Arquivo de Novembro 2009

Os dois principais Focos do Instituto Histórico de São Paulo

Novembro 25, 2009
Cultura Luso-Brasileira

Fundado em 1894,  o Instituto Histórico e Geográfico é uma das principais instituições culturais Bandeirantes, cujas atividades destacam  a promoção  do patrimônio  histórico, artístico, cultural e urbano-ambientais, assim como a preservação de tradições,  valores cívicos e morais da Cidade e do Estado de São Paulo. 

            Desde os últimos anos do século XIX até hoje, a ação do Instituto é cumprida através de congressos,  cursos, seminários, conferências, exposições e outros eventos ligados ao estudo da História e da Geografia, incluindo naturalmente a Literatura. além de distinguir os pesquisadores e autores que  têm contribuído para o desenvolvimento científico e técnico do Brasil e de Portugal.

             Inúmeros intelectuais portugueses têm dado a sua contribuição ao Instituto e foram ou estão ligados às manifestações históricas e culturais da entidade (o subscritor desta nota breve,  por exemplo, é sócio honorário do  IHGSP e o seu patrono  é o escritor João de Barros, que fundou e dirigiu com João do Rio a revista Atlântida, cujo espírito foi a aproximação de Portugal e Brasil).  Quer dizer, o contato dos intelectuais portugueses com o Instituto  merece  ser cada vez mais freqüente.

            Preside  ao Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo a historiadora  Nelly Martins Ferreira Candeias, professora da Universidade de São Paulo e defensora dos valores culturais luso-brasileiras, pois, além das suas raízes portuguesas,  é casada com o professor José Alberto Neves Candeias, que nasceu em Portugal e é também professor titular do Instituto de Ciências Biomédicas da USP. Formada em Ciências Sociais, a professora Nelly Candeias fez cursos complementares nos Estados Unidos e na Inglaterra, tendo vários  estudos  publicados em revistas especializadas do Brasil  e de outros países.

            Foi a primeira mulher eleita para a presidência do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e está agora no seu terceiro mandato (de 2009 a 2012). Tem intensificado e atualizado as manifestações da instituição cultural paulista, que dá apoio a outros centros  culturais e científicos e, entre as suas metas imediatas, assinala-se o estreitamento dos laços e a cooperação efetiva com a Comunidade Luso-Brasileira, pois considera que os 8 países de idioma português exigem um lugar de maior projeção no Mundo. Declara-se luso-brasileira, pois está ligada pelo coração e pelas raízes culturais ao Brasil e a Portugal (seu Pai foi um dos fundadores, em 1920, do Clube Português de São Paulo) e conclui o seu depoimento: “Lembrando as palavras de Fernando Pessoa (“Minha Pátria é a Língua Portuguesa”),  prestigiaremos, na prática, não somente a nossa cidade (que é a maior do nosso mundo idiomático), mas também a nossa Comunidade (somos quase 250 milhões de pessoa, nos 8  países).Chegou a nossa vez – e o Mundo tem de ouvir a nossa voz lusíada!”

Diálogo com os leitores

Novembro 24, 2009

Nos últimos meses, foi irregular nossa colaboração, pois estivemos em Portugal, onde convidamos uma série de escritores e professores a colaborar no nosso Blog da revista “Lusofonia”, mas retomamos agora a nossa participação, começando por agradecer, aqueles que nos contataram e pedindo-lhes que continuem a honrar-nos com a sua colaboração. As nossas respostas serão resumidas e oportunamente faremos comentários mais esclarecedores, sempre que os  julgarmos necessários.

 Rita Tavares (São Paulo): Só agora pude ler a sua mensagem de 15 de outubro, pois estive 3 meses em Portugal. Tenho um outro texto de sua autoria e pretendo editá-lo logo que possível. Já telefonei para sua casa e deixei recado para que você me contate, pois gostaria que discutíssemos certos projetos que poderemos realizar em comum. Recebeu o meu livro Fernando Pessoa, Salazar e o Estado Novo ?Aguardo o seu telefonema.

Dr Antônio Rosa (Lisboa): Fiquei muito sensibilizado com a sua mensagem de 18 de outubro passado e já sabia do êxito da exposição “10 Juristas Pampilhosenses: cronobiografias e objetos”. Agradeço todo o apoio que puder proporcionar-nos (a mim e ao professor Nuno Mata), acerca do projeto em curso de homenagem a Monsenhor A. Nunes Pereira o grande intelectual e artista da nossa Beira Serra. Estou preparando um artigo sobre os artistas plásticos da região, incluindo o pintor e dinamizador cultural Guilherme Felipe, além de muitos outros artistas que tanto honraram Portugal e estão ficando esquecidos.

Cyro de Mattos (Bahia): Fiquei muito feliz com o seu reencontro carta de 17 de outubro e com a notícia de que um de seus livros foi publicado na Alemanha quando puder mande-nos mais notícias sobre os seus trabalhos, pois os publicaremos com muita honra e satisfação.

Jornalista Fernanda Leitão  (Canadá): Fiquei muito sensibilizado com o artigo “São Nuno de Santa Maria”, de José Campos de Souza, de quem me considero admirador e amigo, embora não o conheça pessoalmente. Mas comungo com os seus ideais de portugalidade, que você, Fernanda Leitão, tanto tem prestigiado no Canadá. Vá mandando colaboração para os nossos blogs e nós usaremos os seus textos sempre que eles se adaptem ao nosso espaço.

Escritora Isabel Gouveia (Caldas da Rainha- Portugal): Muito grato pelos dois artigos que me enviou: “O Mito da Liberdade de Expressão”, sairá no Blog de Novembro da revista “Lusofonia” e o outro texto deverá ser divulgado na edição de dezembro.

A sua colaboração muito nos honra, pois a Isabel Gouveia merece um lugar de destaque na Literatura Portuguesa Contemporânea.

Vá dando sempre notícias e artigos!

Dona Mafalda Ferro (Lisboa): Agradeço muito a sua mensagem de 02 de novembro, assim como as duas fotografias da viagem de seu Pai, o grande escritor Antônio Quadros, quando esteve em São Paulo.

Vou fazer o texto que me solicitou sobre os contatos que durante anos mantive com o seu Pai, de quem guardo a maior admiração literária e as melhores lembranças.

Até breve!

Pedro Miguel Almeida (São  Paulo): Creio que o meio mais fácil de obter a cópia do meu artigo sobre  o Capitão Henrique Galvão, em O Estado de S. Paulo, será obtê-la no arquivo do jornal, pois neste momento não consigo encontrar nenhuma. E agradeço muito o seu interesse pelo Cap. Galvão, de quem fui  amigo no”Estado”.  

O nosso Blog fica aberto a sua colaboração sobre quaisquer temas sobre os oito países de Língua Portuguesa.

Edmundo F. Corrêa (São Paulo?):Não tenho condições de interferir no jornal que você cita, mas poderá, se assim o quiser, enviar-nos um texto seu com cerca de 20 linhas, assinado e explicando o projeto da “Marcha Mundial pela Paz e pela Não Violência” iniciativa da organização internacional do “Mundo Sem Guerras”.

Adelto Gonçalves  (de  Marília?):Agradeço a colaboração que nos tem enviado e deveremos divulgar o artigo que escreveu sobre o professor e escritor Leodegário, a quem as Culturas Portuguesa e Brasileira tanto devem.

**

Peço desculpa aos leitores amigos pela brevidade das minhas respostas mas não queria deixar de acusar o recebimento das mensagens que tão gentilmente me enviaram.  A todos muito obrigado.

***

Em tempo, responderei aos amigos e leitores que me contataram e, agradeço as comunicações de Beatriz Alcântara, Clarisse Barata Sanches (de Góis), Prof. J. Chris Christello (Santa Catarina?), Carlos Henrique Machado de Freitas (sobre “Cultura e Mercado”), Maria Clélia Lima Hernandes (sobre a Língua Portuguesa), William Lemos da Silva  (revista “Comunidades de Língua Portuguesa”), Afonso Alves Francisco (em Brasília?, Lina Alves Madeira (Montemor-o-Velho) e outros amigos. Até breve!

João Alves das Neves

Leituras de Férias

Novembro 24, 2009
Cartas de Lisboa

Por João Alves das Neves (*)

Entre os livros que tivemos  a oportunidade de ler ou pelo menos compulsar. durante as  últimas  férias em Portugal,  devemos  salientar os que mais nos despertaram a atenção, embora sem  espírito crítico, ainda que possamos   fazê-lo mais tarde.  Aliás, não há críticos literários, como antigamente…

Por agora, limitamo-nos a alguns comentários breves, pois os jornais diário, salvo raras excepções, não vão muito  além  das notas simples dos editores, que resumem os livros, bem pouco adiantando sobre as obras, a não ser quando se trata  do nobelizado Saramago onpsu de um ou outro amigo. É certo que se perderam anos demais com os cortes parciais  ou totais dos censores que nada tinham a ver com o que acontecia em Portugal e no Mundo.

É verdade que se multiplicaram os caminhos de acesso: podemos comprar sem medo qualquer  jornal ou livro e ninguém nos  o acesso a outras vias, nomeadamente através da Internet, apesar   das falsidades  que transmite sem interrupção. Mas que fazer senão aceitar o novo mundo em rodagem –  até onde e até quando? Pois  temos  de o enfrentar, com os seus milhões de erros, porque tudo vale a pena se a alma não é pequena.

E por aí  começamos,  abrindo a Fotobiografia de Fernando Pessoa, desta vez com os olhos de Richard Zenith, um pessoano já confirmado em livros anteriores (a primeira Fotobiografia foi de Maria Jo sé de Lancastre, cujo pioneirismo resiste aos anos, desde 1981 e que continua ser exemplar). O norte-americano Zenith percorreu outras rotas, tentando redefinir o Homem e o seu intimismo com Lisboa (“seu lar”), o tropicalismo que descobriu em Durban e as reacções que o contrariaram em Portugal, o vivenciador do Modernismo, com os seus companheiros orfeicos, o caminhante das ruas alfacinhas, o

espírito lusíada da  visão imperial, o Desassossego dos poetas sonhadores  e a entrada

na Eternidade de onde nunca mais sairá.

Assim o confirma a Mensagem relida há meses  por José Sinde Filipe e musicada por Laurent Filipe ou a outra “mensagem à beira-mágoa”, revisitada (mais do que uma segunda vez?) por José  Campos e  Sousa. Assim, tudo vale a pena, sem as provocações confusas e  culturalmente falsas dos “marketistas” que se fazem passar por génios da Literatura. De resto, Lisboa e seus mais longínquos arredores estão cheios dos copiadores da poesia, da política.

Menos do que seria necessário, as livrarias apresentam vários estudos sérios em torno daquele que foi – é e será – “o Imperador da Língua Portuguesa” e eles voltaremos quando acabarmos de ler O Santo Condestável D. Nuno Álvares Pereira (da autoria de José Carvalho), e da Vida e Obra de Dom Nuno Álvares Pereira  (da escritora inglesa G.

Leslie Baker). Entretanto, o grande herói de Portugal, que tanto interesse despertou ao historiador Oliveira Martins), merece a atenção  dos nossos ensaístas contemporâneos,

Ê claro que outros livros  de História, Artes e Letras Portuguesas foram editados recentemente e exigem  a nossa atenção – e alguns deles mencionaremos, quando for possível. Entretanto, procurámos com insistência obras dos autores da Província (com relevo para a   Beira-Serra), mas não pudemos ir muito além do Livro Comemorativo do 75º. Aniversário da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários Argus (de A. C. Quaresma Ventura e de Regina Anacleto). Não obstante, há  um registo significativo que desde já se impõe –  o da excelente monografia sobre Tabua / História, Arte e Memória), de Marco Daniel Duarte, editado pela Câmara Municipal de Tábua, com  657 págs, 2009 e boa apresentação gráfica. Por isso, voltaremos ao tema.

(*) Os últimos  livros de João Alvas das Neves foram o Dicionário de Autores da Beira-Serr (Ed. Dinalivro, Lisboa, 2008) Fernando  Pessoa, Salazar e o Estado Novo (ed. Fabricando  Idéias, S]ao Paulo. 2009)

A Arte da Dubiedade como previsão do Futuro

Novembro 24, 2009

Por Dalila Teles Veras (*)

São Paulo é uma cidade única e surpreendente. Costumo freqüentar a região que abarca a Av. Paulista desde a Consolação até o MASP, ruas Augusta e Frei Caneca. Ali se concentram cinemas e galerias de arte, restaurantes, cafés, e, sobretudo, sebos e livrarias. Toda essa oferta, mais a diversidade de tipos humanos, é garantia de festa permanente.

Ontem, noitinha, na calçada da Rua Augusta, enquanto camelôs recolhiam apressadamente montanhas de CDs e DVDs piratas, provavelmente por algum aviso de aproximação de fiscais, casais do mesmo sexo se abraçavam e acarinhavam sem nenhum pudor, enquanto esperavam mesas no Atenas,  mais adiante, jovens sentados no chão saboreavam pizza vendida aos pedaços, misturando-se à fila do Espaço Unibanco de Cinema, a surpresa maior: em meio àquele vai e vem, dois homens de meia idade, sentados à soleira de uma porta fechada, concentradíssimos, jogavam xadrez.

Logo acima, enquanto esperava o início da sessão e saboreava um suco numa das mesas do Café anexo ao Cinema, fui atraída por uma conversa entre um casal da mesa ao lado.

A moça (que eu via apenas de perfil), olhos com pesada maquiagem, embaralhava cartas de um baralho e pedia para o rapaz corta-lo. Ele (que eu via quase de frente), todo vestido de branco, longos cabelos com ar de pouco trato,  sandálias de couro rústico, semblante grave e atento. A conversa chegava até mim um tanto quanto entrecortada pelo burburinho à volta, mas, ainda assim, passo aos meus amigos leitores o que anotei:

“- Nossa! Ótimo!, exclamava a pitonisa, observando algumas cartas colocadas na mesa.

– Melhor do que a primeira? Pergunta o rapaz.

– A primeira tem ótima possibilidade, devido à estrela, à força da rainha… alguns obstáculos… difícil acesso… mas nada que impeça… Aqui está o 4 de espadas, calmaria depois das batalhas, principalmente nas questões dessa editora…

– Então já posso ir atrás?

– Mas é muito bom, muito positivo!… Você já fez o contrato com eles?

– Entreguei os originais há dois anos, mas disseram que dependia do planejamento… a editora tem segmentos… O Gaspareto é mais o padrão…

– Nossa! A estrela novamente!… Nada que você não possa esperar. Alguma coisa relacionada com o contrato! Dá uma prensa neles, diz que já tem proposta de outra editora… Isso pode não ser uma verdade agora, mas é uma possibilidade…

– Você quer saber mais alguma coisa? Parte novamente…

– Bem (partindo o baralho) eu queria saber, assim… em relação à recepção da obra… Há um temor.. da editora barrar … ficaram de me levar ao Jô Soares, mas desde o ano passado… acho que antes o livro precisa sair… 20 anos da morte dele este ano… deixamos passar a oportunidade…

– Não, não vai barrar… vai fazer sucesso, vai vender, mas ao mesmo tempo, vai ser um trabalho de formiguinha, você vai ter que batalhar, um pé atrás… Mas há ótima perspectiva de sucesso… Se houver alguma crítica não vai chegar a afetar, algo leve.

– Outra coisa que eu queria saber é sobre um concurso público que eu estou querendo prestar. Se eu passar, vou ter que me mudar para Brasília. Como é que vai ficar essa situação?

– Corta novamente… (ele, ar cada vez mais grave, corta). O 6 de ouros que é a segurança e o 7 é o novo. Este é um momento de impasse, mas não está muito definido, mas você tem a possibilidade de entrar em alguma coisa… mas será preciso desemperrar essas coisas… É como você estivesse com uma casa quase pronta e não conseguisse morar. Problemas internos que fazem parte de um todo maior.

– Eu precisaria ir até lá:

– Não, a mudança é uma conseqüência. A energia que está para nascer. Está faltando muito pouco,não pode deixar para amanhã…

– Então o sinal deve ser o livro

– Você terá outra atividade. Não está claro…mas precisa mais ação de sua parte. Não pode ficar deixando as coisas acontecerem, senão não vai sair…

– Eu também queria saber se a Camila, que mora em Goiânia, é a mesma pessoa que você viu aí…

– Não sei se é a mesma moça, mas essa moça é uma excelente possibilidade de vir a ser sua namorada.

– Puxa vida, se eu me mudar para Brasília fica mais perto..

– Porque você não vai até lá?

– Mas eu não tenho grana pra nada…”

 

Mutatis mutandis, não foi difícil me reportar a um outro cenário, o Oráculo de Delfos, com suas pitonisas escolhidas pelo Deus Apolo, recebendo monarcas e plebeus à busca de previsões futuras sobre amores e batalhas. Naquele havia, no entanto, todo um rito que envolvia as consultas que só aconteciam em dias determinados, com a sacerdotisa “purificada” previamente e envolta em gases misteriosos e aromáticos. Justamente por serem escolhidas por Apolo, imagino que essas sacerdotisas da Grécia antiga, seriam bem mais iniciadas nas artes divinatórias, mas, diga-se, igualmente primavam pela dubiedade, jogando com o fator de saber desarmado e fragilizado o consulente. (dtv)

 

Celebração, memória e amizades – homenagem

Ontem (ops! olho o relógio e hoje já não é hoje e o ontem foi, na verdade, sexta-feira) um grupo de pouco mais de 30 pessoas, celebrou, num restaurante em Santo André, os 78 anos de Antonio Possidonio Sampaio. Um a um, foram chegando os amigos. E de surpresa em surpresa, o aniversariante a todos foi recebendo com a naturalidade de quem intuía que a data não passaria em branco, como não passou. Bem sabe ele, que  a colheita é certa para quem muito plantou. Muitos outros ali estariam, se a vida não fosse hoje tão urgente e aliciante. Os que ali estavam transformaram o encontro em verdadeira e comovente celebração.

Há 18 anos, quase uma centena de amigos o homenagearam pelos 60 anos, num restaurante na Capital. Naquela mesma oportunidade, eu e Valdecirio fizemos chegar às suas mãos um pequeno volume denominado “Retrato de um Homem Livre”, que organizamos, recolhendo depoimentos de algumas dezenas de amigos (escritores, advogados, políticos, parentes, religiosos, sindicalistas (um deles, hoje é Presidente da República), resultando num admirável painel do advogado combativo, jornalista e escritor prolífico e militante, sempre presente nas causas culturais e sociais, acima de tudo um humanista.

 

Alguns trechos do livro:

– “Possidonio é um livro ao vivo. Escreve com a pena e com a fala. Porque seu coração tem estilo” Frei Betto

– “Possidonio é desses escritores – a mesma honestidade – que crê na obra em si e no seu julgamento ante a posteridade. Pouco valem para ele os aplausos fugazes e circunstanciais.” – Caio Porfírio Carneiro

– “(…) com sua humildade, cultura, alegria e incansável vontade de lutar por seus constituídos para servir, como até hoje, de exemplo para os novos colegas que escolheram a advocacia como profissão e sacerdócio”. Adelina Bitelli Dias Campos

– “O advogado, o jornalista, o escritor, o companheiro e o amigo não se diferenciam. Prevalece em todos a harmonia, sob o acorde tríplice da autenticidade, da dignidade e da lealdade.” – Antonio Fernandes Neto

– “Meu avô havia tido vinte e três filhos, e somente aquele não dava importância ao comércio ou ao dinheiro (…) Grande sertanejo, forte, brigador, papai temporão (…) quero manifestar meu orgulho em ser seu sobrinho, seu amigo, seu compadre (duas vezes) e em ter a certeza de que seu exemplo foi uma das diretrizes que me serviu de rumo” Wellington C. L. Sampaio

– “Para mim, um menino – a despeito do respeito que impõem os cabelos brancos -, um guru, mesmo esbanjando essa meninez.” Rosana Chrispim

-“ Humildade, lealdade, honestidade e solidariedade são os traços do homem Sampaio, meu irmão”. Valdecirio Teles Veras

– “Tarde de sábado, setembro, de um 1971 brasileiro nebuloso. Um baiano afável e um sorridente piauiense dão-me as boas vindas ao CORB – Centro de Oratória Rui Barbosa., na sede da União Brasileira de Escritores. Meses depois, caso-me com o piauiense e selo uma amizade com o baiano. Casamento e amizade já duram 20 anos, encontros definitivos”. Dalila Teles Veras

– “Você sempre foi uma pessoa pura, que nunca disputou um cargo, uma pessoa sem interesses pessoais. Você, Possidonio, não tem a dimensão do quanto ajudou na minha vida política, no meu comportamento político, no meu desenvolvimento político. (…) é uma pena que o movimento sindical e até o próprio PT não tenham, talvez por minha culpa, sabido utilizar todo potencial que você tem, a sua capacidade intelectual, aquilo que você representa para uma geração de sindicalistas obstinados que queriam mudar o país. Os agradecimentos não são só meus. Eu acho que são do Rubão, do Nelsão, do próprio Paulo Vidal com quem você conviveu muito; são do Devanir Ribeiro, do Djalma Bom, do Dr. Maurício, de tanta gente que hoje se transformou em personalidade…” Luis Inácio Lula da Silva

À beira de se tornar um octogenário, Antonio Possidonio Sampaio, preserva a centelha menina do entusiasmo e do otimismo, cultiva o respeito à alteridade e cultiva  os princípios éticos e morais que sempre nortearam sua já longa vida.

Se há 18 anos, comemorávamos 20 anos de amizade, hoje celebramos (eu e Valdecirio) 38 anos de uma amizade/irmã, da qual muito nos orgulhamos. Tim… tim… portanto, ao nosso Salvador Bahia! (dtv)

(*) Escritora Brasileira nascida em Portugal.

Novo Acordo Ortográfico

Novembro 24, 2009
Língua Portuguesa

Pedro Silva (*)

Ao contrário do que muitos saberão, a discussão para um acordo ortográfico que unificasse a vertente idiomática dos vários países de língua oficial portuguesa é assaz antiga. Um longo caminho percorrido que, ao que parece, terá agora obtido o consenso. Vejamos como tal foi possível.

O Acordo
Apesar de todo o mediatismo que a crise económica tem tido, a par da profusão de notícias que igualmente abordam as mais diversas competições desportivas, a cultura tem sido, recentemente, também alvo do interesse da comunicação social. Na realidade, não se trata do lançamento de mais um best-seller nem tampouco o outorgar do Prémio Nobel da Literatura. Curiosamente, todo o alarido surge em redor de um Tratado Internacional. Estranho? Nem por isso. Trata-se do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa e, efectivamente, irá afectar directamente o quotidiano de mais de 200 milhões de pessoas mais ou menos o universo de falantes desta maravilhosa língua que une países em todo o globo.
Como poucas vezes acontece, este novo acordo teve o condão de despertar interesse dos mais diversos quadrantes, desde a política à vida universitária, assim como desde o comum cidadão ao intelectual. Para alguns está em causa a preservação da tradição linguística, ao passo que, do lado de lá da barricada, encontram-se os que defendem de forma acérrima que, para evitar que o português se torne uma língua defunta é crucial que se modernize.
Mas concentremo-nos nos pontos principais, de modo a que possamos tirar as nossas próprias ilações. Basicamente, este Acordo Ortogrfico pode ser definido como um tratado que tem em vista a unificação da língua falada, e escrita, nos diversos países onde o português é o idioma oficial, a saber: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Prncipe e Timor-Leste (neste caso, apenas em 2004, após ter obtido a independência).
A assinatura deste acordo teve lugar em Lisboa, a 16 de Dezembro de 1990, numa reunião alargada que teve a presença dos países acima citados, excepto o caso de Timor pelas razões políticas conhecidas de todos.
Estava em causa, primordialmente, a unificação das duas grandes vertentes da língua portuguesa, no caso em concreto aquela utilizada por Portugal e pelos Países de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) e a outra existente no Brasil. A ideia era uma aproximação ao que Espanha e a América Hispânica haviam feito, isto é, tornar possível a existência de uma só escrita unificada.
No primeiro estudo ao assunto, datado de 1990, de uma lista de 110 mil palavras, apenas 1,6% seriam alteradas em Portugal e PALOP, sendo que no Brasil tal percentagem baixava para apenas 0,5. Porém, mais recentemente, em 2008, uma análise mais alargada, no caso em concreto a 135 mil palavras, efectuada pelo ?Instituto de Linguística Teórica e Computacional de Lisboa?, já se falava em 4% de alteraçes no global.
Como se vê, pese embora a participação activa de linguistas, académicos, jornalistas, tradutores, escritores ou professores, entre tantos outros, não existe consenso quanto a este tratado da língua portuguesa, havendo quem aponte várias falhas e alguma ambiguidade na feitura do próprio texto do acordo.

Precedentes
Por mais incrível que tal facto possa parecer podemos remontar a gnese deste novo acordo ortográfico a um período temporalmente tão longínquo quanto o início do século XX, mais concretamente o ano de 1911 quando, seguindo-se à implantação da República no nosso país, se fez grandes mudanças a todos os níveis, incluindo a parte escrita. A partir desse momento, a ortografia nacional mudou radicalmente, deixando-se para trás a redacço de palavras como lyrio, Thomar ou ortographia para passarmos a lírio, Tomar e ortografia. Deste modo, libertava-se a grafia da sua íntima ligação que tinha por base os étimos latino e grego. A esta remodelação chamou-se ?Reforma Ortográfica de 1911?.
Por seu turno o Brasil prosseguiu utilizando a escrita antiga, o que levou, nos anos seguintes, a tentativas ? sempre frustradas ? de entendimento entre a Academia das Ciências de Lisboa e a Academia Brasileira de Letras, no tocante a uma reunificação linguística. Após a impossibilidade de um acordo em 1931, o ano de 1940 marca uma primeira decisão em Portugal, a que veio a suceder-se, no Brasil algo similar três anos depois. Como tal, Portugal ratificou o ?Acordo Ortográfico de 1945?. Porém, no país-irmão tal não sucede tendo em conta o chumbo que o Congresso Nacional Brasileiro deu ao diploma, optando ao invés pelo ?Formulário Ortográfico de 1943?.
Porém, e como a desunião linguística prosseguia, novas tentativas tiveram lugar, tal como o acordo alcançado em 1971 (Brasil) e 1973 (Portugal), no qual se suprimiram os acentos gráficos responsáveis por uma elevada percentagem das diferenças linguísticas (por exemplo, a palavra somente perdia o acento que envergara até ento).
Mas a ambição não havia sido satisfeita na sua plenitude e ocorreram duas novas tentativas, que falharam redondamente. A de 1975 no teve seguimento devido à convulsão política e social relacionado com o período do pós-25 de Abril de 1974, ao passo que a proposta de 1986 foi rejeitada por elementos dos dois países devido à supressão de acentuação gráficas nas palavras esdrúxulas.
Por aqui podemos facilmente perceber as dificuldades inerentes a qualquer mudança na ortografia da língua portuguesa, pelo que a consequncia foi a manutenção das múltiplas diferenças. Apenas em 1988, o ?Anteprojecto de Bases da Ortografia Unificada da Língua Portuguesa? pareceu dar novo alento ao processo de unificação e, de certo modo, foi a antecâmara do acordo que teve lugar dois anos depois.
Reunidos na Academia das Ciências de Lisboa, entre 6 e 12 de Outubro de 1990, estiveram os vários países falantes do português, chegando-se a um acordo há muito ansiado. Uma cláusula em particular, do texto final, levantava porém algumas dúvidas. No artigo 3º previa-se a entrada do novo acordo ortográfico a 1 de Janeiro de 1994. No entanto, o facto de apenas três países o terem ratificado ? no caso, Portugal (1991), Brasil (1995) e Cabo Verde tal intenção foi novamente adiada.
Oito anos após o acordo, nova reunião, desta feita na cidade da Praia (Cabo Verde), de onde surgiu um ?Protocolo Modificativo ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa?, o qual prescindia de uma data concreta para a sua entrada em vigor. No entanto, e apesar desta crucial alteração, apenas três países o ratificaram ? exactamente os mesmos que o haviam feito anteriormente.
Quiçá provocado pelo arrastamento deste processo negocial, o próximo encontro, que teve lugar em Julho de 2004, terminou com uma nova indicação: desta vez seria necessária apenas a ratificaão de três membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) para que o acordo fosse uma realidade. Num texto conhecido como ?Segundo Protocolo Modificativo ao Acordo Ortográfico de Língua Portuguesa?, de realçar ainda a adesão de Timor-Leste.
Estava aberto o caminho para que as mudanças ortográficas se efectivassem. E é aqui que se reacende a polémica, havendo quem defendesse que tal era incorrecto, pois a obrigatoriedade, de todos os países signatários o ratificarem, era total, ao passo que outra visão teórica acreditava que o acordo não possuía nenhuma incorrecção na sua feitura.
Ora, atendendo que o Brasil o ratifica logo em Outubro de 2004, secundado por Cabo Verde em Abril de 2005 e São Tomé e Príncipe a 17 de Novembro de 2006, pensar-se-ia que não tardaria até que a sua aplicação sucedesse. Porém, de forma unânime entendeu-se que não faria sentido avançar-se para algo envolvendo a língua portuguesa sem a ratificação de Portugal.
Como tal, a 16 de Maio de 2008, a Assembleia da República nacional ratificou este ?Segundo Protocolo Modificativo?, possibilitando então um consenso mais generalizado (refira-se que também Angola dava, ao mesmo tempo, os primeiros passos no sentido de prepara-se para a entrada em vigor no novo acordo). O tal passo final para a entrada em vigor do tratado acontece a 15 de Novembro de 1008, após uma reunião com a presença dos chefes de estado e do governo dos PALOP.
Logo em Março de 2009, a Academia Brasileira de Letras publicou o Vocabulário da Língua Portuguesa? (VOLP), com 381 mil entradas, algo considerado fundamental enquanto texto explicativo. Em Portugal, enquanto se aguarda por igual fonte de informação a publicar, provavelmente, pela Academia das Ciências de Lisboa, algumas editoras vão dando à estampa pequenas obras de pesquisa relativamente a este novo acordo ortográfico.

As alterações mais importantes
Apesar das 21 bases ortográficas que constam do texto do acordo, existem algumas que, pela sua frequência de utilização, se tornam mais relevantes para o dia-a-dia de todos nós. Vejamos então algumas dessas mudanças que surgirão com o novo acordo.
Em primeiro lugar, o alfabeto passa de 23 para 26 letras, incluindo W, K e Y (ainda que de uso restringido a abreviaturas e palavras de origem estrangeira e seus derivados). Em segundo lugar, os meses do ano e os pontos cardeais passam a ser redigidos em letras minúsculas. Para além disso, poder-se-á usar maiúsculas ou minúsculas nos títulos de livros, excepto na primeira palavra que terá de ser escrita obrigatoriamente com letra maiúscula. O mesmo sucede nas expressões de tratamento, nos nomes de sítios públicos (como ?praça da república?) e nos nomes de disciplinas científicas.
Em quarto lugar, e apesar da distinção entre ch e x, mantém-se a diferença nas palavras que a tradição consignou, como champô e xampô. Outro aspecto relevante é a supressão do trema, excepto em nomes próprios e seus derivados. Entre as excepões mais importantes encontram-se palavras que mantêm dupla grafia (como caráter e carácter) ou dupla acentuação (económico/econômico). Um sétimo aspecto a ressalvar é a supressão de acentos gráficos em palavras como pára ou pêlo. Já no Brasil, termos como abençoo ou ideia deixam se ser acentuados.
No que diz respeito à hifenização, as mudanças tambm são notórias. Este mantém-se nas seguintes situações: nos compostos, locuções e encadeamentos vocabulares, assim como quando o segundo elemento da frase começa por H, quando tem a mesma primeira letra ou quando o falso prefixo termina com M e o segundo elemento começa por M ou N. Alguns exemplos são: anti-higiénico, hiper-resistente ou circum-navegação. O hífen é ainda suprimido em expressões como hei-de ou hás-de, dado que neste caso ali a preposição funciona como mero elemento de ligação ao infinitivo com que se forma a perífrase verbal. Por último, o hífen desaparece quanto o pseudo-prefixo termina em vogal R ou S, em que dobra a consoante. Exemplo: antirreligioso.
Em suma, algumas mudanças serão: óptimo que passa a ótimo; Egipto tornado em Egito e fim-de-semana transformado em fim de semana. Porém, facto/fato e génio/gênio continuaram a ter dupla grafia.

Prós e Contras
Tendo em conta as duas visões opostas, quanto ao acordo, conheçamos os seus principais argumentos. Aqueles que defendem a nova ortografia acreditam piamente que esta unificação de 98% do léxico é essencial para evitar a deriva actual. Crêem ainda na diminuição de custos das edições em ambos os países que agora se tornam unívocas. Procuram, com o acordo, evitar a fragmentaço de um idioma que na realidade é comum, a par de uma aproximaão da oralidade à escrita e, consequentemente, à necessária evolução da língua.
Para além disso deixa de haver necessidade de textos duplicados nos documentos oficiais. Julga-se que um aumento de circulação de livros poderá ser uma realidade, tal como a utilização de um vocabulário técnico-científico comum, o que permitirá maiores parcerias entre institutos académicos e científicos em geral.
A juntar a todos estes argumentos, os defensores da aplicação do novo acordo informam a necessidade, para organizações internacionais onde o português é língua de trabalho, de uma uniformidade da grafia, ao passo que Portugal e Brasil poderão dar, em conjunto, um novo impulso à difusão da língua portuguesa a nível mundial e, obviamente, ao seu fortalecimento junto dos PALOP.
Em suma, acreditam que esta modernização era, acima de tudo, uma inevitabilidade, tal como sucedeu com outras línguas, como a espanhola, a francesa ou mesmo o árabe.
Já no tocante aos que estão contra a aplicação do novo acordo ortográfico, apoiam-se nos seguintes fundamentos: antes de mais, a proposta, nos seus moldes actuais, é insuficiente para atingir os seus reais propósitos, atendendo ao grande número de excepções à regra. Defendem tratar-se de uma evolução contranatura da língua. Frisam ainda da não necessidade de tal facto pois, ao longo dos anos, o entendimento linguístico entre Portugal e Brasil havia sido perfeito. Na vertente económica, frisam que os custos a suportar serão tremendos, incluindo a confecção de novos dicionários, gramáticas e livros escolares, para além da forosa reaprendizagem da nova grafia por milhões de pessoas e do necessário reajustamento dos livros das editoras. Apontam ainda que o inglês, apesar de não ser unificado, continua a  ser a língua internacional usada prioritariamente.

Ponto da situação
Em termos gerais, o novo acordo ortográfico já se encontra em vigor em países como Brasil, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, pelo facto de terem sido signatários do tratado. No Brasil, inclusivamente, pretende-se que os livros didácticos de 2010 contenham todas as mudanças ortográficas estipuladas, com uma adaptaço plena, no máximo, até 2012. Órgãos de comunicaão social como a ?Folha de São Paulo? ou O Estado de São Paulo? já se encontram totalmente adaptados à nova grafia.
Já em Portugal, a polémica continua. Apesar de prevista a entrada em vigor do novo acordo para finais de 2007, só em Maio de 2008 o Presidente da República Aníbal Cavaco Silva se empenhou na prossecução do estipulado, ratificando, então, o protocolo a 21 de Julho de 2008, e prevendo a adaptação, em Portugal, ao novo acordo num prazo de seis anos.
Apesar das divergências, entre as quais destacaríamos a petião online intitulada ?Manifesto em Defesa da Língua Portuguesa contra o Acordo Ortográfico? ? a qual obteve enorme adesão ? o certo é que alguns órgãos de comunicação social já se encontram a utilizar a nova grafia, no caso o jornal desportivo ?Record?, o diário regional conimbricense ?Despertar? e o matutino ?Correio da Manhã? (neste último caso, porém, de forma gradual).
Recentemente, o Ministro de Cultura, José António Pinto Ribeiro, desejou que a aplicação do acordo fosse uma realidade, em termos oficiais (assim como em todos os meios de comunicação social) já a partir de 1 de Janeiro de 2010, sendo que nas escolas tal sucederá após o ano lectivo de 2010-2011.
Apesar de faltar, ainda, a edição de um Vocabulário Ortográfico Comum da Língua Portuguesa, entre Portugal e Brasil o que deverá ocorrer antes do final do presente ano ? o certo é que já poucos terão dúvidas quanto à inevitabilidade, a curto prazo, destas mudanças linguísticas.

 

(*) Escritor português

O Mito da Liberdade de Expressão

Novembro 24, 2009
Por Isabel Gouveia
 
A liberdade de exprimir o que se pensa ou sente é uma conquista importante e já teoricamente considerada irreversível no mundo ocidental. Mas esta liberdade e esta irreversibilidade nem sempre resultam na prática e não são tão abrangentes quanto supomos.

Ao falar deste tema, vamos referir-nos apenas a uma actividade a que nos dedicamos há largos anos, não de forma continuada e profissional, mas com muitas intermitências e amadorismo. Trata-se da actividade literária. Nós, os escritores, ao criarmos os nossos textos mais verdadeiros, pensamos que a faculdade de nos exprimirmos livremente vai permitir entregá-los aos seus destinatários ainda fresquinhos, pintados com as tintas autênticas dos nossos sentimentos. Mas quase sempre, por uma questão de sensatez, deixamos esses textos repousar um pouco, para que as pinturas não esborratem… Depois, se somos realmente escritores e não escrevinhadores, sempre que os relemos embirramos com algumas palavras, com algumas frases, e até alteramos a ordem de certos parágrafos. Os nossos textos são sempre objecto de algumas operações plásticas. E, quando afiamos o bisturi da dúvida, às vezes também praticamos outras intervenções cirúrgicas, para que eles não venham, no mínimo, a sofrer abandono, esquecimento, injustiça, por via da censura política ou social…

Liberdade de expressão (falo agora apenas da escrita) é um mito, se a considerarmos em toda a extensão do seu conteúdo. Quase sempre existe dentro de nós um “polícia” que, mais ou menos, melhor ou pior, conhece as regras do trânsito editorial e os códigos por que se rege a crítica literária ou meramente jornalística. Há de facto quem transgrida essas regras, esses códigos, por incultura ou por ingenuidade, mas também há muitos que o fazem porque são mesmo “provocadores”. A esses, bastam alguns instantes de glória íntima, de gozo individual, porque, apesar da fraca difusão que a sua proscrita “obra” possa possuir, sempre encontram alguém que a lê com algum agrado, ou, em certos casos, pelo contrário, com alguma raiva contida, porque extravasá-la seria denunciar que lhe ligou alguma importância.

A culpada desta situação é a interdependência que existe entre as regras de trânsito editorial e os códigos por que se norteia a crítica literária ou afim. A liberdade de expressão só existe dentro das fronteiras impostas pelos mencionados códigos. São estes que comandam a actividade editorial. Quem os transgride é relegado para gráficas que realizam edições de autor ou para editoras de pequeníssimo porte que lutam para sobreviver. O autor paga a edição e depois…logo se verá. Se o editor assim o entender, o livro nem chega a ser distribuído. Tudo dependerá da recepção que tiver junto dos críticos “encartados” ou dos comentadores que têm acesso à comunicação social.

Não tenhamos ilusões. Até há bem pouco tempo sempre rejeitámos a palavra “sistema”, a qual é por vezes aplicada ao suposto gueto da crítica elitista. E até chegámos ao ponto de fazer mau juízo de quem a empregava, pensando que havia algum ressaibo no seu julgamento. Mas acabámos por concluir que a palavra é muito interessante e pertinente. E, mesmo que ressaibo exista, não há que emitir juízo de valor sobre o mesmo. Trata-se de um sentimento humano que só os santos são capazes de reprimir e os hipócritas de ocultar. É que, de facto, assistimos a uma autêntica “corrupção” dentro do campo da actividade literária, tal como a que existe em outros domínios. Infelizmente, trata-se de uma doença enraizada na massa do sangue da nossa sociedade. Só são noticiadas pelos meios de comunicação (algumas revistas ou jornais literários, televisão, rádio) as obras que obedecem a determinados parâmetros de expressão e não transgridem as fronteiras de certos códigos onde se misturam modas literárias, amiguismo e até, porque não admiti-lo, a referência, explícita ou implícita, a certas doutrinas político-sociais. Na sua grande maioria, as obras noticiadas são quase sempre (pelo menos, para certos tipos de actividade literária) editadas pelas mesmas empresas, embora haja algumas excepções que confirmam a regra. Há obras que são rejeitadas, mesmo que sejam valiosas de um ponto de vista puramente estético. Por isso, assistimos a uma repetição constante dos mesmos nomes, cujas obras se situam dentro dos mesmos parâmetros.

Sei que é contestável o termo “corrupção” aplicado a estes actos. Em sentido restrito e dum ponto de vista puramente legal, a corrupção está ligada a interesses económico-financeiros. O corrupto é aquele que pretende adquirir uma vantagem material com os seus actos. Mas, se atentarmos na trama que liga todas as actividades de edição, distribuição, promoção e venda das obras literárias, acabamos por concluir que existe, por detrás das mesmas, interesses financeiros muito relevantes, que justificam a analogia. Há mesmo editoras que não se coíbem de informar os autores de que a rejeição dos seus originais não deriva da sua falta de qualidade (até por vezes a classificam de excelente), mas apenas da antevisão da exiguidade do lucro que irão obter com a venda das mesmas…É claro que isto, algumas vezes, também está relacionado com a visão pouco abrangente de alguns conselhos editoriais. Se o livro não obedecer aos paradigmas das obras de outros autores que já andam nas bocas do meio literário, é logo rejeitado à partida.

Perguntar-se-á: não existirão críticos “encartados” que se situam de fora destas fronteiras? É seguro que existem e provavelmente em número bastante razoável, mas nem sempre os autores dos livros acertam na sua escolha ou têm acesso aos seus comentários. Alguns desses críticos também são escritores com obras susceptíveis de julgamento. Estão muito ocupados com a sua própria escrita, que lhes rouba todo o tempo disponível e, em alguns casos, até poderia vir a ser afectada com os seus rasgos de generosidade, ao reconhecerem obras votadas ao esquecimento e abandono.

É claro que isto nos leva a um outro aspecto da questão e a outro conceito: o conceito de “amiguismo”. Há de facto quem fale apenas das obras dos seus amigos, e isso nem sempre está isento de interesse. Se alguém critica o livro de um amigo, este fica com a obrigação de retribuir. É também outra forma de “corrupção”, ainda que o termo continue a ser usado no seu mais lato sentido, pois só muito raramente poderá ser conectado com vantagens económico-financeiras. E convenhamos que o “amiguismo”, na sua ampla acepção, até pode ser benéfico e auxiliar-nos a compreender e a avaliar o “outro lado” do trânsito editorial.

No prefácio de um livrinho recentemente publicado[1], o seu autor referiu-se a um debate realizado na “Casa Fernando Pessoa”, em que participaram críticos, editores e autores. O tema proposto era o seguinte: Amigos fazem crítica literária sobre amigos: sim ou não?” Houve alguém que, segundo o autor do prefácio, se exprimiu assim: – Nos jornais não há liberdade de opinião. Em Portugal há uma crítica de fachada e no meio literário há um ambiente de vénias múltiplas e de elogios fáceis, onde o amiguismo e os amigos escrevem sobre os amigos. E continua o autor do prefácio: – Mas logo Abel Barros Baptista chamou ‘zorro sem máscara’ ao seu interlocutor, adiantando: escrever bem sobre um amigo não só é legítimo como uma felicidade que raramente [o sublinhado é nosso] se atinge – é a maior felicidade dum crítico.

É sempre perigoso analisar uma expressão fora do contexto em que foi aplicada, e sobretudo quando já nos aparece em segunda mão. Acho difícil que Abel Barros Baptista não tenha alguns amigos que lhe possam dar a felicidade de louvar a obra que realizam… Mas é claro que ele tem razão em afirmar que só se pode ficar feliz por louvar um amigo que o merece. É claro que é preciso que esses actos de louvação estejam libertos do intuito de obter algum favor. No entanto, não resvalemos também para o extremo oposto, adoptando a atitude de nunca favorecer quem se deu ao trabalho de escrever a nosso respeito. Ficar inibido de retribuir um aplauso pode constituir a maior das injustiças para quem aplaudiu e denunciar a hipocrisia de quem recebeu o aplauso. Tal atitude até poderia ser classificada como uma ofensa, por denunciar desconfiança em relação às puras intenções de um sincero admirador.

Se a função de editar livros está dependente de cifras e de cifrões, pode dizer-se que, nesta matéria, tal como em outras, “o mundo se encontra do avesso”. Não adianta que a Constituição Política pretenda garantir a liberdade de expressão, se as pessoas não tiverem acesso a um auditório, em sentido próprio ou meramente figurado… Até se compreende que se mantenham em silêncio os verdadeiros analfabetos, os analfabetos meramente funcionais, os néscios, os agitadores inconscientes ou inconsequentes. Mas aquilo a que se assiste nada tem a ver com isto. Há ignorantes que são promovidos, há agitadores que falam do que não sabem, e todos têm direito a ser ouvidos e lidos. Então, por que são ignorados os que realizam uma obra válida, ainda que não se situe dentro dos parâmetros do tal famigerado “cânone”? Por vezes, na realidade o que existe é uma mera presunção de que essa obra se encontra fora de tais parâmetros, porque não houve alguém, aí residente, a chamar a atenção sobre a mesma. E aqui voltamos nós ao tema do “amiguismo”…

Hoje, poucos podem escrever do que gostam e como gostam, sem primeiro avaliarem os riscos que correm. No campo financeiro, as edições de autor, ou feitas por pequenas editoras que às vezes também são cooperativas livreiras, tornam-se absolutamente incomportáveis para quem não vive de forma abastada. E o pior é que, satisfeita a componente financeira do trabalho gráfico, as empresas não querem gastar dinheiro com a distribuição dos livros. Elas sabem que o êxito do trânsito inter-editoras e livreiros e a exposição dos livros nas montras ou nas bancas depende da Crítica, em sentido próprio, ou da afim, praticada por comentadores não profissionais, nos meios de comunicação social. Estas Críticas raramente favorecem as pequenas editoras que vivem do lucro obtido com o pagamento das edições. Conheço casos de alguns livreiros que ocultam, dentro dos seus estabelecimentos, excelentes livros de autores pouco conhecidos, apenas por terem sido editados por editoras ainda pouco conceituadas, ou mesmo já antigas, mas que perderam algum prestígio.

Hoje, as editoras visam sobretudo o interesse material. Praticamente, desapareceram os editores-carolas, que advogavam a causa dos escritores de mérito mas pouco conhecidos do público. Deixou de existir a “missão” de os receber, acarinhar e divulgar. Até esse valor se perdeu. Dantes, a avaliação era feita consoante o mérito. Actualmente, os avaliadores das obras literárias são sobretudo “publicitários” que dão preponderância aos aspectos ligados ao marketing. Mas como obrigar um autor que leva a peito a liberdade de expressão a escrever sobre aquilo de que não gosta, e até por uma forma que não aprecia, apenas para agradar à crítica elitista? Em alternativa, como obrigar esse dito autor sério a escrever ao gosto do grande público, já que paralelamente são promovidas as obras populares, que proporcionam avultados lucros às editoras?

A situação é muito mais grave do que se pensa. Há muito bons escritores com a sua carreira em risco de se perder e apagar no tempo. Já houve alguns que faleceram sem verem a sua meritória obra reconhecida. O grande público compra aleatoriamente os livros espalhados com profusão pelos escaparates das grandes livrarias ou pelas prateleiras das grandes superfícies. Compra aqueles que são produzidos em massa e levados para as bancas televisivas ou jornalísticas, onde integram as colunas dos “tops”, dos “mais vendidos” durante a semana ou durante o mês.

O grande público compra sobretudo os livros conectados com a famigerada literatura “light” e os que o ensinam a conviver com as suas frustrações, com os seus medos, com os seus anseios, com os seus problemas psíquicos ou espirituais. Compra os livros que relatam escândalos, ou falam de pessoas sobretudo ligadas ao futebol ou dos apresentadores da televisão e dos políticos mais conceituados. E estes livros nem sempre são repudiados pelas grandes editoras, por serem muito lucrativos… Há, é certo, os livros supostamente mais selectos, os apadrinhados pela critica que se rege por um determinado cânone erigido como padrão mais actualizado, que talvez sejam vendidos em menor escala do que os outros de que falámos, mas que, ainda assim, pode dizer-se que são difundidos e adquiridos em alto grau, o que permitirá aos seus autores enfrentar o futuro com confiança e legar a sua obra aos vindouros. É claro que nem todos vão consegui-lo, mas haverá alguns que vão ultrapassar a barreira da imortalidade. Foram auxiliados nessa missão. Não poderão dizer que venceram a barreira apenas por mérito próprio. Mas, nesta matéria, de que valerá o mérito próprio, se este ficar a hibernar no silêncio, no abandono, na injustiça?


[1] “Poetas de Sempre”, Editora Cidade Berço, 2009, p. 5

Por Portugal – e Mais Nada

Novembro 18, 2009

Por mais um favor do Céu coube-me desta feita dar música e dar voz a muito do que se tem escrito em louvor de Dom Nuno Álvares Pereira, o Condestável, terror dos Castelhanos, verdadeiro Herói da minha infância. Benditas 3ª e 4ª classes que em 1955/1956 trouxeram à minha vida, de maneira tão fantástica a tão fantástica vida de uma mão cheia de Homens, que começando em Viriato, ajudaram a erguer Portugal. Dom Nuno, é certamente um primeiro entre iguais. Já Fernando Pessoa na “Mensagem” lhe atribuiu no Brasão ,o lugar cimeiro – o da coroa.

Vou lançar no próximo mês de Novembro uma edição de autor, “Por Portugal e Mais Nada “ título que roubei ao Rodrigo Emílio, que de várias maneiras está presente neste Torneio.

O Rodrigo desafiou-me para esta empresa, há uns bons 8 anos, enchendo-me de folhas com poemas e textos sobre Dom Nuno, muito a seu jeito. Este projecto foi sendo adiado por uma razão ou por outra, e somente agora que o nosso Herói foi promovido a Santo, pelo Outro Rei , é que eu tive licença de o acabar. Tinha que ser assim!

È um CD para Portugueses admiradores e herdeiros e seguidores das formaturas de 1143, 1385, e 1640 , gente que não tem por hábito pôr-se em bicos dos pés, que só aparece quando é necessária. Gente anónima, modesta, desinteressada e corajosa. Gente que não discute nem põe em causa Portugal, gente que dá sem receber . È para todos esses que eu canto!

Dediquei “Por Portugal e Mais Nada“ a S.A.R. o Senhor Dom Duarte, Duque de Bragança, décimo sexto neto de Dom Nuno e do Mestre de Avis. Faço-o por respeito, por admiração e principalmente por devoção a uma causa que precisa urgentemente de um novo Mestre que, como canta Rodrigo Emílio: – “ Ponha a andar daqui o Andeiro!”.

A todos os que estiveram presentes no “Rodrigamente Cantando” e na “Mensagem à Beira -Mágoa “ quero agradecer o apoio. Espero encontrar-vos de novo neste caminho Português Por Portugal – e Mais Nada!” Lisboa , Outubro de 2009.

Este CD só disponivel em finais de Outubro, pode ser encomendado desde já , pelo email largodocarmo@gmail.com

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