Lusofonia e Transnacionalidade

por Michell Niero (*)

A recente crise da União Europeia aponta para as bases frágeis desse bloco que, para além da esfera econômica, possui dificuldades imensas para se unir política e culturalmente. Também puderá, não é fácil. Quando não se há identificação cultural, ou ao menos um esforço para tal, toda a idéia de unidade cai por terra. O que era tolerância vira facilmente ódio, justamente algo que vemos na forma como a questão da imigração intra-continental vem sendo tratada em períodos de recessão.

A problemática do bloco em  não ter um parlamento europeu, capaz de representar e levar ao debate todos os vieses políticos e sociais da Europa reduz as decisões ao cumprimento do velho receituário neoliberal de entidades supostamente transnacionais como FMI e Banco Mundial. Uns perdem, outros perdem menos, muitos perdem muito, poucos ganham.

A ideia deste artigo, porém, não é tratar da UE e sim buscar no mundo algo que vá além da união por interesses econômicos. Aliás, esse é justamente o objetivo do Patifúndio, que ao colocar a diversidade cultural à frente dos interesses comerciais leva a mais de dois anos uma oportunidade de aprendizado sobre populações que falam, cada uma a seu modo, um mesmo idioma.

Lusofonia por Oportunismo

O mundo lusófono forma um bloco transnacional não oficial que conta com mais de 220 milhões de habitantes. Dentro desse bolo, é verdade, muitos que não falam português, mas que de alguma forma se reconhecem como pertencentes a uma aldeia, a uma comunidade, a uma cidade, estado ou país. O princípio reside justamente nessa oportunidade fantástica de rasurar fronteiras e pensar além do que os mapas nos livros de geografia nos dizem.

Então porque o modelo atualmente mantido pela CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) não decola? Recentemente vimos alguns esforços para que alguns países cuja língua não é propriamente o elemento que justificaria a entrada na comunidade. Guiné Equatorial, por exemplo, país que vive uma triste situação de pobreza extrema aliado a um cenário político marcado por uma ditadura comandada por Teodoro Obiang desde 1979, se tornou membro observador mesmo com uma população ínfima falando fá d’ambô, idioma crioulo com base lexical portuguesa.

O que poderia representar uma evolução conceitual da lusofonia é, na verdade, uma busca oportunista por novos acordos econômicos ligados principalmente ao petróleo, e só.  Por decreto a hispânica Guiné Equatorial “fala” português desde 2008. Outras mudanças estão previstas para que o país da África ocidental adentre à comunidade,  mudanças essas que não passam necessariamente para uma guinada democrática tampouco em combater as violações aos direitos humanos. É um ajuste aqui e outro acolá para que o presidente de Angola, atual presidente da CPLP, bata o carimbo.

Mas afinal, que democracia é essa que legitima a união numa só comunidade países como Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e Brasil? Isso sem falar nos  direitos humanos, pois aí a discussão seria longa.  Então, de certa forma, Guiné Equatorial tem seu direito adquirido de requerer sua entrada, tendo em vista a porosidade dos valores que supostamente procuram criar um sentimento de união nesse organismo transnacional.

Lusofonia pela Cultura

Embora seja esse nosso objetivo, unir a partir das diferenças culturais pode se tornar também um sustentáculo frágil de ser mantido se não haver em conjunto transformações sociais e políticas que pavimentem esse caminho. É só olhar para dentro de cada país lusófono e veremos que a intolerância cultural, seja pela religião, pela etnia, pela cor da pele, pela origem migrante ou imigrante são empecilhos que numa situação transnacional apenas ganhariam maiores proporções.

No Brasil, meu país e, portanto, local onde tenho maior intimidade para falar a respeito, vimos recentemente nas eleições presidenciais de 2010 um quadro de relativa intolerância religiosa e regional determinante para o resultado final do pleito. Foram comuns na Internet mensagens de ódio à população nordestina (votantes majoritariamente em Lula e Dilma) e manifestações religiosas por parte de grupos evangélicos contra o aborto e à união civil entre gays. Até mesmo a suposta homossexualidade da então candidata Dilma Rousseff foi ventilada para desmoralizá-la.

O livre exercício da opinião se mostrou, na verdade, um artifício sustentado pela sociedade e pela imprensa para evitar o contraditório nos debates. Uma estratégia que deu certo. No mínimo um caldeirão cultural que merece o sinal amarelo da reflexão; no mínimo uma situação que nos serve para eliminar de uma vez por todas a imagem de que o Brasil é um país tolerante racial, cultural e socialmente. Falta muito pra gente chegar lá.

Pan-africanismo, iberismo, tropicalismo… e o resto?

Seria mesmo possível unir de fato culturas tão complexas e diferentes entre si, economias muitas vezes voltadas para si, sistemas políticos desconectados internacionalmente, a valores e ideais universalistas?

Sem querer procurar uma solução definitiva mas iniciar um debate, creio que pode ser um caminho iniciar um movimento do micro para o macro para assim tentar construir antes de tudo identidades que possam dialogar-se e aprender reciprocamente. Transferência de tecnologia, formação de mão de obra capacitada, cooperação na esfera acadêmica, tudo isso já existe mas quase sempre para um único fim: aquele que acredita que um país se desenvolve apenas pelo crescimento econômico.

Dentro do continente africano existe um esforço para que se crie uma força transnacional que possa garantir soberania política e econômica. O pan-africanismo avança e dentro dele existe os PALOP (países africanos de língua oficial portuguesa), que pode não apenas colaborar para fortalecer o continente como contribuir para aprimorar o conceito de lusofonia.

Na península ibérica o iberismo busca unir Portugal e Espanha a partir das relações históricas e culturais entre as duas nações.  A possibilidade de incluir o idioma espanhol dentro do mundo lusófono é interessante não apenas no contexto europeu como também na esfera latino-americana, onde a proximidade histórica e cultural hispânica também convive com a lusofonia brasileira.

A lusofonia é um local imaginário onde o clima tropical determina muito as relações sociais, culturais, políticas e econômicas mantidas nesse território. O tropicalismo brasileiro idealizado no fim dos anos 60, muito mais um sentimento do que um movimento artísitico, poderia ser um fator interessante acentuar as relações que o Brasil possui com os PALOP. Algo que poderia muito bem extrapolar a questão de cor e ir além, explorando todo o espólio cultural herdado e adulterado para o bem da arte no território brasileiro a partir  do período colonial.

Mas ainda temos Timor Leste. Temos Macau e sua profunda relação com a ex-metrópole portuguesa. Temos pequenos pólos culturais espalhados pelo mundo que parecem ser pouco interessantes econômica e politicamente, mas extremamente ricos culturalmente. Verdadeiros livros abertos que poderiam servir de entrepostos de aprendizado mútuo. Resistências culturais em Malaca, Antilhas Holandesas, Galiza, Cingapura, muitas já tratadas nesse Patifúndio,  regiões fronteiriças deliciosamente indefinidas nacionalmente entre Uruguai e Brasil, Espanha e Portugal, Congo e Angola, Indonésia e Timor Leste,  possibilidades extraordinárias de rasurar aquilo que os mapas geopolíticos determinam.

Um novo conceito de lusofonia

Menos PIB e mais IDH, talvez seja essa a verdadeira busca.  A busca por fortalecer as relações entre comunidades lusófonas não passa somente pela identificação linguística, pelo interesse econômico, nem pela tentativa de forçar a barra criando um sentimento falso de união cultural. Há que se evoluir a partir de dentro de cada comunidade para se buscar novas ligações lá fora. A lusofonia é uma possibilidade real de contribuir para um mundo globalizado, desde que passemos por uma nova etapa da globalização, em que os mercados não sejam os agentes determinantes para estabelecer padrões de conversa. Desde que as pessoas que vivem no mundo lusófono  evacuem o egoísmo, o individualismo, a ganância por acumular riquezas e méritos  para fora de seus ventres. Parece difícil, talvez um mero idealismo e talvez assim seja.

Assim como no ritual de beber um bom vinho, o segredo seja talvez harmonizar sabores que aparentemente jamais combinariam em algo único. Sendo esse o primeiro artigo do Patifúndio da década de 2010, esperemos que daqui dez anos tenhamos paladares mais

 (*) é brasileiro, jornalista, pós-graduando em Globalização e Cultura pela Fespsp. Em 2008 idealizou a Revista O Patifúndio! e a mantém até hoje, graças a sua segunda paixão, a lusofonia, e aos colaboradores, verdadeiros amigos espelhados em cada território onde a língua portuguesa é exercitada. sensíveis e experimentados.

Fonte: http://opatifundio.com/site/?p=3430

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One Comment em “Lusofonia e Transnacionalidade”


  1. ADESÃO DA GUINÉ-EQUATORIAL À CPLP

    Venho há tempos meditando um pouco sobre esta questão do pedido de adesão da Guiné-Equatorial à CPLP e concluo por uma posição favorável.

    Porquê?

    Por várias razões histórico-políticas e realistico-imaginativas…

    Historicamente, fomos nós, os portugueses, os primeiros europeus a desbravar aquela região do Golfo da Guiné e, portanto, temos toda a legitimidade para estabelecer laços preferenciais de cooperação com qualquer um daqueles países. Sucede que, entretanto, fomos substituídos em todos eles por outras potências coloniais ficando a Lusofonia ultrapassada pela francofonia e pela anglofonia. A castelofonia não vingou no Golfo da Guiné, pura e simplesmente, pelo que não apresenta qualquer sinergia real ou potencial. Em termos de estratégia de cooperação internacional, a Guiné-Equatorial só poderia optar pela francofonia ou pela anglofonia com todos os inconvenientes que teria que enfrentar por ser mais fraco do que qualquer dos países regionalmente membros dessas tais fonias correndo quiçá riscos na manutenção da sua soberania nacional. Ou se mantinha isolada no contexto internacional ou optava pela Lusofonia.

    1ª Conclusão: a adesão à Lusofonia é do interesse da Guiné-Equatorial e é mesmo a sua «tábua de salvação» (para a população nacional tanto lhe faz aprender português como 1ª língua estrangeira como lhe faz aprender francês ou inglês pois no dia-a-dia continuará a falar as línguas indígenas).

    Do lado do mundo lusíada, que problemas temos se aceitarmos a adesão de um país riquíssimo em matérias-prima pelas quais temos a maior apetência? Dir-me-ão que se trata de um país em que prevalece uma ditadura, onde não são respeitados os Direitos do Homem, em que não há Sindicatos livres, em que a política de protecção do Ambiente é letra morta. O meu silêncio só será entrecortado por suspiros de nostalgia relativamente à situação angolana… Mais: a convivência com o mundo lusíada só poderá gerar influências benéficas com vista a alguma democratização do regime político desse país.

    2ª Conclusão: a adesão da Guiné-Equatorial à CPLP só peca por tardia.

    Admito que para a arrogante Espanha esta adesão da Guiné-Equatorial à esfera de interesses do desprezível Portugal e da Lusofonia possa ser um vexame histórico e que, portanto, tudo faça para que tal não aconteça; admito que para a sôfrega França esta adesão da Guiné-Equatorial ao mundo lusíada seja uma facada na estratégia de reconstituição duma imperial francofonia (França não abandonou a cobertura do CFA pelo seu Banco central enquanto Portugal não fez algo de equiparável e perdeu a emissão monetária na Guiné-Bissau); admito que também a Grã-Bretanha esteja sequiosa do petróleo da Guiné-Equatorial.

    3ª Conclusão: todos os motivos apontados justificam a preferência que a Lusofonia deve dar à adesão da Guiné-Equatorial à CPLP.

    O resultado mais prosaico da minha meditação: um pouco mais de petróleo não incomodará os nossos interesses estratégicos…

    Henrique Salles da Fonseca
    Lisboa


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