Em busca de pessoas comuns

por Saulo Krichanã Rodrigues

Quando perguntado sobre o que faria a diferença entre ricos e pobres, Ernest Hemingway teria dito algo como que “os ricos são pessoas simples e parecidas com cada um de nós: apenas teriam um pouco mais dinheiro do que a maioria de nós terá por toda uma existência”…

A rigor, todos nós nos sentimos tanto mais confortados quanto mais nos sentimos ou parecemos ser mais iguais entre nós, independente de quais sejam os princípios (ou a réguas e métricas) pelas quais nos propomos a aferir nossos graus de identidade e igualdade.

A única exceção mais evidente parece despontar quando estamos considerando os atores da assim chamada “cena política”: por uma singular e difusa régua, alguns deles sempre seriam (ou gostariam de ser) mais iguais do que outros…

A começar da máxima que procura alinhar as suas reputações por meio da não menos ambígua e capciosa “Regra Cesariana”: por ela, os políticos, antes de qualquer outro atributo, deveriam (mesmo antes de efetivamente ser) sempre parecer ser altiva e divinamente honestos.

Não deixa de ser curioso que esta métrica básica do comportamento político – assim como tantas outras métricas inspiradas por um homem que viveu pelo menos 100 anos Antes de Cristo, e que vão das condições que cercaram sua vida desde o nascimento, que se fez de forma até então desconhecida (gerando o dito parto cesariano), até as condições de sua atribulada vida (que por certo inspirou vários escritores de autoajuda com o seu sublime “vim, vi e venci”; ou os não menos festejados “a sorte está lançada” ou “assim é porque assim quiseram que fosse”) – seja tão repetida quanto tão pouco se conheça das circunstâncias que a forjaram.

Afinal, poucos sabem a qual das esposas de César se refere o tal bordão famoso: formalmente, César teve quatro esposas. Divorciou-se de duas delas (Cosútia e Pompéia Sula); ficou viúvo de uma delas (Cornélia); e deixou viúva sua última esposa (Calpúrnia), sendo conhecido em sua vida amorosa, por uma ambivalência de comportamentos igualmente intrigante.

Além de ser um festejado “calvo adúltero”, tinha outra alcunha pela qual também parte de suas tropas o distinguia – a “rainha de Bitínia”—, apelido que ganhou devido à sua amizade com o Imperador Nicomedes, eis que a ambos se atribuía uma intimidade que não era propriamente insólita ou incomum para a época (embora seus compatriotas romanos fossem menos tolerantes a ela do que os gregos que professavam a platônica comunhão de homens, princípios e ideias).

Diz-se que estimulado por sua mãe Aurélia, seu comportamento adúltero era dirigido principalmente à conquista das mulheres de seus adversários políticos, como estratégia tanto para enfraquecê-los moralmente, quanto para contrapor argumentos à decantada amizade com o amigo Imperador que tantas oportunidades lhe abrira no inicio de sua trajetória política.

Mas foi com a sua segunda esposa, Pompéia Sula, enquanto César cortejava aberta e escandalosamente Cleópatra e a instava a se instalar próximo dele tão logo conseguisse (como conseguiu) sobrepujar militarmente o marido desta (Ptolomeu), que acabou por ter origem o tal tão repetido quanto mal conhecido epíteto.

Ainda em terras egípcias, ao saber da tentativa de um admirador de sua esposa (Clódio) obcecado em lhe fazer a corte em uma das sua tantas ausências, quando em vão tentou entrar disfarçado de mulher em uma celebração adstrita às esposas dos proeminentes cidadãos romanos em louvor à Bona Dea (a boa deusa) – propagou a infâmia de que teria sido ultrajantemente traído, ainda que todas as provas, testemunhos e evidências mostrassem exatamente o contrário.

Embora todos os que lhes eram próximos abominassem a situação e lhe criticassem a postura, ao juiz que julgava o seu pedido de divórcio acabou por cunhar a fatídica frase que assegurou a separação de Pompéia Sula: “à mulher de César não basta ser honesta, senão também parecer honesta”.

Assim, ao pé da letra – e ao rigor desta régua – na verdade as aparências (e apenas elas) deveriam prover cuidados a quem professasse uma virtude, ainda que esta não tivesse esteio no comportamento de quem a invocasse ou relevasse em tal epíteto.

Talvez tenha sido Friedrich Nietzsche quem melhor tenha elucidado tal falácia da prevalência da aparência sobre a verdade: “é quando muito se fala da virtude que ela já não existe mais”.

Mas entre a opinião de um iconoclasta – que detona mitos e falácias – e a cupidez de um político sagaz, hábil construtor de impérios e riquezas, manipulador de situações, criador e destruidor de reputações insuperável (entre elas a sua mesma) e que colocava seus objetivos e ambições acima de qualquer medida, as pessoas, sempre em busca de um modelo ou de um paradigma ideal, sabe-se lá porque acabam quase sempre por preferir a aparência, que avaliar a sua essência.

Mas, talvez seja exatamente por esta origem perversa aqui resgatada, que esta regra cesariana torne os políticos (ou aqueles que se propõem a patrocinar as causas coletivas) cada vez mais parecidos com suas caricaturas do que com os cidadãos “mais iguais aos outros” a que tantos deles na verdade pretendem ser (ou parecer)…

Afinal, até Mark Twain, em outras épocas, já observava quanto à classe política de seu tempo que “tinha-se o melhor Congresso que o dinheiro de então podia comprar”.

Ao longo desse tempo já imemorial, até a decantada capacidade de (melhor do que qualquer outro ser humano) o político ouvir e traduzir o clamor que vem das ruas (ou o igualmente ambíguo “clamor popular”) tem sido sistematicamente desmoralizado.

Aliás, em outras épocas, o senso comum dominante não recomendava sujeitar decisões públicas — complexas ou não –, ao “clamor das ruas” por serem estas, a um mesmo tempo, difusas e contraditórias.

Afinal, o furor da multidão teria feito Pilatos lavar as mãos ao julgar o homem que muitos julgavam ser o Messias.

Ao seguir o furor popular, Pilatos custaria a acreditar logo depois que muitos dos que lhe clamaram o martírio na cruz daqueles a que condenou fossem os mesmos a seguir a um deles: justamente àquele a quem jocosamente chegaram a chamar de “Rei dos Judeus”.

Tal como nos idos 100 Anos de Cristo, o mesmo Júlio César antes referido, depois de tantas vitórias e conquistas viria a ser assassinado com o respaldo do insuspeito “clamor popular” que, a partir do antológico discurso de Marco Antonio (sempre ressalvando a origem honrada (sic) de seus assassinos, Brutus e Cassius) rapidamente alterou o frêmito de seu calvário e fez voltar o mesmo “clamor popular” que respaldara o assassinato, contra a imolação de César fazendo com que os que até então apoiaram sua morte, fossem à busca de justiçar os seus honrados (sic) assassinos…

Também em contraponto mais contemporâneo a esta situação, George Bernard Shaw teria cunhado algo com “se 93 milhões de pessoas dizem uma asneira, continua a ser uma asneira”, o que, em tradução livre, deveria levar ao mesmo pudor sobre o atendimento inconteste do que se costuma chamar de “clamor popular”.

Num exemplo e noutro, de Pilatos a Marco Antonio, o “clamor popular” não parece ser bom conselheiro: e não se pode querer confundi-lo, como canhestramente parece se esta tentando fazer hoje em dia, com a devida consideração que sempre se deve destinar ao que se chama de opinião pública.

Isto tudo tem a ver com o momento vivido atualmente no país, onde a busca quase sempre proverbial em achar homens probos e honestos (o que teria feito Demóstenes, (o que não era o Senador mato-grossense), gastar o óleo de muitas lamparinas em busca de perfeição e das virtudes do homem –, parece ter sido apropriada por parte de alguns segmentos da população que veem na divisão dos votos do STF sobre o tão nefasto “mensalão” – e tanto mais, sobre o voto final que desempatou aquela contenda –, uma clara (sic) afronta ao desejo popular de finalmente ver encarcerados os fautores de mal feitos que a tanto tempo se multiplicam no país.

A catarse da situação trouxe, sem dúvida, a tempo presente, diversas inadequações do nosso sistema jurídico. Ou aquilo que parece dar a conotação de instrumentos que afinal podem ser usados até conspirar ad nauseam, para a prescrição das penas, assim como em tantas situações semelhantes volta e meia a sociedade se depara com anacronismos que precisam ser superados de forma a permitir a melhor evolução da do Estado, da sociedade e dos governos.

Mas, o que se tem visto é de um maniqueísmo atroz: faz-se abertamente o bullying de pessoas e situações, como que se a procurar e perseguir a perigosa tese de um pensamento único, onde embora se sublime silenciosamente, que foi, a um mesmo tempo, induzida e depois excitada essa tendência humanamente espontânea de buscar o perfeito e o acabado nos meios de comunicação de massa e através das redes sociais.

E esta tendência parece estar cada vez mais calibrada e aguçada pela variação dos índices de evolução das pesquisas eleitorais.

O mais curioso é o “contorcionismo dialético” que tanto morde quanto assopra, ao se discutirem os temas mais diversos: não é de bom tom a ninguém, por exemplo, dizer bem aceitar a espionagem entre nações. Mas, não dispor de uma contraespionagem igualmente aparelhada; e, pior, levar essa roupa suja para lavar na ONU; ou mesmo declinar de um convite para dançar (sic) nos salões da Casa Branca, e ainda por cima por certo utilizar essas diatribes no palanque eleitoral do ano que vem… ora bolas, por favor!

Nada de mais a se buscar o ideal por perfeição e paradigma (seria estranho, por certo, buscar a desvalia e o mal querer).

Mas, convenhamos, a julgar pela temperatura que emana das opiniões que entopem os canais da mídia virtual ou as linhas do tempo e os demais escaninhos das redes sociais, parece se estar em uma perigosa roleta russa, onde não há comentários isentos ou não se relevam mais as opiniões sustentadas.

Está-se sempre contra ou a favor de pessoas e de suas presumidas tendências ideológicas. Não se discutem mais ideias: mas se refugam opiniões que não condigam com as nossas (seja lá quem, afinal, sejamos “nós”). Procura-se passar a ideia que é possível desintermediar o poder de representação popular (geralmente um atalho para soluções neo iluministas ou neo sebastianistas de que, a rigor, estão impregnadas não só as lideranças políticas dos últimos 30 anos), assim como as alternativas (sic) que se nos são apresentadas como “flores no pântano” do atual descalabro.

Procuramos, afinal, homens ou mulheres capazes de nos representar condignamente – em não mais do que uma obrigação inerente ao desempenho de qualquer mandato representativo de um condomínio, de uma associação de amigos de bairro, até chegar a uma Câmara Municipal, a uma Assembleia Legislativa ou à Câmara Alta da República – ou ilusões plantadas que já nos chegam midiaticamente com tal vislumbre de santidade ou equidistância dos demais seres humanos, que já nos deixam submissos a pré adorá-los, totêmicamente, tal como desejam menos os seus eventuais ideólogos de cabeceira, mas, tão ridiculamente, seus marqueteiro com óculos coloridos de ocasião?

Ao final, queremos todos muito pouco: que apenas se cumpram os compromissos mais comezinhos tratados em nossa Constituição, como a saúde e a educação universal, para ficar em apenas dois exemplos. Compromisso que possam ser cumpridos por homens comum apesar de suas eventuais fraquezas ou mazelas de formação congênita: tudo o mais são novas embalagens para velhos produtos.

Produtos que, ao olharmos 100 anos antes dessa nossa era; ou no ponto do tempo em que ela se inaugurou nos tem legado apenas um cemitério imenso de decepções que não são fruto senão dessa nossa incapacidade de diferenciar homens e mulheres comuns dos seres perfeitos – notáveis semideuses e, agora, semideusas – que imaginamos serem capazes de fazer abstratamente o que nem sempre conseguimos no mais das vezes fazer individualmente em nossas vidas.

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