Carná chegando

por Maria José Lindgren Alves

O Rio de Janeiro continua lindo…/

Em fevereiro, tem carná..

(Gilberto Gil, 1972)   

Ouço ao longe a charanga meio desafinada e o típico rufar dos tambores pacíficos do Carnaval do Rio. Meu corpo responde, nem sei bem porque, com um arrepio de outrora. Vejo-me faceira a remexer os quadris no meu quintal de menina, em fantasia de baiana. Da porta da cozinha, mamãe batia palmas de aprovação, em riso aberto e minha irmã assiste sem grandes entusiasmos.

À mãe e à filha mais nova somente importava a excitação do samba e das marchinhas no rádio, decorados meses antes, com a atenção dada aos livros herméticos de filosofia que, aliás, aprendi a temer na Faculdade de Letras, por impingido à turma de qualquer jeito. Ah, Heidegger de minhas insônias!

Grande animadores do Carnaval os do rádio daquele tempo. Valia o momento em que se vivia a felicidade. Coisa ruim, só para fazer gozação. Melodia e letra aprendidos, ainda que, em criança, nem sempre entendêssemos as mensagens: elogios políticos Bota o retrato do velho, outra vez/ bota no mesmo lugar…. : preconceito óbvio O teu cabelo não nega, mulata…ou Olha a cabeleira do ZezéSerá que ele é/ será que ele é…O resto eram marchas-rancho, trégua ao cansaço dos foliões: Um pequenino grão de areia/ que era um pobre sonhador…/ Bandeira branca, amor, não posso mais…E o samba-enredo das escolas: calmo, ritmado sem pressa, dava tempo dos passistas e da bateria exibirem seus dotes. Autênticos, saídos às vezes de pobres com falhas de dentes, e de seus amigos próximos, choravam as mágoas ou o bom da vida, em plena Praça Onze ou na Avenida Presidente Vargas, sob os aplausos delirantes da platéia, atrás dos cordões de isolamento, onde coubesse mais um corpo cheio de remelexo. Não falo aqui do que viveu minha família materna, por antigo demais. Sei de tios “da fuzarca” que saíam bêbados em Carros Alegóricos, jogando beijos.

Blocos de rua escolhiam as imitações mais grotescas: Carlitos, machos vestidos com a roupa das irmãs, caricaturas dos políticos da época…

Muito mais tarde, casada e com filhos crescidos, participação fantasiada e tudo, no bloco do Clube do Samba, do compositor João Nogueira (ai, já morto!), junto com meu companheiro e outros amigos carnavalescos. Ou no Sambódromo, arrebatados pela Verde e Rosa, a Mangueira querida, gritávamos com Jamelão o samba-enredo vencedor, aos saltos de satisfação pela grande vitória.

De lá pra cá, quase nada. Um ou outro samba e enredo por acaso prestados à atenção na correria com que têm que passar os sambistas, a bateria e os carros alegóricos descomunais, devido ao crescimento das Escolas, entupidas de celebridades e gente de fora. Muito bloco de maioria jovem, nas ruas dos bairros da Zona Sul, que não posso usufruir bem sem o gosto tão saboroso da mocidade; o desfile na TV até meia-noite, uma hora, ou no dia seguinte, se o desfile avançar manhã a dentro, como é habitual. E só.

Ai, meu Carnaval tão querido!

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