Arquivo de Maio 2009

Participação de João Alves das Neves no PROGRAMA CONEXÃO LUSÓFONA na ALL TV

Maio 28, 2009
O professor João Alves das Neves estará no próximo dia 29 de Maio (sexta-feira) às 15 horas, de Brasília, 19 horas de Lisboa, no programa Conexão Lusófona, que é transmitido pelo site www.alltv.com.br e dirigido pela jornalista Portuguesa Sofia Salgado.  
Ele falará sobre o seu trabalho a respeito de Fernando Pessoa, de “Portugalidade” e de 10 de Junho – Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades de Língua Portuguesa.   
Agracemos a divulgação.
Assista e participe!!

FERNANDO PESSOA, SALAZAR E O ESTADO NOVO

Maio 24, 2009

Estudos Pessoanos

livro

Com este título, o escritor João Alves das Neves vai lançar, muito em breve, um novo livro com textos em prosa e verso do poeta Fernando Pessoa.

O volume terá 2 edições, uma em São Paulo e outra em Lisboa.
 
Na próxima edição deste blog, daremos informações mais pormenorizadas.

Angola: OS BRASILEIROS DESCOBREM UM PAÍS PROMISSOR

Maio 24, 2009

por João Alves das Neves

Visão noturna da Baía de Luanda - foto de Cristiano Arbex Valle

Visão noturna da Baía de Luanda - foto de Cristiano Arbex Valle

I

Cerca de 40 mil brasileiros já teriam desembarcado em Angola, nos últimos anos, ao mesmo tempo que alguns angolanos (e em particular as  mulheres) vêm cada cada vez  em maior número “fazer compras” no Brasil, desde roupas  aos pequenos utensílios domésticos  – primeiro, voavam de Luanda a Fortaleza, na região nordeste, e agora começaram a descer até São Paulo, no sul. E dizem que,  apesar do alto custo da viagem,  vale a pena, porque são muito mais caros os produtos de outros países, incluindo os adquiridos em Portugal (os exportadores que se cuidem, pois os ventos mudaram).

O que está ocorrendo não seria novidade no fim do século XVIII e no começo do XIX,  isto é, reata-se uma tradição secular. Quem sabe História, recordará que os oportunistas holandeses, em virtude da guerra com os espanhóis, tentaram asfixiar a economia portuguesa (ou luso-brasileira?) por meio da ocupação do Brasil), pois chegaram  a dominar uma boa parte do Nordeste e foram até Angola, instalando-se em diversos pontos do território.  Portugal conseguiu libertar-se das grilhetas filipinas, mas os flamengos venderam por bom preço as zonas conquistadas  temporariamente pelos militares dos comerciantes vitoriosos.

Em relação a Angola, foram os  portugueses do Brasil e os seus descendentes “brasilianos” os principais financiadores  da reconquista genuinamente luso-brasileira, ainda que com o denodado apoio  da Metrópole, esgotada pelos roubos napoleônicos e, depois, com os gastos da guerra contra “nuestros hermanos (vizinhos, sim, mas não irmãos). A penúria lusitana de homens e dinheiro  foi  tão grande que o Padre Vieira, na dupla condição de diplomata e negociador, chegou a admitir a hipótese de Portugal ter de recomprar aos holandeses as terras que eles tinham descaradamente roubado a Portugal!

Felizmente, o despudor  dos flamengos  não conseguiu descaracterizar o Nordeste do Brasil, em virtude de eles haverem sido vencidos  para sempre na batalha dos Guararapes (no Recife), ao mesmo tempo que as posições assumidas em território angolano foram destroçadas. Evidentemente, há contemporâneos que não sabem nem querem saber que a unidade do Brasil e de Angola só tem uma explicação – a coragem que os lusos demonstraram na luta contra os inimigos de ontem no antigo Ultramar e até em Portugal. E dizê-lo não significa que os portugueses fossem colonialistas dos tipos inglês, francês, espanhol, holandês, alemão ou italiano.

Não obstante, quando ocorreu a independência do Brasil, em 1822, houve quem, em Angola, defendesse a separação de Portugal e a união em nome de uma brasilidade atlântica, nessa altura tão débil quanto irrealista. O episódio histórico  é mal conhecido, mas está documentado no livro Angola e Brasil – 1808-1830, da autoria de Manuel dos Anjos da Silva Ribeiro (ed. Agência Geral do Ultramar, Lisboa. 1970).

II

Mais de 50 empresas brasileiras (grandes, médias e pequenas) estão já instaladas em Luanda e outros lugares, conforme artigo de O Estado de S. Paulo, assinado por Edison Veiga, com base em informações da Associação de Empresários e Executivos Brasileiros em Angola. Os empreendimentos são de vulto – o Grupo Odebrecht, por exemplo, dispõe de 10 mil empregados (2.500 são brasileiros) e fez várias centrais hidroelétricas, constrói imóveis e participa das obras de saneamento de Luanda e participa do único central de compras do país (tem 89 lojas), ao passo que a Construtora Andrade Gutierrez amplia os projectos.

Por seu turno, cresce a influência da TV Globo Internacional, que fornece novelas para a Televisão oficial e, além disso, tem 150 mil assinantes.  E a Universidade Agostinho Neto contratou diversos professores brasileiros, dá facilidades aos 2 mil estudantes que freqüentam escolas superiores do Brasil, em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Rio Grande do Sul. Paralelamente, a Universidade Agostinho Neto desenvolve-se a partir dos seus 50 mil alunos, que freqüentam 68 cursos de licenciatura, 18 de bacharelato e 15 de mestrado. E anuncia-se que funcionam igualmente 14  universidades particulares em todo o território.

Para lá das saudades que têm da Pátria, os brasileiros que optaram por Angola, definitivamente ou com planos de regresso, vivem muitíssimo bem. Considerando que são milhares os que auferem o triplo dos salários que ganhariam no país natal. E são bastantes aqueles que têm viagens pagas para revisitar de dois em dois meses as famílias que deixaram no país natal.

Como não há bela sem senão, os neo-emigrantes queixam-se da carestia angolana – e só os produtos importados são bons, porque a jovem nação ainda não pôde reformular a sua agropecuária, que foi outrora muito razoável. Os alimentos mais apreciados custam 4 vezes mais do que no Brasil: uma lata de coca-cola custa US$2,70  e uma refeição  aceitável fica em torno de USA$50,00 – a moeda nacional é o “kuwanza”, mas para adquirir 1 dólar são precisos 75 “kwanzas”! E isto explica que um apartamento de 2 dormitórios não seja acessível por menos de US$ 5 mil… mensais!  (Os executivos mais bem pagos chegam a dispender US$ 5 mil!).

Os brasileiros são como os portugueses e, por isso, irritam-se com o trânsito mais do que lento  (em Luanda, nas horas de pico, há quem demore 3 horas para percorrer uma distância de 15 km…). Apesar dos pesares, Angola ainda vale a pena, em especial para os que têm paciência, porque oferece ao visitante praias bonitas, paisagens belíssimas – e, acima de tudo, ao que diz O Estado de S. Paulo,  “o angolano é boa gente”, simpático, bem educado e gosta dos brasileiros (e também dos portugueses, porque a colonização foi muito pior noutras terras africanas).

Todavia, o que confrange é a pobreza vivida pela maioria dos 4,5  milhões de residentes na cidade de São Paulo de Assunção de Luanda, fundada pelos colonizadores, em contraponto a São Paulo de Piratininga. Resta aos bons luandenses a esperança de um futuro melhor, já que o presente é difícil.

Os brasileiros adaptam-se à vida angolana, mal grado a falta de uma felicidade completa, que não existe fora do sonho. E quem desembarca em Luanda para trabalhar não deve esquecer a sua condição de emigrante. Aliás, brasileiro que vai para Angola é um privilegiado, porque um alto salário contribui decisivamente para reduzir a saudade.

(*) João Alves das Neves é escritor (e-mail: jneves@fesesp.org.br)

A canonização de São Nuno

Maio 24, 2009

São Nuno

OS CARMELITAS COMEMORARAM, EM SÃO PAULO, A CANONIZAÇÃO DE SÃO NUNO DE SANTA MARIA

São Nuno de Santa Maria
São Nuno de Santa Maria

Sem pompa, mas com grande emoção, a Paróquia Santa Teresa de Jesus promoveu, na cidade de São Paulo, Missa de Acçao de Graças pela canonização  de São Nuno de Santa Maria. Dirigido pelos frades da Ordem dos Carmelitas, o templo está situado no bairro popularmente  conhecido por Itaim-Bibi, na área dos Jardins Paulistanos.

Aqui vivem alguns portugueses, que se mostram muito activos entre as comunidades religiosas,  oriundas de outros países e assim se explica que tenham sido numerosos os católicos que encheram literalmente a igreja de Santa Teresa, que tem como pároco Frei Rothmans Darles de Campos – que foi a Roma, acompanhado de um grupo de fiéis, a fim de assistir às solenidades comemorativas da canonização  do novo Santo de Portugal. E o Vigário-Geral da Ordem dos Carmelitas em São Paulo é Frei Paulo Goularte, doutorado em Teologia e Ciências Sociais, sacerdote que nas homilias revela não só  profunda religiosidade, mas também  uma grande sensibilidade humana.

Frei Paulo viveu em Portugal e foi alto dirigente da Ordem dos Carmelitas no tempo em que os  frades dos dois países realizaram missões conjuntas. E assim se explica que revele, sempre que é oportuno, a sua admiração por Portugal e o carinho que dedica aos portugueses, com destaque os que  emigraram para o Brasil. E esse contacto  foi mais uma vez demonstrado por Frei Paulo na extraordinária homilia   que proferiu no dia 26 de Abril, quando exaltou a acção de Portugal no Mundo e a grande  religiosidade dos portugueses e a obra espiritual (e material) que eles tiveram na formação da alma dos  brasileiros.

Depois da homilia,  o Vigário Geral da Ordem dos Carmelitas em São Paulo apresentou um retrato de São Nuno de Santa Maria que ficará para  sempre na igreja de Santa Teresa de Jesus e, na ausência de representantes oficiais,  convidou o autor desta crônica a descerrar o retrato de Nun’Álvares, em nome dos Portugueses  de São Paulo. Na oportumidade, o coral da igreja cantou  o Hino ao Santo  Nuno de Santa Maria, com letra e música enviadas de Portugal.

Os  homenageados foram, é claro, Portugal e São Nuno, envolvendo por acréscimo os Carmelitas espalhados pelos quatros cantos da Terra, mas certos  dos portugueses e brasileiros  lamentaram a ausência das autoridades dos dois países que ilustram historicamente o passado, o presente e o futuro da Civilização Ocidental e Cristã no Mundo.

Tiveram os dirigentes  da Paróquia de Santa Teresa de Jesus a boa ideia de redigir e imprimir centenas de folhetos (com 24 páginas): na capa, a imagem do novo Santo Carmelita,  abrindo-as com destaque para uma  oração : “Senhor nosso Deus, chamaste São Nuno de Santa Maria da violência das armas para o serviço pacífico de Cristo, na Ordem de Nossa Senhora do Carmo. Concedei-nos, por sua intercessão, vencer toda a espécie de egoísmo para viver a lei do amor. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.”

O folheto reproduz igualmente o “Hino ao Santo Nuno de Santa Maria”, assim como uma breve história da vida e obra do homem que nunca deixará de ser também o Santo Condestável de Portugal, fechando com as seguintes palavras: “O Santo Padre, Papa Bento XVI, dispôs a 3 de Julho de 2008, a promulgação do decreto sobre o milagre  em ordem à canonização e durante o Consistório de 21 de Fevereiro de 2009 determinou que o Beato Nuno fosse inscrito no álbum dos Santos no dia 26 de Abril de 2009”

N.B. – Esta crônica foi enviada aos srs. Presidentes das Repúblicas de Portugal e do Brasil,  Aníbal Cavaco Silva, e Luís Inácio Lula da Silva, respectivamente.

Foi igualmente remetida ao sr. Embaixador de Portugal no Brasil, João Salgueiro,  e transmitida também a outras autoridades religiosas e civis, assim como a vários órgãos da imprensa portuguesa e brasileira.

O texto pode ser  difundido pela Internet (conveniada ou não), nomeadamente os blogs com os quais mantemos intercambio em Portugal, Brasil e Comunidades de Língua Portuguesa.

O Espaço na Construção Poética de Eugénio de Andrade

Maio 24, 2009
Letras Portuguesas
O Espaço na Construção Poética de Eugénio de Andrade
por Rita de Cassia Alves
Eugénio de Andrade
Eugénio de Andrade

 

Eugénio é, sem dúvida, aquele que retira da natureza todas as metáforas possíveis para a sublimação das maiores e menores dúvidas, questionamentos  e incertezas do homem.  Eugénio abre a janela do próprio ser e adentra à natureza de forma sutil e intensa, como a luz a romper a treva da noite.

É por meio da metáfora  que folha passa a significar a existência humana:

            Somos folhas breves onde dormem
            aves de sombra e solidão.
            Somos só folhas e o seu rumor.
            Inseguros, incapazes de ser flor,
            até a brisa nos perturba e faz tremer.
            Por isso a cada gesto que fazemos
            cada ave se transforma noutro ser.

(in: As Mãos e os Frutos, poema “XXIV”, publicado pela primeira vez em 1948.)

Fundação Eugénio de Andrade

Fundação Eugénio de Andrade

Não há um espaço restrito para a poesia eugeniana: É uma poesia sem paredes.

Ainda que palavras como “casa” (do Adro ou da Eira), “limiar”, apareçam em sua poesia, têm sempre um valor de referência para ampliar o espaço externo, num anti-discurso referencial, pela negação do limite do real que expande o espaço poético, como em “Das árvores não te falo pois estão nuas; / das casas não vale a pena porque estão / gastas pelo relógio e pelas luas / e pelos olhos de quem espera em vão.” (in: As Mãos e os Frutos. Poema XXV), mesmo porque um menino que via cair estrelas “através das frinchas”, não poderia, jamais, alienar-se a um pequeno espaço. E ainda que a noite lhe traga a solidão impressa em seu pequeno mundo, o poeta é capaz de divinizar seu habitat noturno, sempre sem deixar de fazer uma conexão com o mundo natural, nomeadamente luz, seara, amanhecer, trigo:

            É hora de fazer milagres:
            Posso ressuscitar os mortos e trazê-los 
            A este quarto branco e despovoado,
            nde entro sempre pela primeira vez,
            Para falarmos da s grandes searas de trigo
            fogadas na luz do amanhecer.  

(in: As Palavras Interditas. Trecho do poema “Os Olhos Rasos D’Água”)

É na memória que podemos encontrar o espaço de criação do poeta Eugénio de Andrade.

O espaço pode ser aquele entre o silêncio e o som.  Pode ser ainda a reflexão que remete o leitor a algum lugar de sua própria experiência afetiva e emotiva, num regresso ontológico ao espaço da infância perdida, mas recuperada em emblemas poéticos, ou ainda avançar no tempo e construir intuitivamente um futuro idealizado no espaço da própria poesia.  E dependendo do contexto em que a palavra de Eugénio estiver inserida,  mar, por exemplo,  nele caberá um espaço muito maior do que aquele contido no sentido semântico e epistemológico para ganhar uma proporcionalidade equivalente com o derrame de emoções, com características psicológicas e imagéticas, além de metafórica.

Há ainda um terceiro espaço na poesia eugeniana, além do espaço da natureza e do espaço psicológico: há ainda o espaço do corpo. É neste amplo espaço Eros que Eugénio percorrerá os melhores caminhos.  Pela transparência dos ‘flancos’, ‘sorriso’, ‘mãos’. 

Essa teofania do corpo, parte das camadas mais elementares do mundo, como terra, água, para o magnetismo lírico do corpo, explorado em cada detalhe externo e interno, das varandas às cavernas do desejo, o corpo torna- se instrumento de criação, origem primeira e exclusiva (a redundância é propositada) da palavra nascida não só do corpo, mas do movimento que ele articula.  Nascem anjos das mãos, troncos dos braços, pássaros dos dedos (ler “Os amantes sem dinheiro”, obra de 1950), o sorriso abre portas, enfim, o espaço lírico que Eugénio explora na reinvenção do corpo amante, diviniza a nudez, instiga o leitor a transitar pelas veredas claras da poesia desenhada na carne.

* Historiadora, formada em Letras, membro do Instituto Orlando Villas Bôas – Crítica de arte e Literatura.

Museu do Santuário de Fátima

Maio 24, 2009

Museu do Santuário de Fátima: a salvaguarda de um espólio inestimável

por Marco Daniel Duarte

Procissão de nossa Senhora de Fátima

Procissão de nossa Senhora de Fátima

O Museu do Santuário de Fátima foi erigido, em 1955, pelo bispo de Leiria, D. José Alves Correia da Silva, com o intuito de poder entrar em funcionamento nos 40 anos das Aparições, em 1957. Através da provisão episcopal, o prelado leiriense, neste documento fundacional, criou uma instituição com sede no Santuário da Cova da Iria, que denomina, «sem pretensões e demasiadas preocupações de exactidão», “Museu-Biblioteca do Santuário de Nossa Senhora do Rosário da Fátima” (“Provisão de D. José Alves Correia da Silva”. Leiria, 1955, também publicado em “A Voz do Domingo”, ano 23, n.º 1167, 1955.08.14, p. 4, e em “Voz da Fátima”, ano 33, n.º 396, 1955.09.13, p. 2). Apesar de o bispo considerar as Bases de orientação que promulgava em estado incompleto (p. 7), à luz das teorias museológicas da época, o programa revelava bastante coerência e assertividade no concernente à tipologia museográfica em causa. Embora estabelecesse um plano geral, alguns dos dez pontos que compunham as bases orientadoras desciam à especialidade da proposta em ordem a, pragmaticamente, concretizar uma instituição que se queria tripartida em “Museu”, “Biblioteca” e “Arquivo”, enunciando a necessidade de elaborar um «inventário», a oportunidade de efectivar uma «exposição» e instituindo o «regime de depósito». Neste interessante documento de instituição, percebem-se anseios que, verdadeiramente, se inscrevem nos objectivos que, ao longo do século XX, guiaram a criação de espaços museológicos, como são os que aparecem enunciados numa espécie de intróito que coloca a tónica na urgência de preservar, de conservar e de defender «os restos de um passado que começa[va] a ser remoto» (p. 4). Tal carta fundacional criava a instituição que albergaria «ex-votos e principais recordações» dos peregrinos; material histórico, artístico e etnográfico; arte sacra e, em particular, arte mariana; testemunhos das peregrinações internacionais da Imagem da Virgem e, não menos importante, as relíquias relacionadas com a História das Aparições.

A estas, de uma forma particular, já se havia referido, anos antes, Sebastião Martins dos Reis, presbítero do clero de Évora e investigador da história de Fátima, precisamente a propósito do mesmo assunto, num lembrete acerca da imperiosa necessidade de construir no Santuário de Fátima um «edifício novo, digno e amplo, intencionalmente construído para Biblioteca-Arquivo-Museu» (REIS, Sebastião Martins dos – Fátima: as suas provas e os seus problemas. Lisboa, 1953, p. 335). Apelando ao «mais equilibrado espírito crítico» e à «melhor actividade científica» (p. 337), depois de enunciar que o acervo deveria ser constituído por escultura, pintura, gravura e arte vária, lembrava a importância das relíquias, dos «objectos pertencentes aos videntes» (REIS, p. 336).

Não obstante a prossecução de várias das directrizes que D. José Alves Correia da Silva havia escrito em 1955, o Santuário de Fátima nunca teve um edifício destinado a museu, o que não contrariou, porém, o desenvolvimento do trabalho típico das instituições museológicas, que tem sido desenvolvido sobretudo no respeitante ao labor de recepção, estudo e conservação dos bens a musealizar. Do ponto de vista institucional, o Museu depende do Serviço de Estudos e Difusão da Mensagem de Fátima, designação actual de uma repartição iniciada com a reforma de serviços do reitorado de Luciano Guerra (reitor entre 1973-2008).

Apesar de o espólio ter aumentado, inclusivamente, ao nível da qualidade artística e de se assegurar o seu estudo e investigação, não foi criado ainda um espaço físico com as valências necessárias à importância do espólio do Museu, que tem funcionado no edifício da Reitoria, embora o Santuário tenha em mente a edificação de um espaço museológico: «o Santuário não tem senão uns pequenos espaços dispersos onde armazena os muitos objectos que tem acumulado […]. Não teve também até hoje um espaço condigno de exposição» [“Grande Espaço Coberto para Assembleias (GECA) e Outros Espaços”, p. 27]. Tal situação não foi, no entanto, óbice para falta de trabalho no domínio museográfico e museológico. O estudo de um considerável número de peças de maior erudição ou de valor intrínseco pelo material nobre de que são feitas e também das peças que, não obstante poderem ser artisticamente menos ricas, são simbolicamente importantes para a realidade do local, encontra-se assegurado pelo referido SESDI, através da acção de Luciano Coelho Cristino e, a partir de 2008, através da secção de Arte e Património. Tal labor resultou na abertura ao público, já em 2002, de uma exposição permanente do espólio mais representativo do museu. A Exposição “Fátima Luz e Paz” é um dos mais importantes resultados dessa acção de recolha e preservação do espólio do museu que, abrindo à visita dos peregrinos em 2002, segue os moldes (horários, tipologia de visitas) dos museus internacionais, mostrando ao público algumas das mais importantes peças do tesouro do Santuário de Fátima. Através de um percurso didáctico, assumidamente catequético, que assenta na explanação e difusão da mensagem de Fátima, o núcleo expositivo propõe-se enquadrar os objectos no lugar em que os peregrinos-ofertantes e o santuário-receptor os coloca: são ofertas especiais, oriundas dos vários tipos de peregrinos, desde os anónimos aos mais conhecidos como são os papas que visitaram Fátima ou que ofertam a Fátima a propósito das peregrinações da Imagem da Virgem. No contexto de um santuário de peregrinação, no qual um dos vectores mais importantes é o cumprimento de promessas que assentam numa troca, com a entidade cultuada, de orações, muitas vezes traduzidas em ofertas materiais (desde os tradicionais ex-votos de cera até aos objectos mais eruditos, não raras vezes fruto de campanhas organizadas por instituições reconhecidas – dioceses, ordens ou institutos religiosos, paróquias, grupos especiais – dos mais diversos lugares do globo, tendo destaque os países de língua portuguesa).

A exposição destes objectos, que no segundo ano de permanência contava com cem mil visitantes, encontra-se efectivada com critérios assentes na representatividade daquelas oferendas e no valor (artístico, religioso e não só) das mesmas: aí se podem observar alfaias litúrgicas de diferentes cronologias e estilos artísticos, insígnias de autoridades eclesiásticas, escultura e pintura sacras, objectos do quotidiano e objectos especiais (a coroa preciosa da Imagem da Virgem da Capelinha das Aparições, a bala do atentado ao papa João Paulo II, a Rosa de Ouro, um manto da rainha D. Amélia de Orleães, alguns troços do Muro de Berlim, entre outras ofertas de peregrinos mais anónimos ou mais conhecidos). O denominador comum é o de serem ofertas à Virgem de Fátima e todas se encontram debaixo da égide que lhes serve de título: Fátima Luz e Paz. Para organização da exposição contribuiu o trabalho da equipa do Santuário de Fátima e a concepção museológica de Maria Teresa Gomes Ferreira. Segundo o Serviço de Peregrinos do Santuário de Fátima, serviço responsável pelo acolhimento aos visitantes na exposição, a exposição recebe por ano mais de 66000 visitantes.

Ainda sob a responsabilidade do Santuário de Fátima está a Casa-Museu de Aljustrel, espaço visitável desde 1992 com o intuito de exibir uma reconstituição da vida quotidiana do meio rural do início do século XX através da concepção museológica de uma equipa interdisciplinar composta por Joaquim Roque Abrantes, Manuel Serafim Pinto e Maria Palmira Carvalho. Para além deste núcleo museológico, também na zona de Aljustrel, o lugar de origem dos videntes de Fátima, podem ser apreciadas as casas dos videntes, salvaguardando as diferenças simbólicas e as valorações religiosas que estas últimas detêm. Também a partir destas se poderá colher informação sobre o passado das gentes de Aljustrel e também nelas se nota o cuidado na reconstituição cénica da paisagem da casa rural e dos seus conteúdos etnográficos. O fundamento histórico exigiu um avultado empenho no estudo dos objectos dos princípios do século XX que asseguram uma visualização do quotidiano doméstico ao tempo das Aparições de Fátima.

Território de movimentação de massas, vindas de muitas zonas do globo e com interesses vários, desde os que se relacionam em primeira instância com a função religiosa até aos que se ligarão aos intuitos mais turísticos, Fátima é terreno intelectual que bem permitirá o desenvolvimento das mais recentes tendências museológicas, algumas ainda em estado de aferição epistemológica como os centros de interpretação. É, com efeito, lugar privilegiado para a percepção, também através dos variados testemunhos materiais, das realidades da Igreja e do culto mariano na centúria de Novecentos. Sendo um dos mais importantes lugares da Religião Católica no mundo, o Santuário de Fátima possui inestimáveis testemunhos que materializam as diferentes relações que, no tempo que a historiografia chamou contemporâneo, o ser humano estabelece com o divino. A especificidade do museu deste Santuário advém-lhe da heterogeneidade do seu acervo que se mostra importante tesouro, não só para a história de um santuário destas proporções (e que conta já com quase um século de existência), mas também do interesse de diferentes áreas disciplinares das denominadas ciências humanas e sociais como são, entre outras, a História, a Arte (popular e erudita, com destaque para a ourivesaria), a Antropologia, a Sociologia, a Etnografia, a Liturgia e a Religiosidade Popular.


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