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Os Vitrais

Setembro 22, 2009
Por Paulo Bomfim
 
Vitrais - por Jurandir Lima

Vitrais – de Jurandir Lima

Há muitos anos Antônio Ermírio de Moraes levou-me a conhecer o salão nobre da Beneficência Portuguesa.

Fui percorrendo com o amigo de infância a galeria de vitrais evocativos dos primeiros povoadores de Piratiniga.

Três deles me emocionaram: João Ramalho, Brás Cubas e Jorge Ferreira, personagens da genealogia de nossa família feita por Menezes Drummond na década de 30. Nessas pesquisas está a origem de meu Armorial, publicada em 1957, com ilustrações de Clóvis Graciano.

Contemplando o brasão de armas de Jorge Ferreira, penso no encontro do cavaleiro da Casa Real com sua futura esposa Joana Ramalho, filha de João Ramalho e de Bartira. No deslumbramento que deve ter sentido ao deparar, depois dos perigos da Serra do Mar, com a flor mameluca da Vila de Santo André da Borda do Campo.

Esse capitão-mor, governador da Capitania de São Vicente em dois períodos, de 1536 a 1538, e depois, de 1567 a 1572m foi proprietário de sesmarias na Capitania de Santo Amaro.

Foto por Jurandir Lima

Foto de Jurandir Lima

Combateu os tamoios que atacavam o povoado da ilha de Guimbé, reedificando a Fortaleza de São Felipe, na Bertioga.

Acompanha Estácio de Sá ao Rio de Janeiro, cidade da qual é considerado um dos fundadores.

E 1575, o genro de João Ramalho encontrava-se em Cabo Frio, combatendo os tamoios. Falece no Rio de Janeiro em sua sesmaria, já idoso, ao lado de Joana Ramalho, matris de sertanistas.

Primeiro foi o mar, selva noturna
Com solidões de estrela da manhã:
Houve ramos de sal sobre saudades,
E folhas transparentes de lembrança.

Primeiro foi o mar, terra perdida
Na oscilação de vales e montanhas,
Houve marcos plantados em salsugem,
E fronteiras na espuma descoverta.

Primeiro foi o mar, o chão de espanto,
Sulcado pela quilha dos arados
Que o vento fecundou em noite escura…

Depois, houve caminhos e sementes:
O sonho despertou areias brancas,
E a treva amanheceu em madrugada.

Paulo Bomfim, “Príncipe dos Poetas Brasileiros”, fiel às raízes do passado, desvenda o futuro

Agosto 18, 2009
Por João Alves das Neves 
 
Escritor Paulo Bomfim

Escritor Paulo Bomfim

É a partir de uma frase de Paulo Bomfim que buscamos as raízes da sua poesia  e das suas crônicas: “Um país que procura renegar seu passado, perde pé no presente e deixa acontecer o futuro.”

Com estas palavras, o poeta de “António Triste”, livro que marcou a sua estréia literária, em 1947, percorreu um longo caminho, ilustrado por cerca de três dezenas de  obras, desde a poesia à crônica – os seus gêneros mais constantes. Na verdade,  este discípulo dos clássicos é, no fundo, um modernista porque consegue ser atual ainda que seja um sonetista de alta craveira. E a construção dos seus textos em verso e prosa é tão contemporânea quanto o foram os pioneiros do futurismo e de outras manifestações dos “ismos”, nem sempre realizadas com êxito,  apesar das boas intenções de certos contemporâneos.

Os poetas Guilherme de Almeida,  Mário de Andrade e Oswald de Andrade foram com certeza  figuras dominantes da “Semana de Arte”, em 1922, embora não tenham sido os únicos e deixaram discípulos que, em circunstâncias diversas, se aproximaram dos primeiros – e um deles foi Paulo Bomfim,  que tem sabido conciliar o espírito modernista, sem renegar um classicismo apurado, graças  à sua insistente e,  renovada  arte poética.

Indiscutivelmente, Paulo Bomfim tem percorrido uma longa e fértil caminhada, desde 1947, quer no verso, quer na crônica,  reinventando  uma aliança feliz entre dois gêneros literários que por vezes  se completam. E aí está o segredo dos    grandes criadores que nunca se repetem. Quem diz que o soneto morreu? Quem faz a ode camoniana da era contemporânea?  Quem é que revive o passado com os olhos de hoje? E para comprovar  que a poesia é eterna   bastará a releitura de Transfiguração  ou do Navegante!  Onde é que está o mistério ou a sofisticação de se amar ao mesmo tempo o trovador D. Dinis e o modernista Mário de Andrade? Ou de preferir simultaneamente Fernando Pessoa, Cecília Meireles, Sofia de Melo Breyner e Manuel Bandeira?

Ao percorrermos a obra  de Paulo Bomfim encontramos uma fértil colheita poética , que se alarga do António Triste, que nos sugere o António do , tão influente entre  poetas portugueses e brasileiros, embora admitindo que  o jovem brasileiro é bem diferente do simbolista luso.  Aliás, Bomfim não é copioso mas constante na sua busca, desde o princípio ao belo Súdito da Noite. A poesia é algo sério para quem acata os mestres mas não é subordinado a eles. Lírico, sim, mas a seu modo. Modernista, sim, mas não repetitivo, como são vários piadistas de frases apropriadas de outros. Um poeta tem de ser pessoal. Leu com certeza os Cancioneiros, os românticos, os simbolistas e outros modistas, mas é essencial que seja igual a si-próprio:

“Onde andará minha amada
Neste percurso triste,
Nestas noites sem luar?”

O artista tem de ser autenticamente criador, o que não significa distância dos grandes movimentos estéticos que marcaram a evolução da literatura através dos séculos. Ninguém melhor do que Paulo Bomfim sabe absorver a lição de ontem, pois em certas circunstâncias é capaz de a reatualizar, mas em momento algum deixa de ser criador. Recrear também é criar. E assim faz com o soneto XXV do livro em que areja a poesia da Transfiguração:

 Dobremos o nosso cabo das tormentas

Seguindo a solidão das caravelas;
(…) El-Rei, nosso destino, inda nos guia
Para além, muito além de Calicute;
(…) Partamos na manhã ensolarada
dos Restelos que habitam nossos peitos;
(…) Andamos pelo tempo que é perdido,
Buscando nosso mar desconhecido!”

 

Há uma busca permanente nos poemas de Bomfim e por isso os seus versos são ora realistas, ora surreais, como neste soneto dos Poemas Esparsos:

“Deito-me em ti com ramos e folhagem

E pássaros e orquídeas de loucura;
Do musgo do meu gesto nasce a imagem
Que atiro em teus caminhos de procura.”

Do Relógio do Sol  à Cantiga do Desencontro, atravessando o Poema do Silêncio e os 7 Poemas Amargos, Sinfonia Branca e o Armorial, dedicado aos seus antepassados “que ainda não regressaram do sertão”, decorridos 3 séculos, é o Brasil, e sobretudo São Paulo revivescendo as origens:

“Primeiro foi o mar, selva noturna,
com solidões de estrela na manhã”

É a Poesia vestida de História:

A selva é mar com ilhas fugidias
E gritos emplumados na tocaia,”

Monções, florestas, cansaços e jornadas, “Parnaíbas correndo de amor que não regressam”. Há “entradas pelo chão do nunca mais”, adivinham-se “tapuias pressentidas nas ciladas”, há capelas coloniais e astrolábios – o laço invisível que liga Bandeirantes antigos e contemporâneos. É o Pais, a Região e a cidade cantada por Bomfim, perseguindo a trilha de Guilherme de Almeida:

“Por certo hei de cantar esquecimento
Manhãs paulistas onde  sou raízes… 

Diz o ensaísta Nogueira Moutinho, um dos mais atentos analistas da obra de Paulo Bomfim: “É no interstício entre o mundo inefável e o mundo que o poeta se insere, e, graças à alquimia do verbo,opera a transferência de uma  realidade de silêncio e a uma realidade expressiva – e o poeta conduz-nos a uma atmosfera de magia que só descobrimos com os seus versos.

Outro excelente ensaísta , Gilberto de Mello  Kujawski, retoma o tema que citamos – o do renovador do soneto que os modernistas apressados não conseguem sepultar, observando que “onde Paulo Bomfim provou pela primeira vez, e para sempre, sua força de sonetista absoluto foi na série de sonetos que compõe o Armorial. Esta transposição do largo mar dos navegadores para a cerrada selva dos bandeirantes, e esta transfusão da feira ancestral no sangue nutriente  da memória”:

 “A selva é mar de todos os naufrágios.
Inutilmente somos a presença
Daqueles que partiram sem voltar.”

Com este e tantos outros poemas da “feira ancestral”, o autor do Poema da Descoberta reencontra a fonte e o alicerce da eternidade de “Os  Lusíadas” e do renascimento que Fernando Pessoa imortalizou na Mensagem  do Mar Portuguez”:

 “Valeu a pena: Tudo vale a pena

Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.”

Tarde ou cedo, os poetas sempre se reencontram.

E tudo isto é tão verdadeiro que no poema em prosa  intitulado Caminhos do Quinto  Império, Paulo Bomfim sintetiza  a sua brasilidade, salientando  que “o Brasil foi descoberto pela Língua Portuguesa” – proclamação que envolve duas Pátrias: “Do alto dos púlpitos, Padre Antonio Vieira prega suas cruzadas com a espada do idioma português”. O “Príncipe dos Poetas Brasileiros”,  na condição de vero  Poeta Lusíada, está, em prosa e verso, no belo provérbio de Fernando Pessoa: “A nossa Pátria é a Língua Portuguesa”.


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