DÁ QUE PENSAR

por Fernanda Leitão

O funeral de Eusébio, que a RTP-Internacional teve a feliz iniciativa de transmitir em directo para as comunidades de portugueses emigrados, deu que pensar a vários títulos.

Desde logo, porque mostrou, de forma clara, como os portugueses têm fome e sede de figuras públicas honestas e limpas, das que servem uma causa por amor à camisola e fidelidade ao país. Há muitos anos, quase cem, que os portugueses olham de lado, com desconfiança e ressentimento, a maioria das figuras públicas. Os povos precisam de figuras em que se revejam. Foi o caso com Eusébio: menino pobre que, com muito trabalho e sacrifício, com grande talento e bom carácter, com disciplina e bondade, foi um dos melhores futebolistas do mundo e o maior de Portugal. A emoção causada pela morte de Eusébio varreu o mundo de língua portuguesa, transbordou nas ruas de Lisboa e atingiu um pico dramático no cemitério: todos pareciam recusar enterrar o seu herói, todos o queriam por mais um tempo, mesmo debaixo de chuva torrencial. Um povo a reagir como um menino órfão e desamparado.

Se Eusébio deve ser, ou não, sepultado no Panteão Nacional, não sei pela simples razão de nunca ter sido explicado ao povo o que significa um panteão nacional, à luz do estado português. Eu só sei duas coisas: que são bastantes os que lá deviam estar e não estão; que, depois de a douta Assembleia da República ter feito uma emenda ao preceituado legal no que respeita ao panteão, para ali poder sepultar Amália Rodrigues, não terá outro remédio senão fazer o mesmo com Eusébio. Porque, como tem sido repetido nas últimas semanas, o desportista e a raínha do fado prestaram ao país o mesmo serviço: levaram longe o nome de Portugal, pela positiva.  Porque, pela negativa, todo o mundo sabia muito bem que Portugal era um pequeno país europeu, com um grande império colonial, cujo povo vivia sufocado debaixo da ditadura. Quem viajava nos anos 60, sabe que é assim: no estrangeiro reconheciam-se com prazer os nomes de Amália e Eusébio, e com azedume o de Salazar. Eu também o testemunhei várias vezes em diversos países. O que é negativo não é louvado, como se sabe.

Depois, outra coisa deu que pensar: a pressa com que partidos em rota de perdição, por maus actos e omissões escusáveis, se atiraram ao engodo do funeral de um homem bom com os olhos (de pouco alcance) postos nas eleições. Todos os merceeiros da política, depois de enterrarem a social democracia, a democracia cristã e o socialismo democrático, entraram num rodopio de casino, numa lógica de tudo ou nada. De tal forma que, dentro da Igreja da Luz, a presidência da Repúlica e o Governo, eram ali corpos estranhos. Não tinham nada a ver com aquele filme.  Muito aflitas devem andar estas almas que um dia terão o seu repouso quando Portugal voltar a ter estadistas. Funeral igual ao do Eusébio é que não vão ter com toda a certeza.

Estes acontecimentos trazem sempre consigo uma espuma inconsequente, lambida por quantos têm medo de chamar os bois pelos nomes.  Está a ser viral o que, com toda a deselegância, Mário Soares disse de Eusébio.  Não sei donde vem a surpresa. Esse político tem uma moral engraçada, própria de quem não se sabe ver ao espelho: nos anos 70, disse o que disse de Sá Carneiro e Snu Abecassis. Não foi só ele, claro, houve mais.  Que a terra lhes seja leve.

Resta o que deve restar para todos os portugueses, sem olhar a clubes, partidos e outras ninharias: o Eusébio era um de nós e vai fazer-nos falta.  Precisamos, urgentemente, de muitos Eusébios humildes, decentes, empenhados, competentes, em todos os sectores da vida portuguesa.

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