Manuel Bandeira: narrador de si mesmo

Manuel Bandeira: narrador de si mesmo

Por Rita Alves
Manuel Bandeira - fonte: opinativas.wordpress.com

Manuel Bandeira - fonte: opinativas.wordpress.com

Embora muito se tenha escrito sobre a poesia cotidiana de Manuel Bandeira, gostaria de salientar o seu caráter dialético em que, a partir de um tema trivial, rotineiro, se é possível avaliar, questionar, fazer reflexões sobre o Homem, sobre o mais íntimo de seu ser, sobre questões universais que nascem a partir do nosso pequeno mundo, da casa, do ambiente que frequentamos diariamente, dos pequenos cantos e recantos em que nos permitimos a solidão que traz o devaneio e a força para a criação.

Alcides Vilaça, em seu ensaio “O Resgate Íntimo de Manuel Bandeira”, faz essa análise sobre a profundidade das coisas vulgares como ponto de partida para a singularidade:

“No impulso da simplicidade, com que logo nos cativa, a poesia de Bandeira projeta-nos a um só tempo no interior e na contra-mão do cotidiano: no interior, porque os elementos poéticos estão todos nele, reconciliáveis e familiares (inclusive os sonhos e as fantasias); e na contra-mão, porque a composição poética desses elementos, com seus critérios de proximidade atenta e afetiva, contraria o estado de dispersão e a impessoalidade que lhes impõe o ritmo moderno”.  

Bandeira se apropria do mundo (pequeno) ao seu redor de maneira a restaurar o caos que presencia, juntando em estrofes a dispersão dos elementos contraditórios que estão fora e dentro de si.  O poeta conquista um espaço só seu, amplia o sentido de solidão para qualificar o espaço, negando-o, recriando-o em poesia.

Em carta ao jovem Mário de Andrade, Bandeira mostra seu senso crítico não só em relação à forma – foco de atenção dos modernistas – mas também em relação ao tema tratado e à composição estrutural gramatical.  A crítica ao “lirismo comedido” é anterior à parnasianisação formal da poesia: “Eu gosto de você -, mas muito, – quando exprime seu alto e puro lirismo na cortante ironia da linguagem terra-a-terra (…) Compreendo e sinto agudamente o seu lirismo geométrico que me dá um gozo análogo ao que me deu  a Ética de Espinosa.”  (Carta de 03 de outubro de 1922)

É nessa vertigem ao tradicional superficial que Bandeira encontra a possibilidade de refazer assimetricamente o mundo espacial em oposição ao mundo pessoal.  Do conflito entre o socialmente permitido e o intimamente desejado nasce o sonho, o desejo, o objeto de confecção de sua poesia e a proposta de       uma nova realidade socialmente mais justa e de sentimentos mais profundos.  E é assim que podemos nos certificar de que, embora os temas do dia a dia permeiem sua poesia, estes são frutos de pesquisa, análise aprofundada da língua e da história e que o prazer que o leitor tem ao apropriar-se de sua poesia é compatível ao trabalho/esforço, ao empenho de criação (estrutural e de idéias) que Bandeira dispõe em cada ato, artesanalmente criativo, como um verdadeiro garimpo latentemente profícuo.  A poesia bandeiriana é poesia de fidelidade, especialmente à memória, desde que esta esteja intimamente ligada ao mundo presente, à certificação de que o micro-espaço se define pelo acúmulo de vivências passadas, gerando incansavelmente um novo presente historicamente justificado.

Aproveito-me da citação feita por Davi Arrigucci, em que abre seu ensaio “A Festa Interrompida”, com um fragmento de “Em Busca do Tempo Perdido”, in: “A Prisioneira”, de Marcel Proust “[…] o espaço e o tempo tornados sensíveis ao coração”, para proclamar, na poesia de Bandeira, o trânsito inequívoco entre a memória racional e a memória emotiva.  Fragmentos do que viveu e aquilo que se permitiu fixar em poemas, sensações tornadas concretas em palavras.

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AUTO-RETRATO

Provinciano que nunca soube
Escolher bem uma gravata;
Pernambucano a quem repugna
A faca do pernambucano;
Poeta ruim que na arte da prosa
Envelheceu na infância da arte,
E até mesmo escrevendo crônicas
Ficou cronista de província;
Arquiteto falhado, músico
Falhado (engoliu um dia
Um piano, mas o teclado
Ficou de fora); sem família,
Religião ou filosofia;
Mal tendo a inquietação de espírito
Que vem do sobrenatural,
E em matéria de profissão
Um tísico profissional.

Bandeira toma a posição de narrador de suas experiências e sua poesia um épico de beleza tanto visual, conceitual e plástica, com o principal recurso da memória do espaço em que viveu, onde a própria história contrasta com o lirismo imanente em seus versos recheados de dor disfarçada de ironia, construídos com técnica e responsabilidade formal, ideológica, ampliando as dimensões do emergente modernismo brasileiro sem desatar as mãos dos tradicionais sonetos, enraizados em sua memória de origem portuguesa, criando uma tensa corrente de forças opostas, onde a fixação da imagem pictórica da infância perdida é estendida até a maturidade criativa, atualizando a memória do passado numa presença palpitante no presente da visão poética.

Este é o mais explorado espaço da poesia bandeiriana, o espaço da memória, onde vive e revive sensações que acumulou e que se desmancham, destilam-se letra a letra em cada poema, independente do tempo, da forma ou do espaço externo.

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3 comentários em “Manuel Bandeira: narrador de si mesmo”

  1. Eduardo Says:

    Belo texto!
    Na literatura brasileira, Bandeira e Pedro Nava utilizaram a memória com elegância.


  2. […] Gostaria de indicar o texto de Rita Alves “Manuel Bandeira: narrador de si mesmo” no site Revista Lusofonia (aqui) […]


  3. […] Manuel Bandeira: narrador de si mesmo Outubro, 2009 2 comentários 4 […]


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