Abutres das letras

Por Dalila Teles Veras

Os escritores, não é novidade pra ninguém, passam a vida “estranhados” pelos parentes. Seres esquisitos e desprezíveis, trancafiados em seus soturnos esconderijos, vagabundeiam durante horas, dias,  anos, envolvidos com artefatos incompreensíveis ao senso comum, até que são encontrados mortos e, não mais do que de repente, descobrem eles (os parentes abutres) ou, em alguns casos, dizem-lhes baixinho aos ouvidos, que ali, naquele amontoado de papéis, há um veio a ser explorado e lançam-se, famintos, ao garimpo. Em muitos dos casos, os agora denominados “herdeiros” passam a viver daquilo que ali encontram, “defendendo” com unhas, dentes e ganância os “direitos” do falecido, agora transformados em “patrimônio” concreto.

Li recentemente que os herdeiros do escritor norte-americano William Faukner moveram uma ação judicial contra os produtores do filme “Meia-noite em Paris”, pelo “uso indevido” de uma frase (uma única frase, acredite-se) do escritor no roteiro daquele longa metragem de Woody Allen, usada “sem autorização” dos abutres de plantão.

Anote-se que o personagem Gil, interpretado por Owen Wilson, diz: “O passado não está morto! Na verdade, ele nem sequer é passado. Você sabe quem disse isso? Faulkner. E ele estava certo. E eu também o conheci. Eu o encontrei durante um jantar” ou seja, a “fonte” está incluída na fala do personagem e a tal frase, tirada do romance Requiem for a Nun (publicado em Portugal com o título Réquiem por uma Freira), traduzida ao pé da letra:  “O passado nunca morre. Ele nem sequer é passado”.

Interessante lembrar que o escritor morreu em 1962, há exatos 50 anos, tempo mais do que suficiente, convenhamos, para que suas frases tenham sido apropriadas pelo uso comum, tendo em vista que se trata de um escritor fartamente lido e traduzido em toda parte.

Considerando-se que isto ocorre em tempos virtuais e “reproduzíveis”, o episódio seria risível se não fosse patético, mas compreensível em se tratando de americanos, completamente tarados por “direitos” (autorais e com rendimento garantido) e, consequentemente, também por processos (igualmente rentáveis).

Guardadas as devidas proporções (e honráveis exceções) em exageros do gênero e talvez influenciados pelos sempre imitados irmãos do norte, os abutres das letras tupiniquins também estão aprendendo a fazer varredura diária e integral na esperança de encontrarem eventuais “pepitas” que lhes renda o sagrado direito de processar todo aquele que ouse “se apropriar” de um verso, uma imagem, uma citação que seja dos seus “entes queridos” desaparecidos, mas sempre vivo$ em sua memória. Que o digam da trabalheira e burocracia implícita aqueles que se aventuram a organizar uma antologia, escrever um ensaio crítico ou uma biografia de alguns de nossos imortais literatos ou, pior, um detalhe sequer de uma das imagens de nossos imortais artistas plásticos.

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