Arquivo de Abril 2009

A ENCRUZILHADA DA CRISE

Abril 25, 2009

Política Brasileira, por Ives Gandra Martins*

Ives Gandra da Silva Martins

Ives Gandra da Silva Martins

 

 Em setembro de 2008, presidi o VIII Congresso Internacional de Direito Tributário, em Recife, coordenado pela eminente professora Mari Elbe. Na palestra inaugural, analisando a crise mundial que explodira naquele mês (em 01/09/08 o dólar estava a R$ 1,61), comentei estar o Presidente Lula equivocado, ao assegurar que o Brasil estaria blindado contra seus efeitos e que a crise era dos países desenvolvidos. Lamentei, mas tive que afirmar aos participantes, entre os quais professores portugueses, espanhóis e latinoamericanos, que a crise atingiria o Brasil, duramente.

Disse-lhes, também, não em conferência, mas nos encontros paralelos, temer que, no momento da chegada da crise em nosso país, o governo sofresse uma recaída socialista. As recentes declarações do Presidente Lula em Belém, contrastando com as de Putin, em Davos, parecem demonstrar que algumas autoridades federais estão revisitando as teses esquerdistas por elas preconizadas, no Fórum de São Paulo, muitos anos atrás.

O período eleitoral que se aproxima leva o governo a uma encruzilhada. Enquanto havia um “boom” econômico mundial, como ocorreu de 2003 a 2008, graças a expansão desmedida do mercado consumidor, o Brasil aproveitou a maré alta e navegou em águas tranqüilas, com o governo se atribuindo os méritos deste crescimento. A postura natural seria, agora, compreender que em período de maré baixa dever-se-ia começar, como os demais governos, a buscar soluções, como preconizam as autoridades econômicas, destinadas a recuperar o mercado, que, no Brasil, teve o agravamento de um inchaço desmensurado da máquina estatal.

 

No entanto, o caminho adotado parece ser aquele de atribuir aos outros culpas que são do governo e transformar a crise em trampolim para um discurso semelhante ao de seus amigos e vizinhos (Chávez, Morales e Corrêa), que aprovaram, recentemente, Constituições em que existe um só poder (Executivo) , pois os outros dois são poderes acólitos e homologatórios dos atos presidenciais (Judiciário e Legislativo).

Se o Presidente Lula persistir no discurso do Fórum Social de Belém correrá o risco de dificultar a recuperação da economia, o que, na melhor das hipóteses, apenas será possível no ano de 2010, além de afastar investimentos e parceiros importantes do setor privado, que ficariam em atitude reticente, aguardando sinalizações menos preocupantes.

 

É de se lembrar que a própria posição assumida no caso Battisti, criando um desnecessário litígio com a Itália, desqualificando as justiças italiana e européia, sobre albergar condenado por quatro assassinatos, demonstrou insensibilidade –e o presidente, curiosamente, tem tido sensibilidade em muitas posturas políticas-, pois, de certa forma, sinaliza que o Brasil pode receber terroristas, desde que tenham sido militantes da esquerda. Não percebe o presidente que o terrorismo não se justifica nunca, mas é particularmente injustificável quando praticado em autênticas democracias, como é a Itália. Quando Lula foi eleito, muitos temiam que seu governo se pautaria pelas idéias do Fórum de São Paulo, de que participou, e que propunha soluções políticas radicais, inclusive para a tomada do poder. A moderação política que assumiu, enquanto o País esteve voando ao sabor do céu azul do crescimento mundial, afastou os temores de um governo radical, nada obstante a sua simpatia pelo ditador Fidel Castro, que se notabilizou pelos fuzilamentos, em paredões, de pessoas às quais não foi dado o direito de defesa, quando assumiu o poder em Cuba.

 

Chegada a tormenta, todavia, teme-se que haja uma recaída presidencial pelas teses fracassadas até hoje no mundo inteiro, pois as crises da economia de mercado são cíclicas e as crises das economias socialistas, permanentes. Tanto é verdade que a China só ganhou o “status” atual, depois que deixou a economia socialista e aderiu à economia de mercado. Os próximos meses mostrarão que alternativa seguirá o presidente. A de buscar equacionar os problemas, como os outros países estão fazendo, corrigindo os erros apontados pela crise; ou atribuí-los a terceiros, procurando bodes expiatórios fora do governo, o que atrasará a recuperação do país, embora possa obter dividendos eleitorais e, apostando no quanto pior melhor, tentar implantar o sonho político acalentado no passado…

 

Felizmente, a equipe econômica tem atuado em consonância com a luta dos outros países para recuperar o mercado. Vamos aguardar o comportamento presidencial.

 

*Ives Gandra da Silva Martins é advogado, professor universitário e escritor, tendo uma vasta obra publicada sobre temas jurídicos e literários. Pertence à Academia Paulista de Letras, da qual foi presidente.

MARIA TERESA HORTA REÚNE 18 LIVROS DE POESIA

Abril 25, 2009

Letras Portuguesas 

 

Maria Teresa Horta

Maria Teresa Horta

 

Nascida em 1937 em Lisboa, é uma das mais notáveis escritoras portuguesas, destacando-se entre Poetas e Ficcionistas, além de ser jornalista de reconhecida competência. E foi uma das “Três Marias”, co-autora das discutidas Novas Cartas Portuguesas, livro publicado em 1972, juntamente com Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa. 

 

Co-autora das "Novas Cartas Portuguesas", 1972, juntamente com Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa.

Co-autora das "Novas Cartas Portuguesas", 1972, juntamente com Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa.

 

A obra foi nitidamente inspirada no clássico Cartas Portuguesas, de Mariana Alcoforado (1640-1723), a freira inconformada com o abandono do seu amado, Noell Bouton Chamilly. Mas se a versão original, atribuída a Sóror Mariana, provocou grandes polémicas literárias, o livro das “Três Marias” do nosso tempo foi além do protesto da condição feminina, pois levou ao tribunal da ditadura fascista as 3 inconformistas que reivindicaram direitos sexuais e políticos iguais de mulheres e homens. As 3 ficaram ainda mais famosas do que já eram.

 

O primeiro  livro de poesia  de Maria Teresa Horta foi Espelho Inicial (1960),

seguindo-se Cidades Submersas (1961), Verão Coincidente (1962), Amor Habitado (1963), Candelabro (1964), Jardim de Inverno (1966), Cronista Não É Recado (1967), Minha Senhora de Mim  (1971), Educação Sentimental (1976), Mulheres de Abril (1977),  Poesia Completa (1960-1966), Poesia Completa-II (1967-1982),  que foi publicado em 1983), Os Anjos (1983), Minha Mãe Meu Amor (1994), Rosa Sangrenta (1987), Antologia Poética (1994), Destino (1997) e Só de Amor (1999). E, entre os 18 livros da Poesia Reunida  figura também Feiticeiras,  volume inédito (datado de 2006). 

 

É igualmente autora de 4 livros de ficção e de 1 peça teatral, além de ser co-autora do Cancioneiro da Esperança (1971) com José Carlos Ary dos Santos. Escritora que navega em  águas de verso e prosa,Maria Teresa Horta assim se definiu, no   recente encontro das “Correntes de Escrita”, na Póvoa de Varzim:

 

             “A literatura é o meu sentido primeiro das coisas.

            “Entre aquilo que leio e aquilo que escrevo.

            ‘correnteza de rio indo pelo caminho das pedras, até ao lugar onde as águas se misturam, se confundem, se fusionam, e só depois se separam, se alargam- alagam e

nos contaminam…

            “Com a matéria última do sonho.”

 

Reedição das Obras Completas de Lygia Fagundes Telles

Abril 25, 2009

 

 

Lygia Fagundes Telles

Lygia Fagundes Telles

A Obra

 

O universo narrativo de Lygia Fagundes Telles trouxe grande novidade à literatura brasileira quando a autora começou a publicar seus contos, ainda muito jovem, nas décadas de 1930 e 1940. Desde então, Lygia vem investigando os recantos da alma humana, em sondagem psicológica permanente. Seus personagens, em particular os femininos, são misteriosos e complexos, marcados pela reflexão incessante e pela fragilidade, mas também pela inquietação e pela mudança. Ignorando as classificações mais corriqueiras, sua obra realiza uma síntese entre o registro realista e a dimensão psicológica, diluindo as fronteiras entre crônica social e imaginação fabuladora. Sua literatura é reconhecida pelas personagens arrojadas, pelo tratamento dramático e, às vezes, onírico dos conflitos pessoais e pelo retrato dos costumes brasileiros.

 

A obra de Lygia foi escrita em um arco de tempo longo, que começa muito cedo em sua vida, alcança maturidade na década de 1950 e avança, com regularidade de publicação e qualidade literária, ao longo das décadas seguintes. Com isso, a autora construiu uma das obras mais singulares da literatura brasileira do século XX. Suas criações alcançaram grande densidade literária e, simultaneamente, enorme capacidade comunicativa, conquistando leitores jovens e maduros.

 

Refinada e sensual, é uma escrita que alia cuidado de elaboração e grande economia narrativa: a estrutura formal prima pelo controle e pela fluência, arrebatando o leitor até a última linha. Sua obra a insere entre os grandes escritores da mesma geração, como Erico Veríssimo, Clarice Lispector, Rachel de Queiroz, Rubem Fonseca e Adélia Prado.

 

Lygia alcançou resultados notáveis nos três principais gêneros em que produziu: o romance, o conto e o texto memorialístico. Os romances formam um conjunto coeso, que vai tornando mais evidentes as transformações históricas e sociais brasileiras, ao mesmo tempo em que se tornaram mais formalmente complexos com o passar do tempo.

 

É nos contos, porém, que sobressai a capacidade fulminante de arrebatamento e surpresa da escrita de Lygia Fagundes Telles. Muitos deles contam com finais abertos ou inconclusos. Como escreveu José Paulo Paes, suas peças de ficção não se esgotam no nível do enredo. Ao contrário, disse o crítico, “o interesse persiste mesmo depois de terminada a leitura, quando ficamos a matutar no esquivo significado das figurações que enriquecem a semântica do não-dito ou do quase-dito”.

 

A memória e a escrita imaginativa são a fonte de alguns dos melhores textos de Lygia: os relatos memorialísticos, sempre com um pé na ficção, num lusco-fusco literário que faz suas obras de caráter biográfico alçarem voo, tornando-se peças inclassificáveis, que passeiam entre o poético e o filosófico. Nesses textos, Lygia explora o espaço intermediário entre a experiência pessoal concreta e a imaginação que reanima o tempo passado, tornando-o presente mais uma vez.

 

A autora

 

Lygia Fagundes Telles nasceu em São Paulo e passou a infância no interior do Estado. Voltando a residir com a família na capital, a escritora fez o curso fundamental na Escola Caetano de Campos e em seguida ingressou na Faculdade de Direito do Largo São Francisco da Universidade de São Paulo, onde se formou. Quando estudante do pré-jurídico cursou a Escola Superior de Educação Física da mesma universidade.

 

Ainda na adolescência manifestou-se sua vocação para a literatura. Contudo, mais tarde a escritora viria a rejeitar seus primeiros livros porque em sua opinião “a pouca idade não justifica o nascimento de textos prematuros, que deveriam continuar no limbo”.

 

Ciranda de Pedra (1954) é considerado por Antonio Candido a obra em que a autora alcança a maturidade literária. Lygia Fagundes Telles também considera esse romance o marco inicial de suas obras completas. No mesmo ano, fruto de seu primeiro casamento, nasceu Goffredo da Silva Telles Neto, que lhe deu as duas netas: Lúcia e Margarida. Seu segundo romance, Verão no Aquário (1963), saiu no mesmo ano em que, já divorciada, casou-se com o crítico de cinema Paulo Emílio Sales Gomes.

 

A década de 1970 foi de intensa atividade literária e marcou o início de sua consagração. Publicou, então, alguns de seus livros mais importantes: Antes do Baile Verde (1970), As Meninas (1973), Seminário dos Ratos (1977) e Filhos Pródigos (1978), que seria republicado com o título de um de seus contos, A Estrutura da Bolha de Sabão (1991). Em 1980, escreveu A Disciplina do Amor. Os textos curtos e impactantes passaram a se suceder na década de 1990 e 2000, quando então são publicados A Noite Escura e Mais Eu (1995), Invenção e Memória (2000) e Durante Aquele Estranho Chá (2002). Conspiração de Nuvens (2007), que mistura ficção e memória, é seu mais recente livro.

 

Lygia Fagundes Telles conduziu sua trajetória literária trabalhando como Procuradora do Instituto de Previdência do Estado de São Paulo, cargo que exerceu até a aposentadoria. Foi ainda presidente da Cinemateca Brasileira, fundada por Paulo Emílio Sales Gomes.

 

Vivendo a realidade de uma escritora do terceiro mundo, Lygia considera sua obra de natureza engajada, comprometida com a difícil condição do ser humano. Mas, ao mesmo tempo, procura apresentar com a palavra escrita a realidade envolta na sedução do imaginário e da fantasia.

 

Desde 1987, Lygia Fagundes Telles é membro da Academia Brasileira de Letras. A autora recebeu alguns dos principais prêmios da literatura brasileira, dentre os quais se destacam o Jabuti (cinco vezes) e o APCA (quatro vezes). Foi agraciada também com o prêmio Guimarães Rosa (1972) e, por seu conto “Antes do Baile Verde”, com o Grande Prêmio Internacional Feminino (1969), na França. A consagração definitiva viria com o Prêmio Camões (2005), distinção maior em língua portuguesa pelo conjunto da obra.

 

Este artigo foi inicialmente publicado
 no Jornal da Companhia das Letras, São Paulo, Abril de 2009.

O Brasil Nasceu Há 409 Anos

Abril 20, 2009

Em porto seguro, 22 de Abril de 1500.

montagem

A Carta de Pero Vaz de Caminha

Abril 20, 2009
Ilustração da primeira e última páginas manuscritas

Ilustração da primeira e última páginas manuscritas

Versão completa da carta para download, clique aqui.

Carta do Mestre Físico João ao Rei D. Manuel I de Portugal

Abril 20, 2009

Versão em linguagem actual de Prof. Luciano Pereira da Silva.

“Senhor: O bacharel mestre João, físico e cirurgião de Vossa Alteza, beijo vossas reais mãos. Senhor: porque, de tudo o cá passado, largamente escreveram a Vossa Alteza, assim Aires Correia como todos os outros, somente escreverei sobre dois pontos. Senhor: ontem, segunda-feira, que foram 27 de abril, descemos em terra, eu e o piloto do capitão-mor e o piloto de Sancho de Tovar; tomamos a altura do sol ao meio-dia e achamos 56 graus, e a sombra era setentrional, pelo que, segundo as regras do astrolábio, julgamos estar afastados da equinocial por 17°, e ter por conseguinte a altura do pólo antártico em 17°, segundo é manifesto na esfera. E isto é quanto a um dos pontos, pelo que saberá Vossa Alteza que todos os pilotos vão tanto adiante de mim, que Pero Escolar vai adiante 150 léguas, e outros mais, e outros menos, mas quem diz a verdade não se pode certificar até que em boa hora cheguemos ao cabo de Boa Esperança e ali saberemos quem vai mais certo, se eles com a carta, ou eu com a carta e o astrolábio. Quanto, Senhor, ao sítio desta terra, mande Vossa Alteza trazer um mapa-múndi que tem Pero Vaz Bisagudo e por aí poderá ver Vossa Alteza o sítio desta terra; mas aquele mapa-múndi não certifica se esta terra é habitada ou não; é mapa dos antigos e ali achará Vossa Alteza escrita também a Mina. Ontem quase entendemos por acenos que esta era ilha, e que eram quatro, e que doutra ilha vêm aqui almadias a pelejar com eles e os levam cativos. Quanto, Senhor, ao outro ponto, saberá Vossa Alteza que, acerca das estrelas, eu tenho trabalhado o que tenho podido, mas não muito, por causa de uma perna que tenho muito mal, que de uma coçadura se me fez uma chaga maior que a palma da mão; e também por causa de este navio ser muito pequeno e estar muito carregado, que não há lugar para coisa nenhuma. Somente mando a Vossa Alteza como estão situadas as estrelas do (sul), mas em que grau está cada uma não o pude saber, antes me parece ser impossível, no mar, tomar-se altura de nenhuma estrela, porque eu trabalhei muito nisso e, por pouco que o navio balance, se erram quatro ou cinco graus, de modo que se não pode fazer, senão em terra. E quase outro tanto digo das tábuas da Índia, que se não podem tomar com elas senão com muitíssimo trabalho, que, se Vossa Alteza soubesse como desconcertavam todos nas polegadas, riria disto mais que do astrolábio; porque desde Lisboa até às Canárias desconcertavam uns dos outros em muitas polegadas, que uns diziam, mais que outros, três e quatro polegadas, e outro tanto desde as Canárias até às ilhas de Cabo Verde, e isto, tendo todos cuidados que o tomar fosse a uma mesma hora; de modo que mais julgavam quantas polegadas eram, pela quantidade do caminho que lhes parecia terem andado, que não o caminho pelas polegadas. Tornando, Senhor, ao propósito, estas Guardas nunca se escondem, antes sempre andam ao derredor sobre o horizonte, e ainda estou em dúvida que não sei qual de aquelas duas mais baixas seja o pólo antártico; e estas estrelas, principalmente as da Cruz, são grandes quase como as do Carro; e a estrela do pólo antártico, ou Sul, é pequena como a da Norte e muito clara, e a estrela que está em cima de toda a Cruz é muito pequena. Não quero alargar mais, para não importunar a Vossa Alteza, salvo que fico rogando a Nosso Senhor Jesus Cristo que a vida e estado de Vossa Alteza acrescente como Vossa Alteza deseja. Feita em Vera Cruz no primeiro de maio de 1500. Para o mar, melhor é dirigir-se pela altura do sol, que não por nenhuma estrela; e melhor com astrolábio, que não com quadrante nem com outro nenhum instrumento. Do criado de Vossa Alteza e vosso leal servidor.

Johannes

artium et medicine bachalarius”

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Camões e a História da Província de Santa Cruz

Abril 20, 2009
Retrato de Camões

Retrato de Camões

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