Dia D – E Agora, José?

Por Dalila Teles Veras

A poesia pertence a quem dela precisa, já aqui e alhures foi dito. Neste dia 31 de outubro, em que é celebrado o nascimento do nosso Poeta Maior, Carlos Drummond de Andrade, qualquer um de seus poemas me serviria, já que “me sirvo” deles sempre que posso e preciso, mas não resisto a postar aqui talvez o mais celebrado deles, José, publicado pela primeira vez em 1942 no volume Poesias. O conjunto de 12 poemas sob o título de José, ganhou neste ano pela primeira vez o direito a um volume (encantador objeto gráfico, diga-se) autônomo (Cia. das Letras), com um inestimável posfácio de Júlio Castañon Guimarães, que nos fala da história do poema, considerado por alguns como “o pomo das discórdia modernista” mas que acabou “tomando de assalto o nosso insconsciente literário”. Seu já emblemático primeiro verso, é quase um bordão do nosso imaginário coletivo, usado e abusado, paradiado,  musicado, citado em críticas, slogans publicitários e, claro, campanhas políticas. Neste outubro drummondiano em que o Brasil exerceu amplamente o seu dever cidadão e vontade democrática, aqui vai o poema na íntegra, acreditando novamente, além do inegável “poder” literário, no seu poderoso valor simbólico.

JOSÉ

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama protesta,
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,

seu terno de vidro, sua incoerência,
seu ódio – e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, pra onde?

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