A CRISE DE CREDIBILIDADE

Por Paulo Timm

Tento fugir do assunto das manifestações que sacodem o país. Impossível. O assunto tomou conta da mídia, dos cafés, da INTERNET, dos salões de beleza, de tudo. Todo mundo só fala nisso. Portanto, meus caros leitores, tenham paciência. Volto ao tema. O interessante, porém, é que sempre há algo de novo a comentar. Hoje, a questão da credibilidade nas Instituições, trazida à baila pela divulgação da uma pesquisa DATAFOLHA. Antes, porém duas palavras gerais sobre o tema.

A esquerda, o PT e aliados, o Governo, começam a se dar conta de que o Movimento, chamemo-lo assim, ficou maior do que qualquer previsão. Espalhou-se pelo país inteiro. Hoje à tarde, na minha pequena cidade do litoral gaúcho, haverá Manifestação na Praça 15… E tudo o que cresce salta aos olhos. Isso quando não os arranca da cara… Entenderam que já não interessam as razões “últimas” do Movimento: O lugar da esquerda não é nos gabinetes , é nas ruas, ao lado da massa. Melhor errar com ela, do que isolar-se, ensinam os velhos e ainda vivos conselheiros comunistas. Até porque tem-se que senti-la de perto em suas aspirações e , eventualmente, evitar que descambe nas mãos de aventureiros ou fanáticos. PT e Governo entenderam isso. Todo o movimentos de massas tem seus riscos, principalmente quando abre janelas à manifestação de ressentimentos sociais , no caso , justos, embora condenáveis. E isso é o que não falta no Brasil, uma sociedade em que metade de sua população vive na carência de empregos e renda digna, de serviços públicos, de moradia, concentrada em pouco mais de dez grandes metrópoles. É pouco…? Mas o Governo vem estimulando a inserção social e até elevou o Salário Mínimo e a flexibilizou as transferências (!), dizem alguns, ainda perplexos, como o débil Ministro Gilberto Carvalho. (Só por isso deveria ser demitido) . Ora, todos sabemos que isto é uma gota no oceano das carências populares. Daqui a pouco, se engrossar o Movimento, garanto que a ele se incorporarão os beneficiários do Bolsa Família, alegando que aquilo que recebem não paga o transporte ao Hospital quando as crianças adoecem…Remember Veridiana, de Buñuel…

Já não se trata , portanto, de entender o Movimento, mas de saber onde ele vai parar. Se bobear vira uma roleta russa, com riscos institucionais. Que fazer? Reorganizar as Alianças Políticas em torno de um Programa de Emergência. Rápido. A Base Aliada ruiu. Ela não garante além da aprovação apertada de medidas legislativas. Mas não REPRESENTA consistentemente uma fração significativa do povo brasileiro. Isto porque o sistema partidário e político estão falidos, para não falar do institucional – representação parlamentar – , em crise no mundo inteiro. É o que os jovens estão clamando nas ruas: VOCÊS NÁO NOS REPRESENTAM! Então, está na hora de reorganizar tudo: Partidos e Governo. O PT vem perdendo sistematicamente a hegemonia sobre a esquerda, repetindo para si mesmo, confiante, como a bruxa que se olha no espelho e pergunta: -“Espelho , espelho meu! Existe alguém neste país mais esquerda do Eu?”. Ora, todo mundo sabe que o PT já não tem a seu lado nem a esquerda histórica do país – brizolistas, socialistas e comunistas – , nem a inteligência crítica. Até os artistas parece que descambaram. Hoje, o PT é um Partido de burocratas sindicais e de máquinas Governamentais. Preço da glória e da acomodação. Aconteceu em vários outros países nos quais a esquerda chegou ao Poder. Em alguns casos acabou tragicamente, como a República Social-Democrata de Weimar. Mas com um novo Programa de Governo , com estratégias claramente definidas, o PT ainda tem jeito. Mas terá que fazer uma Reforma Ministerial de profundidade, com novos aliados. Ir para o embate. Melhor morrer – isto é , perder a eleição em 2014 – peleando, do que fugir do compromisso histórico. (Se é que este ainda subsiste…).

Finalmente, coroando: Em Política, todo mundo sabe, definem-se os inimigos e aguenta-se os amigos. O problema é que o PT restringiu esta máxima à Governabilidade e acabou se debilitando ideologicamente. Do ponto de vista estratégico já não tem inimigos, a não ser “os tucanos”, uma vaga estrela da Ursa Maior, e o FHC, seu Sol. Ora, isso é disputa eleitoral. Do ponto de vista estratégico há que enfrentar, como Vargas e Goulart o fizeram, o latifúndio e o agrobusiness em benefício da Reforma Agrária; há que combater , sim, o monopólio das Comunicações como fazia o Brizola; há que defender a soberania nacional contra a rapina do Império, fortalecendo a PETROBRÁS e outros setores estratégicos da Industria Nacional; há que lutar para nacionalizar a Banca, como recentemente fizeram os islandeses e também o Estado de Andaluzia, na Espanha. Ah!! Mas vamos tomar porrada! Uai! Quem sobe no ringue da Política, dá e toma porrada. E não adianta, depois de vencido, reclamar do juiz ladrão, dizer que o adversário jogou contra (ia colaborar…?) , que o treinador errou. Isso é choramingação. Lenga-lenga de derrotados. No Poder, se luta para chegar e se luta mais ainda para lá permanecer, mas, permanecer para realizar um programa.

Agora a Pesquisa de Credibilidade do DataFolha: Nem preciso falar . Os dados falam por si mesmos, como uma imagem dialética do mal estar com as instituições políticas no país.. Há uma descrença generalizada nos Três Poderes da República e ela é a maior em dez anos entre os paulistanos, foco do Movimento. Apenas 19% confiam no Executivo, 42% não atribuem nenhum prestígio ao Congresso e só 34% o conferem em algum grau ao Judiciário. Vejam :

http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2013/06/1297484-descrenca-nos-tres-poderes-e-a-maior-em-dez-anos-em-sp.shtml

A falta de prestígio dos Três Poderes da República é a maior em dez anos entre os moradores de São Paulo, segundo pesquisa Datafolha realizada ontem com 805 paulistanos. Ao mesmo tempo, as redes sociais na internet e a imprensa aparecem empatadas com mais prestígio do que todas as outras instituições pesquisadas.

Há dez anos, 51% dos habitantes da capital paulista achavam que o Executivo (Presidência e ministérios) tinha muito prestígio. Em 2007, o percentual caiu para 31%. Hoje, são apenas 19%. Essa década analisada pelo Datafolha coincide com a administração do PT no Planalto –com Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010) e Dilma Rousseff (de 2011 até hoje). A margem de erro da pesquisa é de quatro pontos percentuais, para mais ou para menos.

No caso do Congresso, a avaliação tem sido ruim: os que achavam que o Poder Legislativo não tem nenhum prestígio eram 17% em 2003. Agora, a taxa subiu para 42%.
Os partidos também nunca estiveram em alta. Mas em 2003 havia apenas 22% dos habitantes da cidade de São Paulo que consideravam que essas agremiações não tinham nenhum prestígio. Agora, são 44% –trata-se do maior percentual de desprestígio entre todas as instituições pesquisadas.

No caso do Judiciário, 38% dos paulistanos achavam que esse Poder tinha prestígio em 2003. A taxa recuou em 2007 para 34%. Ontem o Datafolha registrou só 20%.

Por essas razões é que as ruas do país estão cheias de manifestantes. Eles estão cansados. Querem mudanças. E nem é propriamente um problema com a Copa. As próprias pesquisas demonstram que este é o menor indicador da mobilização. O maior é a luta pela qualidade de vida nas cidades, mesmo!

VIVA AS RUAS! Onde mora o acontecimento…!

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