Beatriz Alcântara: a cumplicidade do poético

Por CARLOS AUGUSTO VIANA

Beatriz Alcântara - A cumplicidade do Poético por Carlos Augusto VianaA leitura do livro “Palavras cúmplices”, de Beatriz Alcântara, suscitou inúmeras especulações.

A escritura de Beatriz Alcântara põe o leitor em contato direto com o estado poético. A natural habilidade com que manuseia o verso livre, em poemas longos ou em expressões sucintas, é uma de suas singularidades.

Talvez, por isso mesmo, sinta-se tão à vontade quando se entrega a reflexões acerca do próprio fazer poético, como no metapoema “Palavras cúmplices”, presente na abertura do livro: (Texto I)

Leitura do poema

Aos poetas, sempre intrigaram os mistérios e os insondáveis segredos que envolvem o ato de criação. Nesta composição, Beatriz Alcântara encarna o criador quando envolto por especulações; por isso mesmo, imprime ao discurso o tom da indeterminação, a partir do emprego da forma “Imagina-se”. Assim, do ato de entregar-se à imaginação decorre um “prazer” que, “secreto” é absolutamente inefável, tão somente vivenciado enquanto experiência única.

Sendo um ato de “liberdade”, a criação domina a essência do eu em busca de sua própria libertação. Evola-se, a partir de então, a música; as palavras, por sua vez, entrelaçam-se umas às outras, e o desvio, íntimo do poético, “altera o trajeto”, provocando o encontro com o inaugural. A poesia, que se encontra em todo o lugar e nas mais diversas expressões artísticas, é, aqui, anunciada a partir de alegorias ligadas às manifestações da natureza: a princípio, “ventania”, prenúncio de uma “chuva”, sendo, portanto, a água índice de criação, motor do que é vivo. Por fim, num processo gradativo, a palavra cria uma ponte para o “devaneio” – caminho aberto para o exercício da imitação, consoante os ensinamentos de Aristóteles em sua “Poética” – a realidade da arte literária.

O tom confessional

Lírica, de tom confessional, especialmente quando vai ao encontro de suas raízes avoengas, isto é, quando palmilha, pelas trilhas do poético, os longes de Portugal, Beatriz Alcântara realiza grandes poemas que podem ser considerados frutos de um processo arqueológico. Nesse sentido, pode-se identificar a memória como sendo um de seus processos-chave de criação artística, consoante os versos do poema “Sopro de fortuna” (Texto II)

Neste poema, as impressões sensoriais, no âmbito da visão, do paladar e do olfato, tornam presentes e vivas as sensações de um passado longínquo; assim, revelam-se totalmente nítidas as coisas até então embaçadas pelo tempo, e o presente é impregnado pelas ondulações do passado.

Essas mesmas sensações também compreendem os versos do poema “Verão Lisboeta”: (Texto III)

Memória tem a ver com aprendizagem; e aprender, com apreender. O tempo, em seu movimento giratório, é, frequentemente, simbolizado pela Rosácea, bem como por inúmeras figuras circulares. Indissoluvelmente, o tempo liga-se ao espaço. Ao sair do tempo, o ser deixa a ordem cósmica para a entrada em outra ordem, em outro universo. Assim, a poesia de Beatriz Alcântara, quando cuida desses momentos, reveste-se de uma tonalidade plenamente ritualística. Vejam-se, por exemplo, os versos do poema “Mala de cânfora”: (Texto IV)

Leitura do poema

A “mala de cânfora”, feita de madeira e grande tamanho, era oferecida às noivas, às proximidades do casamento. No primeiro verso, o tom é de cumplicidade entre o eu lírico e a mala: “Guardei, guardaste-me”, em que o sujeito e o objeto se fundem formando um todo indivisível. A enumeração de diversos objetos do vestuário feminino, predominantemente em tom branco, com sua evidente carga simbólica, prepara o caminho para a passagem abrupta da adolescência para o mundo adulto, com todas as responsabilidades e desafios que este comporta – experiência que não se dissolve, mesmo com a afirmação do eu lírico de que, então, já não cultivava “sonhos românticos” ou “falsas fantasias”.

O “baú de madeira cânfora” sofre, a partir daí, um processo de antropomorfização, sendo o seu “ventre” o guardião de uma esperança firmemente já então determinada: “formar lar de vida própria”, numa reinauguração dos dias.

O poema, em seu segundo movimento, alicerça-se numa série de pretéritos, tradutora de ações que dizem da vida do eu lírico como uma experiência de constantes revelações e descobertas: singrou “mares”, atravessou “terras escaldantes”, entrou em contato com novas culturas e vivenciou descobertas e presentes vitais. Como se a vida se imprimisse em círculos, volta ao começo de tudo, visando ao resgate do “baú de cânfora”, sintetizado numa sinestesia de rara beleza plástica: “esperança perfumada” – um “esmaecido traço-de-união”, mas preso à pele como uma inscrição indissolúvel.

Trechos

TEXTO I

Imagina-se, o prazer é secreto, / a liberdade corre e toma posse. / Louvam à palavra, sonoridade e ideia, / faz a frase associações e altera o trajeto. / A ventania, prima irmã duma morna brisa, / vem de longe e anuncia chuva intensa a golpear. / Mutante, forte, salubre e vital qual água, impossível, / admire-se seu destemor indo de encontro aos rochedos, / imagine-se humanidade e terra isentas de sua fertilidade, / encante-se observando volteios, recuos e franjas ao espraiar, / ondulação suave e gentil na entrega, devagarzinho, no praia-mar. /// Palavras, ideais, imagens e devaneios, / cumplicidade, / busca constante da mimese, quase real, na arte literária. (p.11)

TEXTO II

sábado inteirinho de chuva / doce de goiaba no tacho / casa toda perfumada / tempo distendido / deste mundo gosto e me acho. (p.80)

TEXTO III

ah esse alto chilrear / no fim de toda tarde quente / lembrando dias de outros verões / calor e sol gemente a secarem os suspiros / da minha praça de ontem que não é mais hoje. (p.17)

TEXTO IV

Guardei, guardaste-me / linhos, rendas, bordados, / lençóis e toalhas, / camisola de cetim / naperons em crochê, / todos brancos, / enxoval de noiva, / para mim criança / sem sonhos românticos / coroada de jasmim / nem falsas fantasias. / Contudo, no teu ventre, / baú de madeira de cânfora, / guardava eu, em silêncio, / a esperança vindoira / de formar lar de vida própria / novo dia, a cada todo dia. /// Atravessei mares / pisei terras escaldantes / entendi a música aliciante, alta, / aprendi o imediato dos trópicos e, / abraçando a tão antiga esperança, / sonhos de amor construí. / Vesti-me virgem em seda / envolta em camadas de véu e, / subindo os degraus no altar, / talhei-me adulta, com um lar. / Gerei filhos, dois, / princesa e príncipe, / vida feliz entre tantos amores. / Voltei, vim buscar-te / baú de cânfora, minha / anterior esperança perfumada, / querido e esmaecido traço-de-união” (p.12-3)

Fonte: http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=1237874

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