Archive for the ‘Livros & Autores’ category

Lançamento: “Mulher Oblíqua”

Dezembro 12, 2014

 

 

 

Por Beatriz Alcântara

Mulher Oblíqua Convite 2014 12 09

Nº 27 da Revista Arganilia

Novembro 25, 2014

Foi fechada a edição nº27 da revista cultural da Beira Serra – Arganilia.

 

Este número será dedicado à gastronomia da Beira Serra, incluindo artigos de Ana Feijó Ribeiro, Carla Brito, Fernanda Maria Figueiredo Dias, Fundação ADFP – Assistência, Desenvolvimento e Formação Profissional, Horácio Flórido, José Moreira Castanheira, Madalena Carrito, Mafalda Ferro, Maria Beatriz Rosário de Alcântara, Miguel Ventura, Nuno Mata, Nuno Neves, Olga Cavaleiro, Pedro Santos, Real Confraria do Maranho, Ricardo Pereira Alves e Victor Cardoso. Dietitas, Confrarias gastronómicas, investigadores históricos, jornalistas, empresários, autarcas e associações apresentam os seus contributos para mais um volume deste projecto Arganilia, destacando-se e saudando-se o facto de muitos dos colaboradores serem estreantes.

 

A revista deverá estar disponível ao público muito em breve, continuando a divulgação e preservação do património desta área das Beiras.

arganilia 

Agradecemos que, caso julguem oportuno, pudessem divulgar esta nota de imprensa no periódico que superiormente representam.

 

Melhores cumprimentos.

 

Nuno Mata, vice-director da revista Arganilia

LÁGRIMAS OCULTAS

Novembro 11, 2014

Por Clariesse Barata Sanches

“Se me ponho a cismar em outras eras”

Em que ri e cantei, em que era querida,

Parece-me-que foi noutras esferas,

Parece-me que foi numa outra vida…

FLOBELA ESPANCA

Texto Clarise

 GLOSA

“Se me ponho a pensar em outras eras”,

Medito nessa vida, com Saudades

De sonhos encantados e quimeras,

Aonde eu via só felicidades!

  

Hoje choro de penas e de amor

“Em que ri e cantei, em que era querida”,

E via o meu Jesus em cada flor

A decorar no campo, a linda Ermida!

 Agora, sinto penas e, deveras,

Meu cérebro já cheio de memórias,

” Perece-me que foi noutras esferas”

E que tudo o que digo são histórias!

Mas não. Eu via amigos e abraços

A dizerem-me adeus na despedida

A com flores, até, no meu regaço,

” Parece-me que foi numa outra Vida.”

Premio Antonio Quadros 2014

Outubro 22, 2014

Evento Fundação Antonio Quadros II Evento Fundação Antonio Quadros

Poeta de Verdade

Outubro 2, 2014

Por Cyro de Mattos

Ao  fazer  o mapeamento da poesia brasileira no século XX, o crítico e romancista Assis Brasil solicitou-me nomes da região cacaueira  para figurar na antologia que estava organizando dedicada à Bahia. Indiquei Valdelice Soares Pinheiro, Walker Luna, Carlos Roberto Santos Araújo e Firmino Rocha. Na antologia  A Poesia Baiana no Século XX (1999),  Assis Brasil transcreveu trecho do comentário que lhe enviei sobre a poesia de Valdelice Soares Pinheiro. “Trata-se de um poeta que elabora sua poesia com uma linguagem  despojada”, eu disse, “projetando no texto contido uma visão de mundo preocupada com a condição humana. Poesia que só um poeta questionador, dotado de instrumental filosófico plasmado numa alma sensível, poderia compor”.

Em Itabuna, chão de minhas raízes (1996), antologia por mim organizada, reuni  poetas e prosadores itabunenses e, na breve nota biobibliográfica de Valdelice Soares Pinheiro, chamei a atenção para esse poeta. Anos depois a poeta de Itabuna seria inserida como verbete no monumental Dicionário Crítico de Escritoras Brasileiras (Editora Escrituras, São Paulo, 2001), de Nelly Novaes Coelho, por recomendação nossa.

A poesia de Valdelice Soares Pinheiro não precisa de abonos para ser reconhecida, tem em si mesma seu valor, no qual ela se mostra com equilíbrio e expressividade. O motivo que me levou a aboná-la nas situações mencionadas é porque tive a oportunidade de fazê-lo, levando-se principalmente em conta o fato  de que a poeta publicou em vida apenas dois pequenos livros, em edição particular e limitada, e por isso  estava fadada a ser  mais um dos inúmeros poetas da província cuja tendência  poderia ser a de continuar no anonimato.

No começo da década de 1990,  em texto divulgado no jornal A Tarde, lembrei-me de reverenciar a memória de Valdelice Soares Pinheiro e de outros poetas nascidos na região cacaueira baiana, como Telmo Padilha, Florisvaldo Mattos e Firmino Rocha, apresentando-os naquela antologia de Itabuna, editada em 1996.

Filha de Vital Alves Pinheiro e Mariana Soares Pinheiro, desbravadores da região cacaueira baiana, Valdelice Soares Pinheiro nasceu em Itabuna, Bahia, no dia 24 de janeiro de 1929, e desde pequena teve educação esmerada. O curso primário fez nos colégios  Ateneu e Saraiva, em Itabuna. Mudando-se para Ilhéus, vai cursar o ginasial e o magistério no Colégio Nossa Senhora da Piedade e Colégio Municipal, respectivamente. O licenciamento em Filosofia obtém na Universidade Católica do Rio Grande do Sul. De volta à Bahia,  começa a lecionar Estética e Ontologia na Universidade  de Santa Cruz, no sul do Estado.

Deixou um rico legado poético, e uma parte dele, constituída de  anotações e sessenta e três poemas,  teve publicação crítica pela Universidade Estadual de Santa Cruz, no livro A expressão poética de Valdelice Soares Pinheiro, em 2002, reunindo estudos de alunos, sob a  coordenação da Professora Doutora Maria de Lourdes Netto Simões.

Este livro motivou  o artigo  A Expressão Poética de Valdelice Pinheiro em Resgate – Simplicidade: Liberdade de Ser, da professora universitária  Mari Guimarães Sousa, apresentado no VIII Seminário Nacional: Mulher e Literatura, Anais, Instituto de Letras e Núcleo de Estudos Interdisciplinares Sobre a Mulher, na Universidade Federal da Bahia – Salvador, BA, 2000, e a dissertação de mestrado O Canto da Cigarra: A Poesia Cósmica e Existencialista de Valdelice Pinheiro, de Nayanara Tavares Moreira, apresentada na Universidade Estadual de Feira de Santana, Bahia, em 2007.

Com O Canto Contido, volume sob minha coordenação,  que reúne os dois livros De dentro de mim e Pacto, e poemas esparsos inseridos em antologias, de Valdelice Soares Pinheiro,  procuro contribuir  para a  circulação da  poesia publicada em vida por um dos poetas expressivos da Bahia. E, assim, fazer com que seja mais estudado e conhecido por um número maior de leitores, pois se trata de um poeta de verdade.

 Vadelice Soares Pinheiro  faleceu em Itabuna, no dia  29 de agosto de 1993.

O PODER DAS PALAVRAS – Prefácio “Diário do Anoitecer”

Outubro 1, 2014

Por Renato Nalini

Paulo Bomfim, além dos talentos já decantados, continua a exercitar o dom de surpreender. É uma fonte insuplantável de criatividade. A pressa de seus passos, a inquietude evidenciada na sua rotina, é a mesma que o impulsiona a produzir. Aceleradamente, aos borbotões, num jorro imaginativo denso e incessante.

Esta filosofia poética ora entregue a leitores de todas as idades não é mero conjunto de pensamentos. É um acervo de máximas destinadas a provocar atitudes concretas. Fonte inesgotável de ensinamentos que a posteridade consagrará. Condensa emoções em setas certeiras: atingem o alvo. Desconcertam. Fazem pensar. E pensar é cada vez mais difícil nestes dias de muita ação e nenhuma reflexão. Ele tem consciência disso quando anuncia: “Diante de tantas máquinas pensantes ousemos pensar”.

Nem sempre os coetâneos têm noção da profundidade de uma obra. Conviver com a genialidade pode ser imperceptível. Raro que alguém se detenha ante a magia do próprio existir. PAULO BOMFIM consegue instigar esse exercício. Obriga a meditar e pode gerar milagres. É o que se pressente e se vaticina para este livro. O decantar das gerações vai revisitar o que for digno de preservação nesta era de superficialidades. Os axiomas postos aqui à apreciação da lucidez permeável ao belo serão testemunho de que nem tudo estava perdido no turbulento início do século XXI.

Sintetizar reflexões é missão de que raros espíritos conseguem se desincumbir. Vivencia-se a era da prolixidade, das frases intermináveis, das imagens deterioradas pela reiteração monocórdica dos que muito falam, sem ter nada a dizer. Nada que se aproveite, nada que se perpetue. A fatuidade típica dos que só conseguem se deleitar com o próprio zumbido ególatra.

A concisão proclamada pelo poeta não elimina, antes estigmatiza, a profundidade de suas elucubrações. Está¬-se perante uma arca mágica, repleta de genes de sabedoria. Cada qual deles, inseminado em consciência fértil, fará germinar novas primícias do gênero humano.

Ninguém será o mesmo depois de abrir a arca. Este baú é seminal, porque apto a produzir pessoas novas. Embebidas de infinitos olhares sobre si mesmas, sobre a vida, sobre os sentimentos. Sobre o encanto de pertença a uma categoria prenhe de mistérios e de indagações irrespondíveis.

Este encontro não será em vão. Impossível a leitura descompromissada. Toda blindagem será profanada. A força emanada do verbo desencadeará vendavais nas estruturas aparentemente sólidas. Ninguém resistirá imune ao poder das palavras de PAULO BOMFIM. Seu vaticínio se cumprirá: “Creio no poder das palavras, casulos que transportarão nossa essência a épocas que nem ousamos sonhar”.

Diário do anoitecer é um grande livro. Permanecerá, será comparado a outros clássicos, quais os pensamentos de Pascal. Será utilizado por quantos mendigarem inspiração. Servirá de motivação para que os estudiosos da filosofia dissertem sobre as instigações nele contidas. Abençoado território do engenho bomfiniano, eficaz ao repartir os dons com a prodigalidade que é o seu signo.

Embora os escritos se desvinculem do criador e adquiram existência própria, assim que postos à luz, impossível deixar de reconhecer esta patente paternidade_ Diário do Anoitecer resplende o DNA do Príncipe dos Poetas Brasileiros.

Os contemporâneos de PAULO BOMFIM apenas intuem a excelência de seu caráter. Homem generoso, projeta a sua imagem nos humanos que têm o privilégio de seu convívio. A pureza do poeta só detecta o lado luminoso da espécie. Toda criatura reveste, para ele, um encanto próprio.

O Evangelho existencial do bandeirante paulistaníssimo conseguiu implementar o ideal que o cristianismo persegue. PAULO BOMFIM é a prova de que a fraternidade pode reinar entre os humanos. Na esfera profana, aquilo que a seara jurídica tenta incutir em vão nas mentes contaminadas pela rigidez da técnica — o sentido da dignidade da pessoa humana — o coração ingênuo de PAULO BOMFIM sempre dominou. Desvendou-o com o cérebro menino, que as dores não petrificaram. Prossegue magnânimo e aberto. Disponibiliza uma pós-graduação em humanismo.

Em seu precoce testamento filosófico — pois já o adorna a glória da verdadeira imortalidade — desnuda em confissão: “Legarei minha emoção aos indiferentes, o riso aos lábios moços que murcharam, a lágrima aos incapazes de sofrer, a rebeldia aos acomodados, calor aos corações polares e esta paixão ao desamor do mundo”.

Numa quadra de crises e de desalento, refletir sobre as lições que seguem é uma transfusão de confiança na espécie. A melhor resposta é aderir a um projeto que pareceria utópico, não fora a certeza de que seu formulador o vivencia na prática.

Aprendamos com PAULO BOMFIM e tenhamos a coragem de bradar: “Não sejamos alheios mas façamos de nós bandeiras inconformadas, pavilhões contraditórios, pendões de altivez, trapos de ouro e lama ondulando sobre aqueles que se fazem de mortos”.

Um reparo não se consegue evitar: Diário do anoitecer não é título adequado. Melhor seria Diário do alvorecer, pois a alma fecunda de PAULO BOMFIM outorga uma aurora ética para todos os famintos de solidariedade e de esperança.

Saciemo-nos sem hesitação! O banquete é apetecível!

Fonte: www.paulobonfim.com

 

A Influência Russa na Literatura Brasileira

Maio 16, 2014

 Por Adelto Gonçalves

I

Que a literatura russa influenciou boa parte da literatura produzida no Brasil, especialmente no final do século XIX e na primeira metade do século XX, nenhum crítico de bom senso pode colocar em dúvida. Até que ponto chegou essa influência e como seu deu, pois, na maioria, por desconhecimento do idioma russo, os autores tiveram acesso apenas a traduções de segunda mão do francês, é que nunca ninguém havia estabelecido.

Essa questão, porém, já está devidamente esclarecida e aprofundada, depois da pesquisa de proporções ciclópicas empreendida pelo professor Bruno Barretto Gomide em sua tese de doutoramento apresentada ao Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em junho de 2004, que saiu em livro em 2011 pela Editora da Universidade de São Paulo (Edusp): Da estepe à caatinga: o romance russo no Brasil (1887-1936), Prêmio Jabuti 2012, da Câmara Brasileira do Livro, na categoria Teoria e Crítica Literária.

As fontes deste livro foram extraídas de arquivos particulares de escritores e de uma extensa pesquisa que o estudioso fez em jornais, revistas e livros publicados entre 1887 e 1936, valendo-se também de consulta não só em arquivos públicos e de universidades em Campinas, São Paulo e Rio de Janeiro como nos Estados Unidos, especialmente nas bibliotecas das universidades de Illinois, Indiana, Stanford e Califórnia.

Neste livro, a recepção da literatura russa no Brasil é estudada a partir de dois eixos: pesquisa documental da recepção crítica do romance russo e estudo da vasta bibliografia comparatista que lida com outros casos de recepção da literatura russa no Ocidente. Tudo isso acompanhado pelas discussões específicas fornecidas pela crítica literária e pela historiografia da cultura brasileira, como observa o autor na introdução.

Os primeiros textos que utilizavam os romancistas russos como contraponto a questões literárias candentes no Brasil datam da segunda metade da década de 1880. Já o final da década de 1930 marca um momento em que tais discussões perdem sua força e deixam de ser relevantes para a crítica. O trabalho conta ainda com um anexo que reproduz algumas fontes significativas, privilegiando as de mais difícil acesso.

II

É observar que a chegada do romance russo ao Brasil foi uma consequência marginal de um processo internacional iniciado na França, que o tornou uma sensação europeia em meados da década de 1880. Foi quando surgiram as traduções em escala industrial e livros de crítica que assinalavam a recepção desses romances em língua francesa.

Gomide aponta o ensaio O Romance Russo, de Eugène-Melchior de Vogüé (1848-1910), publicado em 1886, como o elemento basilar dessa recepção, pois era a ele que recorria a maior parte dos ensaístas, inclusive no Brasil. Entre os romancistas brasileiros, Lima Barreto (1881-1922) foi o que mais se deixou influenciar pelas ideias que o romances russos traziam implícitas, especialmente a partir do prefácio que Vogüé escreveu para Recordações da Casa dos Mortos, de Dostoiévski (1821-1881).

O pesquisador observa que já havia conhecimento da literatura russa no Brasil antes mesmo da década de 1880, mas esses contatos se davam em escala diminuta. A partir daquela data, o seu “surgimento súbito” no País, em função do que ocorria na França, passou a atiçar a criação de uma literatura genuinamente nacional, como observaram ao tempo José Carlos Jr. (?-?), um crítico paraibano hoje quase esquecido e justamente “ressuscitado” por Gomide, e Clóvis Bevilacqua (1859-1944). Mas, como constata Gomide, essa interpretação não foi unânime. Para Tobias Barreto (1839-1889), por exemplo, os romancistas russos eram a negação de tudo o que a cultura francesa representava.

Para Silvio Romero (1851-1914), os russos seriam também o melhor exemplo antípoda de Machado de Assis (1839-1908). Se o escritor fluminense construía delicados estados psicológicos de suas personagens à maneira do francês Paul Charles Joseph Bourget (1852-1935), Romero fazia o contraste com a estética radical do choque, exemplificada por Edgar Allan Poe (1809-1849) e Dostoiévski, observa Gomide. E acrescenta: para Romero, o autor fluminense ficava “bem abaixo de Dostoiévski, Poe e até de Hoffmann (1766-1822), quando este envereda, como o próprio Machado diria, pelo distrito da patologia literária”.

Portanto, o caráter inovador da prosa russa foi imediatamente detectado pelos críticos brasileiros, que passaram a utilizá-lo largamente como termo de comparação em suas críticas e recensões. E até a apresentá-lo como um modelo de emancipação          para a literatura brasileira.

III

Na primeira parte de seu livro, Gomide trata da divulgação dos romancistas russos a partir da metade dos anos 1880, especialmente de 1883 a 1886. E apresenta exemplos do aumento vertiginoso do número de traduções e do entusiasmo nos meios intelectuais pelo novo fenômeno literário. Mostra ainda que, quando a revolução de 1917 assustou o mundo, já havia no Brasil uma tradição de três décadas de discussão do romance russo em periódicos e livros de crítica.

Portanto, associar autores como Dostoiévski, Turgueniev (1818-1883), Leon Tolstói (1828-1910) e Alexandr Pushkin (1799-1837) ao bolchevismo só podia partir de mentes obnubiladas, o que não é de admirar, pois, à época da última ditadura militar (1964-1985), o livro Juan Rulfo: Autobiografia Armada (Buenos Aires, Corregidor, 1973), de Reina Roffé, teve a sua importação barrada, por volta de 1975, porque o censor fez uma interpretação beligerante da palavra “armada”, quando o título queria dizer apenas que a autobiografia havia sido “armada” com declarações do escritor retiradas de entrevistas publicadas em épocas diversas. Santa ignorância….

Na segunda parte de seu trabalho, Gomide estuda as décadas de 1920 e 1930, quando era flagrante o impacto da revolução bolchevique. E mostra claramente que, ao contrário do que se supõe, a literatura russa nunca foi uma espécie de patrimônio da esquerda, pois intelectuais católicos, como Alceu de Amoroso Lima (1893-1983), Tasso da Silveira (1895-1968) e Jackson Figueiredo (1891-1928), já discutiam sua influência na literatura mundial, especialmente a partir de Dostoiévski, Máximo Górki (1868-1936) e Leon Tolstói.

A segunda parte do livro apresenta, além de um panorama do mercado editorial da década de 1930, textos que desconfiam abertamente das interpretações geradas no fim do século e tentam cercar os romancistas russos por outros ângulos. E contestam a ideia de que o niilismo de Dostoievski e de outros escritores russos teria preparado terreno para o avanço do comunismo e a vitória dos bolcheviques em 1917, apenas porque a literatura russa sempre esteve associada a questões sociais. Na conclusão, Gomide defende que é anacrônico reler os primeiros momentos da recepção da literatura russa no Brasil de acordo com os resultados posteriores à revolução de 1917.

Como o livro vai até 1936, fora da análise de Gomide fica o recente renascimento do interesse do leitor brasileiro pelo romance russo que, a rigor, deu-se depois do lançamento, em 2001, da primeira tradução de Crime e Castigo, de Dostoiévski, feita diretamente do russo por Paulo Bezerra, pela Editora 34, de São Paulo. Em seguida, saíram vários livros traduzidos diretamente do russo por Paulo Bezerra, Boris Schnaiderman, Fátima Bianchi, Lucas Simone e outros. Em 2011, saiu também Gente Pobre, de Dostoiévski, com tradução de Luíz Avelima, pela editora Letra Selvagem, de Taubaté-SP.

IV

Bruno Gomide (1972) é doutor em Letras pela Unicamp, com estágio de doutorado na Universidade da Califórnia, em Berkeley. Realizou cursos nas universidades de Illinois, Indiana, Cambridge e Linguística de Moscou. Foi pesquisador-visitante no Instituto Gorki de Literatura Mundial, em Moscou, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp). É o organizador do grupo de trabalho de Literatura Russa da Associação Brasileira de Literatura Comparada (Abralic).

Organizou a Nova Antologia do Conto Russo (1792-1998), lançada recentemente pela Editora 34, que reúne nomes conhecidos no Brasil como Pushkin, Gógol, Dostoiévski, Tchekhov, Tolstói, Pasternak, Bábel e Nabókov e outros menos conhecidos, como Odóievski, Grin, Chalámov, Kharms, Platónov e Sorókin, num total de 40. Tem publicado artigos em periódicos internacionais, como Tolstoy Studies Journal e Vopróssi Literaturi, e participado dos principais congressos de eslavística.


%d bloggers like this: