MANUEL MARIA

Por João Luso

Foi o ano passado, na terra, que ouvi contar este caso, passado com uns vizinhos nossos. Era noite de Natal. Esperávamos a hora da Missa na sala íntima, perto da cozinha, onde se não recebem visitas mas faz menos frio que no resto da casa. Conversávamos, as senhoras com os pés enfiados em seirões felpudos, sobre botijas de água quente, os homens com capotes pelos ombros; ouvia-se o crepitar festivo da lareira; e toda a gente gozava com delícias aquele conforto, enquanto lá fora, o vento norte, – de que, de vez em quando alguém nos trazia notícias – assobiava, agudo e retalhante… Nisto, começou minha tia Adelaide a falar do que acontecera, há muitos anos, a um certo Manuel e a sua mulher, Maria… Sem a velhinha certamente dar por isso, a narrativa tomou logo a feição e o tom das histórias de serão, repetidas pelas avozinhas que já não podem fiar o linho nem fazer meia, para entreter os netos que não querem nunca ir tão cedo para a cama… Era a mim que a linda octogenária especialmente se dirigia; as suas palavras, envolvendo-se de carinho, readquiriram a ternura do tempo em que ela ajudava minha Mãe a criar-me; e eu sentia comover-se, dentro do meu coração, um coração de criança…

Pudesse eu reproduzir aquela linguagem e fazer-vos experimentar, um momento que fosse, aquela emoção!

 A casa estava às escuras. O Manuel descera ao sótão, a buscar lenha para o lume, e a mulher, sentada como se deixara ficar no degrau da lareira, chamava por ele, ralada da demora:

 – Avias-te ou não te avias?

 – Lá vai, que pressa!

Subia já a escada, com um braçado de cavacas, das mais enxutas, e trazendo pendurada na outra mão a candeia de três bicos, cuja luz subia, cor de ouro velho e doce como o azeite que a alimentava.

 – Nem que fôssemos tirar alguém da forca, rapariga! Ora não te doa a cabeça enquanto tivermos que esperar pela Missa do Galo. Pega lá a candeia.

Depôs a lenha a um canto, separou as achas, as mais delgadas ali à mão e as outras para depois. Com uma mão cheia de agulhas secas de pinheiro, preparou o fogo; ajoelhou; longamente, com as bochechas inchadas, soprou; e por trás do seu vulto acocorado em breve a fogueira rompia, garbosa e estralejante, arremessando ao ar as labaredas que faziam dançar pelas paredes, estranhamente aumentada, a sombra dos petrechos caseiros.

 – Ora, aí tens, vês? Traz para cá isso.

Era o alguidar vidrado, onde a massa leve de abóbora menina já certamente apurara. Atiraram então ao fogo uma larga trempe de ferro, assentaram-lhe em cima, bem firme, a sertã maior, com dois dedos do azeite do novo, do acabado de colher. Gravemente, a Maria foi lavar as mãos, enxaguou até os fortes braços tão afeitos a bater a roupa como a brandir a enxada… Armou-se depois duma colher de pau, só usada naquele cerimonial; e enterrando-a na mesa cor de roa, entornando-a sobre a sertã, deixava cair do alto os bolos informes que logo à flor do azeite cresciam, empolavam e se arredondavam, e se afofavam, dando essas prodigiosas filhós de Natal que até aos anjos – afirmava a Maria, vaidosa de possuir, como poucas, o segredo de tal manjar – até aos anjos fariam água na boca!

Do outro lado, o Manuel, com um garfo, caçava-as alegremente. Mas era um desajeitado, enganava-se, fisgava duas duma vez – e isto com grande aflição da mulher que a cada momento lhe sustinha o bote desastroso, o ameaçava com a colher.

– Essa não, a outra, tira para fora que se não esturra! Ai, que és mesmo os meus pecados!

Quanto mais ela falava, mais ele ria, ria. Para a amofinar, fazia menção de levar o garfo à boca quando tirava alguma das mais tentadoras. Capaz era ele, o mafarrico, de quebrar um jejum tão sagrado como o da véspera de Natal! Só a lembrança, brincalhona embora, de tal sacrilégio, sacudia de terror a alma da companheira:

 – Olha, quem não jejua em véspera de Natal, ou é herege ou animal. Não te digo mais nada!

E ele, numa galhofa:

 – Só para te ouvir, criatura; só para te ouvir!

Entretanto, ia o monte das filhós crescendo no outro alguidar, onde, de vez em quando, a Maria espalhava um grosso fio de mel. A massa acabava-se: era preciso rapar em volta, para juntar as colheradas; e a Maria, dá-lhe que dá-lhe, apressava a tarefa, com o pensamento numa caridade que tinha a cumprir antes da Missa do Galo. Na torre da freguesia bateram horas.

– Hão-de ser dez… opinou ela.

– São mas é nove! Afirmou ele.

Três, quatro, cinco… e no silêncio da noite, pausadamente, bateram onze. Então a Maria, arrancou o garfo das mãos do marido, espetou as últimas filhós, numa azáfama, esquecendo-se do mel, só pensando em terminar, abalar para a sua obra de misericórdia. Como o tempo passara. E a pobre Carolina, que seria dela, talvez sozinha no casebre, a morrer…

– Então, para pior, a Carolina? Perguntou o homem.

– Sempre, coitadinha!

Enquanto arrumava os alguidares e dava outra enxaguadela às mãos laboriosas, contou a Maria como se agravara a doença da vizinha desde manhã cedo, quando ele partira para a cidade, a vender um cesto de aves de sua criação. Estava desenganada, a Carolina. E aquelas dores, aquelas dores! Por mais que o mestre cirurgião fizesse, não houve dar-lhe ao corpo martirizado um momento de alívio. E sem consentir nada na boca, nem à mão de Deus Padre… A Maria, com tanta pena da desgraçada, matara-lhe um frango – pois nem o caldinho provara! Depois, uma perdida, sem família, toda a gente fugia dela…

– Mas sozinha, sozinha? Perguntou o Manuel apavorado.

Sozinha ou aquilo era a mesma coisa. As Senhoras das Poças tinham mandado para lá a pastora das ovelhas, a Tinhosa. Mas a Tinhosa que jeito tinha para aquilo – ou fosse para o que fosse? Assim, a Carolina se via em cima de uma enxerga, tão desamparada, tão castigada, Jesus, da sua má vida!

Diante de tal infortúnio, o Manuel começava já a lacrimejar, com o seu puro coração de rústico a transbordar de piedade…

– E o menino?

– Uma medalha, para tu veres! A ti’ Ana até se admirou – que nunca lhe viera às mãos anjinho tão perfeito!

Estava tudo no seu lugar para a Consoada. Combinaram então que, quando tocasse para a missa, o Manuel passaria pela azinhaga, para levar a companheira.

– Sim, fazes bem, eu lá vou ter. Leva o capote, criatura! Pois com uma inverneira destas! E vai descansada. Assim que tocar…

A fogueira esmorecera. Sentado no degrau da cozinha, com um cigarro esquecido nos beiços, ficou o Manuel a cismar… Mundo de Deus, só Ele o entendia; graça de Deus, só Ele sabia por que mãos a distribuía, conforme as boas ou más ações de cada um… Mas ali estava a Carolina, uma perdida, com um menino assim robusto, assim escorreito, que ela decerto não desejara, ao passo que ele, Manuel, e a companheira tanto pediam, sem serem ouvidos – pelos seus muitos pecados! Tinham até feito uma promessa a Nossa Senhora de Vale de Nogueira, que, para milagres, digam o que disserem, não há outra… Quando a Maria, um dia, segredou ao seu homem que andava com umas desconfianças, foi uma folgança, uma loucura naquela casa! Um filho, pequenino primeiro e tatibitate; logo, crescendo a olhos vistos, crescendo até dar um esperto e chibante garotaço, com diabruras de fazer rir às pedras; depois homem feito, a ajudar o pai no amanho das terras, a fazer finalmente as suas vezes, quando viesse a fraqueza e as molezas da velhice… Ambos desejavam que fosse menino e já estava decidido que juntaria no nome os nomes dos pais, continuando a união dos seus corações. E perguntavam um ao outro: – Manuel Maria, que tal? – Parecia um nome de oração. Ou então, um nome para cantar, Manuel Maria… Que lindeza de nome!

Nas últimas semanas, volta e meia trazia o Manuel alguma coisa para o “Morgado”. Era uma touquinha, uma figa, uns sapatinhos… O berço foi encomendado ao melhor marceneiro dos sítios. Uma doidice, uma doidice!

Mas aí, grandes pecados eram os seus! O anjinho veio ao mundo, já morto. As roupas de boneca que a mãe talhara e alinhavara durante tantos serões não chegaram a sair da arca de castanho; o rico berço lá ficou para o canto; e nunca mais a Maria murmurou ao ouvido do seu homem aquela nova vinda do céu…

Afundado nessas recordações, o Manuel fumava cigarros a eito, deixando, à falta de lenha, apagar-se o fogo da lareira – como àquela hora se devia estar apagando a vida da Carolina. Um repique de sinos alegrou os ares. O lavrador sentiu-se como sacudido por dentro; levou as mãos aos olhos, com a impressão momentânea de ter adormecido diante da fogueira extinta. Era a primeira chamada para a Missa do Galo. Teve ainda um suspiro profundo, desoprimente; cobriu-se com o grosso chapéu alentejano, pôs aos ombros o gabão de saragoça e foi-se a buscar a companheira.

Encontrou-a à cabeceira da Carolina, rezando, com o menino ao colo, a pastora das Poças, encolhida a um canto, coçava a cabeça que a tinha escalavrada; uma candeia triste e fumarenta derramava o calor da sua luz mortiça; e no catre, a enferma sumia-se sob a coberta de retalhos, esfiapada.

– Então, Maria?

– Está a decidir, a pobrezinha.

O Manuel fazia rodar nas mãos o chapeirão alentejano, embaraçado, sem saber… Mas, então, teria que ir sozinho à Missa do Galo?

– Que remédio! Por que, também, deixar aqui esta alminha, ao desamparo… Vai tu, meu homem, vai. Nosso Senhor há-de perdoar.

– Se há-de!

A Maria recomeçou as suas orações; e ele saiu muito triste de ir só – pela primeira vez, imaginem – mas consolado de pensar na generosa ação da companheira. Ninguém no lugar quisera saber da Carolina, vissem que gente! Todos haviam passado o serão cantando loas ao Menino Deus, ou entretidos com histórias de bruxedo, diante dos tachos da ceia. Por via dela ter andado em más companhias, por feiras e arraiais… Mas não era uma alma cristã como as outras? E então à hora da morte… Gente sem coração!

Entrou na Igreja quando a missa ia começar. Ajoelhou com toda a devoção; mas benzia-se e batia no peito maquinalmente, por ver os outros. Não lhe saía do pensamento aquela miséria, aquela criança. A mãe de certo ia para o céu, perdoada, enfim, pois que tanto sofrera; mas ficava o inocente, só no mundo… Quando o abade saiu do altar, o Manuel foi com os outros beijar o pé do Menino, deixar-lhe na salva uma moeda de prata que, de nova, reluzia. O Presépio estava naquele ano mais rico, enfeitado pelas Fidalgas da Gândara, com muitos bordados, muitas camélias, muitas velas cor de rosa. O divino Inocente sorria no seu berço de ouro; e foi ao curvar-se para lhe depor no pezinho o beijo da devoção que o Manuel com mais veemência, mais lá de dentro, pensou no filho da Carolina. Também ele nasceu naquele dia – mas sob tão má estrela, tão desgraçadinho…

Tomou de novo o caminho do casebre, quase às carreiras. Era uma ansiedade de chegar, saber… Na quelha, tropeçou duas vezes, por um triz não rolou sobre os pedregulhos. E não pôde entrar logo; estacou à soleira, olhando a mulher que, sempre com o embrulho ao colo, ia buscar duas velas, as acendia à cabeceira do catre…

– E então?

– Finou-se agora mesmo.

O Manuel deu dois passos, tirou o chapéu, no respeito da morte que ali entrara. E o pouco que sabia de orações, tudo murmurou, pelo descanso daquela alma sofredora.

– Agora vamos… disse a Maria. E como a despedir-se ou a desculpar-se, olhando a morta: – Já não precisa de nós… nem de ninguém.

Recomendaram à Tinhosa que não saísse dali antes de chegar alguém, e partiram, mais tranquilos, aliviados, para a sua casa, para a sua Consoada.

Enquanto a mulher aconchegava no vasto leito doméstico o inocente adormecido, tratava o Manuel de reavivar a fogueira, soprando a cinza, donde as fagulhas irrompiam num júbilo de ouro vivo.

 – Dorme como um anjo… disse ela, afastando-se do leito, mas ainda de olhos no órfãozinho.

 – Amanhã arranjamos o berço do nosso, não é assim? E fica para ele.

 O Manuel, num alvoroço:

 – Mas… Olha lá, é sério? Tu queres?

 – Como não, meu homem! Isto, foi Nossa Senhora de Vale de Nogueira, nem mais, nem menos. A nossa promessa… Não vês que a nossa Senhora nunca falta, quando é do coração?

Aturdido, o Manuel não respondeu logo. Cravava os olhos na companheira, no fogo reanimado…

– Pois viva! Exclamou por fim, num arrebatamento: – Louvada seja Nossa Senhora, e abençoada tu sejas, cachopa de minha alma!

Abraçou-a, soluçando. Pela face barbada, corriam-lhe, duas a duas, lágrimas grossas como bugalhos.

– E há-de-se chamar Manuel Maria, pois então? Ai que rebento de alegria! Vamos às filhós!

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2 comentários em “MANUEL MARIA”

  1. Joaquim Gomes Miranda Says:

    O conto poderia estar ambientado em qualquer lugar de Portugal,mas,penso que este, está “na Lousã”, pois o autor aqui nasceu.

  2. Beatriz Alcântara Says:

    Um conto assim tão lindo, tão bem narrado, tão cristão! Obrigada, bela prenda de Natal.


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