Arquivo de Fevereiro 2011

TERRAS DA BEIRA SERRA

Fevereiro 16, 2011

Sacerdote, artista plástico, poeta, historiador, folclorista e ensaísta, Monsenhor Augusto Nunes Pereira foi um dos mais notáveis intelectuais contemporâneos da Beira Serra. A sua obra é vasta e do melhor nível cultural.

Desenhador, gravador e pintor, realizou numerosas exposições de arte em Portugal, no Brasil e no Luxemburgo, ao mesmo tempo que foram divulgados dezenas de trabalhos em inúmeros periódicos, com relevo para “A Comarca de Arganil”, “Correio de Coimbra”, “Jornal de Arganil”, revistas “ Mensageiro de Santo António” e “Arganilia” (que lhe dedicou uma edição especial), etc. E, entre outras obras consagradas ao Padre-Artista de Mata de Fajão, assinalamos os volumes Monsenhor Nunes Pereira – o percurso de uma vida (por Maria da Conceição Oliveira e José Maria Pimentel), Encontro com Poetas e um Artista / Mons. Nunes Pereira (por Mário Simões Dias) e O vitral da Ressurreição da Igreja Paroquial de São José de Coimbra (por Marco Daniel Duarte).

Para lá das pessoas, o pintor fixou igualmente montes e vales, santos e anjos, rios e árvores dos lugarejos, aldeias e vilas, enfim tudo o que dá à Beira as suas características inconfundíveis que o artista não se cansou de desenhar e pintar, na pedra, na madeira, no cobre ou ferro. Não sabemos de ninguém que tenha ido tão longe, recriando as gentes e paisagens das nossas terras que parecem não ter fim. Tudo o interessou e continua a interessar-nos, quer estejamos perto ou aos milhares de pessoas que partem do país natal e que ainda vivem com as imagens da sua terra nos olhos e no coração: as imagens e os sentimentos são tão reais como se estivéssemos no meio dos pinhais, olivais e vinhedos, rios ou nos caminhos perdidos nos montes.

As paisagens cheias de vida de Nunes Pereira são aquelas que permanecem sempre dentro de nós – e por isso as fomos guardando e colecionando. Assim fiz eu e assim fez Nuno Mata que buscamos os traços do artista até que decidimos reuni-los e recordá-los num livro que poderemos reviver ao longo dos anos.

O álbum Terras da Beira Serra junta uma boa cinquentena de ilustrações e quem sabe poderá ser aumentado, um dia, se nos for possível descobrir mais algumas que permanecem dispersas, mas as que são agora reimpressas dão uma idéia segura da Beira voltada da Estrela para Coimbra e admitimos que se trata de uma perspectiva ampla. São visões humanas e da Natureza, redescobrindo a História da região através das obras de arte, dos templos e monumentos, os ricos solares e as casas rústicas da nossa terra. Os costumes e as lendas estão também presentes nos homens e mulheres. Redescobrem-se os Santuários do Montalto e da Senhora das Preces, a capelinha longínqua do Colcurinho e de outros lugares sacros, por todos amados e poetizados, relevando-se a beleza dos rios Alva e Ceira, assim como das ribeiras e dos ribeirinhos, dos matos indevassáveis e das múltiplas flores silvestres que enfeitam os caminhos, os chafarizes e fontenários, as igrejas e capelas quase escondidas nas montanhas, os frutos saborosos dos castanheiros, macieiras e pereiras, pessegueiros e figueiras, uvas, etc., etc.

O pintor A. Nunes Pereira faz-nos reviver as estações do ano, recorda as mulheres, os meninos e os homens, desenhando como se compusesse música, cantando-nos as modinhas simples e harmoniosas da nossa infância, reproduzindo o vento e a chuva, o frio e o sol beirão, as festas e romarias, as danças e os cantares que já não se vêem nem escutam. Mas o que pertence ao passado permanece vivo nos desenhos, gravuras e pinturas das terras da Beira Serra. É como se relêssemos as poesias de Brás Garcia Mascarenhas, D. Luís da Silveira, de Simões Dias, do Visconde Sanches de Frias ou de Vasco de Campos e do próprio Nunes Pereira.

Nos versos dos nossos Poetas e nas pinturas do sacerdote que veio da Mata de Fajão devem ser admiradas as vilas e aldeias da nossa Terra e é por isso que dizemos que nas Terras da Beira Serra estão as raízes e a eternidade do nosso passado, cada vez mais presente e na esperança do amanhã. Abrindo os olhos, ficaremos deslumbrados com as ilustrações que ele recriou para testemunhar a vida dos nossos ancestrais e dos que hoje a continuam e hão de perpetuar-nos no futuro.

(*) Escritor português há muitos anos radicado no Brasil, João Alves das Neves é co-autor (com Nuno Mata) do álbum Terras da Beira-Serra, que será lançado em breve.        

Outras informações através dos e-mail:  jneves@fesesp.org.br ou euuskadi70@gmail.com

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Esperança para Portugal

Fevereiro 16, 2011

Por A. Gomes da Costa

A reeleição de Cavaco Silva na presidência da República Portuguesa tem, a nosso juízo, dois significados importantes. O primeiro, confirma a insatisfação da maioria dos eleitores com o governo socialista que nos últimos anos conduziu o País à situação difícil em que se encontra; o segundo, pode ser interpretado como um sinal de esperança no único candidato, independentemente da biografia e do pastoreio ideológico dos de mais, que possui condições para influir, por sua experiência administrativa, por sua formação e por seu prestígio junto à comunidade internacional, na recuperação da vida política portuguesa.

Nos períodos mais dramáticos da História, fossem eles decorrentes das desgraças e das guerras, ou do desânimo, os portugueses agarraram-se quase sempre à figura messiânica de um ‘salvador”. Começou assim, para não recuarmos até Ourique, com o Mestre de Aviz, no crepúsculo do século XIV; repetiu-se com o mito sebastianista, após o desastre de Alcácer- Kibir; e aconteceu com Salazar, depois das confusões e das trapalhadas da 1ª República. A regeneração do “rei no cadaveroso” no subconsciente coletivo, pressupunha a intervenção do “Encoberto” e do “predestinado” para debelar as crises e o abatimento. O “V Império” e a “demanda de Graal” nunca desapareceram do imaginário coletivo, como também não desapareceu a figura pessoana do “Presidente-Rei”, mesmo quando, dentro do arrebata mento romântico de um povo triste, era negro o futuro do País.

De alguma forma, a reeleição de Cavaco Silva, no quadro de imensas preocupações em que se realiza, não deixa de ter um pouco desse sentimento, ou dessa memória, de fazer de Portugal outra vez Portugal, como queria Almeida Garrett. Os tempos mudaram, os desafios são diferentes e o próprio regime político subtraiu do Presidente da República poderes constitucionais que seriam necessários para corrigir, com menos traumas, os desvios, dar outra “cara” ao governo e despertar nos portugueses a força necessária para restaurar as energias e fortalecer os vigamentos da Pátria.

Entretanto, não há outra alternativa senão cravar em Cavaco Silva a esperança do País mudar de rumo, por fim às enfermidades que o debilitam, correr com os políticos incapazes e falastrões, enfim, apelar para as virtudes e o sacrifício de todos – para reencontrar-se rapidamente com sua vocação histórica e reconstruir o que perdeu, reagir contra o bota-abaixo da incompetência e fazer, com coragem e determinação, uma nova travessia em busca do progresso e da prosperidade. 

OS BORGS E A COMISSÃO DA VERDADE

Fevereiro 16, 2011

Por Ives Gandra da Silva Martins

Sou um admirador das séries de “Startrek”. As cinco edições refletem muito a história da humanidade.

Os Borgs são um povo de humanos robotizados, os quais respondem a um comando central único, que pretende “assimilar” todos os povos do universo. Assimilar é fazer com que pensem rigorosamente como eles e obedeçam, como uma só unidade. Senão, são mortos.

Os Borgs representam as ditaduras ideológicas, que não admitem contestação e que procuram dominar os povos, eliminando as oposições e as verdadeiras democracias.

Se a 1ª. Guerra Mundial foi um embate pela realocação de poderes na Europa, a 2ª. guerra já foi uma guerra entre as democracias e os regimes totalitários (alemão, italiano e russo, visto que, no início, Stálin apoiou Hitler, na invasão à Polônia).

A vitória de princípios democráticos naquele conflito, que gerou a Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 10/12/1948, nem por isto eliminou esta luta permanente entre ideologias totalitárias, que não admitem contestação e que continuam poluindo a convivência das nações , e as democracias.

Rawls, em dois de seus livros “Uma teoria da justiça” e “Direito e Democracia” mostra que a democracia só pode ser vivida se as teorias políticas não forem abrangentes em demasia e possam conviver, em suas diversidades, com outras maneiras de pensar. Teorias abrangentes provocam ou a eliminação dos opositores ou a “assimilação”, no estilo dos Borgs da “Startrek”, daqueles que vivem sob seu julgo.

Estamos no início de um novo governo, tendo a presidente sinalizado, mais de uma vez, que quer fazer um governo de união, mas com respeito aos opositores.

Não creio que a Comissão da Verdade venha auxiliar muito este seu projeto, na medida em que, sobre relembrar fantasmas do passado e rememorar dolorosos momentos de uma história em que militares e guerrilheiros torturaram e mataram, tende a abrir feridas e acirrar ânimos.

Como ex-conselheiro da OAB da Seccional de São Paulo, durante seis anos no período de exceção, estou convencido de que com a arma da palavra fizemos muito mais pela redemocratização do país do que os guerrilheiros com suas armas, que, a meu ver, apenas atrasaram tal processo.

À evidência, sou favorável a que os historiadores – e não os políticos – examinem, pela perspectiva do tempo, o ocorrido naquele período, pois não são os políticos que contam a história, mas aqueles que se preparam para estudá-la e examinam-na, sem preconceitos ou espírito de vingança.

Apoio, entretanto, o entendimento do Ministro Nelson Jobim de que, se for instalada Comissão da Verdade, que deva refletir o pensamento dos dois lados do conflito.

Tenho fundados receios de que uma pequena ala de radicais, a título de defender “direitos humanos” por um único e distorcido enfoque – e os vocábulos permitem uma flexibilização infinita para todos os gostos-, pretenderá “assimilar”, à maneira dos Borgs na “Startrek”, todos os que não pensem da mesma maneira, transformando uma Comissão da Verdade em Comissão da Vingança.

Pessoalmente, como combati o regime de então –sofri em 1969, inclusive, pedido de confisco de meus bens e abertura de um IPM, processos felizmente arquivados- e participei da Anistia Internacional, enquanto tinha um ramo no Brasil, por ser visceralmente contra a tortura, sinto-me à vontade para criticar a “ideologização” dos fatos passados, a meu ver enterrados com a lei de Anistia de 1979.

Que os historiadores imparciais -e não, o ideólogos – contem a verdadeira história da época, pois são para isto os mais habilitados.

Lusofonia e Transnacionalidade

Fevereiro 16, 2011

por Michell Niero (*)

A recente crise da União Europeia aponta para as bases frágeis desse bloco que, para além da esfera econômica, possui dificuldades imensas para se unir política e culturalmente. Também puderá, não é fácil. Quando não se há identificação cultural, ou ao menos um esforço para tal, toda a idéia de unidade cai por terra. O que era tolerância vira facilmente ódio, justamente algo que vemos na forma como a questão da imigração intra-continental vem sendo tratada em períodos de recessão.

A problemática do bloco em  não ter um parlamento europeu, capaz de representar e levar ao debate todos os vieses políticos e sociais da Europa reduz as decisões ao cumprimento do velho receituário neoliberal de entidades supostamente transnacionais como FMI e Banco Mundial. Uns perdem, outros perdem menos, muitos perdem muito, poucos ganham.

A ideia deste artigo, porém, não é tratar da UE e sim buscar no mundo algo que vá além da união por interesses econômicos. Aliás, esse é justamente o objetivo do Patifúndio, que ao colocar a diversidade cultural à frente dos interesses comerciais leva a mais de dois anos uma oportunidade de aprendizado sobre populações que falam, cada uma a seu modo, um mesmo idioma.

Lusofonia por Oportunismo

O mundo lusófono forma um bloco transnacional não oficial que conta com mais de 220 milhões de habitantes. Dentro desse bolo, é verdade, muitos que não falam português, mas que de alguma forma se reconhecem como pertencentes a uma aldeia, a uma comunidade, a uma cidade, estado ou país. O princípio reside justamente nessa oportunidade fantástica de rasurar fronteiras e pensar além do que os mapas nos livros de geografia nos dizem.

Então porque o modelo atualmente mantido pela CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) não decola? Recentemente vimos alguns esforços para que alguns países cuja língua não é propriamente o elemento que justificaria a entrada na comunidade. Guiné Equatorial, por exemplo, país que vive uma triste situação de pobreza extrema aliado a um cenário político marcado por uma ditadura comandada por Teodoro Obiang desde 1979, se tornou membro observador mesmo com uma população ínfima falando fá d’ambô, idioma crioulo com base lexical portuguesa.

O que poderia representar uma evolução conceitual da lusofonia é, na verdade, uma busca oportunista por novos acordos econômicos ligados principalmente ao petróleo, e só.  Por decreto a hispânica Guiné Equatorial “fala” português desde 2008. Outras mudanças estão previstas para que o país da África ocidental adentre à comunidade,  mudanças essas que não passam necessariamente para uma guinada democrática tampouco em combater as violações aos direitos humanos. É um ajuste aqui e outro acolá para que o presidente de Angola, atual presidente da CPLP, bata o carimbo.

Mas afinal, que democracia é essa que legitima a união numa só comunidade países como Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e Brasil? Isso sem falar nos  direitos humanos, pois aí a discussão seria longa.  Então, de certa forma, Guiné Equatorial tem seu direito adquirido de requerer sua entrada, tendo em vista a porosidade dos valores que supostamente procuram criar um sentimento de união nesse organismo transnacional.

Lusofonia pela Cultura

Embora seja esse nosso objetivo, unir a partir das diferenças culturais pode se tornar também um sustentáculo frágil de ser mantido se não haver em conjunto transformações sociais e políticas que pavimentem esse caminho. É só olhar para dentro de cada país lusófono e veremos que a intolerância cultural, seja pela religião, pela etnia, pela cor da pele, pela origem migrante ou imigrante são empecilhos que numa situação transnacional apenas ganhariam maiores proporções.

No Brasil, meu país e, portanto, local onde tenho maior intimidade para falar a respeito, vimos recentemente nas eleições presidenciais de 2010 um quadro de relativa intolerância religiosa e regional determinante para o resultado final do pleito. Foram comuns na Internet mensagens de ódio à população nordestina (votantes majoritariamente em Lula e Dilma) e manifestações religiosas por parte de grupos evangélicos contra o aborto e à união civil entre gays. Até mesmo a suposta homossexualidade da então candidata Dilma Rousseff foi ventilada para desmoralizá-la.

O livre exercício da opinião se mostrou, na verdade, um artifício sustentado pela sociedade e pela imprensa para evitar o contraditório nos debates. Uma estratégia que deu certo. No mínimo um caldeirão cultural que merece o sinal amarelo da reflexão; no mínimo uma situação que nos serve para eliminar de uma vez por todas a imagem de que o Brasil é um país tolerante racial, cultural e socialmente. Falta muito pra gente chegar lá.

Pan-africanismo, iberismo, tropicalismo… e o resto?

Seria mesmo possível unir de fato culturas tão complexas e diferentes entre si, economias muitas vezes voltadas para si, sistemas políticos desconectados internacionalmente, a valores e ideais universalistas?

Sem querer procurar uma solução definitiva mas iniciar um debate, creio que pode ser um caminho iniciar um movimento do micro para o macro para assim tentar construir antes de tudo identidades que possam dialogar-se e aprender reciprocamente. Transferência de tecnologia, formação de mão de obra capacitada, cooperação na esfera acadêmica, tudo isso já existe mas quase sempre para um único fim: aquele que acredita que um país se desenvolve apenas pelo crescimento econômico.

Dentro do continente africano existe um esforço para que se crie uma força transnacional que possa garantir soberania política e econômica. O pan-africanismo avança e dentro dele existe os PALOP (países africanos de língua oficial portuguesa), que pode não apenas colaborar para fortalecer o continente como contribuir para aprimorar o conceito de lusofonia.

Na península ibérica o iberismo busca unir Portugal e Espanha a partir das relações históricas e culturais entre as duas nações.  A possibilidade de incluir o idioma espanhol dentro do mundo lusófono é interessante não apenas no contexto europeu como também na esfera latino-americana, onde a proximidade histórica e cultural hispânica também convive com a lusofonia brasileira.

A lusofonia é um local imaginário onde o clima tropical determina muito as relações sociais, culturais, políticas e econômicas mantidas nesse território. O tropicalismo brasileiro idealizado no fim dos anos 60, muito mais um sentimento do que um movimento artísitico, poderia ser um fator interessante acentuar as relações que o Brasil possui com os PALOP. Algo que poderia muito bem extrapolar a questão de cor e ir além, explorando todo o espólio cultural herdado e adulterado para o bem da arte no território brasileiro a partir  do período colonial.

Mas ainda temos Timor Leste. Temos Macau e sua profunda relação com a ex-metrópole portuguesa. Temos pequenos pólos culturais espalhados pelo mundo que parecem ser pouco interessantes econômica e politicamente, mas extremamente ricos culturalmente. Verdadeiros livros abertos que poderiam servir de entrepostos de aprendizado mútuo. Resistências culturais em Malaca, Antilhas Holandesas, Galiza, Cingapura, muitas já tratadas nesse Patifúndio,  regiões fronteiriças deliciosamente indefinidas nacionalmente entre Uruguai e Brasil, Espanha e Portugal, Congo e Angola, Indonésia e Timor Leste,  possibilidades extraordinárias de rasurar aquilo que os mapas geopolíticos determinam.

Um novo conceito de lusofonia

Menos PIB e mais IDH, talvez seja essa a verdadeira busca.  A busca por fortalecer as relações entre comunidades lusófonas não passa somente pela identificação linguística, pelo interesse econômico, nem pela tentativa de forçar a barra criando um sentimento falso de união cultural. Há que se evoluir a partir de dentro de cada comunidade para se buscar novas ligações lá fora. A lusofonia é uma possibilidade real de contribuir para um mundo globalizado, desde que passemos por uma nova etapa da globalização, em que os mercados não sejam os agentes determinantes para estabelecer padrões de conversa. Desde que as pessoas que vivem no mundo lusófono  evacuem o egoísmo, o individualismo, a ganância por acumular riquezas e méritos  para fora de seus ventres. Parece difícil, talvez um mero idealismo e talvez assim seja.

Assim como no ritual de beber um bom vinho, o segredo seja talvez harmonizar sabores que aparentemente jamais combinariam em algo único. Sendo esse o primeiro artigo do Patifúndio da década de 2010, esperemos que daqui dez anos tenhamos paladares mais

 (*) é brasileiro, jornalista, pós-graduando em Globalização e Cultura pela Fespsp. Em 2008 idealizou a Revista O Patifúndio! e a mantém até hoje, graças a sua segunda paixão, a lusofonia, e aos colaboradores, verdadeiros amigos espelhados em cada território onde a língua portuguesa é exercitada. sensíveis e experimentados.

Fonte: http://opatifundio.com/site/?p=3430

Música: patrimônio imaterial do Brasil

Fevereiro 16, 2011

Por Rita de Cássia Alves

A música se insere num contexto único, pois faz parte da cultura de um povo, ultrapassa os limites do concreto, e se funda como legitimação de uma maneira de expressão que ganha caráter de tradição e se contextualiza em sua época, registra subjetivamente a organização social e cultural de um determinado povo, de um determinado grupo.

A Música Popular Brasileira, nas suas mais diversas representações, proporciona para as atuais e futuras gerações o acesso a expressão, ao rosto, a feição de quem fez e faz a fusão cultural brasileira, uma das mais expressivas expressões musicais do planeta e, sem dúvida, o carro-chefe de nossa cultura, a mais abrangente e popular forma de expressão do povo brasileiro, patrimônio imaterial de nossa formação cultural.  

Mais que em qualquer outra expressão cultural, é na música que podemos vivenciar a presença das diversas vertentes étnicas que forma nosso Brasil. Em especial, ao escrever para este site, que conjumina países de língua portuguesa, mais propriamente formadores de nossa gente, de nosso povo – lembrando Darcy Ribeiro – é prudente lembrar que em cada um dos diversos ritmos podemos fazer uma pesquisa de origem dos sons, das pessoas que se agregam em torno de determinados gêneros.

O impressionante é que, sabidamente, a língua portuguesa não tem uma estrutura e nem sonoridade acessível aos alheios e estranhos a ela, mas em oposição extrema está a capacidade de a música brasileira adentrar aos mais diversos nichos culturais, em quaisquer continentes, num testemunho de que a melodia, o ritmo, em comunhão com as palavras da nossa língua, exercem um poder soberano de sedução aos ouvidos, numa quase inexplicável harmonia que nos dá a graça de ter tanto grandes mestres clássicos, como Heitor Villa Lobos ou Carlos Gomes tanto quanto o samba em sua maior expressão: o carnaval.

Mesmo dentro destes gêneros aparentemente inconciliáveis, é possível perceber a preocupação do mestre Villa Lobos em recolher as mais simples expressões populares, sons que remetem às origens culturais, às produções de saberes locais, valorizando tradições caipiras, regionais, ao mesmo tempo em que busca romper com padrões limitadores da criação.

Assim também nos surpreende a criação dos grandes mestres do samba: Angenor de Oliveira, o ícone Cartola, Nelson Cavaquinho, Paulinho da Viola, poetas conhecedores da nossa língua – instintivamente alguns, outros estudiosos cuidadosos da estrutura lingüística que rege a nossa língua pátria, como Caetano Veloso e Chico Buarque de Holanda.

A nossa constituição federal, em seu artigo 216 define muito bem o significado deste patrimônio nacional : Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira”(…)”

Assim, torna-se possível não apenas deleitar-se com a expressão maior de nossa cultura, mas gerar cultura através dela, identificando-a como um patrimônio a ser preservado.

A constituição atribui ao poder público a responsabilidade de promover, proteger e conservar o patrimônio cultural brasileiro, em seu parágrafo 1º, artigo 216:  “O Poder Público, com a colaboração da comunidade, promoverá e protegerá o patrimônio cultural brasileiro, por meio de inventários, registros, vigilância, tombamento e desapropriação, e de outras formas de acautelamento e preservação.”

Por isso enumerar aqui ritmos e etnias que compõe a nossa música é tarefa de árduo labor, fruto de pesquisas de homens idealistas, musicólogos, antropólogos, historiadores incansáveis que têm recolhido, tal qual o professor doutor Edilson de Lima, partituras das nossas Modinhas, cantigas do século XVII, XVII, para que não se perca parte importante de nossa formação musical, a música barroca; ou então Ricardo Cravo Albim, que recolhe em seu instituto fantástico acervo das diversas expressões, ou ainda Mário Luiz Thompson, fotógrafo que dedicou toda a sua vida a registrar a imagem visual da nossa música.

Pudera, música que tem em sua lista tantos virtuoses como Dorival Caymmi, Tom Jobim, Chiquinha Gonzaga, Altamiro Carrilho (a lista seria interminável) precisará ter espaços e suportes para gerir um patrimônio desta magnitude.

O lixo extraordinário – o extraordinário do lixo – o luxo do lixo

Fevereiro 16, 2011

Por Dalila Teles Veras

A história e as circunstâncias do filme Lixo Extraordinário, documentário ora em cartaz no circuito comercial em São Paulo, já são um paradoxo:

1) Coprodução Brasil e Reino Unido, rodado em sua quase totalidade no Brasil, mais precisamente no aterro sanitário do Jardim Gramacho, em Duque de Caxias, Rio de Janeiro;

2) O protagonista e estrela principal, o artista Vik Muniz, é brasileiro que fala inglês (a língua do país onde reside há tempos) e, no início do filme, tem uma idéia um tanto quanto confusa de seu próprio país, o Brasil, ainda que seja dono de grandes e inusitadas idéias artísticas;

3) Aqueles que seriam figurantes (todos brasileiros, catadores de materiais recicláveis – não gostam de serem chamados de catadores de lixo) transformam-se em verdadeiros protagonistas e passam a roubar a cena e a conduzir toda a ação;

4) dois co-diretores (João Jardim e Karen Harley) são  brasileiros, bem como o produtor executivo (Fernando Meirelles), mas o filme foi indicado ao Oscar na categoria “melhor documentário estrangeiro” representando a Inglaterra, na figura de Lucy Walker (codiretora) e Angus Aynsley, produtor. (A Academia exige que sejam indicados apenas dois nomes para receber a possível estatueta e, nesse caso, os britânicos foram indicados).

 O problema mesmo será se o filme se tornar ganhador do Oscar. Para que país irá a estatueta?

Augusto de Campos, em sua fase concretista mais radical, vale-se apenas de duas palavras (luxo e lixo) que, engenhosamente  repetidas e distribuídas tipograficamente, constroem um poema, cujo resultado de “leitura”  possibilita a compreensão do quanto de lixo pode ser composto o luxo.

Datado de 1965, esse poema (visionário?) serviria hoje para ilustrar lindamente a abertura do filme.

Neste caso, o do filme, o extraordinário (o luxo) do lixo são as vidas que ali palpitam e que fazem com que toda aquela parafernália do alto capitalismo em prol da arte como produto se rendam à força de sua determinação. São eles(as), homens e mulheres que por força das mais variadas circunstâncias, ali foram parar, travestidos em aves de rapina,  assimilaram as piores forma de precarização de trabalho e vida e, aparentemente (mas só aparentemente) mostram-se “felizes” ou “conformados” com aquele way of living.

É justamente no momento em que lhes são apresentadas outras formas e possibilidades de vida (a arte de permeio) que se miram  no espelho e, sem pudor, se revelam por inteiro, seres de uma grandeza que comove e perturba.

O artista Vik Muniz, indutor de todo o processo, vai pintando gente/lixo/retratos, transformando figurantes em estrelas que já eram estrelas só não sabiam ainda disso. Antes de se embrenhar no mau cheiro, de mergulhar no outro, o artista Vik Muniz também não sabia nada daquilo. De surpresa em surpresa, diante da transformação do outro, é transformado também, retratos ampliados pela técnica da emoção.

As luxuosas galerias de Londres, Paris e Nova York, renderam-se ao “luxo” kitsch daquilo que veio do lixo, sem desconfiar que, para além do exotismo que move endinheirados colecionadores, ali, inclusive, há vidas, vidas que pensam.

Falta agora fazer o Lixo Extraordinário II, que conscientize aqueles que desembolsam altas somas na compra dessas obras, bem como aqueles que assistiram ao filme e vão às galerias e museus, que é preciso repensar o consumo e a já não mais suportável produção de lixo do Planeta que, a continuar sem a destinação adequada, acabará por transformar em lixo, não mais extraordinário, a própria humanidade.


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