O lixo extraordinário – o extraordinário do lixo – o luxo do lixo

Por Dalila Teles Veras

A história e as circunstâncias do filme Lixo Extraordinário, documentário ora em cartaz no circuito comercial em São Paulo, já são um paradoxo:

1) Coprodução Brasil e Reino Unido, rodado em sua quase totalidade no Brasil, mais precisamente no aterro sanitário do Jardim Gramacho, em Duque de Caxias, Rio de Janeiro;

2) O protagonista e estrela principal, o artista Vik Muniz, é brasileiro que fala inglês (a língua do país onde reside há tempos) e, no início do filme, tem uma idéia um tanto quanto confusa de seu próprio país, o Brasil, ainda que seja dono de grandes e inusitadas idéias artísticas;

3) Aqueles que seriam figurantes (todos brasileiros, catadores de materiais recicláveis – não gostam de serem chamados de catadores de lixo) transformam-se em verdadeiros protagonistas e passam a roubar a cena e a conduzir toda a ação;

4) dois co-diretores (João Jardim e Karen Harley) são  brasileiros, bem como o produtor executivo (Fernando Meirelles), mas o filme foi indicado ao Oscar na categoria “melhor documentário estrangeiro” representando a Inglaterra, na figura de Lucy Walker (codiretora) e Angus Aynsley, produtor. (A Academia exige que sejam indicados apenas dois nomes para receber a possível estatueta e, nesse caso, os britânicos foram indicados).

 O problema mesmo será se o filme se tornar ganhador do Oscar. Para que país irá a estatueta?

Augusto de Campos, em sua fase concretista mais radical, vale-se apenas de duas palavras (luxo e lixo) que, engenhosamente  repetidas e distribuídas tipograficamente, constroem um poema, cujo resultado de “leitura”  possibilita a compreensão do quanto de lixo pode ser composto o luxo.

Datado de 1965, esse poema (visionário?) serviria hoje para ilustrar lindamente a abertura do filme.

Neste caso, o do filme, o extraordinário (o luxo) do lixo são as vidas que ali palpitam e que fazem com que toda aquela parafernália do alto capitalismo em prol da arte como produto se rendam à força de sua determinação. São eles(as), homens e mulheres que por força das mais variadas circunstâncias, ali foram parar, travestidos em aves de rapina,  assimilaram as piores forma de precarização de trabalho e vida e, aparentemente (mas só aparentemente) mostram-se “felizes” ou “conformados” com aquele way of living.

É justamente no momento em que lhes são apresentadas outras formas e possibilidades de vida (a arte de permeio) que se miram  no espelho e, sem pudor, se revelam por inteiro, seres de uma grandeza que comove e perturba.

O artista Vik Muniz, indutor de todo o processo, vai pintando gente/lixo/retratos, transformando figurantes em estrelas que já eram estrelas só não sabiam ainda disso. Antes de se embrenhar no mau cheiro, de mergulhar no outro, o artista Vik Muniz também não sabia nada daquilo. De surpresa em surpresa, diante da transformação do outro, é transformado também, retratos ampliados pela técnica da emoção.

As luxuosas galerias de Londres, Paris e Nova York, renderam-se ao “luxo” kitsch daquilo que veio do lixo, sem desconfiar que, para além do exotismo que move endinheirados colecionadores, ali, inclusive, há vidas, vidas que pensam.

Falta agora fazer o Lixo Extraordinário II, que conscientize aqueles que desembolsam altas somas na compra dessas obras, bem como aqueles que assistiram ao filme e vão às galerias e museus, que é preciso repensar o consumo e a já não mais suportável produção de lixo do Planeta que, a continuar sem a destinação adequada, acabará por transformar em lixo, não mais extraordinário, a própria humanidade.

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One Comment em “O lixo extraordinário – o extraordinário do lixo – o luxo do lixo”


  1. A entrega da estatueta do oscar estaria bem representado aos pais que mandam centenas de navios com o seus lixos aqui para o Brasil. Como se o Brasil fosse deposito de lixo do mundo todo.


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