De honrarias e poemas suspensos

Por Dalila Teles Veras

Pela trilha da leitura do poeta árabe Adonis, de quem falei aqui, cheguei a outros poetas árabes (pré-islâmicos, neste caso), traduzidos e reunidos por Alberto Mussa, numa encantadora antologia já a partir do próprio título,Poemas Suspensos (Record, 2006).

A poesia, como se sabe, perdeu um bocado de seu status em tempos condizentes com “produtos” mais midiáticos. Mas houve um tempo, em que poetas e poesia, mereciam honrarias como a de ter “suspensos” seus poemas. Ouçamos o que nos diz Mussa, o escritor brasileiro que foi aprender árabe só para ler e traduzir essa poesia: “Durante o mês da peregrinação dos beduínos ao santuário de Meca, onde se situava (e ainda se situa) a Caaba – grande pedra preta sobre a qual se construiu uma “casa” cúbica, acontecia a feira de Ukaz, onde havia concursos de poesia. Dez (ou sete) dentre os poemas premiados receberam uma honra especial, superior mesmo, ao serem bordados com fios de ouro sobre um manto de púrpura e exibidos sobre a Caaba.”

Puxa vida! poema bordado com fios de ouro sobre um manto de púrpura e exibido sobre uma pedra sagrada!

Uma das características dessa poesia (vejam só), escrita na língua que hoje se denomina “árabe clássico”, é a concisão. Ainda que ligada aos versos precedente ou subsequente, ensina o tradutor, cada verso deve corresponder a uma unidade sintática completa. Podemos, assim, admitir que essa turma já se enquadrava como “vanguarda” há mil e quinhentos anos..

Vejamos alguns exemplos do que escreveram alguns desses beduínos-poetas:

Ninguém dá conselho a quem o tempo é incapaz de aconselhar; inútil é quem tem a razão exausta. Faça parte do povo do lugar onde habitar e nunca diga: sou estrangeiro; pois às vezes estranhos vivem juntos; e parentes, isolados.

(Abid filho de al-Abras – Nota: “a lenda atribuiu a este poeta, o mérito de ter sido o primeiro árabe a dizer poesia”.)

Ó morada de Maia entre as alturas e as faldas da montanha, desabitada, onde o passado dura para sempre! Dentre os touros selvagens de Wajra, pernas pintadas, tripas famintas como um sabre excepcionalmente bem polido.

(Nábigha de Dhubiyan)

se conhecesse o diálogo, apelaria; se soubesse falar, eu iria ouvir.

O que tem matado a sede da minha alma e me tem curado das doenças é o brado dos cavaleiros: “Eia, Ântara, vai na frente!”

(Ântara, filho de Chaddad)

Não me importaria com a visita dos que velam os mortos, não fossem três prazeres de jovem: um trago de vinho tinto, que começa a espumar misturado com água, transbordando do cálice (isso é o que em mim mais censuram); um combate a cavalo, quando os indefesos me convocam, num garanhão de patas recurvas, como o chacal dos bosques sombrios, pronto a emboscar os que vêm beber; e um dia lânguido, quando o céu se encobre de nuvens negras – maravilhosas nuvens negras -, sob uma tenda bem fincada, com uma mulher bela e carnuda, cheia de braceletes e pulseiras, como se pendessem do tronco imaculado de uma asclépia ou de uma mamoneira.

(Tárafa, filho de Al-ABC Nota: poeta satírico, de vida desregrada, afastado do convívio tribal, Tárafa caiu em desgraça e foi condenado à morte. “Morreu da maneira que escolheu: encheram-no de vinho até a boca e o sangraram, na altura dos intestinos”).

Afinal, como se vê, nem só de glórias vivia (vive) o poeta.

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