As Raízes Portuguesas na Arte Colonial Brasileira

Por João Alves das Neves

Recentemente, foi divulgada a inesperada controvérsia sobre um retábulo sacro pintado sobre madeira que está sendo disputado entre as igrejas matriz da cidade paulista de Mogi das Cruzes e a igreja de Nossa Senhora do Brasil, na capital paulistana. Não foram revelados informes sobre o valor artístico do retábulo, nem tão pouco o que representa a imagem, mas tão somente que a peça religiosa datará de 1749. Quer dizer, a pintura é do tempo em que o Brasil era uma colônia portuguesa.

Curiosamente fala-se com freqüência da arte colonial, mas somente os especialistas costumam identificar, o riquíssimo acervo das cidades históricas de Minas Gerais que valoriza singularmente o barroco colonial, embora esse patrimônio assuma outras variações em Portugal e em alguns países ocidentais. Os estudos comuns da arte colonial pouco informam e a maioria dos dicionários quase nada esclarecem, mas o que tem de ser admitido é que a arte colonial, religiosa ou não, no caso do Brasil, revela com certeza o espírito lusíada, isto é, tem raízes lusitanas, apesar de realizada na terra brasileira.

O Atlas Cultural do Brasil do Conselho Federal da Cultura do Brasil, coordenado por mais de uma dezena de especialistas de diversas áreas certifica: “As Artes Plásticas no Brasil da era colonial se distinguem em dois períodos de autoria distinta. O primeiro se manifesta com maior relevância no século XVII, e seus principais autores são religiosos, monges e irmãos, europeus e nativos. Desses, mencionam-se com destaque os beneditinos Agostinho da Piedade, escultor, português de origem, que faleceu na Bahia em 1661; seu discípulo, Agostinho de Jesus, fluminense; o pintor Frei Ricardo do Pilar, originário de Colônia, Alemanha, falecido no Rio, em 1700, contemporâneo e companheiro de trabalho do toreuta entalhador Frei Domingos da Conceição da Silva. Entre os jesuítas, citam-se diversos que aqui viveram e produziram, sendo difícil a identificação de cada autoria no acervo restante.

Por pesquisa histórica sabe-se da presença, entre Olinda e Bahia, dos pintores jesuítas quinhentistas Belchior Prado, Lagott, Baptista e Mendonça, porém sem obra remanescente. Na centúria seguinte através de um depoimento do Padre Antônio Vieira, sabe-se que Eusébio de Matos fora dotado de todas as artes, pintura inclusive, e que diversos outros jesuítas continuaram produzindo até o meados Setecentos, para o fausto da Igreja de Jesus (atual Catedral, de Salvador) entre eles, Domingos Rodrigues, Carlos Belleville e Francisco Coelho”.

“As tentativas de identificação de autoria tem falhado diante do enorme acervo jesuíta. Uma obra de notável destaque é o forro da primitiva sala da congregação e biblioteca do Colégio, executado na primeira metade dos Setecentos e único, em todo o País, de perspectiva aerial corrigida em relação a cada uma das figuras representadas e a cada elemento arquitetural figurado” (…)(1)

O esclarecimento é válido e poderemos estabelecer o paralelo recorrente das igrejas de Minas Gerais, entre outras do Brasil, mas principalmente pode relacionar-se com as informações do Atlas Cultural do Brasil e com os elementos reunidos nos milhares de verbetes do Dicionário de Artistas e Artífices dos Séculos XVIII e XIX em Minas Gerais (2), que documenta a conjugação de esforços de portugueses e lusos-descendentes (do Brasil) – talvez a maior parte de quantos trabalharam em terras mineiras não foram identificados, mas conseguimos referenciar cerca de uma centena de portugueses que trabalharam nos projetos e na construção dos inúmeros templos e de alguns palácios, espalhados pelo território mineiro, onde atuaram, no total, milhares de pedreiros, carpinteiros, ferreiros e toda a sorte de artífices, ao lado de centenas de artistas dos mais variados ramos, incluindo perto de uma boa centena de pintores, escultores e outros portugueses.

O patrimônio histórico e artístico de Minas Gerais é tão vasto e rico que ainda não foi inventariado no seu conjunto. E se há outros núcleos em diferentes lugares do Brasil eles se conjugam para testemunhar o engenho e arte dos que viveram na colônia que chegou a ser a sede do Reino Unido de Portugal e Brasil em condições que não sofrem comparações no mundo de ontem e de hoje.

O inventário da participação portuguesa no Brasil continua incompleto: faltam milhares de igrejas construídas no tempo da colônia, assim como certos museus, com destaque para o de Arte Sacra de São Paulo, que soube reunir uma grande série de peças religiosas de origem lusa, bem como várias instituições culturais dispersas pelo vasto território brasileiro.

(1) Os estudos reunidos no Atlas Cultural do Brasil foram editados em 1972 pelo Conselho Federal de Cultura (MEC/FENAME), então presidido pelo Prof. e Escritor Arthur Cézar Ferreira Reis.

(2) Publicado sob a direção de Judith Martins, com o apoio de numerosos colaboradores – o 1º. vol. tem 406 págs, e o 2º. conta 396 págs. (Publicações do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Rio de Janeiro, 1974).

(*) Escritor português residente no Brasil, autor de cerca de três dezenas de livros, a maioria dos quais sobre temas luso-brasileiros.”

Advertisements
Explore posts in the same categories: Artes Plastícas

One Comment em “As Raízes Portuguesas na Arte Colonial Brasileira”

  1. Leila Daibs Cabral Says:

    Conhecedora que sou, há muitas décadas, do empenho e da capacidade do Professor e Jornalista, João Alves das Neves, não poderia deixar de parabenizá-lo pela realização da noite memorável, de 20 de julho de 2010, no Clube Português de São Paulo, presenteando-nos com a palavra-autoridade de Teresa Rita Lopes, em torno das idéias políticas de Fernando Pessoa.
    Intelectual exemplar, João Alves das Neves sempre concedeu oportunidade de publicação aos interessados nos assuntos que versassem, não só sobre Fernando Pessoa, mas também sobre temas diversos,como os históricos, literários, sociológicos, políticos etc. nos veículos de imprensa por ele dirigido, aceitando e incentivando nossas modestas contribuições.
    Queremos, portanto, deixar aqui registrados nosso agradecimento e nossa admiração por mais uma de suas grandes iniciativas.


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s


%d bloggers like this: