Sublinhados da minha biblioteca

Por Dalila Teles Veras

 Parte I

Arrumo prateleiras da biblioteca. Como sempre, tarefa de Sísifo. Passo a flanela na capa, a escova nos cortes, folheio e… os outros volumes empoeirados à espera, esqueço-me do propósito primeiro. Leio os sublinhados que fiz à época da leitura, ou seja, trechos que mais me chamaram atenção (iluminações) e, muitas vezes, sintetizam, ao menos para mim, o conteúdo do livro. Decidi compartilhar aqui algumas dessas passagens, esperando poder contribuir com a divulgação de autores que considero relevantes, polêmicos ou seminais, ainda que me reserve o direito de, eventualmente, deles hoje discordar, posto que os trechos sublinhados podem remontar a priscas eras e, como diria aquele gigante da língua, todo ser é composto de mudanças. Serve-me, neste caso, a justificativa de Philip Roth, ao ser questionado sobre algo que escrevera: “Mas eu escrevi isso em 1960. Não posso ser responsabilizado pelo que disse há 50 anos” (entrevista concedida ao O Estado de S.Paulo, em 14.6.2009).

Edgar Morin, A Cabeça bem-feita (Bertrand Brasil, 2000):

“Literatura, poesia, cinema, psicologia, filosofia, deveriam convergir para tornar-se escola da compreensão. A ética da compreensão humana constitui, sem dúvida, uma exigência chave de nossos tempos de incompreensão generalizada”.

“A poesia, que faz parte da literatura e, ao mesmo tempo, é mais que a literatura, leva-nos à dimensão poética da existência humana. (…) Pelo poder da linguagem, a poesia nos põe em comunicação com o mistério, que está além do dizível”.

A propósito de um questionamento de T. S. Eliot, Onde está o conhecimento que perdemos na informação?, sublinha o pensador francês: “O conhecimento só é conhecimento enquanto organização, relacionado com as informações e inserido no contexto destas. As informações constituem parcelas dispersas de saber. Em toda parte, nas ciências como nas mídias, estamos afogados em informações”.

Parte II

George Steiner: À Luz de si mesmo, (depoimentos sob forma de entrevista a Ramin Jahandebgloo), Ed. Perspectiva, 2003

“O respingo do ruído e a impossibilidade de reencontrar os espaços designados para o silêncio, seja na vida privada, na vida pública ou na educação que se dá às crianças, me parecem ser a mais grave poluição que a cultura moderna conhece. Para muitos seres humanos a noite se tornou tão ruidosa quanto o dia, um quarto silencioso, um inferno e uma tortura. Uma subversão total vai acontecer em nossa cultura. Recusa-se então o próprio termo do silêncio. Hoje em dia vende-se o ruído, ele domina o mercado como um objeto de consumo indispensável.”

George Steiner: Nenhuma Paixão Desperdiçada, Ed. Record, 2001:

“O preço do silêncio e da privacidade será cada vez mais alto (em parte, a ubiquidade e o prestígio da música derivam precisamente do fato de ser possível ouvi-la na presença de outras pessoas. A leitura séria exclui até mesmo a pessoa mais íntima).”

A descoberta deste pensador representou para mim uma verdadeira iluminação.  Francês, professor na Universidade de Cambridge, crítico literário, poliglota (como todo bom judeu) é um cidadão do mundo que parte da literatura para pensar, assim como Morin, a complexidade deste mundo.

O tema do silêncio é bastante presente em toda sua obra, “o silêncio e o inumano” e o “silêncio na arte”, este último, ainda que remonte aos gregos, imprescindível para reflexão da arte e da literatura, a partir de Paul Klee e Kandínski, na pintura, e de Mallarmé, na literatura. Recomendo ainda, Gramáticas da criação (Ed. Globo, 2003), obra fascinante na qual o autor analisa, à exaustão, a palavra e o conceito de “criação”, ou  “de que modo histórias sobre o início do Kosmos poderiam se relacionar com as que narram o nascimentos de um poema, de uma obra de arte ou de uma melodia?”. Boa leitura.

A escriba aproveita para comunicar que até o próximo dia 23 estará ausente  do seu território físico e virtual (e incomunicável – é preciso). Voltará, como sempre, para contar. Ficam as desculpas àqueles que por aqui passarem e derem com a janela fechada, esperando que voltem e nos honrem com sua leitura.

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