Verão de Francisco Carvalho

No Dia Mundial da Poesia mais uma homenagem ao Poeta Francisco de Carvalho Por Cyro de Mattos

    O sonho sobreviverá

Enquanto houver um bico

Que cate o alpiste

Do tácito entendimento,

Leve para outros ares

O som aceso do azul.

Um bico que semeie o amor

De graça dando a messe justa

Na fazenda livre do ar.

O sonho sobreviverá

No verso que inventa cores,

Canto por onde me iludo,

Triste eu me canso de tudo,

Faço-me rouco quadrante solar.

Rima do poço da morte,

Vertente da vida sem data

Sendo ilha e desvario,

Súbito prodígio de luz

No verão que esparrama

Pendões debaixo de nuvens

Como o espírito de Deus

Que sopra sobre as águas.

O sonho sobreviverá.

——-//——-

A Morte do Poeta Maior Francisco Carvalho

Morre, aos 86 anos, o poeta Francisco Carvalho, cearense de Russas. Autor de vasta obra e ganhador do Prêmio Bienal Nestlé, com o livro Quadrante solar (1982), deixa uma herança lírica de altitude incomum, na poesia brasileira contemporânea, mesmo que desconhecido pelos dispositivos midiáticos e pela indiferença do circuito editorial dos grandes centros econômicos do país. Dono de uma obra poética de qualidades inquestionáveis, tanto no plano formal como no conteúdo, no poema de lastro clássico ou moderno, de verso extenso ou curto, esse poeta insulado em  Fortaleza mais seria estudado na universidade, reconhecido pela crítica e conhecido do leitor se publicado por editora de circulação nacional, de São Paulo e Rio, centros dinâmicos de um eixo  que  até hoje funciona  como tambor cultural do Brasil.

Há quem diga que a melhor poesia produzida hoje no Brasil está no Nordeste. A afirmação pode soar exagerada, mas deve ser considerada como procedente  com relação a alguns nomes que revelam em sua fatura poética uma produção  da melhor qualidade. O cearense Francisco Carvalho em Fortaleza, os baianos Florisvaldo Mattos, Ruy Espinheira Filho e Myriam Fraga em Salvador, Telmo Padilha no Sul da Bahia,  e o pernambucano Marcus Accioly no Recife  são nomes  que se inserem na pertinência da observação.

 O poeta Francisco Carvalho estreou com Dimensão das Coisas em 1966 e de lá para cá publicou mais de vinte livros de poesia, demonstrando assim sua fidelidade   à “arte de excitar a alma com uma visão do mundo através das melhores palavras em sua melhor ordem”, conforme definição de Geir Campos, calcada na fusão que fez das concepções  de Novalis, Eliot e Coleridge sobre a obra literária escrita em verso.

Na antologia Memórias do Espantalho, organizada pelo autor, publicada em 2004, o poeta cearense reuniu em alentado volume poemas escolhidos dos livros Os Mortos Azuis (1971), Pastoral dos Dias Maduros (1977), As Verdes Léguas (1979), Rosa dos Eventos (1982), Quadrante Solar (1983), Prêmio Nestlé de Literatura Brasileira, As Visões do Corpo (1984), Barca dos Sentidos (1989), Rosa Geométrica (1990), Crônica das Raízes (1992), O Tecedor e Sua Trama (1992), Sonata dos Punhais (1994), Artefatos de Areia (1995), Galope de Pégaso (1995), Raízes da Voz (1996), Romance da Nuvem Pássaro (1998), A Concha e o Rumor (2000), O Silêncio é uma Figura Geométrica  (2002) e Centauros Urbanos (2003).

Explore posts in the same categories: Livros & Autores, Poemas & Poesias

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s


%d bloggers like this: