro na Pamplona e depois na Macapá, convivi com Roberto Simonsen, Di Cavalcanti, René Thiollier, Batista Pereira e Tarsila do Amaral.

Noitadas inesquecíveis onde ouvíamos o anfitrião dicorrer sobre os mais diversos assuntos que iam da Grécia clássica à cibernética, da poesia provençal à botânica e à história, do ocultismo à heráldica e ao cinema.

Guilherme foi mestre de poesia. Ele e Manuel Bandeira conheciam o ofício como ninguém.

Num dia em que disse a ele que ritmo é a respiração do pensamento, ouvi a mais profunda lição sobre o sentido mântrico da rima, desencadeadora de processos mágicos que faziam o homem e seus chacras entrarem em comunhão com o corpo vivo do universo.

Na poética do autor de “Nós” há lugar para uma cosmogonia vária, leque de rumos que surpreende e fascina.

Em suas mãos de demiurgo o verso é criatura fecundante, processo transmutável e encantatório, ouro espiritual que vai agir na sensibilidade do leitor.

Foi um homem raro, nascido da cultura e da velha cepa de guerreiros e navegadores que gravaram no livro de linhagens o brasão dos Almeidas e Andrades maternos, descendentes dos velhos Camargos bandeirantes.

Sua poética surge das ondas de um mar português e é embalado pelo Acalanto de Bartira.

Entre cantares de amigo e sonetos dos mais belos do idioma, entre Canções Gregas e evocações da Raça, o peregrino do encanto atravessa a vida em sua via de romeiro de Compostela.

Lírico e épico, participante e metafísico, o cavaleiro andante luta por sua terra e por sua dama.

O mês das neblinas é a síntese numinosa da existência do cantor de nossas glórias. Nele nasceu e nele viveu apaixonadamente o 9 de Julho.

Na saga de sua existência, o voluntário de 32 coloca o fuzil e a pena a serviço de uma causa.

Em sua panóplia, a língua portuguesa brilha um brilho antigo e renovado.

Quando em 1962 levei Jorge Mautner à sua casa, o encontro produziu tamanha impressão no jovem escritor que exclamou, ao despedir-se:

– Mas esse homem é um bruxo!

Sim, Guilherme era um Iniciado e a Poesia sua Ciência Sagrada!

Música: patrimônio imaterial do Brasil

Fevereiro 16, 2011

Por Rita de Cássia Alves

A música se insere num contexto único, pois faz parte da cultura de um povo, ultrapassa os limites do concreto, e se funda como legitimação de uma maneira de expressão que ganha caráter de tradição e se contextualiza em sua época, registra subjetivamente a organização social e cultural de um determinado povo, de um determinado grupo.

A Música Popular Brasileira, nas suas mais diversas representações, proporciona para as atuais e futuras gerações o acesso a expressão, ao rosto, a feição de quem fez e faz a fusão cultural brasileira, uma das mais expressivas expressões musicais do planeta e, sem dúvida, o carro-chefe de nossa cultura, a mais abrangente e popular forma de expressão do povo brasileiro, patrimônio imaterial de nossa formação cultural.  

Mais que em qualquer outra expressão cultural, é na música que podemos vivenciar a presença das diversas vertentes étnicas que forma nosso Brasil. Em especial, ao escrever para este site, que conjumina países de língua portuguesa, mais propriamente formadores de nossa gente, de nosso povo – lembrando Darcy Ribeiro – é prudente lembrar que em cada um dos diversos ritmos podemos fazer uma pesquisa de origem dos sons, das pessoas que se agregam em torno de determinados gêneros.

O impressionante é que, sabidamente, a língua portuguesa não tem uma estrutura e nem sonoridade acessível aos alheios e estranhos a ela, mas em oposição extrema está a capacidade de a música brasileira adentrar aos mais diversos nichos culturais, em quaisquer continentes, num testemunho de que a melodia, o ritmo, em comunhão com as palavras da nossa língua, exercem um poder soberano de sedução aos ouvidos, numa quase inexplicável harmonia que nos dá a graça de ter tanto grandes mestres clássicos, como Heitor Villa Lobos ou Carlos Gomes tanto quanto o samba em sua maior expressão: o carnaval.

Mesmo dentro destes gêneros aparentemente inconciliáveis, é possível perceber a preocupação do mestre Villa Lobos em recolher as mais simples expressões populares, sons que remetem às origens culturais, às produções de saberes locais, valorizando tradições caipiras, regionais, ao mesmo tempo em que busca romper com padrões limitadores da criação.

Assim também nos surpreende a criação dos grandes mestres do samba: Angenor de Oliveira, o ícone Cartola, Nelson Cavaquinho, Paulinho da Viola, poetas conhecedores da nossa língua – instintivamente alguns, outros estudiosos cuidadosos da estrutura lingüística que rege a nossa língua pátria, como Caetano Veloso e Chico Buarque de Holanda.

A nossa constituição federal, em seu artigo 216 define muito bem o significado deste patrimônio nacional : Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira”(…)”

Assim, torna-se possível não apenas deleitar-se com a expressão maior de nossa cultura, mas gerar cultura através dela, identificando-a como um patrimônio a ser preservado.

A constituição atribui ao poder público a responsabilidade de promover, proteger e conservar o patrimônio cultural brasileiro, em seu parágrafo 1º, artigo 216:  “O Poder Público, com a colaboração da comunidade, promoverá e protegerá o patrimônio cultural brasileiro, por meio de inventários, registros, vigilância, tombamento e desapropriação, e de outras formas de acautelamento e preservação.”

Por isso enumerar aqui ritmos e etnias que compõe a nossa música é tarefa de árduo labor, fruto de pesquisas de homens idealistas, musicólogos, antropólogos, historiadores incansáveis que têm recolhido, tal qual o professor doutor Edilson de Lima, partituras das nossas Modinhas, cantigas do século XVII, XVII, para que não se perca parte importante de nossa formação musical, a música barroca; ou então Ricardo Cravo Albim, que recolhe em seu instituto fantástico acervo das diversas expressões, ou ainda Mário Luiz Thompson, fotógrafo que dedicou toda a sua vida a registrar a imagem visual da nossa música.

Pudera, música que tem em sua lista tantos virtuoses como Dorival Caymmi, Tom Jobim, Chiquinha Gonzaga, Altamiro Carrilho (a lista seria interminável) precisará ter espaços e suportes para gerir um patrimônio desta magnitude.


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