Eu sou som, sou sons

por Nilto Maciel

livrosNarrou-me Cleto Milani, por telefone, uma historinha nada linear. Contém alguns flashbacks. (Pelo visto, o homem deseja me imitar ou substituir). Anunciou ter conhecido “garota inteligente”, a passear (vagar) pelas ruas da Internet. De início, desconfiou de brincadeira de homem. Isto é, a pessoa com quem conversava não seria Cecília Sousa e, sim, algum membro da sociedade secreta dos cultores de letras. Pensou em alguns nomes: Carlos, Dimas, Felipe, Pedro, Raymundo. Terminou em Nilto. Sim, a “moça” das mensagens bem redigidas seria eu, a inquiri-lo. Se compreendia mesmo literatura, se “sabia das coisas”, se lia e escrevia, se isso, se aquilo. Cogitou ser grosseiro e “me” mandar p’ra baixa da égua. Antes de cometer semelhante loucura, jogou-se à cama e, enquanto dormia, ouviu sussurros vindos do nada: “eu sou som, sou sons, sou sa se si so su, sousa, sesi, só sua”. No dia seguinte, se deparou com isto, na tela: “Sonhei com o senhor. Nunca participei de oficina literária. Se não custa nada – como pude ler – quero ser sua aluna. Beijos. Ceci”.

Emprestei alguns opúsculos novos ao ancião. E ele os transferiu à sua primeira vítima. E disso tudo resultou esta história. As coletâneas são Iguais(Passo Fundo: Projeto Passo Fundo, 2013), de Pedro Du Bois, e Exília (São Paulo: Dobra Editorial, 2013), de Alexandre Marino – poemas; Amantes nas entrelinhas (Passo Fundo: Projeto Passo Fundo, 2013), de Tânia Du Bois – crônicas; e As coisas incompletas (João Pessoa: Ideia, 2013), de Hildeberto Barbosa Filho – jornal literário.

Outro flashback: O libertino contava com meia dúzia de “pulcras donzelas” no primeiro dia da oficina. E dedicou cerca de uma hora a este assunto. Promovera ampla divulgação. Morreria de vergonha e decepção, se ninguém se apresentasse à sua porta. Não morreu: Cecília o salvou. E levou quatro brochuras novas. Lesse, com muita atenção. Na próxima sessão, examinariam (ela e ele) os papiros.

Segundo ele, a nova poesia brasileira, publicada em livro e na Internet, vai bem e vai mal. Os melhores estão, dia após dia, em menor número; os do lado da imensa maioria se propagam feito moscas. Pedro Du Bois e Alexandre Marino estão entre os raros exemplares de uma espécie em extinção. Aquele no Sul, este em Brasília (nascido em Minas Gerais). A moça se declarou leitora assídua de Pessoa, Drummond, Cecília Meireles etc.

O mestre do Benfica reparou na obra de Pedro a importância dada ao “formato” das peças. Constituem-se de poucos versos, entre seis e quinze. O ritmo do fôlego (do respirar) regularia tais medidas. Nota-se também a subdivisão em estrofes: duas, três, quatro. Um ou outro cântico se mostra inteiro, sem quebras. A mocinha se impacientou: Isto tem alguma importância? Sim, tem. Se não tivesse, não seria assim. Mudou de assunto: E quanto ao discurso? Ele não me parece narrativo, devotado a situações reais ou ao cotidiano dele ou das pessoas. O professor se empolgou: “Não é poeta lírico, afeito ao subjetivismo intrincado, filosófico, de difícil percepção pelo leitor médio”. Visse este exemplo: Nada me vale a janela / se não posso / ver as construções / de igualados prédios / em vistas circunscritas / aos arredores: a janela // do novo prédio / me contempla. “O leitor menos atento vê aqui apenas narração ou descrição. No entanto, a ode vai muito além disso”.

Passaram à seleção de Alexandre Marino, bem mais encorpada do que a de Pedro. Não só no número de páginas. “Náufragos” se situa entre os menores poemas: tem oito linhas. Muitos estão divididos em estrofes. A estudante se entusiasmou, feito criança quando revela astúcia: Encontrei uns sonetos. O docente reforçou a observação dela: Pelo menos, quatro. E muito bem elaborados.

A menina não concedia sossego ao velho: E quanto à linguagem? O devasso quis se exibir com jeito de catedrático: “Alexandre é afeito à frase esmerada ou sem desleixo, ainda quando brinca de neologismar. No entanto, prefere percorrer o caminho sem se meter em atalhos: ‘a coragem dos grilos nas noites das florestas’; ‘os gestos delicados dos símios quando se coçam’; ‘vento e chuva dançando uma valsa’. Isto é, ele é atento a tudo, não abdica de captar o menor gesto dos seres”. A jovem estranhou a constante referência a outros poetas, alusão a poemas, pinturas, músicas. Como em “Giverny”, em sua quase descrição: ‘Claude Monet e sua pintura – / abrigo de um lago sem fim, / refúgio de enlevos – / luzem glicínias e nenúfares, / um caminho entre nuvens’.

Debateram, durante boa parcela do dia, a arte poética. E eu cobrei de Cleto outros resultados dessa porfia. Cheguei a urdir recriminação: “Você não me disse nada, meu amigo. A ourivesaria de Pedro Du Bois e de Alexandre Marino faz jus a mil leituras e interpretações”. Não me deu ouvidos e se consagrou aos Amantes nas entrelinhas, de Tânia Du Bois. “A crônica também merece leitura e estudo, seu Nilto. Ou o senhor pretende ser esquecido até como cronista?” E se voltou para os acontecimentos em sua casa: A pupila tencionava, “de fina força”, analisar o impresso de Tânia. Manifestei “palpite infeliz”: “As mulheres se entendem”. Ele riu e parafraseou Manuel Bandeira. A visita se expressara assim (com pedantice e tudo): “Tânia certamente guarda manancial de citações, colhidas em livros. Pois suas joias se fundam em frases extraídas de obras do underground ou do cânon. Temos tudo para considerá-las fragmentos comentados”. O preceptor se aborreceu: Seria necessário perguntar à própria cronista como consegue incluir em tão breves partituras trechos de variados autores. Selecionou “Erotismo na Arte”, na qual são mencionados cinco escritores brasileiros: Carlos Higgie, Maria Teresa Horta, Nilto Maciel, Pedro Du Bois e Clauder Arcanjo, e o artista plástico Ruben Gerchman. “É impressionante isso, essa capacidade de arranjar excertos de poemas e contos e, desse modo, polir verdadeiras ametistas”.

A aprendiz não se sentiu repreendida e esboçou elogio à cronista: Suas peças têm sabor de bolo, torta e frapê. O lascivo ancião revelou, então, um dos mais extraordinários intentos de sua vida: “Você aceita ir ao shopping comigo? Sou afeito a sanduíche com coca-cola”. Cecília, no entanto, cortou-lhe logo as asinhas: Deixasse para outro dia o passeio. No afã de se vingar, o vovô propôs: Então esquadrinhasse, com mais agudeza, a arte de Tânia Du Bois. Não se intimidou Ceci: Chamara-lhe a atenção o uso de epígrafes, na maioria das pérolas, sem esquecer as citações no bojo dos textos. Apesar de zangado, o dono da casa proferiu outra vulgaridade: “Estas narrativas conduzirão os leitores aos edênicos bosques da poesia em prosa. Sua leitura se adapta perfeitamente a qualquer ambiente, seja nas madrugadas frias, nos dias de muito calor, nas noites de insônia”.

O encerramento da reunião ocorreu com As coisas incompletas, de Hildeberto Barbosa Filho. “Gosto sempre de começar pelo começo, isto é, pelo título”. Concordo com ele: O título é poético. E está de acordo com Hildeberto, o poeta, tido e havido como um dos melhores do Brasil.

A menina demonstrava amplo conhecimento dos quatro títulos: Trata-se de jornal literário, o de número três. Apontamentos feitos entre 2008 e 2012.  O macróbio quis ser mais exuberante do que a estudante e arrumou outro elogio insignificante: “O compêndio é de rara beleza, formado de considerações, reflexões e divagações relativas à literatura e à arte de tecer versos e prosas, e a diversos assuntos. Como em ‘Os amores platônicos são sempre patéticos!’” A mocinha o cutucou (estaria a testá-lo?): Seriam aforismos? Ele não perdeu a compostura: Sim, poderiam ser vistos assim. Há neles igualmente transcrição de opiniões críticas e até composições poéticas. À página 23, aparece soneto de Jorge Tufic. O comportamento da garota lembrava professora e não aluna. Anotara passagem do diário, já no final: “A crítica de um criador quase sempre me agrada mais que a crítica daquele que é tão somente crítico”. O mestraço sacou da algibeira outra avaliação nada singular: “Enfim, obra vigorosa, plena de sabedoria e, ao mesmo tempo, de agradável leitura”.

Eu precisava desligar o telefone: compromisso com hora marcada. Fiz meu amigo Cleto Milani dar por acabado o diálogo. “Noutro dia continuaremos esta palestra”. Como arremate, ofereci-lhe este conselho: “E cuide bem de nossas discípulas”. Vocês imaginam a frase por ele grunhida? Não direi. É imprópria em livro, jornal e na Internet.

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