DIAS DE CRISE, TEMPOS INCERTOS

por Paulo Timm

A data do título deste artigo é fatídica no mundo da economia.

Há cinco anos, em 2008, numa sexta feira dita negra, irrompeu a Crise Financeira nos Estados Unidos, da qual o mundo ainda não se recuperou. Naquele país, seus reflexos se fazem sentir numa crise social que polariza ideologicamente a nação. Mas o que foi ruim para o Francisco, beneficiou o Benedito.Azar dum , bem doutro, frisa o dito popular. E assim foi: Alguns países periféricos, como o Brasil, viraram ” emergentes” e , desta feita, conseguiram captar parte significativa da maré financeira que inundou o mundo em busca de oportunidades. Cresceu e multiplicou-se, embora com muitas vulnerabilidades estruturais. Ainda assim, o fantasma da crise ainda ronda os mercados ocidentais. Os Governos, todos, obrigados a sustentar o sistema financeiro, detêm uma dívida crescente, e se mostram fracos quando mais deveriam demonstrar capacidade de intervenção.

Em 1929 a data caiu numa quinta feira, também denominada “negra”. Foi quando deflagrou o “Crash” da Bolsa de Nova Iorque, do qual o mundo só viria se recuperar, mesmo, com a economia de guerra , entre 1938-1945. Emprego, empresas, países, desabaram. Um dos mais castigados foi a Alemanha, mercê da pesada dívida que lhe foi imposta como resultado da derrota na I Guerra de 1914-1918 e dos conflitos internos que não garantiram à frágil Republica de Weimar, comandada por uma esquerda mais frágil ainda, o controle da situação. Em 1933 Hitler sobe ao poder na Alemanha, rearma o país, recupera o emprego e o crescimento e, com grande apoio popular – verdadeiro delírio ! – se aventura às conquistas do III Reich. Deveriam durar mil anos, mas acabaram na sua derrota num bunker de Berlim em maio de 1945. Um desastre para a humanidade. Cerca de cem milhões de mortos. Mas, do caos, sobreveio uma nova era, a Pax Americana, cujas melhores imagens foram captadas e transmitidas para o mundo inteiro nas películas de Hollywood. Seu símbolo: o automóvel, este obscuro objeto de desejos… Durou até 2008.

Mas por que há crises, que assolam as economias capitalistas de tempos em tempos , como verdadeiras epidemias, prostrando-as à quase inanição, quando não à guerra?

Não existe uma resposta consensual , do ponto de vista da ciência, à esta indagação.

Os conservadores vêem na crise a destruição criadora de novos horizontes. É o preço da liberdade dos mercados.

A esquerda encontrou durante muitas décadas, em Marx, sua inspiração, justamente pela “promesse de bonheur” de um socialismo sem crises.

Karl Marx, filósofo alemão, dedicou sua vida a estudar a lógica do Capital, que estaria fadada a produzir crises. Ele foi o fundador do socialismo moderno, pretensamente científico, até pela época em que surgiu, quando o iluminismo lançava as pretensões de soberania da razão sobre todos os feitos da natureza e do homem. E indicou o caminho para o entendimento das crises: a exploração dos trabalhadores, que jamais receberiam a totalidade dos valores produzidos, em decorrência da subtração operada pelos donos dos meios de produção. A “mais-valia”. Daí o grito do “Manifesto Comunista” , em 1848, que ainda reverbera por todos os cantos da Terra como um libelo : “Trabalhadores de todo mundo: Uni-vos!” Para expropriar os expropriadores. Certo ou errado, científico ou não, o brado vinha carregado de paixões capazes de mover as engrenagens da história . Desde então, Revoluções Socialista pipocaram, sempre na esperança de criar uma nova era de prosperidade sem crises para todos.

Por trás desta vaga noção de tendência inexorável ao sub-consumo havia, entretanto, no próprio Marx, uma idéia mais precisa sobre a inevitabilidade do socialismo. Ela está na descontinuidade entre a Produção de Mercadorias, definida a priori pelos empresários que decidem “animalmente” quanto, onde e como produzir, na perspectiva de que, vendidos seus produtos, realimentem a valorização dos capitais empregados no processo, realizando a expectativa de lucro. Ou seja, a produção não obedece a nenhum plano prévio que garanta, efetivamente, que, aquilo que se produz, é o que o mercado deseja. Aí está, aliás, a essência da Livre Iniciativa. Tudo flui como se, magicamente, uma mão invisível fosse acomodando as decisões de investir com os apetites do mercado. Esta explicação apontava, desde Marx, para a necessidade de não apenas expropriar os expropriadores por razões estritamente morais, mas por imperativo da razão: a necessidade de um plano. O produto social, aquilo que chamaríamos hoje de PIB, não é nada mais nada menos do que o resultado do trabalho humano, acionado, por suposto, por máquinas e equipamentos. E, como todo trabalho humano, como uma casa, ele deve começar idealmente concebido na cabeça de quem o produz. Como levantar uma casa sem um projeto? Como montar uma economia social sem um Plano ? Pretendia Marx – e os socialistas que lhe seguiram os passos – , com este Plano evitar as catastróficas crises, eis que, doravante tudo obedeceria às reais necessidades dos trabalhadores.

Os tempos demonstraram que tanto a hipótese do sub-consumo como a das crises de realização não são necessariamente imperativos para uma economia centralmente planificada capaz de ludibriar o subdesenvolvimento e as descontinuidades entre oferta e demanda.. Um grande debate entre economistas marxistas no final da década de 60 , na Europa, o admitiu. Mas não é , aqui, o lugar para rememorar este valioso debate.

Sobreveio, então, a Teoria do Capitalismo Financeiro, também com raízes nos clássicos do marxismo, especialmente Rudolf Hilferding, no início do século XX, que já demonstrava os riscos de que houvesse um descolamento da acumulação financeira do mundo real da economia, levando-a à depauperação e à crise. De certa maneira, isto é o que vem ocorrendo nos últimos decênios, quando, mercê da extrema concentração dos negócios mundiais em torno de 147 conglomerados, num contexto de agudização da concorrência mundial pela entrada dos produtos asiáticos, já não se possa isolar a acumulação real da acumulação financeira parasitária. Mesmo os países ditos desenvolvidos do pós-guerra tendem a responder à maior concorrência externa mediante um forte endividamento das famílias e do Estado, com o que falseiam suas posições reais. Um dia, uma hora, um certo 24 de outubro, ou outro dia qualquer, cai não só a casa, mas todo o edifício. Uma das principais conseqüências da perda de posições destes países na corrida da produtividade é a adoção de políticas internas de forte repressão salarial, através da precarização do trabalho e perda de direitos trabalhistas tradicionais, com o que realçam os sintomas do sub-consumo e das crises de realização, transferindo as pressões potenciais para um futuro incerto. Quanto mais um país recorre a tais expedientes mais ele se demonstra capaz de enfrentar a crise e a concorrência, como vem acontecendo com a Alemanha. Mas represa no seu interior não só contradições insuportáveis, como tensões humanas insuportáveis na sua classe trabalhadora, levando-a a preferir um ganho mínimo do Seguro Social a aventurar-se num mercado de cartas marcadas de baixa remuneração. Isto quando não o sumário absenteísmo e a generalizada depressão, desinteresse pela vida e até pelo sexo – caso do Japão é clássico ! – e até mesmo suicídio.

E qual a saída? Ou saídas?

Tampouco há consenso sobre o que fazer diante da atual ou futuras e mais graves crises econômicas. De uma maneira geral pode-se dizer que hoje todos sabem o que não querem – o capitalismo devorador – , mas ninguém consegue vislumbrar um caminho alternativo. Desde já, a hipótese da Revolução Socialista parece completamente fora de cogitação.

O diagnóstico das economias ocidentais é claro: perda de dinamismo e alto endividamento.

O caminho em curso é o do aperto fiscal, paralelo ao corte de benefícios sociais. Mesmo Obama, que aparentemente se enfrenta a uma onda superconservadora, tem seguido este modelo. É o Governo americano que menos gastou, relativamente, nas últimas décadas.

Outra alternativa, radical, seria o calote mundial de todas as dívidas. Com esta medida a super exploração parasitária do capital financeiro sofreria um golpe devastador e poderia animar a retomada de investimentos no campo real da economia.

Um terceiro caminho, que vem sendo lentamente insinuado pelas autoridades monetárias americanas, seria a adoção de um processo de inflação controlada, o qual levaria, num prazo razoável, à redução do peso relativo das dívidas no montante das rendas das família e Governos.

Enquanto, portanto, fermentam as distorções sociais sob o comando de menos de 1% da população do globo que toma decisões, esperamos para ver qual futuro nos espera. Se é que o teremos… Pois nunca podemos esquecer o quarto caminho, como previu Einstein:

” Eu não sei como será a III Grande Guerra, mas sei que a IV será com paus e pedras…

 

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