Arquivo de Março 2011

GUILHERME, O INICIADO

Março 17, 2011

Por Paulo Bomfim

Evocar Guilherme de Almeida no 40º aniversário de sua morte é algo que me deixa fascinado.

O amigo está de tal modo presente nos diálogos de meu caminho, tão moço entre os que participaram da revolução estética de 22 e da guerra santa de 32 que falar dele em termos do novo século, torna-se exercício de esperança.

Pergunto-me qual a mais antiga lembrança que possuo a seu respeito?

Mergulho no tempo e volto à casa de meus avós na Rua Rego Freitas, 59, esquina da Epitácio Pessoa, onde morava Antônio Cândido Camargo, cirurgião notável e personagem do romance “Madame Pommery”.

Nos dias que antecederam o 9 de Julho, os irmãos Guilherme e Tácito, Aureliano Leite, Carlos Moraes de Andrade, irmão de Mário e Ibrahim Nobre faziam do solar de meus avós centro de pregação revolucionária.

Depois, recordo todos cantando a Marcha do Soldado Paulista, com letra de Guilherme de Almeida e música de Marcelo Tupinambá.

Passados mais de dez anos, vou com Guilherme e Baby ao Atelier Bar, na Avenida Ipiranga, para cantar com eles em primeira audição, a Canção do Expedicionário, acompanhados ao piano por Paulinho Gontijo de Carvalho, o lendário “Polera” das madrugadas.

Em 1945 levo ao Poeta de São Paulo, os originais do “Antonio Triste” que sairia em 47 com seu prefácio consagrador e ilustrações de Tarsila.

Guilherme foi o companheiro paciente e sábio de minha adolescência extravagante.

Em sua casa, primeiro na Pamplona e depois na Macapá, convivi com Roberto Simonsen, Di Cavalcanti, René Thiollier, Batista Pereira e Tarsila do Amaral.

Noitadas inesquecíveis onde ouvíamos o anfitrião dicorrer sobre os mais diversos assuntos que iam da Grécia clássica à cibernética, da poesia provençal à botânica e à história, do ocultismo à heráldica e ao cinema.

Guilherme foi mestre de poesia. Ele e Manuel Bandeira conheciam o ofício como ninguém.

Num dia em que disse a ele que ritmo é a respiração do pensamento, ouvi a mais profunda lição sobre o sentido mântrico da rima, desencadeadora de processos mágicos que faziam o homem e seus chacras entrarem em comunhão com o corpo vivo do universo.

Na poética do autor de “Nós” há lugar para uma cosmogonia vária, leque de rumos que surpreende e fascina.

Em suas mãos de demiurgo o verso é criatura fecundante, processo transmutável e encantatório, ouro espiritual que vai agir na sensibilidade do leitor.

Foi um homem raro, nascido da cultura e da velha cepa de guerreiros e navegadores que gravaram no livro de linhagens o brasão dos Almeidas e Andrades maternos, descendentes dos velhos Camargos bandeirantes.

Sua poética surge das ondas de um mar português e é embalado pelo Acalanto de Bartira.

Entre cantares de amigo e sonetos dos mais belos do idioma, entre Canções Gregas e evocações da Raça, o peregrino do encanto atravessa a vida em sua via de romeiro de Compostela.

Lírico e épico, participante e metafísico, o cavaleiro andante luta por sua terra e por sua dama.

O mês das neblinas é a síntese numinosa da existência do cantor de nossas glórias. Nele nasceu e nele viveu apaixonadamente o 9 de Julho.

Na saga de sua existência, o voluntário de 32 coloca o fuzil e a pena a serviço de uma causa.

Em sua panóplia, a língua portuguesa brilha um brilho antigo e renovado.

Quando em 1962 levei Jorge Mautner à sua casa, o encontro produziu tamanha impressão no jovem escritor que exclamou, ao despedir-se:

– Mas esse homem é um bruxo!

Sim, Guilherme era um Iniciado e a Poesia sua Ciência Sagrada!

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Brasil: A DIVULGAÇÃO DA CULTURA PORTUGUESA ATRAVÉS DAS ASS0CIAÇÕES LUSO-BRASILEIRAS

Março 17, 2011

João Alves das Neves (*)

Com cerca de 170 agremiações espalhadas por todo o vastíssimo território brasileiro, o papel que têm cumprido na divulgação da Cultura Portuguesa ainda não foi devidamente avaliado pelos especialistas nem tão pouco pelos governantes dos dois paises que costumam atravessar o Atlântico  mais pela devoção turística do que ao serviço dos reais interesses  de Portugal e Brasil.

As associações lusobrasileiras, cujo pioneirismo foi inaugurado pelo Real Gabinete Português de Leitura, em 1837, no Rio de Janeiro, têm feito mais pela Cultura Portuguesa do que todos os políticos seja ele qual ele for. Num passado já remoto, lembramos dois estadistas portugueses que tentaram estimular a aproximação de Portugal e Brasil – o Rei D.Carlos, que preparava a sua visita quando foi barbaramente assassinado, juntamente com o filho mais velho, e o Presidente da República, António José de Almeida, que em 1922 veio participar das comemorações do centenário da independência. E os outros reis e presidentes que fizeram – e neste capítulo incluímos os dirigentes dos dois lados, perguntamos o que é que eles fizeram para que portugueses e brasileiros possam unir-se na construção de um futuro comum. Que responda quem souber!

Às associações de espírito lusíada no Brasil já devemos bastante assim como ressaltamos alguns intelectuais e artistas lusos, entre os quais apontamos as obras de Hipólito José da Costa, João Lúcio de Azevedo,  Raphael Bordallo Pinheiro e dos contemporâneos Gilberto Freyre, Jaime Cortesão, Pedro Calmon, Ferreira de Castro,  Miguel Torga, Serafim Leite e de tantos outros!

Do ponto de vista associativo, o Clube Português passou a ter, desde 1920, uma posição de relevo, no plano cultural, mas, nos últimos decênios anos, foi dos que mais se ressentiu, em São Paulo, da queda do surto emigratório e apenas na presidência de Rui Mota e Costa a crise econômico-financeira foi debelada. Uma nova fase cultural começou em 2010 com a mesa – redonda, coordenada  pela  escritora Teresa Rita Lopes (da Universidade Nova de Lisboa)  e a   participação de professores e escritores brasileiros e portugueses, em torno de “As idéias políticas de Fernando Pessoa”, desmentindo que o poeta da  Mensagem fosse um mero seguidor do regime fascista. E não o foi, conforme revelaram os documentos do livro Fernando Pessoa, Salazar e o Estado Novo, assim como as conclusões do debate (em 14-7-2010), no Clube Português, nas comemorações, no Brasil, do 75º aniversário da morte de criador dos heterônimos.

Um livro foi lançado – 90 anos do Clube Português, sob a coordenação do Centro de Estudos Luís de Camões (órgão cultural da entidade), e nesse volume de 160 páginas reunimos os principais episódios da história da agremiação luso-paulistana, desde 1920 até hoje.  Foram recolhidos depoimentos daqueles que têm acompanhado a vida associativa e vão continuar a fortalecê-la enquanto puderem.  O volume reúne dezenas de manuscritos e fotografias dos fundadores e colaboradores dos principais acontecimentos, testemunhando o muito que fizeram pela dignificação cultural da Nação Portuguesa no Brasil e da receptividade da acção que tiveram e que ainda cumprem no país irmão. Por fim, vale a pena ressaltar que o espírito lusíada do Clube Português de São Paulo tem como símbolos os dois maiores poetas de Portugal de ontem e de sempre – Luís de Camões e Fernando Pessoa!

Artes Plásticas: EU, O MEU PAI E O PADRE NUNES PEREIRA

Março 17, 2011

Por Nuno Mata (*)

O quase abismo etário afastou-nos do que poderia ser um contacto profícuo. Porque, na essência do nosso trabalho emocional, o desenho e a investigação histórica, teríamos muito que conversar e eu muito que aprender.

Conheci-o na sua casa da Portela, no início dos idos anos noventa, quando ali me desloquei com um amigo em busca de esclarecimentos e informações acerca do Convento de Santo António de Vila Cova de Alva.

Aquela figura frágil e terna recebeu-nos no seu ateliê, como se da sua principal sala se tratasse. Madeira, papeis, instrumentos de trabalho, tudo num caótico amontoado organizado. A íngreme escadaria já lhe custava a subir. E às visitas também, confidenciou-nos. Por isso decidiu-se a riscar no xisto algumas imagens que, posteriormente, fixou nas paredes. “Servem para atenuar do cansaço”, disse. E ali, minuto a minuto, fomos descobrindo um pouco da grandeza do Homem, residente num corpo de baixa estatura e já curvado pelo tempo. Pena que não tivesse, anos antes, apreciado a sua companhia quando o vi pela primeira vez junto à Igreja de S. Bartolomeu, em Coimbra.

O Padre Nunes Pereira faz parte do meu imaginário desde criança. O meu pai habituou-me às suas histórias: como desenhava (e bem) nas aulas de catequese, em guardanapos na hora do almoço, esculpindo a madeira sobretudo motivado pela religião que lhe deu o mister. Embevecido, a cada domingo por ocasião da Eucaristia, apreciava os tectos da Matriz de Coja e, saído dela, os frescos da Casa Paroquial da qual foi o primeiro residente, depois de ter habitado na Casa do Pombal, onde antes, tínhamos em comum a residência na mesma rua de Coja, a que hoje justamente ostenta o seu nome. Em frente daquela casa, passei a infância a ouvir o meu pai, e depois outros, acerca da famosa trempe cojense, da qual Nunes Pereira fazia parte, conjuntamente com o médico Alfredo Rodrigues dos Santos Júnior e o professor José Alves dos Santos. Cativava-se, à época, uma juventude desprovida de televisão, internet e telemóvel.

Naquela casa, hoje desaparecida, respirava-se arte. Embrião dos actuais ATL’s, mas decerto mais humanizada e criativa. E assim nascia uma admiração que, como a sua obra, se prolonga nos anos e insiste em não se deixar levar pelo carcomido das páginas de um livro que se esquece na prateleira dos séculos.

Há quem diga, o que me apraz, que a forma como desenho é idêntica à de Nunes Pereira. O traço, a cor, o minimalismo da linha, a objectividade do plano. Comparo os nossos trabalhos. Eu vejo as diferenças, mas só eu… Contudo, coincidimos no autodidactismo com que riscamos o intocável papel, ou porventura na sensibilidade e na paixão pelas notícias das pedras e das vontades da Beira Serra, ele herdeiro da habilidade de seu pai, eu nem sei muito bem porquê.

Em 1993 iniciei a minha obra monográfica. O meu pai colocou-me nas mãos um pequeno livro: Coja, Princeza do Alva, editado pela Casa do Trabalhador que Nunes Pereira (também) fundou, continuada mais tarde pela Casa do Povo actual. E depressa percebi que se tornaria impossível falar da História desta região sem que se falasse de Nunes Pereira.

O Padre Nunes Pereira deixou um importantíssimo legado que, por hora, apenas os mais interessados valorizam, mas que a História colocará no seu devido posto. Os seus escritos, a sua preocupação na investigação e inventariação do património colectivo é, ainda hoje, o início de qualquer monografia que se preze. E são tantos e tão importantes, cada qual versando o seu tema, a sua terra, as suas gentes, os seus usos e os seus costumes. Daí que qualquer forma de homenagem, de reconhecimento ou de mera lembrança assume uma relevância única.

Também por isso, em conjunto com o Professor João Alves das Neves, ele que é um indefectível apaixonado pela obra do Padre-Artista, decidimos dar corpo a um projecto que traga ao público os artistas da Beira Serra (pintores, desenhadores, …) e nada melhor, no nosso entender, do que começar com um álbum acerca do trabalho do Padre Nunes Pereira, criador transversal a toda a área geográfica destes esquecidos concelhos do interior de Portugal, álbum esse que esperamos possa ser digno do seu legado e cuja saída se prevê para o início do Verão (1).

O Padre Nunes Pereira passou pelas nossas vidas de levezinho, de sorriso sincero e de palavra sossegada. Mas fixou-se na nossa admiração, independentemente da idade. E perdurará, estou certo.

Tal como nos ainda povos primitivos, o principal legado civilizacional passa de pais para filhos, de boca em boca. Eu aprendi com o meu pai a admirar o Padre Nunes Pereira. O tempo fez o resto!

(*) Licenciado em Geografia. Autor de monografias de diversas localidades da Beira Serra e outros escritos.

(1) – A pré-reserva do álbum pode ser feita através do email livros.nunomata@gmail.com ou via CTT, para a morada: Nuno Mata – Rua José Luís Nunes, 3305-151 COJA.

Política Brasileira: A PRESIDENTE E O VICE-PRESIDENTE

Março 17, 2011

Por Ives Gandra da Silva Martins

Tem-me surpreendido a Presidente Dilma, em seu início de Governo. Nela não votei e, quando lutamos contra o regime de exceção, com armas diferentes -acredito sempre mais na arma da palavra-, não estava convencido de que a então guerrilha pretendesse derrubar o Governo para instalar uma democracia. Muitos guerrilheiros foram treinados em Cuba.

Por outro lado, apesar de, no período, ter havido um pedido de confisco de meus bens e abertura de IPM contra mim, não creio que aqueles vinte anos de governo militar foram apenas “anos de chumbo”. O fato de não ser o País uma democracia – contra o que nós Conselheiros da OAB, lutamos – o Brasil evoluiu, economicamente. O Supremo Tribunal Federal, constituído à época de notáveis juristas, nunca se curvou ao Poder Executivo e este nunca pressionou o Pretório Excelso. Como advogado, sempre senti na Máxima Corte tal independência, que só a enaltece aos olhos da história.

É bem verdade que a então guerrilheira é hoje Presidente da República e eu continuo como modesto advogado provinciano, com posições opostas até sua eleição.

O que, todavia, me impressiona positivamente são as linhas que parece estar impondo para “arrumar a casa”, que ficou desorganizada, por conta do período eleitoral. No que diz respeito à política de juros, age corretamente para reduzir o aquecimento do consumo; em relação à política tributária, pretende fazer uma reforma segmentada, tendo como primeira sinalização a redução da tributação sobre a folha de salários; quanto ao salário mínimo, resolveu pagar o ônus da sensatez contra as reivindicações sindicais e manteve os R$ 545,00; na política externa, fez com que o Brasil deixasse de acariciar ditadores e de servir como seu interlocutor nos organismos internacionais, para seguir o decidido pelo concerto das nações; na política cambial enfrenta o “dumping” dos países desenvolvidos ou da China, com coragem, e pretende cortar as despesas de custeio de uma máquina burocrática esclerosada e adiposa. Por fim, tem um perfil de respeito ao cargo que ocupa, apenas se expondo, quando necessário, em suas manifestações.

Como mulher culta, sabe que a dignidade da função exige postura condizente.

Não a conheço pessoalmente, mas minha mulher e eu passamos a respeitá-la mais como presidente do que como candidata.

Por outro lado, seu vice –este é meu amigo e colega de reflexões acadêmicas- é um dos mais qualificados constitucionalistas do país, sendo assim respeitado nos meios jurídicos. A reforma política que defende é aquela que o País necessita. Devem ser eleitos para as Casas parlamentares os mais votados pelo povo e não os dependentes de candidatos chamarizes. A meu ver, os partidos sairiam fortalecidos com a fórmula de Michel, pois deixariam de buscar pessoas famosas para enfileirar candidatos inviáveis, e passariam a buscar para seus quadros pessoas com vocação política e prestígio real. Por outro lado, concentrar todas eleições num ano, impedindo quase meio ano de semi-paralisação para cada pleito, é muito melhor.

Por fim, as indicações técnicas até agora feitas pela Presidente para o Banco Central, Receita Federal, STF e outras áreas do Poder conformam o perfil de burocracia profissionalizada que de há muito o País precisava.

Uma última palavra, sobre o Ministro da Justiça, José Eduardo Cardoso, respeitável professor de Direito Administrativo da PUC de São Paulo, a quem também admiro como colega de magistério e pelo seu perfil ético, que me parece estar desenvolvendo um sério trabalho na estruturação jurídica do governo.

Não votei na Presidente e continuarei a acompanhar seu desempenho, como todos os cidadãos deste País, a quem ela e os demais agentes públicos devem se dedicar e servir. Mas não posso deixar de reconhecer a agradável surpresa que constitui seu início de mandato.

PODER, DEVER E QUERER

Março 17, 2011

Por Maria Beatriz Rocha-Trindade

No senso comum, o conceito de refúgio decorre de um princípio humanista de solidariedade entre o género humano, provendo acolhimento e subsistência àqueles a quem as adversidades da vida colocaram em situação de carência desesperada. Fruto de guerras, de perseguições ou de catástrofes naturais, a condição de refugiado é vizinha da de excluído, sendo esta exclusão traduzida pela impossibilidade de sobreviver no espaço nacional originário.

Implícito no reconhecimento da qualidade de refugiado, por parte de um eventual país de acolhimento, encontra-se o requisito de se tratar de uma situação de desfavorecimento irreversível e que assume carácter óbvio e, na maioria dos casos, colectivo.

A visibilidade internacional de certos acontecimentos, como os que decorrem de situações de guerra civil ou de perseguições sistemáticas de carácter étnico, religioso ou político, fornecem quadros de referência relativamente claros, capazes de mobilizar opiniões públicas, organizações não governamentais de vocação humanitária e as próprias instâncias governativas de determinados países, no sentido de que algo deva ser feito para minorar as situações de verdadeira emergência que, noutro país ou noutra região do globo, possam estar a verificar-se. Esses movimentos de solidariedade têm em geral especiais focos de incidência quando razões de afinidade étnica, proximidade cultural ou de comum história, conduzem à mobilização da consciência colectiva no sentido de se tomar a iniciativa do acolhimento.

Nessas circunstâncias, gera-se uma sintonia entre a opinião pública, o poder do Estado e a aplicação das normas legais, confluindo no propósito de intervir, de forma rápida e expedita, para o acolhimento de determinadas categorias de refugiados. A noção de dever, assumida por toda uma sociedade, faz esquecer burocracias, flexibiliza normas e inventa soluções, coûte qui coûte, para ajudar a resolver uma tal emergência. Têm actuado assim os portugueses em relação aos refugiados de Timor, como o fizeram os judeus americanos em relação aos que escaparam ao Holocausto.

Noutras circunstâncias, a abertura dos Estados tem uma raiz de dominante ideológica, como forma politicamente correcta de defender um ideal ou de pugnar por uma causa justa: a França, por exemplo, desempenhou, durante os anos da ditadura portuguesa ou após a guerra civil espanhola, o papel de um porto de abrigo privilegiado para os exilados políticos destes países que aí se refugiaram.

Outras situações são mais directamente determinadas por formas mais puras de solidariedade, tal como acontece em movimentos destinados a promover o refúgio e a adopção de crianças ou órfãos de guerra.

São aliás estes contextos, tanto mais cruéis e sangrentos quanto mais próximas se encontram as facções envolvidas, os grandes geradores de correntes maciças de refugiados que fogem dos seus países, fosse porque estariam em risco de vida se tivessem permanecido, seja porque a miséria absoluta os tocou colectivamente. Em geral, o refúgio é principalmente concedido por países vizinhos, na condição de as dimensões do êxodo serem compatíveis com a capacidade de acolhimento local, pelo menos a título temporário.

Quando, porém, se trata de populações de grande volume, o refúgio pode pôr problemas logísticos insuportáveis, tanto mais que a própria dimensão dos refugiados torna indesejável (do ponto de vista da sociedade local) uma integração diluída no tecido social de acolhimento. Como consequência disso, criam-se gigantescos campos de refugiados, com o inconveniente suplementar da sua conotação concentracionária, implicando restrições à liberdade de circulação e a condenação à situação terrível de ociosidade forçada, não muito diferentes afinal de um ambiente penitenciário clássico.

Quando tal seja possível, em termos de delonga temporal, a colocação de pequenos contingentes desses refugiados pode ser negociada com um maior conjunto de países, identificados como disponíveis para essa contribuição solidária. Muitos outros Governos, no entanto, farão saber que não podem ou não querem participar nesse esforço, por razões de encargo económico, por razões políticas, sociais ou outras. A situação agrava-se quando, no caso de guerras prolongadas, não cessam as razões que determinaram a procura de refúgio. Mesmo as sociedades mais abertas e os governos mais tolerantes tendem a atingir uma situação de saturação de boas-vontades, a partir da qual as fronteiras se fecham definitivamente.

Não se trata aqui de não poder, mas já de não querer.

Constituindo a situação de refugiado e o seu reconhecimento um processo nitidamente excepcional e absolutamente casuístico, que passa através, ou à margem, das disposições (em geral restritivas) que em cada país regulamentam a entrada de imigrantes genéricos, não é de estranhar que se procure tirar partido ilegítimo das disposições relativas ao acolhimento de refugiados. Pessoas com a caracterização social típica dos imigrantes económicos, ao avaliarem como nulas as probabilidades de lhes ser facultado ingresso num dado país, fabricam um perfil de refugiado na tentativa de por essa via ultrapassarem o bloqueio normativo.

Um dos exemplos clássicos deste fenómeno foi o nascimento súbito de supostas condições de perseguição religiosa de que seriam vítimas pessoas constituindo um colectivo de portugueses, supostamente membros de uma dada confissão e que pretendiam acesso ao Canadá à margem das disposições legais sobre imigração naquele país. Descoberto o embuste, dele decorreu a consequência muito indesejável para as interacções entre Portugal e o Canadá, com a adopção do visto obrigatório para os passaportes portugueses.

Para os potenciais países de acolhimento, existe um grande desequilíbrio entre o número anual de solicitações de asilo e o número daqueles que acabam por ser efectivamente autorizados; por outro lado, o processo é sempre moroso, quando não desesperadamente lento. Um e outro facto actuam como dissuasores no sentido de não encorajar ou tornar triviais, situações que deveriam ser intrinsecamente excepcionais.

Em qualquer caso, a concessão do direito de asilo, se bem que recomendada internacionalmente e a nível da maioria das Constituições nacionais, pode originar um conflito entre dada decisão governamental e a opinião pública que dela é julgadora. Num caso, quando é grande a proximidade afectiva entre a sociedade de acolhimento e o grupo de candidatos ao refúgio, qualquer relutância ou demora de decisão será certamente mal compreendida mesmo que haja razões tão fortes e pragmáticas como o volume de encargos suplementares a assumir pelo Estado ou a fragilidade das razões que determinaram o pedido.

No pólo oposto, uma decisão fundada e totalmente legítima do Estado em favor da concessão do asilo a grupos sem proximidade cultural como o nosso, pode ser incompreendida pela opinião pública, ao confrontar os encargos assim assumidos com o argumento simplista do porquê para os outros e não para nós?.

É neste equilíbrio delicado entre o juízo normativo do dever, o poder ou não suportar o ónus material de uma decisão e, finalmente, a expressão de uma vontade política, traduzida no querer, que se jogam, em síntese, todos os problemas do refúgio.

In Memorian: DÁRIO MOREIRA DE CASTRO ALVES, DIPLOMATA E ESCRITOR

Março 17, 2011

por Adelto Gonçalves (*)

I

O embaixador Dário Moreira de Castro Alves (1927-2010) esteve nove anos a braços com uma tarefa de proporções ciclópicas: traduzir para o português o romance em versos Eugênio Onegin, obra-prima do poeta russo Alexander Pushkin (1799-1837), precursor de Dostoievski (1821-1881) e Tolstoi (1828-1910). O livro acaba de ser publicado (Rio de Janeiro, Editora Record, 2010, 288 págs., R$ 47,90), mas o embaixador não poderá fazer o lançamento que imaginava organizar nos jardins da Embaixada do Brasil ou no Palácio Galveias em Lisboa. O embaixador faleceu dia 6 de junho em Fortaleza.

Ainda bem que a Academia de Literatura Russa agiu com rapidez e já lhe havia reconhecido o trabalho com uma condecoração. Também o embaixador de Portugal no Brasil, Francisco Seixas da Costa, com a parceria do Instituto Rio Branco, fez-lhe, em janeiro de 2009, uma homenagem na sede da Embaixada de Portugal em Brasília.

Natural de Fortaleza, o embaixador Dário cumpriu duas brilhantes trajetórias: na diplomacia e na literatura. Em 1984, publicou Era Lisboa e Chovia (Rio de Janeiro, Nórdica) sucedido por Era Tormes e Amanhecia (Rio de Janeiro, Nórdica, 1992) e Era Porto e Entardecia (Rio de Janeiro, Nórdica, 1995), trilogia que constitui um mergulho profundo no universo de Eça de Queiroz (1845-1900).  É também autor de Dinah, Caríssima Dinah (São Paulo, Horizonte Editora, 1989), livro em que homenageou a esposa, Dinah da Silveira de Queiroz (1911-1982), romancista, cronista e contista que integrou a Academia Brasileira de Letras, com quem foi casado de 1962 a 1982. Seu último livro foi Luso-Brasilidades nos 500 Anos (Universidade Federal do Ceará, 1999), que reuniu artigos e palestras.

II

Filho de uma família de grandes comerciantes e industriais, ele preferiu seguir sua vocação e continuar os estudos no Rio de Janeiro, onde se formou em Direito, pela Pontifícia Universidade Católica (PUC). Seguiu, então, para o Instituto Rio Branco, preparando-se para a carreira diplomática. Tornou-se poliglota. Aos 22 anos, após um estágio na Organização das Nações Unidas (ONU), foi nomeado terceiro-secretário. Em 1954, passou a cônsul de segunda classe, trabalhando em Buenos Aires até 1958. Em Nova York, foi segundo secretário da ONU, entre 1958 e 1960.

De 1962 a 1964 foi primeiro-secretário na Embaixada do Brasil em Moscou, onde teve despertada a sua paixão pela literatura russa, e de 1965 a 1967, cônsul em Roma e, em 1971, primeiro secretário. Após 27 anos de trabalho, chegou, em 1979, ao cargo de embaixador, representando o Brasil em Lisboa até 1983. Já havia sido chefe de gabinete do ministro das Relações Exteriores e secretário-geral e ministro-interino das Relações Exteriores. De 1983 a 1989, foi embaixador na Organização dos Estados Americanos (OEA), em Washington. Foi ainda cônsul-geral do Brasil no Porto até 1990, quando se aposentou com categoria de embaixador.

Em vez de retornar ao Brasil, preferiu fixar residência em Lisboa, num apartamento no Campo Grande, a 100 metros da Biblioteca Nacional, até onde se deslocava quando necessitava apurar alguma informação. Por isso, sempre foi tratado por todos os diplomatas que o sucederam no cargo em Lisboa como uma espécie de embaixador-honorário do Brasil. Era freqüentemente convidado a dar palestras em instituições portuguesas, como a Academia das Ciências de Lisboa. Foi eleito membro da Academia Portuguesa da História. E era presidente do Conselho de Curadores da Fundação Luso-Brasileira.

III

Aos pesquisadores e estudantes brasileiros em Portugal sempre foi um porto seguro, ajudando-os com indicações e informações preciosas. Em 1998, o ex-embaixador do Brasil em Portugal, José Aparecido de Oliveira (1929-2007), por moto próprio, ofereceu-lhe o livro Fernando Pessoa: a Voz de Deus (Santos, Universidade Santa Cecília, 1997), deste articulista. Como à época escrevia o prefácio para o livro Fernando Pessoa: o Antidemocrata Pagão, de Ruy Miguel (Lisboa, Nova Arrancada, 1999), Dário citou  Fernando Pessoa: a Voz de Deus para lembrar que o poeta não havia sido fascista, mas defensor de uma monarquia ideal baseada na opinião pública.

Foi o que bastou para interessar a editora portuguesa por algum trabalho deste articulista. Assim, em 1999, saía pela Nova Arrancada, de Lisboa, o romance Barcelona Brasileira, com prefácio de Dário Moreira de Castro Alves. Escrito em 1983, o livro, que trata da agitação anarquista no Porto de Santos entre 1917 e 1922, só sairia no Brasil em 2002 pela Publisher Brasil, de São Paulo, com a apresentação de Dário Moreira de Castro Alves e prefácio do professor Massaud Moisés, da Universidade de São Paulo.

Por indicação ainda do embaixador Dário Moreira de Castro Alves, este articulista escreveu prefácios para dois livros de contos de Machado de Assis organizados pelo professor Vadim Kopyl e publicados, em 2006 e 2007, pelo Centro Lusófono Camões da Universidade Estatal Pedagógica Hertzen, de São Petersburgo, Rússia, em edição bilíngüe russo-portuguesa, com o apoio do Ministério das Relações Exteriores do Brasil.

IV

Embora extremamente afável, Dário Moreira de Castro, à primeira vista, parecia bastante formal – pedia a quem o visitasse em sua residência que assinasse o “livro de honra” e às mulheres sempre fazia um salamaleque em que apenas fingia que beijava a mão da dama –, mas, depois de alguns minutos de conversa, deixava de lado as exigências diplomáticas para uma conversa bastante descontraída em que gostava de lembrar seus primeiros tempos de Fortaleza. Mas o que o fazia falar por horas com mansuetude na voz era mesmo a Lisboa de Eça de Queiroz.

Andar ao seu lado num automóvel pelas ruas lisboetas era redescobrir a urbe queirosiana e resgatar os passos de suas personagens: “Ali naquele prédio da esquina da Rua Áurea com o Rossio ficava o consultório de Carlos Eduardo” (personagem de Os Maias), apontava. Ou: “Esta é a correnteza de casas velhas a que se refere Eça em O Primo Basílio”, dizia, mostrando o Largo de Santa Bárbara, nos Arroios.

Às vezes, dizia para seu motorista particular desviar o caminho só para passar por uma ladeira íngreme de um bairro bem degradado da velha Lisboa: “Aqui o Xavier foi viver com a espanhola Carmen, num casebre da Rua da Fé”, dizia, referindo-se a personagens de A Relíquia. Todos esses logradouros estão retratados em Era Lisboa e Chovia em fotos de seu amigo A.Campos Matos, arquiteto e notável queirosiano.

O que o fazia perder um pouco a fleuma britânico-cearense era a velha discussão sobre a morada de onde Eça de Queiroz tirara a inspiração para criar O Ramalhete, casa em que a família Maia (Afonso e o neto Carlos Eduardo) passou a habitar no outono de 1875. Para o embaixador, Eça teria se inspirado na casa do Conde de Sabugosa, um dos vencidos da vida, que fica em Santo Amaro, perto da Junqueira, na Rua Primeiro de Maio, 120-124, a meio caminho entre Alcântara e Belém, e não no bairro das Janelas Verdes, como muitos estudiosos diziam. Seguia o que afirma A.Campos Matos em Imagens do Portugal Queirosiano (Lisboa,1976).

Os passeios sempre terminavam com um almoço ou jantar num dos restaurantes preferidos de Eça de Queiroz, nas proximidades do Chiado. O cardápio tinha de acompanhar rigorosamente a gastronomia queirosiana regada sempre por bons vinhos e outras bebidas, seguindo o que escrevera em Era Porto e Entardecia, que traz uma lista de todas as bebidas mencionadas por Eça, do absinto à zurrapa, e em Era Tormes e Amanhecia, que constitui um completo dicionário gastronômico cultural, com o nascimento literário de Eça de Queiroz na região do rio Douro. Sem contar o privilégio de se apreciar a bebida ouvindo a história de sua origem, pois Dário Moreira de Castro Alves também é autor de O Vinho do Porto na Obra de Eça de Queiroz (Sintra, Colares Editora, 2001).

V

Em 2003, já vivendo o inverno da vida, viúvo pela segunda vez, depois da morte de Rina Bonadies de Castro Alves, o embaixador decidiu voltar para Fortaleza, para um apartamento na Praia do Meireles, defronte para as águas verdes do Atlântico. De lá, porém, continuou a sua missão de construir pontes de entendimento entre o Brasil e o mundo, especialmente com Portugal e a Rússia. Era presença constante como articulista nas seções culturais dos diários e dos jornais literários, sempre em defesa da lusofonia, o que o levou a se colocar em 1993 ao lado do embaixador José Aparecido de Oliveira na luta pela criação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Brasil, Portugal e Rússia talvez não saibam, mas perderam um grande pontífice.

(*) Adelto Gonçalves é Prof. de Literatura Portuguesa, o autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003).


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