O NATAL DA MINHA ALDEIA

Por António Lopes Machado 

Na minha aldeia também havia Natal, mas era diferente.

Não. Não havia chaminé, quanto mais brinquedos.

Mas havia cozinha com lareira, as paredes negras de fumo, que se ia escapulindo por entre uma ou duas telhas levantadas no telhado. E quando se fechava a porta ou a janela, por causa do frio, o fumo saía mal, espalhava-se pela cozinha e enchia-nos os olhos de lágrimas.

Lá ao longe, para as bandas do Norte, via-se perfeitamente a Serra da Estrela coberta de neve durante o dia ou até naquelas noites de luar muito claro. Quando os ventos vinham de lá, a aragem gelada era como facas a cortar-nos os lábios e a encher-nos as mãos de frieiras, por andarmos sempre que podíamos a aquecê-las à chama da fogueira.

À noite, aconchegados à lareira, com o fogo acariciador a aquecer-nos só daquele lado, ouvia-se por vezes lá fora o latir das raposas famintas e enregeladas.

O meu pai não tolerava o frio e preferia aguentar o fumo, sempre com a garrafinha do vinho a amornar junto da pilheira de cinza.

A minha mãe deitava-se sempre tarde, sem ninguém que a ajudasse a arrumar as coisas da casa e a fazer ferver os panelões de comida para o porco. Mas preferia a porta aberta e aguentar o frio, do que aquela fumarada que quase nos sufocava.

Na noite de Natal fazia as filhós, deliciosas quando estavam ainda quentinhas. Mas nunca antes da meia-noite.

No inverno as noites são muito longas e nas aldeias as pessoas deitam-se normalmente cedo.

Mas eu gostava sempre de me deitar na lareira, pertinho do lume, a regalar-me com o calor da fogueira. Mas depois era sempre um martírio para me fazerem ir para a cama. Havia barulho todas as noites.

Uma vez fizeram-me a partida. Foram-se todos embora e deixaram-me ficar sozinho. Às tantas da madrugada acordei estremunhado e cheio de frio na cozinha negra, com a “vizinha” aos gritos e um forte cacarejar de galinhas.

A raposa viera andar a rondar as casas e farejar a capoeira dela. Fez um buraco na terra por baixo do tapume de madeira e entrou lá dentro. Em pouco tempo fez uma razia. As galinhas começaram a fazer um barulho infernal. Quando acorri à varanda, assustado e mal desperto, ainda vi a vizinha na noite enluarada, descalça e em fralda de camisa, com uma galinha na mão e a gritar à raposa que fugia com outra nos dentes.

Serviu-me de emenda. Creio bem que nunca mais deixei de despertar quando me chamavam para ir para a cama.

 *****

Mas na noite de Natal, a pensar nas filhós, não havia sono.

Com um dos meus irmãos e o Zé Rafael resolvemos entreter o tempo, preparando um “Cepo de Natal”. Mas quando pensamos nisso já era noite.

Nós gostávamos sempre de acamaradar com o Zé Rafael, porque ele era valente, desenrascado e tomava sempre a iniciativa. Muito embora na hora do perigo, se fosse preciso fugir, não olhasse para trás nem esperasse por ninguém…

Não tínhamos Cepo? Era fácil resolver o problema.

 – O Ti “Ferreiro” costuma ter aqui o machado no “coberto” – diz o Zé Rafael.

Tateia com as mãos no escuro e logo o encontra. Junto ao barroco paramos, como que a orientar-nos. Noite silenciosa e fria. Só se ouvia o correr da água entre as pedras ali ao lado. E lá muito longe o latido de um cão.

Logo ali, uns metros acima, no meio do pinhal havia um pinheiro seco, já meio tombado, encostado aos outros.

– Vamos já aqui – diz o Zé Rafael, marinhando pelo pinhal acima, orientando-se no escuro.

A cada golpe de machado, manobrado com força, o pinheiro ia dando de si. Até que, quase degolado, inclinou-se e caiu no chão com grande estrondo.

Por momentos ficamos silenciosos a ouvir os efeitos.

Despertado por barulho estranho, Ti “Ferreiro” veio à varanda e bradou para a escuridão da noite: – Quem anda aí a esta hora?!…

Ninguém respondeu.

Repetiu a chamada. O mesmo silêncio. Ficou uns momentos mais e recolheu-se, meio convencido de que terá sido impressão sua.

Passados alguns momentos, Zé Rafael pega num grosso toro aos ombros, o meu irmão pegou no outro, e eu, que era o mais pequeno, levei o machado, que coloquei no mesmo sítio, e um panelo de resina para atiçar o lume e servir de acha.

No Largo da Fonte, que era o ponto de encontro na povoação, atiraram com os dois rolos para o chão e acenderam-lhe ao pé o panelo de resina, que ardia como uma tocha.

A madeira seca em breve começou a crepitar e nós ficamos ali algum tempo a sentir o calor agradável da fogueira.

Quando chegamos a casa a minha mãe estava a fazer as filhós.

Assim quentinhas, acabadas de fazer, eram deliciosas. Foram sempre a melhor guloseima da noite de Natal na minha aldeia, quando eu era pequeno.

 *****

No dia de Natal íamos à missa a Pombeiro, que nesse tempo ainda não tinha o complemento da Beira. Era um dever e uma tradição. O Cepo ainda ardia e ali nos juntamos todos estendendo as mãos para o calor que vinha das brasas em que se iam transformando os dois troncos.

A viagem era longa. Quase duas horas de caminho. Mas íamos em grupo, fatinho novo, era uma festa.

Durante a noite todas as gotas de água solidificaram e se transformaram em caramelo, e debaixo dos pés sentíamos o gelo quebrar-se como vidro, porque Natal sem neve ou geada não era um verdadeiro Natal.

As raparigas casadoiras, todas embonecadas, levavam calçadas umas tamancas no caminho enlameado e à entrada da vila guardavam-nas e calçavam os sapatos, escovados e engraxados, para entrarem na igreja impecáveis.

A missa de Natal era sempre mais demorada. Mas o que mais me maravilhava era o Presépio. Foi o primeiro Presépio que vi na minha vida.

Andava ali por certo a mão do bom padre Benjamim, que era um artista, constantemente agarrado ao seu banco de carpinteiro, como um S. José.

A figurinha do Menino na manjedoura, com as outras figuras do burro e da vaquinha, a Nossa Senhora e S. José, os Reis Magos vindos do Oriente, os pastorinhos todos com as suas oferendas, percorrendo acidentados caminhos de montanha em direção a Belém, guiados por uma estrela luminosa, tudo preparado com musgo autêntico, aquele Presépio era uma verdadeira maravilha.

Ficou-me para sempre na memória. Aquele Presépio, que enterneceria a curiosidade e o interesse de qualquer criança, é das coisas mais maravilhosas que recordo do Natal da minha aldeia..

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One Comment em “O NATAL DA MINHA ALDEIA”

  1. Beatriz Alcântara Says:

    Obrigada, amigo Lopes Machado, por tão bonita evocação de um Natal já tão distante, mas que lega os costumes de nossas aldeias portuguesas. Santo Natal. Felicidades e saúde para 2011.


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