MUSEU DA REPÚBLICA: MEU PALÁCIO PARTICULAR

Por Raquel Naveira

Somente este palácio poderia satisfazer totalmente o meu desejo de ter casa_republica texto raqueluma casa. Assim como minha sede de arte e de teatro só será saciada com o Juízo Final. Aqui é que eu gostaria de morar: a porta dupla de ferro dando para a rua agitada do Catete; as escadarias forradas de veludo vermelho por onde desceriam filhas vestidas de noivas; as salas cobertas de tapeçarias, móveis antigos, pinturas, lustres brilhantes de cristal; grandes águias encimando o telhado, pousadas  com a sabedoria dos que sempre se renovam e vencem desafios.

Se eu morasse neste palácio, conservaria com carinho os pertences dos barões de Nova Friburgo. Cuidaria também dos amplos jardins que dão para a praia, projetados pelo Mestre Glaziou, que também executara os da Quinta da Boa Vista. Minha  neta Maria Augusta brincaria entre as grutas e palmeiras e eu ficaria feliz com seu sorriso de menina (ela, que mora tão longe, pareceu-me agora mais distante ainda). Lembrei-me do poema “Jardim Público”, de Dante Milano, que diz assim:

Mundo estranho
De íris, lótus, ninfeias,
Aves pernaltas,
Plantas aquáticas,
Esquisitos bichos,
Rumor de águas de todos os lados,
Um silêncio que enche os ouvidos,
Estátuas de fronte cansada,
Bancos onde se medita no suicídio,
Homens caminhando para o passado.

*

Dos presidentes da República Velha, eu guardaria os jogos de porcelana com xícaras, colheres de prata e bules de café e o  moedor de grãos  da cozinha. Em homenagem a Juscelino Kubitschek, poderia colocar algumas fotos de Brasília nos corredores.
Ao porão, onde estão as fortes lembranças de Getúlio Vargas, o controvertido político quatro vezes presidente do Brasil , que se suicidou em seu quarto no palácio, com um tiro no coração, no dia 24 de agosto de 1954, para lá, eu não desceria. Fingiria que nada acontecera, esqueceria o pijama listado, o estampido da garrucha, a cadeira de palhinha e a escrivaninha onde ele escreveu a carta-testamento: “Eu vos dei a minha vida. Agora ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história.”

Pensando bem, é preciso ter coragem. Eu desceria, sim, ao porão, exorcizaria o demônio que está lá, faria uma oração de quebra das maldições que pesam sobre a vida brasileira, uma oração de libertação para o povo, um clamor de justiça que chegasse até Deus.
Ah! Eu acenderia as luzes, as velas, os lampiões. Enfeitaria tudo com muitas flores, arranjos que eu mesma faria e colocaria em vasos sobre toalhas de renda branca. Anunciaria um baile de valsas a cada pôr-do-sol. E não esqueceria de encher todos os ambientes com livros, muitos livros, nas estantes, nas mesas, nos cantos com abajures, penas de faisão em tinteiros, folhas de papel. Abriria até um espaço para um novo computador que me conectasse com mundos e galáxias-  pois bem que estou precisando.

Os portões eu manteria sempre abertos, nada dessa tristeza de greve. Receberia pessoalmente as visitas: artesãos, músicos, atores, cineastas, crianças, velhos, gente humilde. Como conheço bem as regras de hospitalidade, a todos eu daria atenção, serviria café com bolo de laranja  e contaria casos da história: da história do Brasil, do Rio, da minha vida desde que nasci em Mato Grosso e escutaria com paciência e calma as histórias da vida das pessoas.

Só este palácio poderia satisfazer totalmente o meu desejo de ter uma casa, afinal sou uma aristocrata no espírito. Mas, será que eu não poderia ter uma pequena janela que desse para o meu palácio?

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