O Espaço na Construção Poética de Eugénio de Andrade

Letras Portuguesas
O Espaço na Construção Poética de Eugénio de Andrade
por Rita de Cassia Alves
Eugénio de Andrade
Eugénio de Andrade

 

Eugénio é, sem dúvida, aquele que retira da natureza todas as metáforas possíveis para a sublimação das maiores e menores dúvidas, questionamentos  e incertezas do homem.  Eugénio abre a janela do próprio ser e adentra à natureza de forma sutil e intensa, como a luz a romper a treva da noite.

É por meio da metáfora  que folha passa a significar a existência humana:

            Somos folhas breves onde dormem
            aves de sombra e solidão.
            Somos só folhas e o seu rumor.
            Inseguros, incapazes de ser flor,
            até a brisa nos perturba e faz tremer.
            Por isso a cada gesto que fazemos
            cada ave se transforma noutro ser.

(in: As Mãos e os Frutos, poema “XXIV”, publicado pela primeira vez em 1948.)

Fundação Eugénio de Andrade

Fundação Eugénio de Andrade

Não há um espaço restrito para a poesia eugeniana: É uma poesia sem paredes.

Ainda que palavras como “casa” (do Adro ou da Eira), “limiar”, apareçam em sua poesia, têm sempre um valor de referência para ampliar o espaço externo, num anti-discurso referencial, pela negação do limite do real que expande o espaço poético, como em “Das árvores não te falo pois estão nuas; / das casas não vale a pena porque estão / gastas pelo relógio e pelas luas / e pelos olhos de quem espera em vão.” (in: As Mãos e os Frutos. Poema XXV), mesmo porque um menino que via cair estrelas “através das frinchas”, não poderia, jamais, alienar-se a um pequeno espaço. E ainda que a noite lhe traga a solidão impressa em seu pequeno mundo, o poeta é capaz de divinizar seu habitat noturno, sempre sem deixar de fazer uma conexão com o mundo natural, nomeadamente luz, seara, amanhecer, trigo:

            É hora de fazer milagres:
            Posso ressuscitar os mortos e trazê-los 
            A este quarto branco e despovoado,
            nde entro sempre pela primeira vez,
            Para falarmos da s grandes searas de trigo
            fogadas na luz do amanhecer.  

(in: As Palavras Interditas. Trecho do poema “Os Olhos Rasos D’Água”)

É na memória que podemos encontrar o espaço de criação do poeta Eugénio de Andrade.

O espaço pode ser aquele entre o silêncio e o som.  Pode ser ainda a reflexão que remete o leitor a algum lugar de sua própria experiência afetiva e emotiva, num regresso ontológico ao espaço da infância perdida, mas recuperada em emblemas poéticos, ou ainda avançar no tempo e construir intuitivamente um futuro idealizado no espaço da própria poesia.  E dependendo do contexto em que a palavra de Eugénio estiver inserida,  mar, por exemplo,  nele caberá um espaço muito maior do que aquele contido no sentido semântico e epistemológico para ganhar uma proporcionalidade equivalente com o derrame de emoções, com características psicológicas e imagéticas, além de metafórica.

Há ainda um terceiro espaço na poesia eugeniana, além do espaço da natureza e do espaço psicológico: há ainda o espaço do corpo. É neste amplo espaço Eros que Eugénio percorrerá os melhores caminhos.  Pela transparência dos ‘flancos’, ‘sorriso’, ‘mãos’. 

Essa teofania do corpo, parte das camadas mais elementares do mundo, como terra, água, para o magnetismo lírico do corpo, explorado em cada detalhe externo e interno, das varandas às cavernas do desejo, o corpo torna- se instrumento de criação, origem primeira e exclusiva (a redundância é propositada) da palavra nascida não só do corpo, mas do movimento que ele articula.  Nascem anjos das mãos, troncos dos braços, pássaros dos dedos (ler “Os amantes sem dinheiro”, obra de 1950), o sorriso abre portas, enfim, o espaço lírico que Eugénio explora na reinvenção do corpo amante, diviniza a nudez, instiga o leitor a transitar pelas veredas claras da poesia desenhada na carne.

* Historiadora, formada em Letras, membro do Instituto Orlando Villas Bôas – Crítica de arte e Literatura.

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