CICLO DE SANGUE

Por Raquel Naveira

Ciclo de sangue,
Todo mês
A lua volta
Em forma de plasma,
Suco,
Sumo;
Mar vermelho
Entre minhas pernas
De ser mamífero,
Fêmeo
E quente;
Placenta
Que se dissolve
Num fluxo de rio.

Que pode minha consciência,
Meu sonho de conviver com anjos,
Meu livre-arbítrio
Contra este ritmo bruto
Que me abate?

Que pode meu espírito
Contra a máquina indiferente
De meu corpo imperfeito
Que purga
E se mancha
De estrelas sanguíneas?
De nada adiantaria
Um banho ritual,
Um mito,
Ou a fé no pecado original,
Vivo num invólucro de carne,
Casulo natimorto.

Mesmo na velhice,
Quando os diques se fecharem,
Útero e ovário
Esturricarem como frutas
De cascas endurecidas,
Ainda assim
Terá sido a mão da natureza
Com a violência de um outono seco.

Sou Eva,
Circe,
Maria,
Entre maçãs, feitiços e serpentes
Sangro gerações.

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