ASSOBIEM-LHE ÀS BOTAS

Por Fernanda Leitão

Não sei o que me surpreende mais: se Miguel Relvas e Passos Coelho indicando a porta da emigração aos que em Portugal são lançados ao desemprego e à indignidade, se Pires de Lima e Poiares Maduro a garantirem que, depois de uma experiência laboral no estrangeiro, o emigrante regressa sem hesitações ao nosso país. A minha surpresa deriva de eu não considerar destituídos de inteligência os personagens apontados e de me repugnar a possibilidade de eles serem uns fariseus desavergonhados. Prefiro pensar que se trata de ignorância no estado puro.

O português, tão visceralmente agarrado ao seu terrunho, tem a emigração por uma fatalidade, uma infelicidade, uma afronta pessoal que não esquece nem perdoa, ressentimento que passa por inteiro aos seus descendentes. Sai por se sentir rejeitado pelos donos da Pátria. Bate com a porta engulindo lágrimas. Nunca mais se cura dessa dor. Por sobrevivência, atira-se ao trabalho que aparece no estrangeiro, seja ele qual for, e em geral é a dureza que os nacionais não querem aguentar, priva-se de muita coisa, anula-se mesmo, para garantir a independência económica com que evitará aos seus filhos as humilhações  que os donos da Pátria infligem a quem não faz parte da sua capelinha partidária ou da sua teia corrupta. Porque a desgraça de Portugal é, foi sempre, a possibilidade de ter donos do poder, graças à ausência de investimento maciço na Educação.  Fosse o povo educado, com boa bagagem técnica e cultural, todo ele, que não havia donos e a democracia seria natural. Digamos que os donos do poder, em Portugal, o são porque, cobardemente, vivem desta exploração vil. Não aguentam confrontação de igual para igual, vivem de rebaixar o povo.  Sendo as coisas o que são, e não as que imaginam os que fazem da política um modo de vida, fácil é perceber que o emigrante passa a ser um turista que vai a Portugal uma vez por ano ou de tantos em tantos anos. E isso mesmo enquanto os filhos são pequenos e obedecem aos pais, porque depois de crescidos as férias são nos cruzeiros e praias doutras paragens. Têm saudades da boa comida e do bom vinho? Nem tanto como se imagina porque o Mercado da Saudade é um facto. Onde houver comunidades portuguesas compra-se tudo o que a Pátria dá,  do azeite à couve galega, do peixe aos feijões, da cerveja Sagres ao tremoço, do queijo às carnes fumadas.  Tudo isso abunda cá por fora, incluindo as castanhas maila pera Rocha. E depois há os clubes onde os mais velhos vão beber o seu copo e conversar, que lhes são sala de festas durante o ano. Uma ida de um mês a Portugal chega-lhes para abraçar família e amigos, para observarem o que se passa e regressarem sempre  com a mesma opinião: aquilo por lá não se entende, nem se percebe como vivem, mas continuam a olhar para nós por cima do ombro.

Com este estado de espírito, compreende-se que a abstenção eleitoral na emigração atinja facilmente os 90 por cento. Sem perceber nada do que anda a fazer, quem está no poder tentou, de modo canhestro, domesticar esta rebeldia silenciosa implantando por cá delegações partidárias, um falhanço redondo que só serviu para meia dúzia abichar viagens e condecorações. As visitas de deputados e secretários de estado, em tempos de aperto financeiro ou de eleições, reduzem-se a umas cerimónias pífias no consulado seguidas de jantaradas, sempre com os mesmos clientes, perante a indiferença da comunidade. A propagandeada luta pela língua portuguesa, é tida como uma treta e uma vigarice que serve para encaixar afilhados e seus familiares desempregados em Portugal. Os consulados funcionam mal ou menos mal consoante o chefe da missão, sendo um dado adquirido que a qualidade do pessoal deiplomático tem vindo a descer de forma assustadora. Os bancos estão de arraial armado nas comunidades, todos à caça da poupança, mas nenhum deles abriu nunca a porta aos empresários locais para que se implantassem indústrias e comércios em Portugal. Tudo, na relação de Portugal com a emigração, reside no reino do faz de conta.

Leio que  Presidente da República vem a Toronto e a São Francisco da Califórnia para reuniões com empresários. Acho engraçado este acordar presidencial do mesmo personagem que, quando rebentou a fraude da Caixa Económica Faialense, em que estavam envolvidos figurões do PSD, não levantou um dedo para acudir aos milhares de defraudados, entre os quais um que se matou e outro que matou a tiro o gerente dessa unidade bancária em Toronto, tendo mesmo a então secretária de estado das Comunidades recusado receber os representantesm dos lesados, e tendo fechado os olhos ao facto do então ministro da Administração Interna, o seu amigo Dias Loureiro da roubalheira do BPN, ter mandado a polícia espancar as centenas de emigrantes que, perdidas as economias de uma vida, se manifestaram em Lisboa. O mesmo personagem que, sendo primeiro ministro e tendo vindo a Otava prestar contas ao governo canadiano que vivia tempos de ira contra armadores portugueses e espanhóis que dizimaram o bacalhau da Terra Nova, com isso levando à falência pescadores e indústrias locais, se deu ao capricho de vir a Toronto, em carro oficial de cortesia canadiana, para, empoleirado nas escadas exteriores dum clube que já fechou, empinar o queixo para dizer aos emigrantes que voltassem porque Portugal era “um caso de sucesso”. Militante da seita dos que nunca se enganam nem têm duvidas, ficou a pregar sózinho.  E agora, ei-lo de novo. Se os investidores estrangeiros e nacionais olham com grandes reticências o completo fracasso dum governo que aplica de cócoras a austeridade suicida que a Merkel exige, por alma de quem o emigrantes português terá de comprar o vigésimo premiado a quem nunca deu garantias?

Tarde piaste.  Assobiem-lhe às botas.

 

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