Pessoa político, uma face que poucos querem ver

Por Vera Helena Amatti

 Fernando Pessoa é inegavelmente o gigante literário que assumiu quase 70 heterônimos e fizeram sua obra única no mundo. Em Portugal, entretanto, iniciava-se nos anos 20 a ditadura salazarista que teve, segundo o próprio poeta em uma de suas cartas, três fases distintas: a primeira, de simples defesa própria e de expectativa; a segunda, a de consolidação, obtida por ações enérgicas e controle de orçamento; e a terceira, integralista e preconizadora do Estado Novo, que revelaram Salazar, segundo Pessoa, “Francamente inimigo de duas coisas: da dignidade do Homem e da liberdade do Estado”.

O livro “Fernando Pessoa, Salazar e o Estado Novo”, de João Alves das Neves (Ed. Fabricando Idéias, Santo André-SP), nesse contexto, torna-se fonte de consulta e bibliografia compulsória para os estudos pessoanos, seja pelo ineditismo dos textos cuidadosamente pesquisados e escolhidos, ou pela organização e redação clara e elegante com que o autor expressa suas opiniões balizadas em mais de 60 anos de pesquisas e mais de seis livros sobre Fernando Pessoa. É autor também de 13 livros de ensaios, sendo que “A Nova África” e “Contistas Africanos de Expressão Portuguesa” foram proibidos pela ditadura salazarista.

O relevo dos estudos pessoanos de João Alves das Neves é reconhecido nacional e internacionalmente, com destaque para suas referências em recente livro do economista Gustavo Franco, e x-presidente do Banco Central, sobre o pensamento econômico do poeta. As informações contidas em artigos e livros de Neves, segundo Franco, foram fundamentais para inspirar o best seller “A Economia em Pessoa”,  publicado em 2007, pela Ed. Zahar.

Em seu novo livro, Neves, por meio de elementos presentes na obra de Pessoa, estabelece um diálogo de idéias entre a poesia, a epistolografia e a fortuna de críticas e ensaios do e sobre o autor. Na edição foi acrescido um dicionário breve, o que confere à publicação um formato leve, de agradável leitura. Paredes de texto, comuns em textos acadêmicos, nas novas edições cederam lugar a textos breves, pontuados e rapsódicos de jornalistas, a exemplo do ex-editorialista do jornal O Estado de S. Paulo e atualmente colaborador de inúmeros jornais e revistas luso-brasileiros.

Chamam atenção, logo de início, os cinco poemas recolhidos por João Alves das Neves e que representam o espírito de crítica bem-humorada com que Pessoa tratava questões delicadas, como a política salazarista. Em um deles, “Salazar”, publicado em 1960 no Suplemento Literário do Estadão, o poeta decompõe, ao estilo de Padre Vieira, o nome sugestivo do ditador: “Este senhor Salazar/ É feito de sal e azar,/ Se um dia chove,/ A água dissolve/ O sal,/ E sob o céu/ Fica só o azar, é natural.”. Em outro trecho, a ironia de Pessoa beira o sarcasmo: “Coitadinho/ Do tiraninho!/ Não bebe vinho,/ Nem sequer sozinho….”.

Entretanto, para tornar patente a resistência e quase aversão de Pessoa pelo poder descabido que Salazar adquiriu ao longo de sua trajetória na vida portuguesa, vale recorrer aos textos em prosa, especialmente o capítulo que trata do tema Ditadura e Ditador: “Para governar um país como chefe, falta-lhe, além das qualidades próprias que fazem diretamente um chefe, a qualidade primordial – a imaginação”.

O professor João Alves das Neves também fez questão de pesquisar as autobiografias pessoanas, entre elas a mais completa, publicada como introdução ao poema “À memória do Presidente-Rei Sidónio Pais” (Editorial Império, 1940), em que o próprio Pessoa define sua ideologia política: “(…) Conservador do estilo inglês, isto é, dentro do conservatismo, e absolutamente anti-reacionário.”

O argumento principal para os que defendem ter sido Pessoa até colaborador da ditadura salazarista está na publicação “O Interregno”, panfleto publicado em 1928, cujo subtítulo é sugestivo: “Defesa e justificação da ditadura militar em Portugal”. A ele, algum tempo depois, Pessoa interpôs objeção clara: “Dou hoje esse escrito por não escrito”, em revisão a suas opiniões e resposta aos críticos de suas posições políticas.

O professor Neves, com mais esta publicação, dá continuidade e aprofundamento à série de estudos pessoanos que perpassam sua poesia e mais recentemente, debruçam-se sobre suas outras facetas, inclusive a políco-econômica, menos conhecidas, mas não menos especuladas. 

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4 comentários em “Pessoa político, uma face que poucos querem ver”

  1. José Campos e Sousa Says:

    Esta preocupação de tentar colocar Pessoa no espectro político espanta-me. Pessoa está por cima da” apagada e vil tristeza”
    Realmente ele escreveu qualquer coisa de apoio ao Estado-Novo . Portanto não vamos negar-lhe o Direito e o dever de dizer o que lhe is na Alma naquele momento. Segundo Vera Helena Amati veio a Renegar aquilo que escreveu. Também está no seu pleno Direito
    No poema VIII do Guardador de Rebanhos chama Pomba Estúpida ao Divino Espírito Santo . Também se veio a Retratar dessa Blasfémia assim classificada por ele próprio.
    Quanto aos poemas jocosos contra Salazar . Escreveu-os porque lhe apeteceu Possívelmente se viesse ao Mundo Hoje também s se retrataria.
    Desculpem-me mas
    Tudo isto me parece ser mais uma preocupação Anti Salazarista do que uma preocupação Pessoana.
    Fernando Pessoa era um Génio?
    -Era !
    Fernando Pessoa Tinha um enorme Amor a Portugal?
    -Tinha
    Fernando Pessoa era um Nacionalista que nada tinha a ver com ideologias de esquerda ?
    – Era!!
    Tudo o mais é pó…

    José Campos e Sousa

  2. José Campos e Sousa Says:

    Peço desculpa
    Cancelo a emenda anterior e peço o favor de escreverem conforme o que segue

    … Possívelmente se voltasse ao Mundo hoje , também se retrataria…

    Obrigado
    José campos e Sousa

    • João Alves das Neves Says:

      Caro José Campos e Souza e Leitores.

      1. Se você, caro Amigo, ficou espantado com “o espectro político”, foi porque não leu bem as palavras do Poeta.
      2. Discordo da mistura que você faz da “pomba estúpida” com o pensamento político de Fernando Pessoa. E se o Poeta se declara arrependido da blasfêmia, que mal há nessa mudança?
      3. Temos que admitir que o anti salazarismo do escritor era um direito que ele tinha.
      4. Entendo que o nacionalismo pessoano foi muito oposto ao “nacionalismo” salazarista. É o puro nacionalismo da Mensagem, contrario aos radicais da Esquerda e da Direita.
      5. Assinalo que “O Interregno” de 1928 nada tem a ver com a ditadura constitucionalista de Salazar em 1933. Ora, texto de 1928 não pode ser “de apoio ao Estado Novo”.

      Abraços,
      João Alves das Neves

  3. Julio Says:

    Olá,

    Muito bom seu site, gostei muito dessa notícia.

    Outro ótimo website sobre lusofonia e linguística é o http://www.antenalinguistica.com.br

    Abraços,
    Julio Mascar


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