Arquivo de Maio 2011

Exibição do Filme “Camões”

Maio 24, 2011

 

O “Padre Mattos” não foi heterônimo

Maio 16, 2011

Por João Alves das Neves

Entre os 127 heterônimos enumerados por José Paulo Cavalcanti Filho, no livro Fernando Pessoa – uma quase autobiografia (1), pelo menos um existiu humanamente –o “Padre Mattos”, que nasceu no dia 7 de  Janeiro de 1893 na aldeia  de Folques (Arganil, Portugal), onde morreu em 11  de Dezembro de 1916. Seu nome completo: José Lourenço de Matos.

Foi sacerdote e jornalista (publicou artigos em mais de uma dezena de jornais e 7 livros, incluindo O Baluarte de um Vencido (póstumo) e O Paraíso do Cristão (“endereçado especialmente à juventude feminina”). Monárquico por excelência, combateu com vigor os excessos anticatólicos da primeira República, mas era tido como pessoa correcta, como fez António José de Almeida, então ministro da Justiça (devia conhecer bem o Padre Mattos, pois eram ambos da Beira-Serra), e por isso o dirigente republicano mandou escoltar o sacerdote, quando ele foi preso e deportado (!) por suas convicções religiosas, porque os mais agitados ameaçavam agredi-lo.

No livrinho Fernando Pessoa na Beira-Serra (2), dissemos que o Pe. Mattos era muito combativo, mas nem por isso se pode considerar democrática a violência dos seus adversários, que destruíram a pequena tipografia do jornal Manhãs Dominicais (saiu apenas o 1º número…) Com efeito, se a ditadura estadonovista foi inadmissível, as perseguições religiosas durante a Republica foram também imperdoáveis.

Admitimos que, na condição de jornalista, o Padre Mattos foi demasiadamente agressivo nas suas diatribes contra o regime implantado em 5 de Outubro de 1910 – e é sabido que numerosos republicanos discordaram das violências dos contendores, Fernando Pessoa entrou na corrente e atacou-o rudemente, no poema satírico “Origem metaphisica  do Padre Mattos, divulgado por Teresa Rita Lopes no 2º volume (3), cuja fonte não é citada por  José Paulo Cavalcanti, que se limita reproduzir 4 versos do poeta (pág 377),  apontando-o  mais tarde entre os heterônimos (pág. 387). Em resumo   o “Padre Mattos” não foi nenhum dos múltiplos heterônimos pessoanos – era sacerdote e jornalista e teve o   nome verdadeiro de José Lourenço de Mattos. E conheço o seu retrato.

Na sua  notável biografia, esclarece o correcto pesquisador José Blanco: “Poema satírico de Fernando Pessoa contra o Padre José Lourenço de Mattos. In Com. Ling. Port., 16, 2ª. Série, 7/2001, pp. 18-22. {Com. ao  VII Encontro Internacional do Centro de Estudos Fernando Pessoa, realizado em São Paulo em 5/18-20/2001} No poema satírico “Origem metafísica do  Padre Mattos”, FP, talvez irritado com o excessivo reaccionarismo monárquico do Padre José Lourenço de Mattos,  jornalista de “A Palavra”, foi além das marcas: É um texto “malcriadíssimo”.’ (4)

Depois da leitura do poema transcrito por Teresa Rita Lopes, consultamo-la, mas ela não sabia quem era o Pe. Mattos. Continuamos a busca e concluímos que só podia ser o Padre José Lourenço de Mattos, o virulento contestador do regime republicano. E assim chegamos ao artigo da revista Comunidades de Língua Portuguesa (nº16, São Paulo, 2001) que desenvolvemos no livro Fernando Pessoa na Beira-Serra ed. Dinalivro, Lisboa, 2003). Com a devida vênia, só nos falta republicar agora o poema Origem metaphysica do Padre Mattos, de Fernando Pessoa:Bibliografia:

(1)   Editora Record, Rio de Janeiro, 2011,

(2)   Ed. Dinalivro, Lisboa, 2003

(3)   Ed. Estampa, Lisboa, 1990

(4)   Ed. Assírio & Alvim, Lisboa, 2008

A Eternidade de uma Instituição

Maio 16, 2011

 Por A. Gomes da Costa (*)

Em 14 de maio, o Real Gabinete Português de Leitura completará 174 anos de existência. Ao correr deste tempo, caiu o Império, foi implantada a República, sucederamse os governos – e o mundo inteiro passou por transformações e mudanças profundas, desde o traçado da geografia política ao crescimento demográfico, desde os avanços científicos e tecnológicos à economia e às estruturas sociais, desde as crenças e os costumes, à produção e à riqueza.

Poucas são as instituições que conseguem atravessar um ciclo existencial tão longo, sem perderem a identidade ou desaparecerem, principalmente quando não têm escoras oficiais para serem sustentadas. Fenômeno idêntico acontece com as famílias, quando morrem os patriarcas; ou com as empresas, quando perdem os fundadores e os pioneiros. Quase sempre definham e extinguem-se.

Por isso, não deixa de ser notável que uma associação, fundada poucos anos depois de proclamada a Independência do Brasil, por algumas dezenas de emigrantes portugueses, com a finalidade de difundir a Cultura e o Conhecimento entre aqueles compatriotas que chegavam ao país de destino com “poucas letras”, tenha resistido às transformações e reformas que moldaram o Brasil que somos hoje.

Na base deste fenômeno de sobrevivência – íamos escrever “milagre” – do Real Gabinete Português de Leitura, podemos apontar diversas causas, mas duas foram fundamentais e permanentes: o húmus do patriotismo e o preceito da gratidão. O primeiro, fez com que uma comunidade reunisse e colocasse ao alcance de qualquer um do povo o melhor que o gênio lusitano já produziu: a criação de seus escritores, o cântico da sua Epopéia e a alquimia da sua Arte. Para isso, juntou livros e manuscritos, obras raras e cimélios quinhentistas; reproduziu em pedra de liós, no centro da Cidade, os recortes manuelinos do Mosteiro dos Jerônimos; e construiu um “templo camoniano” para louvar todos aqueles “em quem poder não teve a morte”.

Essa é a expressão do patriotismo e o culto da lusitaneidade que atravessaram gerações. Tudo se fazia no Real Gabinete Português de Leitura por amor e para louvação da terra de origem: as obras adquiridas, os patrimônios investidos, as coleções guardadas. Mas a juntar-se a esse húmus patriótico estava uma segunda causa, que foi o reconhecimento ao Brasil. Este, senhor de seu destino desde 1822, continuava a receber, todos os anos, milhares de portugueses, que vinham realizar seus projetos de vida. Nas pedras rosadas da fachada; nas estátuas dos Poetas e dos Navegadores; nas estantes dos livros e nas pinturas de José Malhoa; no Salão dos Brasões e no “Altar da Pátria”, na “Clavis Prophetarum” do Padre Antônio Vieira e na edição “pinceps” de “Os Lusíadas”; nos autógrafos do “Amor de Perdição”, e do “Amor só tu por amor” de Machado de Assis – estavam patentes os símbolos da gratidão dos portugueses ao País de acolhimento. E como essa gratidão é eterna, também eterno será o Real Gabinete Português de Leitura: ontem, considerado “sacrário” dos emigrantes que chegavam, hoje, transformado em “oficina” dos mestres e dos jovens que gostam do “Portugal a haver”.

 (*) O autor é presidente da Federação das Associações Portuguesas e Luso Brasileiras

Sublinhados da minha biblioteca

Maio 16, 2011

Por Dalila Teles Veras

 Parte I

Arrumo prateleiras da biblioteca. Como sempre, tarefa de Sísifo. Passo a flanela na capa, a escova nos cortes, folheio e… os outros volumes empoeirados à espera, esqueço-me do propósito primeiro. Leio os sublinhados que fiz à época da leitura, ou seja, trechos que mais me chamaram atenção (iluminações) e, muitas vezes, sintetizam, ao menos para mim, o conteúdo do livro. Decidi compartilhar aqui algumas dessas passagens, esperando poder contribuir com a divulgação de autores que considero relevantes, polêmicos ou seminais, ainda que me reserve o direito de, eventualmente, deles hoje discordar, posto que os trechos sublinhados podem remontar a priscas eras e, como diria aquele gigante da língua, todo ser é composto de mudanças. Serve-me, neste caso, a justificativa de Philip Roth, ao ser questionado sobre algo que escrevera: “Mas eu escrevi isso em 1960. Não posso ser responsabilizado pelo que disse há 50 anos” (entrevista concedida ao O Estado de S.Paulo, em 14.6.2009).

Edgar Morin, A Cabeça bem-feita (Bertrand Brasil, 2000):

“Literatura, poesia, cinema, psicologia, filosofia, deveriam convergir para tornar-se escola da compreensão. A ética da compreensão humana constitui, sem dúvida, uma exigência chave de nossos tempos de incompreensão generalizada”.

“A poesia, que faz parte da literatura e, ao mesmo tempo, é mais que a literatura, leva-nos à dimensão poética da existência humana. (…) Pelo poder da linguagem, a poesia nos põe em comunicação com o mistério, que está além do dizível”.

A propósito de um questionamento de T. S. Eliot, Onde está o conhecimento que perdemos na informação?, sublinha o pensador francês: “O conhecimento só é conhecimento enquanto organização, relacionado com as informações e inserido no contexto destas. As informações constituem parcelas dispersas de saber. Em toda parte, nas ciências como nas mídias, estamos afogados em informações”.

Parte II

George Steiner: À Luz de si mesmo, (depoimentos sob forma de entrevista a Ramin Jahandebgloo), Ed. Perspectiva, 2003

“O respingo do ruído e a impossibilidade de reencontrar os espaços designados para o silêncio, seja na vida privada, na vida pública ou na educação que se dá às crianças, me parecem ser a mais grave poluição que a cultura moderna conhece. Para muitos seres humanos a noite se tornou tão ruidosa quanto o dia, um quarto silencioso, um inferno e uma tortura. Uma subversão total vai acontecer em nossa cultura. Recusa-se então o próprio termo do silêncio. Hoje em dia vende-se o ruído, ele domina o mercado como um objeto de consumo indispensável.”

George Steiner: Nenhuma Paixão Desperdiçada, Ed. Record, 2001:

“O preço do silêncio e da privacidade será cada vez mais alto (em parte, a ubiquidade e o prestígio da música derivam precisamente do fato de ser possível ouvi-la na presença de outras pessoas. A leitura séria exclui até mesmo a pessoa mais íntima).”

A descoberta deste pensador representou para mim uma verdadeira iluminação.  Francês, professor na Universidade de Cambridge, crítico literário, poliglota (como todo bom judeu) é um cidadão do mundo que parte da literatura para pensar, assim como Morin, a complexidade deste mundo.

O tema do silêncio é bastante presente em toda sua obra, “o silêncio e o inumano” e o “silêncio na arte”, este último, ainda que remonte aos gregos, imprescindível para reflexão da arte e da literatura, a partir de Paul Klee e Kandínski, na pintura, e de Mallarmé, na literatura. Recomendo ainda, Gramáticas da criação (Ed. Globo, 2003), obra fascinante na qual o autor analisa, à exaustão, a palavra e o conceito de “criação”, ou  “de que modo histórias sobre o início do Kosmos poderiam se relacionar com as que narram o nascimentos de um poema, de uma obra de arte ou de uma melodia?”. Boa leitura.

A escriba aproveita para comunicar que até o próximo dia 23 estará ausente  do seu território físico e virtual (e incomunicável – é preciso). Voltará, como sempre, para contar. Ficam as desculpas àqueles que por aqui passarem e derem com a janela fechada, esperando que voltem e nos honrem com sua leitura.

“ Amália, o Filme”

Maio 16, 2011

Por Raquel Naveira (*)

 Meu sangue português está em festa. Nascida e criada no sul de Mato Grosso, numa casa portuguesa, pelos meus avós, José Dias de Carvalho e Emília, imigrantes de Figueira da Foz, é uma alegria ter aportado aqui em São Paulo, no Clube Português, convidada pelo professor João Alves das Neves, para apresentar este documentário sobre Amália Rodrigues, a Rainha do Fado, a cantora, a atriz, a voz de Portugal.

Logo que cheguei a São Paulo, escrevi o poema “Sangue Português”, cheio de perplexidade, que diz assim:

Fiz jus

Ao meu sangue português,

Este foi o meu fado:

Deixar o passado,

Arremeter-me contra o desconhecido,

Acima da minha pequenez.

Desejei tudo:

Uma nova estrela,

Uma nova sorte,

Atribuí ao fado

O meu cansaço

De alma forte.

Estaria morto,

Absorto em mim mesmo,

Se não tivesse partido;

Velas ao vento

Entre rosas e cruzes,

Viajei em busca do meu ideal,

Bem ou mal,

Não sei quando chegará minha hora,

Minha vez,

Mas sei que fiz jus

Ao meu sangue português.

E também foi aqui que escrevi uma crônica intitulada “Amália Rodrigues: a Fadista” em homenagem a Amália e ao meu avô Carvalhinho, fruto do tesouro de minhas recordações de infância:

“Meu avô português, o Carvalhinho, amava ouvir fados, principalmente os interpretados por Amália Rodrigues, verdadeiro ídolo para ele. Lembro-me das capas de seus discos, a fadista sempre sorridente, lábios vermelhos e xales estampados. O fado, na verdade, se origina do bem brasileiro lundu, música de nossos negros, cantada ao som da viola. Levado para Portugal por D. João VI o lundu mudou de nome, perdeu o ritmo acelerado e se fixou nos tons menores, mais adequados às lamentações e aos melodramas sentimentais, ao som das guitarras repinicadas. Tornou-se manifestação urbana dos bairros populares e operários de Lisboa. Com o advento da Rádio e do disco, as vozes das fadistas Ercília Costa, Ermelinda Vitória, chegam a  um público cada vez mais vasto. O fado saltou das ruas e vielas de Lisboa para as casas de fado como o Retiro da Severa, onde Amália começou sua carreira.

Amália, a lisboeta humilde, foi a renovadora do fado, uma voz singular, uma intérprete com intensidade dramática que afirmava que o que interessa é sentir o fado, porque o fado não se canta, acontece. O fado sente-se, não se compreende, nem se explica.

 Quando Amália esteve no Cassino de Copacabana em 1944, meus avós vieram de Mato Grosso assistir ao espetáculo e voltaram maravilhados com seu fascínio, seu vestido de crepe azul da China. O avô gesticulava: Só faltei ajoelhar aos seus pés, tanta a emoção! Não há melhor embaixadora de Portugal no mundo!

 Os fados preferidos de meu avô marcaram profundamente minha forma de ser, de escrever e de sentir: o doloroso e retumbante “Barco Negro”, de David Mourão-Ferreira:

  De manhã, que medo que me achasses feia

 Acordei, tremendo, deitada n’areia,

Mmas logo os teus olhos disseram que não,

E o sol penetrou no meu coração.

Em outro trecho aquele tom de melancolia das mulheres que veem seu amado partir:

 Eu sei, meu amor,

Que nem chegaste a partir,

Pois tudo, em meu redor,

Me diz que estás sempre comigo.

E nas horas de alegria, espalhava-se pela casa o som da “Casa Portuguesa”:

 Numa casa portuguesa fica bem pão e vinho sobre a mesa.

 Quatro paredes caiadas,

Um cheirinho de alecrim,

Um cacho de uvas doiradas,

Duas rosas num jardim,

Um São José de azulejo

Sob um sol de primavera,

Uma promessa de beijos,

Dois braços à minha espera…

É uma casa portuguesa, com certeza!

É com certeza, uma casa portuguesa!

Quando Amália Rodrigues morreu, no dia 06 de outubro de 1999, meu avô José já tinha partido. Acompanhei o noticiário em lágrimas, lembrando dele, de quando eu dançava ao som dos fados, segurando as pontas da saia e ele me chamava de “Minha borboleta”. Vi como Lisboa chorou: as flores, os lenços brancos acenando, os sinos das igrejas tocando. Nas ruas, nos carros, nas lojas, por todo lado o fado de Amália. O Fado da Bica, dos Caracóis, da Saudade, do Ciúme, do Silêncio. Ó Flor do Verde Pinho que lavava Portugal, lavava, nas madrugadas de Alfama, Lisboa em Festa, Lisboa das cantigas de amigo, dos fadinhos serranos da Esquina do Pecado. Nunca mais o Tiro Liro Liro. Ai, meu amor, o marinheiro está longe e sou dele e sou tua. Todas as guitarras ficaram tristes. Gaivota. Libertação”.

Vamos então assistir agora ao “Amália: o Filme” do cineasta Carlos Coelho da Silva, argumento de Pedro Marta Santos e João Tordo, realizado pela Valentim de Carvalho Filmes. Amália é encarnada pela atriz Sandra Barata Belo. Um filme que conta uma história de amores e de glória, uma história dramática e exaltada. Um filme que retrata o gênio artístico de uma mulher de sucesso planetário, mas que também conheceu a frieza familiar, as desilusões amorosas e pagou o preço da melancolia do fado. Com vocês, lances secretos e momentos memoráveis em “Amália: o Filme”.

(*) A autora é escritora, professora universitária, Mestre em Comunicação e Letras, membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras e do PEN Clube, diretora da União Brasileira de Escritores/SP, autora de diversos livros, entre eles, Portão de Ferro (poesias), Literatura e Drogas e outros ensaios e Caminhos de Bicicleta (crônicas).

Apresentação do filme “Amália, O filme” exibido no Clube Português de São Paulo em 27 de Abril de 2011


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