Delírios verbais em tarde de setembro

Por Nilto Maciel

Apresentou-se (no e-mail) como Juliana Venturoso de Azevedo Moura, leitora de Mia Couto, Agualusa, Ondjaki. Sonhava com me conhecer pessoalmente. Enchi-me de emoção e logo me rendi: “Sim, pode ser agora, venha, corra”. Meu nome surgira num bar. Tive inveja dos rapazes que frequentam bares todas as noites e morrem de câncer e angústia. Se tivessem intenção de me pegar em emboscada, visitassem os bares do Benfica. Cercado de mocinhas, antigo cidadão sussurrava frases novas ao ouvido da mais fresca, enquanto a cerveja esquentava no copo.

No dia seguinte, veio à minha casa. Andava com exemplar de Os da minha rua. Insisti na história do bar. E contou detalhes: Encontravam-se ela, amigas e amigos da faculdade num bar. E a conversa descambou na direção de livros, literatura, escritores. Quem merecia leitura no Brasil? “Amiga minha citou o seu nome”. Quem terá sido essa traidora? “Ruana”. Fiz-me de desentendido, bobo ou imune à fama: “Não me lembro dela”. Juliana engoliu meu fingimento: “Veio aqui mais de uma vez. Ruana Cardoso. Ou não recorda?”

A lengalenga teve bom andamento, mostrei-lhe os pavimentos de minha casa, as estantes dos papiros, as obras raras. Tocou em Aziyadé. “Quem é Pierre Loti?” Ao final, emprestei-lhe três impressos recebidos recentemente. Lembrança de homens que não existiam (Fortaleza: ARC Edições, 2013), de Floriano Martins e Valdir Rocha; Falsa paisagem (Guaratinguetá: Penalux, 2013), de Paulo Lima; e Rumo norte (Fortaleza: Local foto, 2009), de Natercia Rocha. Lesse e voltasse. Juliana saiu com seu Ondjaki.

Passados sete dias, ela voltou. E me pegou agarrado a’O crime do padre Amaro. Confessou ainda não ter lido nada de Eça. E eu lhe puxei a orelha: “Pois antes de conhecer escritores do nosso tempo, é seu dever mergulhar em Eça e demais maestros da sinfônica literária. O mal de muitos escritores novos é começarem por eles mesmos e terminarem também neles”.

Passado o momento de professor ranheta, deixei o Eça de lado e agarrei o cearense Floriano. “Você gostou de Lembrança de homens que não existiam e dos desenhos de Valdir? Você deve ter percebido: não se tratam de meras ilustrações. Os desenhos e os poemas podem ter nascido juntos ou um após o outro, como em composição de música popular. Trata-se ‘de diálogo criativo que transcende os limites da ilustração’. Isto é, o desenho completa o bordado verbal e vice-versa, embora possam ser ‘vistos’ separadamente”. A aluna sorriu: Os desenhos lhe pareceram primários. Atalhei: Não seriam primitivos? Ou seria ela a primária?

Ao analisar os desenhos, Floriano observa: “as máscaras mortuárias anônimas se somam como uma ponte que me levam até os hinos religiosos encontrados nos túmulos egípcios”. E elaborou os cantos exatamente diante dessa visão antiga.

Então sapequei a pergunta presa à garganta: “E o tecido poético propriamente dito?” Ela se esquivou: Preferia ouvir antes minha opinião. Engendrei retrospecto sumário da tecelaria poética de Floriano: acompanho a sua trajetória desde os anos 70 et cetera. Cheguei a redigir artigo a respeito de suas primeiras peças. Está emGregotins de desaprendiz. A leitora de Agualusa se revelou curiosa: “Quero ler”. Fiquei em dúvida: “O dele ou o meu?” Ela riu.

Voltei a Floriano: Se pelo vocabulário (substantivos, em especial, ou os nomes das coisas e dos seres) pudesse o leitor assimilar o bardo por inteiro, poderíamos ver na arte de Floriano Martins o tempo e o espaço anteriores à escrita: ‘vazio’, ‘noite’, ‘areia’, ‘abismo’, ‘caminho’, ‘espírito’, ‘jornada’, ‘nome’, ‘luz’, ‘vozes’, ‘espécies… Pois com estes vocábulos antigos, conduzidos por verbos, ele recria o mundo”.

A visitante me interrompeu: “Não sei, não, seu Nilto; esse tipo de composição, com versos muito espichados, poderá ser cansativo ao leitor. Além disso, há certo palavreado obscuro (para o leitor)”. Rebati sua opinião: “Não vejo assim. Tudo tem explicação em poesia. Exceto quando o versista escrevinha por brincadeira, com desejo de rir do leitor”. E ela não perdeu o ritmo da toada: “Não será o caso de Floriano? Veja esta frase: A segunda noite é um temporal repleto de duplos que embaralham as refeições e desfiguram os amuletos. Qual o significado de ‘um temporal repleto de duplos’? E de ‘embaralhar as refeições’ e ‘desfigurar os amuletos’”? Saí de novo em defesa de meu amigo: “Isto é metáfora, minha jovem”.

Passada meia hora de altercação, mudei o tom da voz e ofereci água, suco ou bebida alcoólica. Ficou em dúvida entre a primeira e a terceira. Decidiu-se pela segunda. E passei ao Falsa paisagem. “A engenharia de Paulo se assemelha a brincadeira, aqui e ali. E isto se dá especialmente em odes capsulares, à maneira de Nicolas Behr, nos anos 70. Ou Paulo Leminski. Vejamos este: lesma / tarda / mas chega”. Juliana demonstrava serenidade: “Seria versejadura circunstancial?” Teimei: “Talvez não. Seria, quem sabe, a busca do mínimo, do poema adequado a novidades como facebook, twitter, orkut. O artefato literário dirigido ao leitor apressado, sempre a correr em busca do essencial no corriqueiro”. Ela me espicaçou mais uma vez: “Hinista pós-moderno?” Não sei a intenção dela. Quiçá tencionasse testar meu vocabulário crítico. Redargui à provocação, sem azedume: “Nem tanto. O vate tem cabedal, como em “rilkiana”. Isto é, ele vai a Rilke, Marx, Jung, Freud, Paul Klee. Não é desses doidinhos sempre atrás de rimas primárias”. A moça afigurou-se provocativa: “Agora é você quem tem jeito de doidinho”. Simulei surdez: “Em ‘poesia a quilo’ lemos verdadeira lição de arte poética nestes ‘tempos histéricos’ (expressão de André de Leones, nas abas): uma porção / de rima // um tanto / de ritmo // uma pitada / de estranheza // outra de espanto // um grão / de nonsense // outra de acidez // humor a gosto // traçar / sem parcimônia // vale / garfo / faca / mão / colher”. Visse a brincadeira do título: ‘poesia a quilo’. Não seria também ‘poesia aquilo’?

Propus nova interrupção do diálogo. Fomos à sala de jantar, a convite de Alice, e nos lambuzamos de frapê de morango. Juliana acariciou um braço de minha secretária e lhe dirigiu duas ou três indagações indiscretas. Antes das respostas, reconduzi a menina, às pressas, à sala de visitas. Precisávamos analisar o terceiro opúsculo. Deixei por último Rumo norte. Saí encantado da ‘leitura’ (mergulhei sem medo, despreocupado com o tempo) do belíssimo artefato – em todos os sentidos – de Natercia Rocha. Não me refiro às fotografias. Não, que a natureza, o ser humano, os seres em geral e as coisas do homem são quase todas muito belas: a cachoeira, o horizonte, os templos, as dunas, as flores, os rostos das crianças, o poente, o arco-íris, as águas. E Natercia sabe descobri-las. Ou vê-las.

Juliana se embasbacou com minha improvisação: “Pôxa, você está mesmo inspirado”. Aproveitei a euforia: “Natercia é poetisa feita não só de fios poéticos, mas de muita sensibilidade. Basta examinar os poemas (chamados erroneamente de textos, como se fossem simples descrições ou legendas de fotos). E recrio, calada, / novos perfumes em preto e branco”. A garota rebateu assim as minhas ponderações: “Em dados momentos, o texto tem semelhança com narrativa”. Discordei da estudante: “O propósito de Natercia é exatamente descrever a natureza, de forma poética. A homenagem ao poeta Alcides Pinto é de inimitável ternura: ‘Terno e fálico é nosso riso no umbral da fantasia’. E o instantâneo de solidão, em ‘E remendo pequenos espaços de mim: / Retalhados pontos de lembranças / Que o Tempo não desgastou’”. A leitora de Mia Couto deu malicioso sorrisinho: “Gostou mesmo?” Dei-me aparência carrancuda, de professor de ética: “Quase delirei”.

Sem mais nada a conversar (sinto-me cansado, após falar muito), dei por encerrada a ‘aula’. Ela me ofereceu, por empréstimo, o romance Teoria geral do esquecimento, de José Eduardo Agualusa. Recusei. Tenho dezenas de compêndios à minha espera. E lhe ofereci O crime do padre Amaro. E todos os meus alfarrábios.

Minha vingança predileta é doar meus sonhos a quem nunca dorme.

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