Attila József

por Dalila Teles Veras

Provocada pela amiga Margarita Olga Lo Russo, pesquisadora sempre à busca de tesouros escondidos, que me perguntava se conhecia o poeta húngaro Attila József, recém-descoberto por ela num sebo de Buenos Aires, saí à caça aqui nas minhas prateleiras. Sabia que havia lido alhures algo, mas a memória falhava. Até que… Aqui está.

Comecemos por este cortante, preciso, poema metalinguístico:

Quando se faz poesia, o certo
é tudo, menos ela:
em vez de terra, o mar aberto,
em vez de rodas, vela.

Quando se faz poesia, o certo
seria não fazê-la.

Este poema integra uma adorável plaquete, “Canção Antes da Ceifa” – poesia húngara do século 20, tradução do também poeta (de ascendência húngara) Nelson Ascher e prefácio de Paulo Rónai (que ressalta as dificuldades de verter poesia húngara, “pouco menos que impossível), publicada em 1990 pela Arte Pau-Brasil (201 exemplares – o meu é o de nº 132). 30 poemas de 9 poetas, dentre eles, Attila que é contemplado com 6 traduções e um fac-símile de um poema manuscrito.

Imagem texto Dalila

Plaquete “Canção Antes da Ceifa” – Poesia Húngara do século 20

O poema também faz parte de um charmoso marca pág.

O poema também faz parte de um charmoso marca pág.

De Attila diz o tradutor: “o maior dentre todos os poetas políticos, autor de uma obra densa na qual se enlaçam Marx e Freud, um gênio faiscante que se atirou, aos 32 anos, sob um trem de carga.”

O desencanto e a “morte anunciada”, nestes outros poemas:

PARA MEU ANIVERSÁRIO

Fiz trinta e dois anos agora
e este poema os comemora
repenti-
namente;
sou eu sozinho que me oferto
no canto de um café deserto o
presente
presente
Trinte e dois anos foram vento;
jamais ganhei nem meu sustento.
Que terra
megera!

Quase fui mestre e não poeta
que esbanja assim sua caneta
sem eira
nem beira
Mas fui banido, sem apelo,
da faculdade em Szeged pelo
docente
demente.
Ele advertiu-me grosso e greve;
devido ao meu “Coração leve”,
de espada
em guarda,
defendeu, contra mim, a pátria
e, a conjurar minha alma ingrata,
fez esta
promessa:
“Enquanto aqui for eu quem manda,
não darás aulas nestas bandas.”
Brilhava
de raiva.
Se o Doutor Horger tem, contudo,
prazer em ter me obstado o estudo,
é ganho
tacanho.
Pois se instruir meu povo inteiro
não só no grau mais corriqueiro,
venci no
ensino.

CORAÇÃO LEVE

Não tenho pai nem mãe
nem deus nem pátria-amada
nem berço nem caixão
nem beijo ou namorada.

Há três dias não como
nem muito ou mesmo pouco.
Meus vinte anos são tudo;
meus vinte vendo ou troco.

Caso ninguém os queira,
o diabo que os arrende.
meu coração nem pesa
se roubo ou mato gente.

Sou preso, executado,
no chão santo acolhido
e erva letal recobre
meu coração garrido.

Eis aí um poeta (mais) trágico, que morreu cedo e viveu as agruras de um país em permanente conflito de fronteiras. Impressiona a intertextualidade e as referências aos acontecimentos levadas poeticamente ao limite.

Não é muito, mas também não é pouco, na ausência quase total de versões para nossa língua de poetas húngaros e de outros países da Europa Oriental. O pouco que, para mais uma vez ficar com Rónai, que “deixa mais perto”.

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