Arquivo de Setembro 2011

O Seu a seu dono Pessoa “desapossado” de Coelho Pacheco

Setembro 6, 2011

“Para Além de Outro Oceano”, atribuído a um dos sub-heterónimos do genial poeta, é da autoria de um dos “putos” do Orfeu, de que se descobriram agora outros poemas inéditos, aqui revelados com este texto de uma das prestigiosas e fecundas especialistas pessoanas.

(texto retirado do Jornal de Letras – 20 de Maio de 2011)

Por Teresa Rita Lopes

Sabia que António Ferro e Almada Negreiros eram assim chamados, de “putos” do Orfeu (o primeiro, sete anos mais novo que Pessoa, com vinte anos, e Almada, cinco, com vinte e dois. Ferro terá figurado como “editor” por ser ainda menor e, portanto, inimputável, em caso de desaguisados com a justiça…). Não sabia é que havia outro, José Coelho de Jesus Pacheco, com vinte e um anos. Vou contar como finalmente vim a saber quem ele realmente foi.

Conheci C. Pacheco, assim indicado, e o poema “Para Além d’Outro Oceano” através da Obra Poética de Fernando Pessoa que, em1960, aestimada pessoana, pioneira nestas lides, Maria Aliete Galhós, publicou na editora Aguilar, no Brasil. Indica ela, em nota, que o poema se destinava ao nº 3 do Orfeu, e esclarece que o poema está dedicado “à memória de Alberto Caeiro” e que, numa nota de Pessoa para a paginação de Orfeu 3, que chegou a ser composto, o autor do poema é Coelho Pacheco.

Comenta ainda que “Pacheco é um episódico heterónimo de Fernando Pessoa de quem se não conhece mais nenhuma produção.” E pronto, ficámos a braços com este “episódico heterónimo” até aos nossos dias.

No volume I das Obras de Fernando Pessoa, recolha editada em 1986, por António Quadros e Dalila Pereira da Costa, encontramos no capítulo “A poesia de um sub-heterónimo” esse mesmo poema, com uma nota de rodapé esclarecendo “não é conhecida a poesia deste sub-heterónimo, tendo-se já aventado que poderia tratar-se de uma pessoa real, tanto mais que a família Coelho Pacheco era bem conhecidaem Lisboa. Masse assim fosse o autor não se teria já acusado?” (Como, se morrera em 1951, antes da publicação do poema?)

Eu sabia que Pedro da Silveira aventava oralmente a tal hipótese que António Quadros refere, ou fazia mesmo a afirmação de que o poema em questão era de um tal Coelho Pacheco que existira, sim senhor, e tinha um stand de automóveis na rua Braamcamp.

Quando uma minha parceira de lides pessoanas, a Professora Manuela Parreira da Silva, ao editar a correspondência reunida das cartas de e para Pessoa (Fernando Pessoa. Correspondência Inédita, Lisboa, Livros Horizonte, 1996) encontrou uma assinada Coelho Pacheco em que agradece a oferta de Mensagem e recorda saudosamente os tempos de Orfeu, essa atribuição a Pessoa tornou-se muito mais problemática, e tanto a Manuela como eu muito nos inclinámos a retirá-la. Tanto mais que no decorrer da pesquisa para o meu Pessoa por Conhecer, publicado em 1990, e para o Pessoa Inédito (simultaneamente preparado, embora apenas editado em 1993) deparávamos com uma colaboração de Coelho Pacheco, “um poema interseccionista”, “Eu sem mim”, prevista por Pessoa no plano de uma revista que então preparava com Mário de Sá-Carneiro, Europa, que finalmente viria a chamar-se Orfeu e de um plano para Orpheu 3 e 4 (pessoa Inédito p. 255)em que José Coelho Pacheco assim figurava, por extenso, com colaboração prevista de 8 paginas, tantas quantas as destinadas a Fernando Pessoa! Mas não havia provas palpáveis nem para a atribuição nem para a “desatribuição”.

Pus-me em campo e soube, há já uns anos, da existência de uma filha de Coelho Pacheco, Maria Helena Pacheco Figueiroa Rego, que me recebeu muito simpaticamente mas me desanimou por não ter conhecimento dessa faceta literária do empresário da indústria automobilística que era seu pai. Tinha apenas em seu poder uns versos brincalhões dedicados à mulher, que me não autorizavam a reconhecer-lhe faculdades poéticas.

Manuela Parreira da Silva fez recentemente o ponto da situação, para o Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português, coordenação de Fernando Cabral Martins, numa excelente recensão sobre José Coelho Pacheco, referindo mesmo que Maria Aliete Galhós, num artigo para As Mãos da Escrita, edição da Biblioteca Nacional, de 2007, declara que foi um erro atribuir a Pessoa “Para Além d’Oceano”. Mas a verdade é que continuávamos sem provas para a sua atribuição a José Coelho Pacheco. E Manuela Parreira da Silva termina melancolicamente a recensão: “A dúvida vai, certamente, persistir.”

Mas eis senão quando, há uns dias, tive a alegre surpresa de ter nas mãos o original manuscrito do poema “Para Além d’Outro Oceano”, assim escrito pelo seu autor, José Coelho Pacheco, o avô de Ana Rita Palmeirim, que me procurou para mo mostrar! Foi uma fulgurante surpresa! Por se poder fazer finalmente justiça a esse apagado comparsa das aventuras órficas que enveredara pelo caminho dos negócios sem deixar de ser amante das artes e praticante da escrita literária. (Assim fez também Rimbaud, mas este tem o seu lugar na história da literatura francesa…)

Poderia dizer-se desse José de Jesus Coelho Pacheco, que foi proprietário de um stand de automóveis na Rua Braamcamp, nº 92, em Lisboa, que tinha realizado o sonho de Álvaro de Campos: “Ir na vida triunfante como um automóvel último modelo!”. Campos sensacionista proclamava, à maneira futurista, que o maior poeta não era o que escrevia versos mas o que dava aos seus actos o alcance e o valor de um poema.

Na carta que escreve a Pessoa, a 20.2.1935 (ver obra referida de Manuela Parreira da Silva), a agradecer a Mensagem, Coelho Pacheco diz-lhe que esse livro lhe dera uma alegria maior do que teria se recebesse, da sua fábrica, um automóvel novo! E recorda os velhos tempos do Orfeu e da Renascença. Do que me contou Ana Rita Palmeirim (uma das oito netas de JCP) depreendo que o avô sempre foi um esteta e que apreciava as linhas dos automóveis que encomendava para o seu stand com o mesmo gosto que punha a desenhar pequenos móveis para a casa, movido por uma vocação que hoje diríamos para o design.

Além do que é indubitavelmente o rascunho manuscrito do poema “Para Além d’Outro Oceano”, Ana Rita levou-me, na velha pasta de couro do avô, com as inicias dele gravadas, outros poemas. Um deles, “Delirando…” é de 10.3.1914, dois dias depois desse que Pessoa apelidou de “Dia Triunfal”, em que os heterónimos se lhe teriam manifestado – o que, diga-se de passagem, era encenação sua, porque o exame dos manuscritos revela que, nesse dia, só Alberto Caeiro se manifestou, e apenas com dois poemas.

Delirando…

Por José Coelho Pacheco

Como um cadáver frio no mármore gelado

Da mesa numa escola – a imagem não importa –

Hirta e roxa do frio, vejo a minhalma morta

Liberta do meu corpo exangue e macerado…

 

Vejo-a silente e negra e envolve-a de mistério

Num arrepio da carne – um arrepio que assombra

Um lívido sudário – lívido de sombra –

Na campa vaga dum longínquo cemitério…

 

E vejo – sim, diviso – um vulto maquilado

Um vulto de histrião, leproso e gangrenado

Dando, num arquejar de todo o corpo seu,

 

À lividez sangrenta da minhalma um beijo…

E eu sofro muito…eu sofro muito quando o vejo

Porque esse corpo – horror! – só pode ser o meu.

Pessoa já tinha constituído, com Mário de Sá-Carneiro, uma pequena cotterie, como ele gostava de dizer, a que, provavelmente, pertenceria o jovem José Coelho Pacheco (então com vinte anos) que a ela se refere nostalgicamente, na referida carta. Por essa altura forneceu ele colaboração, em prosa, à revista Renascença, em que figura como editor, eem que Pessoa publicou o poema, “Pauis…”, que daria o nome à dita cotterie: Paulismo. Outro jovem, com vinte anos, Carvalho Mourão, amigo sobretudo de Mário de Sá-Carneiro, divide com Coelho Pacheco a direcção e dinamização dessa revista, militantemente paúlica.

Como colaboração literária, Coelho Pacheco apenas publicou, que eu saiba, mais uma pequena narrativa no Correio Ilustrado, de 1.3.1916, mas editou, em 1937, pela Bertrand, uma tradução de um romance de Jules Verne, Cidade Aérea, que preparava desde os 17 anos (já então a prometera a uma editora de Lisboa, que lhe escreveu nesse sentido. Ana Rita mostrou-me a carta da editora, de 1912 – ano em que frequentava o Instituto Superior Técnico).

Outra informação importante que obtive da família: José de Jesus Coelho Pacheco era sobrinho, por parte da Mãe, de um amigo de Pessoa, Geraldo Coelho de Jesus, engenheiro de minas, director do jornal Acção, de inspiração sidonista, de que Pessoa foi o principal obreiro e colaborador, e de que saíram quatro números, entre 1-5-1919 e 27.2.1920. Foi também sócio de Pessoa na empresa Olisipo, por este criada em 1921, extinta em 1923, com ambiciosos projectos, sobretudo editoriais e de expansão, no estrangeiro, da cultura e dos produtos nacionais.

Tenho a intenção de pedir a Ana Rita Palmeirim que, de parceria com alguém do Instituto que oriento (que dá pelo nome de Estudos sobre o Modernismo) se dedique a lançar mais luz sobre a interessante vida e personalidade de José Coelho Pacheco. Para já, mais alguns apontamentos, fornecidos por ela e por sua Mãe, Maria da Luz Coelho Pacheco, a quem igualmente agradeço.

José de Jesus Coelho Pacheco nasceu em Lisboa, a 27.5.1894, conforme reza o Bilhete de Identidade aqui reproduzido, e aí morreu a 15.11.1951. Frequentou o Instituto Superior Técnico, mas foi chamado para cumprir o serviço militar, pelo que teve que abandonar o curso. Diz-me Ana Rita que ia a caminho da Grande Guerra quando ela felizmente terminou.

Na dita “pasta” (não se poderá, no caso de Coelho Pacheco, falar de “arca” mas tão só de pasta…) encontram-se vários manuscritos e até dactiloscritos, de “Para Além d’Outro Oceano”, que, como se pode ver pelo conhecido texto publicado, é constituído por várias unidades temáticas que poderiam ter recebido números, como os quarenta e nove poemas do “Guardador de Rebanhos”. Coelho Pacheco não o fez mas deve-as ter separado no texto definitivo que forneceu para Orfeu 3, porque assim nos chegaram.

Repare-se, contudo, que a primeira unidade (aqui reproduzida em fac-simile) comunga do que Pessoa diz, numa carta de 1914 ao amigo João Lebre e Lima (publicada por Manuela Parreira da Silva em Correspondência (1905-1922), Assírio & Alvim, 1999), ser o “estilo alheio”, praticado pelos rapazes do grupo – isto é, inspirado no paúlico trecho “Na Floresta do Alheamento”, publicado em 1913, na Águia – embora a unidade seguinte lembre claramente Alberto Caeiro. Outras unidades remetem para um poema que Pessoa irá publicar no jornal O Heraldo, de Faro, “A Casa Branca Nau Preta” (1916), assinado Fernando Pessoa mas a meio caminho entre Pessoa e Campos (tem sido tradicionalmente atribuído a Campos, atendendo à sua exterioridade formal). Acontece, assim, que Coelho Pacheco nos aparece como um fiel discípulo do Pessoa nas suas diferentes máscaras: na de poeta paúlico, na de Caeiro e até na de Campos.

Um dos poemas inéditos da “pasta”, no estilo dos que compõem o “Para Além d’Outro Oceano” o que começa “A idéia que tenho de espaço”, é um monologo de quem pensa em voz alta, sem a rédea do bom seno e da gramática, lembrando Alberto Caeiro, que rejeita “o corredor que vai do pensamento para as palavras”, mas, ao mesmo tempo, Álvaro de Campos, que caracterizou os seus monólogos como os de “um parvo que estivesse com febre”. (Repete-se no titulo do poema de José Coelho Pacheco, também em caixa publicado, “Delirando…”) Se ele o entregasse para a publicação, imagino que introduziria espaços, como fez com “Para Alem d’Outro Oceano”, entre as diferentes unidades temáticas, que aqui também existem mas se seguem sem interrupções assinaladas.

 A idéia que tenho de espaço

 Por José Coelho Pacheco

 A ideia que tenho de espaço

É a de que espaço não pode ter uma ideia que o traduza

E não quero supor que ele seja imaterial

Porque então eu havia de o compreender

É muito doloroso para mim

Ter de utilizar-me das palavras de toda a gente

Sinto-me muito feliz quando traço no papel

Rabiscos ilegíveis que ninguém perceba

Eu nunca procurei saber se eu os entendo

Nem preciso de saber porque me basta

E sinto-me feliz dos outros os não saberem ler

Quando escrevo com letras, com estas letras,

Lembra-me sempre um obreiro de génio

Que tivesse que ir construir nas oficinas alheias

as suas máquinas feitas para destinos desconhecidos

E deste modo sinto muitas vezes que me faltam maneiras

de dizer ou expressões

Como a ele lhe poderiam faltar as melhores ferramentas.

Às vezes tenho ideias tão pequenas que as não compreendo

e uso fugir-lhes. Como se pode supor que uma ideia seja estranha

Se as ideias só podem variar no tamanho

Há uma coisa só que eu queria saber como é

E de que o ignorá-la me faz oscilar

Ela é esta ignorância em que sou

Do modo como há ligações entre o pensar eu as só minhas ideias

E o aparecerem elas escritas como se fossem de outra pessoa

 Coelho Pacheco é, neste texto, como em “Para Além d’Outro Oceano”, discípulo simultaneamente de Caeiro e de Campos pelo uso do verso livre, incomum na época, e pela destruição da fronteira entre a poesia e a prosa. E é nisto que ele e os seus mestres em Modernismo, Caeiro e Campos, são verdadeiramente inovadores.

 Mas Coelho Pacheco também sabe poetar com total respeito elas contenções impostas pelo soneto, como mostra o já referido poema, “Delirando” de 10.3.1914, e um outro (mais próximo do Paulismo e de um soneto manuscrito de Pessoa, de “Passos da Cruz”), conservado juntamente com ele, “Náufrago”.

 Náufrago

 Por José Coelho Pacheco

Neste espantoso e surdo mar em que me agito

Bem quero soçobrar…Em fúria cega e tanta

Quando eu lutando em vão me afundo e precipito

Logo uma vaga enorme e torva me alevanta…

Tolda-me o espaço a lucidez…e se medito

Toda a razão se desvanece e se quebranta;

Fito os olhos no vago, e cego…e se os desfito

Logo a fascinação da luz se desencanta…

Se a espaços a distingo, a forma que se esfuma

É a do corpo meu, boiando sobre o mar

Já roxo e mutilado, envolto pela bruma…

E a Dúvida persiste…as ondas agitadas

Amortalham de espuma o corpo, que a boiar

Fita no espaço ainda as órbitas vazadas…

Este, datado de um ano depois – 11 de Março de 1915 – evidencia mais afinidades com a escola que Pessoa e Sá-Carneiro tentavam implantar, o dito Paulismo – e com o poema manuscrito de Pessoa, que juntamente se reproduz (traz a indicação “Dois sonetos”, aparentemente por fazer parte de um díptico que Pessoa terá oferecido ao amigo, mas de que apenas um, o que me foi mostrado, consta da referida pasta de José Coelho Pacheco.

“Naufrago” apresenta, curiosamente, uma clara afinidade de assunto com o anterior “Delirando”: o poeta vê-se, de fora do corpo, ser um corpoem decomposição. São, tanto um como o outro, uma visão de pesadelo.

Mas não é hoje, aqui, o lugar para apreciar mais longamente a poesia de José Coelho Pacheco. O intuito deste artigo é, sobretudo, o de dar o seu a seu dono: desapossar Pessoa de um poema que há dezenas de anos integra a sua obra e entregá-lo ao seu verdadeiro autor, José Coelho Pacheco. Confesso que isso é para mim motivo de regozijo: Pessoa não fica mais pobre por isso, e vemos assim surgir do anonimato dos seus jovens parceiros de lides e entusiasmos modernistas uma presença que este miniespólio nos vem dar a conhecer.

Bem haja, Ana Rita Palmeirim, por nos ter dado a por nos ter dado a conhecer José Coelho Pacheco, um jovem e talentoso discípulo de Pessoa, que ele seguramente acarinhou e guiou nos caminhos da arte.

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SOCIEDADE AMIGAS DO LIVRO – SAL – CINQUENTENÁRIO DE FUNDAÇÃO – 1961 – 2011

Setembro 6, 2011

 APRESENTAÇÃO DO CONFERENCISTA

JOSÉ PAULO CAVALCANTI FILHO

E O LIVRO DE SUA AUTORIA

Fernando Pessoa: uma quase autobiografia

por Beatriz Alcântara

Recomendaram-me cinco minutos para a apresentação do conferencista e sua obra dentro do programa festivo pelo ano qüinquagésimo da Sociedade Amigas do Livro – SAL. Argumentei sobre a escassez do tempo, sem o menor sucesso, mas contas feitas, reconheço ser devido ao convidado, o escritor JOSÉ PAULO CAVALCANTI FILHO, poder evidenciar a cultura extensa, todo o brilho da sua inteligência e o dom da expressão ágil e persuasiva.

Aceitei a incumbência, relevei a curta demora e eis-me entregue à missão, com inteiro agrado.

Bom número de pessoas tem-me pedido opinião sobre o prestigiado e mediático livro Fernando Pessoa: uma quase autobiografia. Sei porque fazem a pergunta com tanta frequência. Vivemos dias regidos pela estética do olhar, do imediato e da micro-leitura onde mal se lê a primeira linha escrita, já se avizinha a conclusão na seguinte.

Temos hoje, para apresentar, uma obra alentada, Graças a Deus, imensamente extensa para ser nossa boa companhia na solidão dos tempos livres, um livro humano e excêntrico como poucos estudos pessoanos publicados ousaram sê-lo.

Na leitura, que prazer! As palavras correram céleres por entre páginas e mais páginas, eu leitora seguindo-lhes a traça, vezes o ardil, divagando ao sabor do texto, tão íntimo de Paulo e Fernando, por tão próximos se encontrarem o autor José Paulo com a criatura ilustre, Fernando Pessoa.

A cumplicidade literária e o devaneio consumiram todo meu ser. Apercebi-me sentada num banco de madeira sob o jacarandá florado de azul no Largo de São Carlos. Por instinto, a emoção voltou meu olhar à direita, detive-me no edifício berço pessoano, o de número quatro, agora alojando a banca advocatícia do mais renomado ex-Forcado Amador de Santarém. Ah, pudesse eu ter vivenciado este mesmo espaço pelo trabalho quotidiano!

A lírica, a ópera e a música erudita ocupam o extremo oposto da praceta, o Teatro de São Carlos cuja fachada ainda sendo sempre a mesma, austera, em nada intimida a miudagem inquieta conduzida por mestres em visita de escola secundária.

O livro, voltemos ao livro, seu autor e o personagem principal: Fernando Pessoa: uma quase autobiografia, JOSÉ PAULO CAVALCANTI FILHO e o escritor múltiplo, enquanto único, FERNANDO ANTÓNIO NOGUEIRA PESSOA.

O autor pernambucano, advogado e ex-ministro da Justiça, traz à cena um livro que de tão sério na moção, envolve e firma o leitor pela condução da proposta a ser revelada. A imensurável pesquisa do livro Fernando Pessoa: uma quase autobiografia, não nos dá a conhecer apenas o poeta como um personagem em busca do conhecimento e da ideação. A vasta investigação de Cavalcanti conduz-nos além, ao intricado processo da razão múltipla.

A proximidade do Autor pernambucano com Pessoa é de teor tão elevado que, em diversas passagens da sua obra, ele adentra o cosmo heteronímico envolto por uma sorte de interseccionismo literário e, se diria, um interlocutor pessoal do poeta, tal alguns predecessores dos tempos juvenis, ou apenas um amigo confessional investido dos poderes demiúrgicos de autor implícito, como acontece na exemplar polêmica entre os heterônimos Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Alberto Caeiro e o semi-heterônimo Bernardo Soares, a propósito de poesia e prosa.

JOSÉ PAULO, o escritor artífice, pesquisou, introjetou, recortou e veio a montar, com passagens esparsas de textos heteronímicos extraídos do número um da revista Athena um relato instigante que agora em parte se transcreve, citando o cosmopolita Álvaro de Campos: …como dizer é falar, e se não se pode gritar falando, tem de se cantar falando. Como a música é estranha à fala, sente-se música na fala dispondo as palavras de modo que contenham uma música que não esteja nelas, que seja, pois, artificial em relação a elas. É que para Reis, a poesia é uma música que se faz com idéias, e por isso com palavras… quanto mais fria a poesia, mais verdadeira. Reis fica furioso, considerando ser Campos, só um grande prosador, um prosador com uma grande ciência… e Bernardo Soares, que à poesia em versos prefere a prosa que engloba toda a arte.

Assim como o mestre Caeiro despertou, confessadamente, nos demais da “tróica” heteronímica uma teoria estética individual, na procura interior em busca de uma poética na sua relação com o exterior, por difícil potencializar o denso sentir pessoano, transcrevo outra vez Campos, citado por José Paulo, Mestre Caeiro, voltei à tua casa do monte. E vi o mesmo que viste, mas com os meus olhos.

Assim Fernando Pessoa, ele próprio, ao franquear a revelação do seu existir complexo e vário, permitiu que a inventividade de nosso conferencista se aproximasse do que poderia ser uma quase irrevelada figura literária do poeta multifacetado que tanto potencializou a expressão do sentir e do pensar, na primeira metade do século XX.

Expresso agora, o tempo chegando ao limite, os agradecimentos, em meu nome e de minhas companheiras da SAL, e reitero o quanto nos sentimos gratificadas pela aquiescência do ilustre Dr. JOSÉ PAULO CAVALCANTI FILHO em ter anuído dividir, por esta noite, os prazeres e a glória que sua relevante pesquisa, de grande envergadura pessoana, granjeou no universo literário.

Agradecimentos, ainda, a quantos acorreram ao chamamento para comemorar o cinquentenário de atuação incessante por um grupo de mulheres amigas do livro, a Sociedade Amigas do Livro.

Bem haja a todos!

No jardim de Beatriz Alcântara

Setembro 4, 2011

Por Nilto Maciel

Acompanho a trajetória literária de Beatriz Alcântara desde os seus primeiros passos (ou os segundos, posto que em 1973 eu não a conhecia ainda e é daquele ano o ensaio La revolte positive de Simone de Beauvoir). Agora, que estamos maduros e preparados para a colheita, somos surpreendidos pelo Anjo, em pleno delito de escrever. E Ele não nos expulsa do Jardim, e nos acolhe, nos afaga, nos chama de crianças. Assim estava eu a matutar, tão absorto quanto um inseto a mirar flores, quando um livrinho colorido pousou diante de meus olhos: O jardim foi-se (Fortaleza: Expressão Gráfica Editora, 2010), de Beatriz Alcântara. Pus-me a lê-lo, desde a capa: Minicontos, microcontos, intervenções urbanas. O papel couché me entusiasmou mais. Tossi, feito gato engasgado. Passei à apresentação, escrita por Linhares Filho. Para o poeta e ensaísta, o novo livro de Beatriz “prende o leitor” (talvez entre galhos verdes, rosas multicoloridas e armas (foices) escondidas,) “pela estrutura inovadora, pela síntese, pela atitude sugestiva, pela integração no tempo atual, por uma espécie de denúncia dos males da existência”. E mastiga, para nós leitores, todos os signos verbais da contista, desde o título: “Entendo que o título O Jardim Foi-se refere-se ao jardim paradisíaco, perdido de modo irremediável pelo homem, implicando isso toda sorte de sofrimento, contratempo e malefício, a ser enfrentada existencialmente pela humanidade, que assiste ao evadir-se daquele lugar de delícias e, com isso, ao ir-se do estado de inocência junto ao gozo da felicidade humana”.

A coleção é ilustrada com fotos captadas por Beatriz em Portugal, Marrocos e no Brasil, de muros e suas pichacões, caixas telefônicas, “cabeças de frade” do Rio de Janeiro, etc. A gente se perde a ver as cidades pintadas anonimamente. Mas, se acha nos minicontos. Cruéis no seu minimalismo, porque de um tempo e um mundo muito distantes do Jardim (que se foi). Para ilustrar este depoimento breve, uma das peças mais curtas de Beatriz Alcântara: “Recrutado, Mário prometeu casar. Eva engravidou. Marieva só conheceu o pai quando herdou a fábrica de velas do avô paterno” (“Guerra sem fim”).

Livro de Poesia de Cyro de Mattos publicado na Italia Ganha Prêmio Leodegário Azevedo Filho no Brasil

Setembro 4, 2011

Publicado no início do ano pela Editora Romar, de Milão, o livro “Canti dellaterra e dell’acqua”, de Cyro de Mattos, tradução de Mirella Abriani, que pode ser traduzido como “Cantares da terra e da água”, conquistou o Prêmio Leodegário Azevedo Filho da União Brasileira de Escritores, Seção do Rio de Janeiro. A tradutora do meu livro para o italiano, Mirella Abriani, também foi agraciada com o mesmo prêmio, por sua tradução do livro. As láureas serão entregues no dia 5 de outubro, no Rio de Janeiro, no salão nobre da Academia Brasileira de Letras. A comissão julgadora do prêmio foi constituída dos escritores Stella Leonardos, Luís Gondim e Margarida Finkel.

“Canti della terra e dell’acqua” é uma antologia reunindo 38 poemas, com seleção e tradução de Mirella Abriani. A tradutora já traduziu para o italiano Cecília Meireles e Carlos Drummond de Andrade Com  esta antologia, Cyro de Mattos alcança a marca de cinco livros de poesia publicados no exterior. Os outros livros são os seguintes: “Vinte Poemas do Rio”, edição bilíngüe, com tradução do poeta Manoel Portela para o inglês, e “Ecológico”,  ambos editados pela Palimage, de Coimbra, Portugal; “Zwanzig Gedichte von Rio und andere Gedichte”, da Projekte-Verlag, Halle, Alemanha, com tradução de Curt Meyer Clason, e “Poesie della Bahia”, publicação da  Runde Taarn Edizoni, em Gerenzano (Varese), Itália, com tradução de Mirella Abriani.

A antologia “Canti della terra e dell’acqua” é constituída de quatro partes: Os Sinais da Terra, Águas do Rio, Alguns Bichos e Águas do Mar. No livro estão presentes poemas inspirados na infância, rio Cachoeira, bichos e meio ambiente.  Sobre o autor Cyro de Mattos disse Jorge Amado: “Cantor da terra e das águas. Cantor do amor. Pastor de diversos bichos. Tão esplêndido poeta, tão esplêndido ficcionista”. Já a escritora e professora Graziella Corsinovi, da Universidade de Genova, presidente do júri do XII Prêmio Internacional de Poesia Maestrale Marengo d’Oro, assim opinou: “Poesia do mais amplo horizonte histórico e existencial, que evoca mistérios da epopéia brasileira com grande poder de sugestão”.

Falando português na Rússia

Setembro 4, 2011

Por Adelto Gonçalves

Trabalho do Centro Lusófono Camões, de São Petersburgo, é muito importante na difusão da Língua Portuguesa

SÃO PETERSBURGO O que leva um jovem russo a procurar aprender o idioma português? Para Diana Shpilevskaya, 22 anos, tudo começou em 2005, quando foi a Inglaterra aperfeiçoar o seu inglês. “Estudei numa cidade pequena chamada Exeter e meu curso durou duas semanas num grupo de 12 pessoas, das quais oito eram do Brasil”, diz. “Lá, pela primeira vez, ouvi a língua portuguesa na vida real e a achei tão bonita que, ao voltar para a Rússia, comecei a estudá-la sozinha”, conta.  “Assim, aqueles oito estudantes brasileiros mudaram a minha vida sem que soubessem disso”, acrescenta Diana, que é graduada pela Faculdade de Letras Estrangeiras da Universidade Estatal Pedagógica Hertzen, de São Petersburgo, e sonha fazer mestrado na Universidade de São Paulo.

Para Vitaly Violino, 24 anos, foi o interesse pela arte da capoeira, que conheceu há cerca de cinco anos por meio da Internet, a razão que o levou a procurar aprender português. “Precisava aprender uma técnica de defesa pessoal”, justifica. Depois de ter passado cinco semanas em Salvador, aprendeu todos os passos dessa arte e, hoje, em São Petersburgo, dá aulas para cerca de 50 alunos. Com freqüência, participa de encontros com capoeiristas brasileiros na Europa. “Por isso, falo um português abaianado”, diz Vitaly, que costuma cantarolar canções do compositor baiano Dorival Caymmi (1914-2008).

Já Maria Rybakova, 21 anos, primeiro aprendeu o idioma espanhol e, em razão da proximidade entre as duas línguas, quis conhecer melhor o português. “Estudo português porque gosto de Portugal e do Brasil”, diz, lembrando que o português, por ser uma língua românica e rara, sempre a atraiu. “Além disso, o Brasil se tornou importante na Rússia por causa do Bric (Brasil, Rússia, Índia e China)”, observa. Sem contar que gosto muito dos professores do Centro Camões”, acrescenta.

Por sua vez, Gleb Poltorak, 22 anos, igualmente graduado, o intelectual do grupo, entendeu que saber falar português o faria discutir com mais conhecimento de causa as questões políticas e econômicas da América Latina e do mundo. Formado pela Universidade Estatal Pedagógica Hertzen, Gleb, por enquanto, só pode dar aulas em colégios. “Para dar aula em faculdade, é preciso ter pelo menos mestrado (stepen´ magistra)”, observa, reclamando do fato de o professor hoje na Rússia não ser muito valorizado nem respeitado. “Os salários são baixos e o professor para sobreviver precisa dar aulas em quatro ou cinco instituições”, queixa-se, demonstrando preocupação com seu futuro.

O fato que une esses jovens é que todos são formados em Língua Portuguesa pelo Centro Lusófono Camões da Universidade Estatal Pedagógica Hertzen. Não raro, reúnem-se, ao final da tarde, num restaurante da rua Naberezhnaya Kanala Griboedova, à margem do canal Griboedova, perto do imponente Templo da Ressurreição de Cristo, mais conhecido como Salvador Sobre Sangue, que está construído no lugar em que morreu o czar Alexandre II (1818-1881), vítima de um atentado a bomba.  E qual o objetivo da reunião? Ora, conversar em português e exercitar o idioma que aprenderam  alguns com sotaque luso e outros com o falar mais adocicado dos brasileiros.

Fundado em 1999, o Centro Lusófono Camões começa o ano, em média, com 15 estudantes russos de português. Os estudantes entram no nível zero, passam para o nível médio, chegando ao nível superior. Em média, formam-se de sete a oito alunos por ano. Mas a tendência é que esse número cresça. Por iniciativa do Centro, uma escola secundária de São Petersburgo já manteve em sua grade o português como língua facultativa, mas acabou por voltar atrás. A esperança, porém, é que a sua direção reconsidere a ideia, já que isso significaria um potencial alargamento da lista dos freqüentadores do Centro em futuro próximo.

Todo esse esforço para a difusão do idioma português na Rússia tem um nome: Vadim Kopyl, doutor em Filologia Românica, diretor do Centro Lusófono Camões. O Centro, inaugurado a 16 de junho de 1999, em ato prestigiado pelo embaixador de Portugal, José Luís Gomes, e pela embaixadora do Brasil, Teresa Maria Machado Quintella, funciona dentro do campus da Universidade Estatal Pedagógica Hertzen que é formado por vários palácios adaptados às necessidades de ensino, no centro histórico de São Petersburgo, cidade que é mais um museu a céu aberto, também conhecida como a Veneza do Norte.

Pouco depois de sua fundação, o Centro produziu uma edição eletrônica dos Sonetos de Camões, que teve prefácio da professora Maria Raquel de Andrade e contou com o apoio dos professores José Manuel Matias, Zélia Madeira, Rogério Nunes, Alexandra Pinho e Madalena Arroja, do Instituto Camões, de Lisboa. Desde então, publicou vários livros impressos, como o Guia de Conversação Russo-Portuguesa Contemporânea, Poesia Portuguesa Contemporânea (2004), que reúne poemas de 26 poetas portugueses traduzidos com participação de Helena Golubeva (como tradutora-tutora), e Vou-me embora de mim (2007), do poeta português Joaquim Pessoa, todos em edição russo-portuguesa.

O Centro tem ainda preparado à espera de apoio financeiro para publicação um livro de contos do escritor português Gonçalo Tavares, que contou com a participação do próprio autor. Além do Instituto Camões, o Ministério da Cultura, o Instituto Português do Livro e das Bibliotecas, o Colégio Universitário Pio XII, a Universidade Clássica de Lisboa, a Universidade Internacional de Lisboa, a Universidade Lusófona e a Universidade de Aveiro são algumas das instituições culturais portuguesas que têm cooperado com o trabalho dos lusistas russos.

O Centro funciona numa pequena sala atulhada de livros, cartazes e fotos. No centro da sala, fica uma grande mesa em volta da qual se acomodam os alunos, sentados em não mais que quinze cadeiras daquelas tradicionais. Na parede, há ainda uma pequena lousa, ao lado de três armários envidraçados que guardam livros portugueses, na maioria. Perto da janela, há uma pequena mesa decorada com livros, jornais e revistas em memória de Dário Moreira de Castro Alves (1927-2010), embaixador do Brasil em Portugal de 1979 a 1983, sócio-honorário da instituição.

A ALMA DO CENTRO

Aos 70 anos de idade, o professor Kopyl poderia passar o resto de sua vida descansando em Ukraine, mas isso só o faz em julho e agosto, meses de verão intenso e de “noites brancas” em São Petersburgo. No resto do ano, dedica-se ao Centro: é ele mesmo quem dá as aulas, dividindo-as com um intérprete-sincronista, Vladimir Ivanov. Até há pouco tempo, tinha também a colaboração de Helena Golubeva, que o auxiliava no ensino de português e dava aulas de tradução.

As comunicações dos estudantes dedicadas aos contatos culturais entre a Rússia e os países do mundo lusófono são lidas em português durante as aulas e, em russo, em alguns atos realizados nas bibliotecas municipais ou na casa-museu de Anna Akhmatova (1899-1966), uma das mais importantes poetas russas do século XX. 

Além da aprendizagem de português, os estudantes recebem conhecimentos básicos de tradução literária”, conta Kopyl, lembrando que mestres de tradução do russo para o português, como Helena Golubeva, Alexandra Koss, Andrei Rodossky, e também a poeta e tradutora Veronica Kapustina, laureada com o prêmio Anna Akhmatova, a etnógrafa  Elena Soboleva e o perito em artes e poliglota Mark Netchaev, já estiveram em contato com os alunos do Centro. “É inesquecível a aula simultaneamente de língua, arte e filosofia que Mark Netchaev costuma dar aos nossos alunos nas salas do Museu Hermitage”, garante.

Neste ano, o Centro contará com o apoio da leitora Maria Joana Albuquerque, do Instituto Camões. Nos últimos tempos, recebeu grande contribuição de João Santos e João Carlos Mendonça, também leitores do Instituto Camões. Com João Santos, o professor Kopyl preparou uma espécie de manual de português falado em diálogos, que se tem mostrado muito útil na aprendizagem do idioma.

A aproximação do professor Kopyl com o idioma português deu-se muito cedo, mas depois que já aprendera o espanhol e fora requisitado, ainda estudante, para trabalhar em Cuba como intérprete em 1962. “Naquele tempo da Guerra Fria, poucas pessoas falavam espanhol na Rússia”, lembra. “Quando estávamos no hotel em Havana e olhávamos para o Mar do Caribe, não tínhamos ainda noção dos riscos que a Humanidade corria naqueles dias”, observa, referindo-se implicitamente à crise dos mísseis entre Estados Unidos e União Soviética.

Ao voltar para a Universidade, começou a estudar português como autodidata, mas com grande ajuda de um jovem professor, Anatolio Gakh, nascido no Brasil, com quem mantém amizade até hoje. O tema de sua tese de mestrado já foi em português – Língua e estilo de Eça de Queiroz –, bem como o tema de sua tese de doutoramento, três anos depois – Língua e estilo de Fernando Namora.

Mais tarde, Kopyl manteve relações pessoais com o padre Joaquim Antônio de Aguiar (1914-2004), fundador e diretor do Colégio Universitário Pio XII, de Lisboa, e presidente da Academia Internacional da Cultura Portuguesa, que acabaram por aproximá-lo da cultura lusa. Para a fundação do Centro Lusófono Camões, grande foi o apoio daquela instituição. Alunos do tradicional colégio lisboeta e do Centro Lusófono participaram de fóruns realizados no Brasil, Portugal e Macau. Por sua parte, o Centro ajudou a Comissão da Cultura Europeia do Colégio Universitário Pio XII a organizar dois fóruns estudantis em São Petersburgo.

Por intermédio do padre Aguiar, Kopyl acabou por conhecer Dário Moreira de Castro Alves, que à época já estava empenhado em traduzir para o português o romance em versos Eugênio Oneguin, de Alexandr S. Pushkin (1794-1837), que seria, finalmente, publicado em 2008 pelo Grupo Editorial Azbooka-Atticus, de Moscou, em edição russo-portuguesa, e no Brasil em 2010 pela Editora Record, do Rio de Janeiro. Das consultas e dúvidas sobre os dois idiomas, nasceu uma amizade que se solidificou com os anos.

Fosse como fosse, as ligações de Kopyl sempre foram maiores com Portugal – como denuncia o seu sotaque lusitano. “Conheço do Brasil só aquilo que li e ouvi a respeito, mas gostaria imenso de conhecê-lo de perto”, diz. Em Portugal, Kopyl esteve várias vezes, mantendo contatos com intelectuais como António Ramos Rosa, Gastão Cruz, Casimiro de Brito, Fernando Guimarães e Fernando Echevarria, entre outros, a propósito da preparação de uma antologia de poetas portugueses.   

Foi a partir das ligações com Dário Moreira de Castro Alves que, nos últimos tempos, o Centro Lusófono Camões passou a registrar maior presença da cultura brasileira. Com o apoio do Ministério das Relações Exteriores do Brasil e da Embaixada brasileira em Moscou, o Centro pôde publicar os livros Contos, em 2006, e Contos Escolhidos, em 2007, ambos de Machado de Assis (1839-1908), em edições bilíngües. Até então, da obra de Machado de Assis só os romances Memórias póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro haviam sido traduzidos para o russo.

Por enquanto, há outros projetos de lançamentos em edição bilíngüe à espera de apoios financeiros de entidades culturais tanto de Portugal quanto do Brasil. “Gostaríamos que essa cooperação se ampliasse com outras instituições culturais brasileiras, não se limitando ao apoio da Embaixada brasileira em Moscou”, acrescenta.

PORTUGUESES EM SÃO PETERSBURGO

Kopyl lembra que seus estudantes já localizaram a participação destacada de dois portugueses na história de São Petersburgo, preparando informes sobre essas personalidades. Um deles foi Antônio Ribeiro Sanches (1699-1783), clínico de renome em Londres, que foi contratado como médico do Senado e da cidade de Moscou em 1731, mas que depois manteve residência em São Petersburgo, servindo ao Império Russo até 1747.

Outro foi Antônio Manuel de Vieira, ou Antón Devier (1682?-1745), que não só foi o primeiro chefe de polícia de São Petersburgo (à época, o termo polícia englobava também a administração pública das cidades, não se restringindo à atuação repressiva policial, como se conhece hoje) como participou de obras nos canais do norte da Rússia e dirigiu a construção de dois importantes portos marítimos – o de Revel (agora Tallin) e o de Okhotsk, durante o reinado do czar Pedro I (1672-1725), alcunhado Pedro o Grande, que, em 1703, mandou edificar São Petersburgo, a nova capital da Rússia.

Segundo Kopyl, ao analisar as propostas de Ribeiro Sanches, os alunos do Centro puderam concluir que, com certeza, houve participação daquele estrangeirado luso na própria fundação da Universidade Estatal Pedagógica Hertzen, em 1797. “Como se sabe, a nossa universidade surgiu daquilo que primeiro era um asilo, organizado para crianças órfãs, tal como a Casa Pia, de Lisboa, criada pelo intendente-geral de polícia Diogo Inácio de Pina Manique (1733-1805)”, diz, lembrando que a necessidade de se criar asilos para crianças órfãs foi argumentada por Ribeiro Sanches numa carta que supostamente era dirigida a Ivan Betskoi (1704-1795), organizador do asilo em São Petersburgo.

Além disso, no século XVIII, lembra Kopyl, é importante destacar a presença da cantora lírica portuguesa Luísa Todi, natural de Setúbal, que, a partir de 1784, esteve por quatro anos na corte de Catarina, a Grande, em São Petersbugo. “Em sua estada na Rússia, Luísa Todi escreveu com o marido, o violinista Francesco Todi, a ópera Pollinia, como expressão de agradecimento pelas atenções recebidas da czarina”, ressalta.

Orquídeas como memória viva

Setembro 4, 2011

Por Dalila Teles Veras

Estas orquídeas vivem no Brasil há 54 anos. Vieram, em forma de bulbos, lá do Funchal, na Ilha da Madeira (a toalhinha bordada sob o vaso também), no navio Santa Maria, numa demorada travessia oceânica (10 dias), sem volta. 

Escondidas por minha mãe no baú de madeira, em meio a outros objetos, como sua máquina de costura, estas orquídeas desembarcaram no porto de Santos, junto a toda minha família, em 29 de novembro de 1957.  

Além dos dois vasos de onde estas duas hastes com cerca de 20 flores cada, foram retiradas, há outra dezena de vasos, todos plantados pelas mesmas mãos que as arrancaram da terra mãe e as trouxeram para a terra adotada.

Há nove anos a jardineira cuidadora partiu, mas por uma inacreditável teimosia das forças da natureza, as orquídeas continuam a florescer, incrivelmente belas e viçosas, como se mãos invisíveis as acarinhassem e as fizessem viver. Simbolizam ainda a memória viva de uma saga luso-brasileira, que há de permanecer na memória e nos gestos dos que vieram depois, continuadores dessa sua história.


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