Arquivo de Outubro 2013

Vassoura atrás da porta

Outubro 28, 2013

por Nilto Maciel

Everardo Norões me presenteou com cinco livros da Companhia Editora de Pernambuco. Exerce ele o cargo de presidente do Conselho Editorial. Os impressos são O sanfoneiro do Riacho da Brígida, de Sinval Sá; 100 Poemas escolhidos, de Mauro Mota; Um sertanejo e o sertão, de Ulysses Lins de Albuquerque; Mulheres e rosas – Vida e sonho – De monóculo, de Austro-Costa; e A personagem dramática, de Rubem Rocha Filho.

Lidos, passeio-os a Cleto Milani, tão carente de publicações (como eu nos primeiros anos de vida). Depois de crescido, enchi a casa de brochuras e calhamaços. Agora tenho dificuldade de me locomover entre as estantes. Sinto-me, às vezes, perdido em labirinto. Muitos de meus sonhos se passam em corredores estreitos, escuros, imbricados. Desejo sair, aspirar o mundo, ver o Sol ou a Lua, encontrar pessoas, avistar animais e árvores. Acordo suado, a gritar por socorro.

Cleto reapareceu semana passada. Apresentei-lhe os cinco objetos e dediquei duas ou três frases aos autores. Dos cinco, só tive contato com Sinval Sá, meu professor de português no 3º ano do curso científico (se não me engano). Não sei como consegui dele exemplar autografado do romance O vinagre e a sede (Editora Leitura, 1965). Terá ofertado a todos os seus alunos? Sinval nasceu na Paraíba, de pais pernambucanos. Adolescente, mudou-se para Fortaleza, onde se formou em Letras e Direito e exerceu o magistério. Muitos anos depois, encontrei-o em Brasília, onde também morava. Puxava cachorrinho pela calçada da Avenida W-3 Norte. Reconheci-o e conversamos por uns minutos.

Tenho admiração pela poesia de Mauro Mota. Entretanto, não mergulhei em toda a sua profundidade. Meu conhecimento dela não chega nem perto de outras arquiteturas poéticas. Em Manuel Bandeira me perdi em noites de insônia, assim como em João Cabral. De Joaquim Cardoso examinei apenas dois ou três volumes. De Marcus Accioly guardo lembrança de coleção de muitas páginas. Porém, não me lembro do título.

Entre os autores guardados em minha memória (dos cinco aqui mencionados) está também Ulysses Lins de Albuquerque. E eu tinha ciência exatamente do escrito enviado por Norões. A leitura ocorreu num período de evocação do Nordeste. Eu morava em Brasília e, para matar a saudade, me entreguei a ler tudo quanto se referia àquele pedaço de chão seco. Nesse tempo eu pude compreender um pouco Suassuna, José Lins, Graciliano, Rachel, Zé Américo, Rodolfo Teófilo, Oliveira Paiva, Adolfo Caminha e muitos outros. Saudade danada de estar longe do sol, da alegria do povo e da beleza das meninas.

Meu amigo Cleto Milani (desculpem-me, ele e os leitores, pelo engano cometido em outra crônica, na qual o chamei de Milano), não titubeou e, sem solicitar nada, pegou e enfiou num saco os cinco tomos: “Trago de volta daqui a uma semana. Isso pode resultar em boa aula, seu Nilto”.

Na visita seguinte, o velhote do Benfica me pareceu sorumbático e abatido. Que tens, homem de Deus? Umas decepções, seu Nilto. Pois mas conte. Conto-as, se tuas oiças estiverem dispostas a acolher… Caí no riso. “Deixe de frescuras, Cleto, e vamos ao assunto de nosso interesse imediato”. (Deu-se assim mesmo, por brincadeira. Só tencionava chamar meu amigo à realidade). “Conseguiu, ao menos, manusear os papiros? Gostou ou sentiu dificuldades?” Remexeu-se no sofá e passou dez minutos a gaguejar: “Desse Austro-Costa nunca ouvi falar. Dos bardos por você citados, sim”. Sem a menor intenção de deixá-lo humilhado, não escondi minha ignorância: Também não sabia da existência de Austriclínio Ferreira Quirino. Ele riu: “Tanto o nome de batismo como o literário são muito esquisitos”. E quem é ele? Viveu entre 1899 e 1953. Há informação de cada obra, no prefácio: Mulheres e rosas é de 1922; Vida e sonho, de 1945; e De monóculo, 1967.

Meia hora depois do início de nossa conversação, ele resumiu em duas linhas o modo de escrever do vate pernambucano: “Não chega aos ombros de Manuel Bandeira, embora se manifeste também com estilo livre de certas amarras, próximo do coloquial”. Puxei-lhe as orelhas: “Não seja demasiadamente cáustico em relação ao poeta”. Como se não tivesse ouvido minhas palavras, dedicou-se a ler: “Abro a janela, espio a rua. / D’uma janela de terceiro-andar, / em noite velha assim, só tristeza insinua / a Cidade, molhada de Luar”. Não vejo tanta liberdade assim. Muitos e muitos poemas de Austro são pura elaboração artesanal. E recitei, em voz alta, o início de “Flores do céu”: “À hora cristã do Ocaso, o céu lembra um jardim / onde a Tarde, a sorrir, colhesse para mim / rosas de âmbar e sangue e de neve e oiro jalde, / azuis, vermelhas como os cravos de Oscar Wilde…”

Passamos ao compêndio de Rubem Rocha Filho (1939-2008), o de menor número de páginas (126). João Denys Araújo Leite, no prefácio, afirma: “A personagem dramática faz uma síntese admirável da história canônica do teatro ocidental de braços dados com a história do teatro brasileiro”. A coletânea tem 15 artigos, uma “nota final” e dois “adendos”. Cleto confessou ter dedicado pouca atenção a ela. Não sente atração pela dramaturgia (textos teatrais), nem pela história do teatro ou pela teoria do teatro. A fim de demonstrar superioridade em relação a ele, dediquei alguns minutos ao teatro: “Pois, embora tenha escrito apenas dois textos dramáticos (autos), não seja frequentador de teatros ou incansável leitor de Sófocles, Shakespeare e Molière, não recuso tragédias e dramas, nem estudos como este de Rubem”.

Trocamos mais farpas, verifiquei se a vassoura ainda se achava atrás da porta e perguntei a Cleto por suas alunas. Ele tentou me ludibriar e engrolou frases sem sentido. Livre dele, sentei-me diante do computador e redigi mensagem a Everardo Norões. Agradeci a prenda, prometi-lhe breve crônica e saí com Eva Calixto, jornalista por profissão e poetisa nas horas vagas. Fomos ao restaurante… Ora, isso não interessa a ninguém.

 

DIAS DE CRISE, TEMPOS INCERTOS

Outubro 25, 2013

por Paulo Timm

A data do título deste artigo é fatídica no mundo da economia.

Há cinco anos, em 2008, numa sexta feira dita negra, irrompeu a Crise Financeira nos Estados Unidos, da qual o mundo ainda não se recuperou. Naquele país, seus reflexos se fazem sentir numa crise social que polariza ideologicamente a nação. Mas o que foi ruim para o Francisco, beneficiou o Benedito.Azar dum , bem doutro, frisa o dito popular. E assim foi: Alguns países periféricos, como o Brasil, viraram ” emergentes” e , desta feita, conseguiram captar parte significativa da maré financeira que inundou o mundo em busca de oportunidades. Cresceu e multiplicou-se, embora com muitas vulnerabilidades estruturais. Ainda assim, o fantasma da crise ainda ronda os mercados ocidentais. Os Governos, todos, obrigados a sustentar o sistema financeiro, detêm uma dívida crescente, e se mostram fracos quando mais deveriam demonstrar capacidade de intervenção.

Em 1929 a data caiu numa quinta feira, também denominada “negra”. Foi quando deflagrou o “Crash” da Bolsa de Nova Iorque, do qual o mundo só viria se recuperar, mesmo, com a economia de guerra , entre 1938-1945. Emprego, empresas, países, desabaram. Um dos mais castigados foi a Alemanha, mercê da pesada dívida que lhe foi imposta como resultado da derrota na I Guerra de 1914-1918 e dos conflitos internos que não garantiram à frágil Republica de Weimar, comandada por uma esquerda mais frágil ainda, o controle da situação. Em 1933 Hitler sobe ao poder na Alemanha, rearma o país, recupera o emprego e o crescimento e, com grande apoio popular – verdadeiro delírio ! – se aventura às conquistas do III Reich. Deveriam durar mil anos, mas acabaram na sua derrota num bunker de Berlim em maio de 1945. Um desastre para a humanidade. Cerca de cem milhões de mortos. Mas, do caos, sobreveio uma nova era, a Pax Americana, cujas melhores imagens foram captadas e transmitidas para o mundo inteiro nas películas de Hollywood. Seu símbolo: o automóvel, este obscuro objeto de desejos… Durou até 2008.

Mas por que há crises, que assolam as economias capitalistas de tempos em tempos , como verdadeiras epidemias, prostrando-as à quase inanição, quando não à guerra?

Não existe uma resposta consensual , do ponto de vista da ciência, à esta indagação.

Os conservadores vêem na crise a destruição criadora de novos horizontes. É o preço da liberdade dos mercados.

A esquerda encontrou durante muitas décadas, em Marx, sua inspiração, justamente pela “promesse de bonheur” de um socialismo sem crises.

Karl Marx, filósofo alemão, dedicou sua vida a estudar a lógica do Capital, que estaria fadada a produzir crises. Ele foi o fundador do socialismo moderno, pretensamente científico, até pela época em que surgiu, quando o iluminismo lançava as pretensões de soberania da razão sobre todos os feitos da natureza e do homem. E indicou o caminho para o entendimento das crises: a exploração dos trabalhadores, que jamais receberiam a totalidade dos valores produzidos, em decorrência da subtração operada pelos donos dos meios de produção. A “mais-valia”. Daí o grito do “Manifesto Comunista” , em 1848, que ainda reverbera por todos os cantos da Terra como um libelo : “Trabalhadores de todo mundo: Uni-vos!” Para expropriar os expropriadores. Certo ou errado, científico ou não, o brado vinha carregado de paixões capazes de mover as engrenagens da história . Desde então, Revoluções Socialista pipocaram, sempre na esperança de criar uma nova era de prosperidade sem crises para todos.

Por trás desta vaga noção de tendência inexorável ao sub-consumo havia, entretanto, no próprio Marx, uma idéia mais precisa sobre a inevitabilidade do socialismo. Ela está na descontinuidade entre a Produção de Mercadorias, definida a priori pelos empresários que decidem “animalmente” quanto, onde e como produzir, na perspectiva de que, vendidos seus produtos, realimentem a valorização dos capitais empregados no processo, realizando a expectativa de lucro. Ou seja, a produção não obedece a nenhum plano prévio que garanta, efetivamente, que, aquilo que se produz, é o que o mercado deseja. Aí está, aliás, a essência da Livre Iniciativa. Tudo flui como se, magicamente, uma mão invisível fosse acomodando as decisões de investir com os apetites do mercado. Esta explicação apontava, desde Marx, para a necessidade de não apenas expropriar os expropriadores por razões estritamente morais, mas por imperativo da razão: a necessidade de um plano. O produto social, aquilo que chamaríamos hoje de PIB, não é nada mais nada menos do que o resultado do trabalho humano, acionado, por suposto, por máquinas e equipamentos. E, como todo trabalho humano, como uma casa, ele deve começar idealmente concebido na cabeça de quem o produz. Como levantar uma casa sem um projeto? Como montar uma economia social sem um Plano ? Pretendia Marx – e os socialistas que lhe seguiram os passos – , com este Plano evitar as catastróficas crises, eis que, doravante tudo obedeceria às reais necessidades dos trabalhadores.

Os tempos demonstraram que tanto a hipótese do sub-consumo como a das crises de realização não são necessariamente imperativos para uma economia centralmente planificada capaz de ludibriar o subdesenvolvimento e as descontinuidades entre oferta e demanda.. Um grande debate entre economistas marxistas no final da década de 60 , na Europa, o admitiu. Mas não é , aqui, o lugar para rememorar este valioso debate.

Sobreveio, então, a Teoria do Capitalismo Financeiro, também com raízes nos clássicos do marxismo, especialmente Rudolf Hilferding, no início do século XX, que já demonstrava os riscos de que houvesse um descolamento da acumulação financeira do mundo real da economia, levando-a à depauperação e à crise. De certa maneira, isto é o que vem ocorrendo nos últimos decênios, quando, mercê da extrema concentração dos negócios mundiais em torno de 147 conglomerados, num contexto de agudização da concorrência mundial pela entrada dos produtos asiáticos, já não se possa isolar a acumulação real da acumulação financeira parasitária. Mesmo os países ditos desenvolvidos do pós-guerra tendem a responder à maior concorrência externa mediante um forte endividamento das famílias e do Estado, com o que falseiam suas posições reais. Um dia, uma hora, um certo 24 de outubro, ou outro dia qualquer, cai não só a casa, mas todo o edifício. Uma das principais conseqüências da perda de posições destes países na corrida da produtividade é a adoção de políticas internas de forte repressão salarial, através da precarização do trabalho e perda de direitos trabalhistas tradicionais, com o que realçam os sintomas do sub-consumo e das crises de realização, transferindo as pressões potenciais para um futuro incerto. Quanto mais um país recorre a tais expedientes mais ele se demonstra capaz de enfrentar a crise e a concorrência, como vem acontecendo com a Alemanha. Mas represa no seu interior não só contradições insuportáveis, como tensões humanas insuportáveis na sua classe trabalhadora, levando-a a preferir um ganho mínimo do Seguro Social a aventurar-se num mercado de cartas marcadas de baixa remuneração. Isto quando não o sumário absenteísmo e a generalizada depressão, desinteresse pela vida e até pelo sexo – caso do Japão é clássico ! – e até mesmo suicídio.

E qual a saída? Ou saídas?

Tampouco há consenso sobre o que fazer diante da atual ou futuras e mais graves crises econômicas. De uma maneira geral pode-se dizer que hoje todos sabem o que não querem – o capitalismo devorador – , mas ninguém consegue vislumbrar um caminho alternativo. Desde já, a hipótese da Revolução Socialista parece completamente fora de cogitação.

O diagnóstico das economias ocidentais é claro: perda de dinamismo e alto endividamento.

O caminho em curso é o do aperto fiscal, paralelo ao corte de benefícios sociais. Mesmo Obama, que aparentemente se enfrenta a uma onda superconservadora, tem seguido este modelo. É o Governo americano que menos gastou, relativamente, nas últimas décadas.

Outra alternativa, radical, seria o calote mundial de todas as dívidas. Com esta medida a super exploração parasitária do capital financeiro sofreria um golpe devastador e poderia animar a retomada de investimentos no campo real da economia.

Um terceiro caminho, que vem sendo lentamente insinuado pelas autoridades monetárias americanas, seria a adoção de um processo de inflação controlada, o qual levaria, num prazo razoável, à redução do peso relativo das dívidas no montante das rendas das família e Governos.

Enquanto, portanto, fermentam as distorções sociais sob o comando de menos de 1% da população do globo que toma decisões, esperamos para ver qual futuro nos espera. Se é que o teremos… Pois nunca podemos esquecer o quarto caminho, como previu Einstein:

” Eu não sei como será a III Grande Guerra, mas sei que a IV será com paus e pedras…

 

LIBERDADE DE IMPRENSA

Outubro 24, 2013

por Ives Gandra da Silva Martins

Todos os regimes tendentes à ditadura são favoráveis ao controle a mídia. É a forma de não serem investigados e, no exercício do poder, agirem sem tutela e sem que o povo saiba o que ocorre nos porões do poder.

Vimos que países como a Alemanha de Hitler, Cuba de Fidel, a Rússia de Stálin, Chile de Pinochet, Itália de Mussolini e outras ditaduras conhecidas sempre controlaram a imprensa para que pudessem livremente manipular o povo.

Na atualidade, Venezuela e Argentina, com Maduro e Cristina tudo fazem para calar os meios de comunicação livres. O sucesso maior foi de Maduro, hoje um quase ditador naquele país, que, inclusive, silenciou os órgãos contrários ao governo, impondo a venda do mais importante canal de televisão a seus amigos. Desta forma, seu desgoverno na nação em que há alta inflação e baixo crescimento e, em que tudo falta inclusive papel higiênico –sem qualquer alusão às limpezas que devem lá ser feitas no país pelos estragos que causou–, não pode ser desconhecido.

O mesmo ocorre na Argentina, em que pese ter maiores anticorpos democráticos.

No Brasil, quanto mais os governos de esquerda falham –veja-se a alta inflação, baixo PIB, máquina administrativa adiposa e outros ingredientes de uma política sem rumo- a idéia de controle da mídia volta a ser proposta pelo partido da presidente.

Fala-se que a sociedade organizada é que deveria controlá-la. Ora, não há sociedade organizada de esquerda, que normalmente monta, com um pequeno número de pessoas suas associações civis, e se manifesta como se falasse em nome de 193 milhões de brasileiros!!!

A sociedade organizada é aquela que vota. E a sociedade desorganizada é aquela que vai às ruas para denunciar o que não gosta.

Ora, a mídia constitui os pulmões da sociedade e para ser livre não pode ser tutelada nem pelo governo, nem por pequenas instituições criadas para dar respaldo aos donos do poder.

A garantia maior da democracia, não vem dos governos, mas da investigação permanente da mídia. E esta deve ser sempre livre.

 

Mario Benedetti: Memória e esquecimento

Outubro 23, 2013

Por Dalila Teles Veras

Tempos atrás, andei empenhada em traduzir poemas de Mario Benedetti.  Cheguei a publicar na revista A Cigarra alguns deles e deixei na gaveta (ops! no arquivo do word) muitos outros, talvez por conta da insegurança (traduzi, como se sabe, é trair e… daí o temor). Ontem, revolvendo esses arquivos deu-me vontade de voltar à tradução. Antes, a título de “teste” deixo aqui um deles (tradução inédita), a ver se resiste à leitura crítica de alguns dos meus eventuais leitores. Se der certo, publicarei outros:

 HAVIA ESQUECIDO

Havia esquecido do carnaval e suas matracas

das insônias depois de cada prova

dos barriletes com lâminas de barbear

dos seus trezentos soldadinhos de chumbo

havia esquecido das tardes no rio

dos cavalos que desenhava com crayon

da primeira ereção / o primeiro salário

dos imundos bordéis na fronteira

havia esquecido da formosa pequenina

violada por seus milicos subalternos

do vômito rubro daquele estudante

que não estava disposto a delatar

desnudo em seu pouco de consciência

da surdez das árvores avós

quando ele passava assobiando ou soluçando

porém um dia o temporal da memória

caiu sobre sua calva tão lustrosa

e sentiu o incômodo de já não ser

o gurizinho de velhas primaveras

de saber-se um órfão de amores

um náufrago de pátrias um ausente

e o assaltou a cruz dos indigentes

a pele da violada que não pôde chorar

as máscaras que imitavam seu rosto

e o embuste o banhou aos borbotões

a purulência de sua vida de cruel

e praguejou longa e tartamudamente

diante do esquecimento, o intratável esquecimento

quando o viu tão cheio de memória

 

SE HABÍA OLVIDADO

Se había olvidado del  carnaval  y sus matracas

de los insomnios después de cada examen

de los barriletes con hojas de afeitar

de sus trescientos soldaditos de plomo

se había olvidado de las tardes en el rio

de los caballos que dibujaba con crayolas

de la primera erección / el primer sueldo

de los mugrientos quilombos en la frontera

se había olvidado de la preciosa chiquilina

violada por sus milicos subalternos

del vómito rojo de aquel estudiante

que no estaba dispuesto a delatar

del nudo en su poquito de conciencia

de la sordera de los árboles abuelos

cuando él pasaba silbando o sollozando

pero un día el chaparrón de la memoria

cayó sobre su calva tan lustrosa

y sintió el bochorno de ya no ser

el gurisito de viejas primaveras

de saberse asimismo un huérfano de amores

un náufrago de patrias un ausente

y lo asaltó la cruz de los menesterosos

la piel de la violada que no pudo llorar

las máscaras que imitaban a su rostro

y lo bañó el embuste a borbotones

la purulencia de su vida de cruel

y puteó larga y tartajosamente

ante el olvido el intratable olvido

cuando lo vio tan lleno de memoria

Mario Benedetti nasceu em Paso de los Toros (Departamento de Tacuarembó) Uruguai, em 14 de setembro de 1920 e faleceu em Montevideu em 17 de maio de 2009. A família mudou-se para Montevidéu quando ele tinha 4 anos, cidade em que passou toda a sua vida, excluindo-se um longo exílio de 12 anos (vividos na Argentina, Peru, Cuba e Espanha).

Autor de mais de 60 livros (romances, novelas, teatro, ensaios e poesia), traduzidos em mais de 20 idiomas,  é considerado um dos grandes nomes da literatura hispânica do Século XX, com uma bagagem considerável de prêmios mas, inexplicavelmente, ainda muito pouco lido e traduzido entre nós. Com exceção de alguns romances publicados no Brasil, como o excepcional A Trégua, com duas traduções brasileiras diferentes, a sua poesia só veio a ser editada em livro no Brasil em 1988 (Antologia Poética, tradução de Julio Luís Gehlen, Editora Record). Ele próprio, considerava-se antes de tudo um poeta, gênero onde, seguramente, realiza a sua melhor escritura. Este poema integra o volume “El olvido está lleno de memoria”, de 1994, no qual, o poeta mantém a fidelidade ao coloquialismo antilírico, uma linha já apontada no seu primeiro livro de poesia “Poemas de la oficina”, de 1956.

Hino ao Meu País

Outubro 22, 2013

por Euclides Cavaco

Neste hino ao meu País

feito poesia
canto as lembranças
que Dele nunca esqueci
exaltando em gesto de nostalgia
nos versos meus
a Pátria linda onde nasci.

São como flores
as lembranças que hoje canto
que transformaram
o meu peito num jardim
cultivado com o amor
de querer tanto
à Terra Mãe
de que gosto tanto assim.

Cada lembrança
é uma pétala viçosa
que vai comigo
sempre no coração
para toda a parte aonde eu for.
E junto a mim
ela se sente orgulhosa
de pertencer à tão sublime
e minha amada Flor.

Canto aqui neste poema
a gratidão à Pátria
a que toda a vida tanto quis
que deixo transparecer com emoção
neste hino de tributo
ao meu País !…

II Congresso da Cidadania Lusófona

Outubro 22, 2013

ccl CABO “II Congresso da Cidadania Lusófona” está aberto a todas as Associações da Sociedade Civil do Espaço Lusófono, privilegiando nós, para garantir um maior equilíbrio na representação, as Associações não sediadas em Portugal.

Está já marcada a data do II Congresso da Cidadania Lusófona: será no dia 16 de Abril, de novo na Sociedade de Geografia de Lisboa. Uma vez mais coordenado pelo MIL: Movimento Internacional Lusófono e pela Sphaera Mundi: Museu do Mundo, no âmbito da PASC: Plataforma Activa da Sociedade Civil, pretendemos com este Congresso sedimentar, desde logo, esse novo conceito de “cidadania lusófona”, ampliar a Plataforma de Associações Lusófonas (PALUS) entretanto criada – que congrega já cerca de uma centena de Associações da Sociedade Civil de todo o espaço da Lusofonia –, dando em particular resposta à seguinte questão: “Que prioridades na cooperação lusófona?”.

Um ano após termos lançado esse novo conceito de “cidadania lusófona”, ainda há muita gente, com efeito, que o estranha. Assumimo-nos, naturalmente, como cidadãos portugueses, por um lado, e como cidadãos do mundo, por outro. Assumimo-nos ainda, com a mesma naturalidade, como cidadãos europeus. Mas ainda não nos assumimos tão naturalmente como cidadãos lusófonos. Seguindo o célebre “slogan” de quem assumiu como sua Pátria a língua portuguesa (falamos, claro está, de Fernando Pessoa), “primeiro estranha-se, depois entranha-se”. Chegará o dia em que, naturalmente, nos assumiremos, todos, como cidadãos lusófonos.

Tal como ocorreu no I Congresso, também neste se entregará o Prémio Personalidade Lusófona, promovido pelo MIL, com o patrocínio do Instituto Internacional de Macau. Depois de já termos premiado Lauro Moreira, Ximenes Belo, Adriano Moreira e, mais recentemente, Domingos Simões Pereira, ex-secretário-executivo da CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, o premiado deste ano será Ângelo Cristóvão, em reconhecimento de todo o seu incansável trabalho em prol do reforço dos laços entre a Galiza e a Lusofonia. A Galiza faz parte, por direito próprio, da Comunidade Lusófona, independentemente do seu estatuto político no Estado Espanhol, que não pomos em causa. Eis, a nosso ver, o que deveria ser igualmente reconhecido por todos os Estados da CPLP, a começar pelo Estado Português.

Tal como aquele que decorreu em Abril de 2013, também o II Congresso reunirá uma série de personalidades que, na teoria e na prática, muito se têm batido pelo reforço dos laços entre os países e regiões do espaço da Lusofonia – no plano cultural, desde logo, mas também no plano social, económico e político. Falamos, entre outros, de Adriano Moreira, que será o Presidente Honorário deste Congresso. Falamos também de uma série de Associações da Sociedade Civil, de todo o espaço da Lusofonia, que estão cada vez mais conscientes da importância estratégica deste desígnio. Como resultou do I Congresso, face à inércia dos diversos Governos, sempre mais preocupados com as próximas eleições do que com desígnios estratégicos, é à Sociedade Civil que cabe, em primeiro lugar, abrir este caminho. Vamos a isso.

Sede do MIL: Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa) Telefone: (+351)967044286

www.movimentolusofono.org

info@movimentolusofono.org

PASC: Plataforma Activa da Sociedade Civil

www.pasc-plataformaactiva.org

Caso pretenda participar, preencha esta Ficha de Inscrição e envie-a, até 31 de Dezembro, para o nosso e-mail: cidadanialusofona@gmail.com

FICHA DE INSCRIÇÃO II CCL 16.04.14.docx (349135)

Fonte: http://cidadanialusofona.webnode.com/

A Cara da Morte

Outubro 18, 2013

por Cyro de Mattos

Queria acompanhar um enterro e ver  pela primeira vez  como era que  enterravam o defunto no cemitérioO enterro às vezes passava pela rua do comércio. As pessoas cabisbaixas atrás  seguiam o caixão com o defunto, que era levado pelos homens mais jovens. Quando cansavam,  revezavam-se. Outros homens seguravam agora nas alças do caixão, e o cortejo prosseguia em silêncio na rua de chão batido. Contornava a rua do comércio, rumo ao cemitério.

Gente parava nos passeios, tirava o chapéu em sinal de respeito ao morto,  curiosos apareciam na porta das lojas. Ficavam olhando o enterro  passar  com as  pessoas tristes. Algumas levavam flores nos braços, os parentes e amigos do morto. Quando era enterro de criança, meninos e meninas  acompanhavam o cortejo à frente do caixão,  vestidos como  anjo  num camisolão de cetim branco,  uma coroa de flores na cabeça. Tinham asas feitas com penas de galinha, presas às costas. Levavam flores alvas e cantavam canto de igreja com os pequenos corações contritos.

A primeira  vez que vi um enterro de  criança soube então  que menino como eu também morria. Ia para o céu, claro, o padre dizia isso na missa, que Jesus gostava muito das crianças porque eram puras, não tinham os pecados de  gente grande.

Mas o que era a morte, comecei a indagar lá em casa. A mãe falou que era uma mulher feia, mas quem acreditava em Jesus e seguia os preceitos que o filho de Deus ensinava não devia temê-la. Quando ela chegava para carregar uma pessoa  para o além, que é o outro mundo, quem  foi bom aqui nesta terra, não cometeu pecado pesado, vai  ter o seu anjo de guarda para levar a  alma para morar na casa de Nosso Senhor. Quem foi mau, cometeu os piores pecados, como matar o semelhante,  a morte leva a alma dele para o fogo do inferno. Quem foi ora bom, ora mau, vai ser levado  para o purgatório, uma espécie de lugar onde a alma fica sofrendo pelos pecados menos pesados que cometeu  até se purificar e alcançar o perdão de Deus.

Tudo isso que a mãe explicava sobre a morte podia ter sua verdade e até me  convencia em parte sobre o que essa mulher  feia  gostava de fazer a cada pessoa que levava para outras terras. Só não gostava quando  perguntava  se um menino  depois de morto podia voltar de novo para brincar com os amigos aqui na terra, e a mãe revelava   que nunca ninguém soube que isso já havia acontecido um dia.

–  Então a morte que vá  comer bosta de galinha! – dizia eu, fazendo com que minha mãe desse uma boa risada.

Quando perguntava ao pai o que era a morte, ele prontamente dizia que com ele a bicha imunda não viesse se fazer de prosa. A taca de couro grosso estava ali mesmo guardada no baú para dar umas boas tacadas na indesejada, se ela  algum dia entendesse de querer lhe fazer uma visita.

Sorria agora eu, satisfeito com a coragem  que o pai demonstrava para fazer correr a morte, se ousasse aparecer lá em casa. Ia receber na mesma hora  uma boa surra aplicada nas costelas dela com a taca de couro grosso.

Naquele dia resolvi acompanhar o enterro que passava pela rua do comércio com poucas pessoas. No início acompanhei de longe, precavendo-me para que algum amigo de meus pais não me visse e fosse  contar depois  o que eles certamente não  aprovariam. Ficariam zangados e me colocariam de castigo. Proibido de brincar com os amigos por vários  dias.

Quando da ladeira em que o enterro subia vagaroso se avistou o muro do cemitério, aproximei-me por trás das pessoas que participavam daquele cortejo calado, com seus ares tristes. Pouco depois, entrava com o enterro  no cemitério, que eu via pela primeira vez e que  me deu com seus ares sombrios um frio na barriga, como nunca tinha sentido. Tímido passei os olhos pelas  galerias com muitas gavetas  tapadas com tijolos, pintadas de cal. O nome do falecido inscrito em cada gaveta. Observei capelas com retrato dos falecidos lá dentro, escultura de homens  importantes em cima dos mausoléus de mármore. Lá embaixo, a terra cheia de cruzes  indicava  covas rasas, provavelmente ali  os pobres eram enterrados. Foi para lá que o enterro se dirigiu.

 A cova já estava cavada num buraco para receber o caixão com o morto.  Antes de descerem o caixão, a mulher de cabelos brancos, num vestido pobre, pediu que tirassem a tampa. Queria ver o marido pela última vez. Ela  passou a mão no rosto do morto, que estava preto feito  carvão, os olhos fechados. A mulher começou a chorar alto. Esperei que  descessem devagar o caixão no buraco, estava amarrado com cordas grossas pelas alças..O coveiro jogou depois pás de terra, que aos poucos foi enchendo o buraco. A mulher continuava a chorar alto. Comecei também a chorar e, antes que ouvissem meu choro, fui saindo dali nervoso, tropeçando nos passos.

 


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