Mestre Calasans Neto

por Cyro de Mattos

Mestre Calá era o chamamento carinhoso que as pessoas do círculo afetivo e a boa gente da Bahia davam  ao artista Calasans Neto. Assim chamado por seu jeito agradável de ser. Também por reconhecimento a quem soube imprimir uma linguagem pessoal  ao sonho, povoar de iluminados  olhares as zonas da criatividade artística. Era um homem simples. Foi ator de cinema, participou das Jogralescas no Colégio da Bahia. Ilustrador durante anos das Edições Macunaíma, editora que ajudou a fundar, de tiragens limitadas, baixo custo, preocupada com a feição gráfico-artística do livro. Pastor de cabras, impregnado da paisagem sob o sol escaldante do agreste. Marinheiro sedutor de baleias e sereias, navegador do azul no principado de Itapuã.

Suas ilustrações figuram em inúmeros livros de autores baianos. Qual o autor baiano  que não queria ter  seu livro com o desenho da capa e páginas internas com ilustrações do Mestre Calá? Jorge Amado ficava contente, contente, quando um livro seu tinha ilustrações de Mestre Calá. Eu tive a sorte de ter alguns livros ilustrados por esse  mestre com sua fina arte de gravar o mundo.  Natal permanente, Canto a Nossa Senhora das Matas, De cacau e água, Natal das crianças negras. E mais: a segunda edição de Os brabos, que  está para entrar no forno da Editora Ler, de Brasília, vem com quatro ilustrações  do  pequenino grande Calá.

Florisvaldo Mattos, Myriam Fraga, Frederico José de Souza Castro, Sonia Coutinho, Godofredo Filho, Carvalho Filho, Alberto Luís Baraúna, Guido Guerra, Fernando da Rocha Peres e Humberto Fialho Guedes são alguns autores baianos que tiveram seus livros ilustrados por Mestre Calá.  A lista dos que gozaram desse privilégio é grande. Para não se falar em textos  de poetas e ficcionistas baianos, publicados  em revistas culturais e suplementos literários. E de poetas bem grandes como Vinicius de Morais e Pablo Neruda.

Tinha prazer em ilustrar um livro de ficção ou poesia. Se fosse de autor baiano, melhor. Fortalecia os laços criativos do artista com os escritores da terra.  Tinha  a oportunidade de ver depois seu  trabalho conhecido pelos leitores do autor do livro. Ganhava assim recepção mais duradoura e maior o seu trabalho, que alcançava mais gente do que uma exposição, segundo ele.

Um livro ilustrado por Mestre Calá era uma coisa, sem a sua marca, outra. Transmitia beleza decorrente da harmonia de duas linguagens, a textual e a visual, que se apresentavam em momento rico da criação artística. Não houve livro publicado pelas Edições Macunaíma que não teve ilustrações, da capa e páginas internas, enriquecidas com o prodígio criativo de Mestre Calá. Nesses livros ficava visível tanto na concepção como na execução a marca do bom gosto artístico.

Conheci Mestre Calá, criatura aparentemente frágil, rapazinho com passos curtos de quem teimava em andar, quando eu cursava o clássico no Colégio da Bahia, lá pelos idos de 1955.  Soube que tinha sido vítima de poliomielite quando criança. Mas isso, que poderia ser um obstáculo instransponível, não impedia que ele estivesse ali mesmo no colégio, todos os dias em que houvesse aula.  Firme, altivo, com seu jeito fraternal, às vezes engraçado no prosear bem baiano, as amargas nem pensar.

Um dia fui encontrá-lo junto com outros estudantes. Saboreava o abará da baiana  Maria, o  melhor da Bahia, na opinião unânime  da estudantada que freqüentava o Colégio da Bahia (Central). Na entrada do colégio, embaixo do fícus frondoso, mostrava-se irritado. Falava que o abará e o  acarajé corriam sério perigo. Já havia baiana na cidade que estava cedendo à pressão do dólar e vendendo as iguarias aos turistas americanos com salada, molho de mostarda e maionese,  ao invés de molho de pimenta, pouquinho de vatapá ou caruru também pouquinho, vá lá, e camarão. O fato representava  um duro golpe ao acarajé e ao abará, que se tornaram saborosos ao paladar do baiano com o acompanhamento de seus complementos  naturais, ligados a uma tradição trazida de terras africanas. Os gringos não estavam nem aí se para os baianos o abará e o acarajé  não combinavam com salada e molho de mostarda. Para eles, sequiosos em impor sua cultura de dominação aos povos, abará e acarajé deviam ter salada e molho de mostarda  como no  hot dog e hamburg, observava o ferrenho defensor da culinária baiana com  raízes africanas.

Cativava ao primeiro encontro.  Qual era o segredo que  aquele hominho guardava para se mostrar sempre de bem com os dias, embora a vida fosse contrária a isso desde os sete anos de idade ? O amor de Auta Rosa, a companheira, a mulher e insubstituível musa de sua vida?  Sua saga surpreendente  na qual constantemente ele vinha recriando a vida com pinceladas, talhos vivos de um descobridor de gente, bichos e cores?

Com um metro e quarenta cinco centímetros de altura, esse príncipe de Itapuã   jamais fora pequeno.  Mostrou que a vida vale a pena, depende de nós mesmos fazê-la sem sobressaltos e depressões, se povoada de coragem, simplicidade, solidariedade. Com a goiva, o martelo e o formão nas argutas percepções  das manhãs e tardes.   Até com o pincel, sempre com as cores da natureza.

Calasans Neto nasceu em 11 de novembro de 1932, em Salvador, e faleceu na capital baiana, em 30 de abril de 2006.

 

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