Lirismos e rapapés nas tardes do mundo

Por Nilto Maciel

Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Estou em falta com Pedro Du Bois, Carlos Nóbrega e Valdemar Neto Terceiro, meus amigos e colaboradores do blog literaturasemfronteiras. São quatro publicações (duas de Pedro), presenteadas ainda em 2012, porém lidas somente agora: A personificação da máscara (Balneário Camboriú/SC: Edição do Autor, 2012) e Via rápida (Passo Fundo: Projeto Passo Fundo, 2012), de Pedro Du Bois; Lápis branco (Guaratinguetá: Editora Penalux, 2012), de Carlos Nóbrega; e Ipumirim soberbo (Fortaleza: Expressão Gráfica, 2011), de Valdemar Neto Terceiro. Os três vates são quase meus confidentes. Eu lhes mando lamentações (em prosa), eles me respondem com poesia. Leio (talvez muito antes dos demais editores) suas composições. Nada tenho a acrescentar ou a diminuir (como sugestão), e muito menos a mudar. Pois são poetas da primeira linha.

O vocabulário de Pedro é rico, não no sentido de inusitado, incomum, oculto nos palimpsestos e nas cabalas, mas de inesperado: “a razão linear do mistério” (p. 14), “Nada valem máscaras” (p. 21), “a casa ao lado / onde desabitam / meus fantasmas” (todos de A personificação na máscara). Ou de Via Rápida (e podemos ir a qualquer canto, aleatoriamente): “estradas / desorientam os pássaros” (p. 31) ou neste cândido (lírico) trecho: “Lembra o balanço / (a menina sentada / inclina o corpo / à frente e os pés / impulsionam os sonhos) / batendo em seu rosto” (p. 55).

A linguagem de Valdemar é recheada de lirismo, não daquele lirismo tão repudiado por Manuel Bandeira: “Estou farto do lirismo que para e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo”. Pode-se falar do lirismo de sempre, o dos bons poetas? Pois vejamos: “O meu lugar / foi embora de mim / e eu, na estúpida espera / de revê-lo algum dia / o meu lugar / que foi embora / daqui” (“Saudade do lugar”, p. 43).

A dicção de Carlos é aparentemente simples ou de retórica fácil. Os grandes cultores de poesia não ficam o tempo todo filosofando ou se perdendo nos labirintos da memória ancestral, da subjetividade mais inacessível. Ele engana o leitor ou tenta enganar (-se). Finge tão completamente que finge ser dor… “Vê a vida por mim / televisão, / Passa o meu café, Mariinha, / que eu tenho muita preguiça de viver” (p. 26). Não é dado a protestos. Entretanto, se crê apenas animal, tão repleta de contradições sente a vida: “Inocente como nossas tias solteironas / fornecedora de leite e de benevolência / Sonolenta, mansa, / como as imagens santas / e tendo apenas a culpa mais branda dos herbívoros / porém ultrajada como a mulher indefesa / de quem se dizem boatos, / ó Vaca, / Vaca, / Sagrada vaca, perdoai-nos, / Somos esses animais que vos comem a carne” (p. 33). Lembra-me tanta poesia, tanta atitude, tanta culpa, e isso me leva a não crer na vida eterna, porque não tenho o direito de me julgar mais importante do que uma vaca, só porque penso, logo existo. Lembra-me aquele soneto singular de um bardo magnífico e muito esquecido (Jorge de Lima): “A garupa da vaca era palustre e bela, / uma penugem havia em seu queixo formoso; / e na fronte lunada onde ardia uma estrela / pairava um pensamento em constante repouso”. E na segunda estrofe: “Esta a imagem da vaca, a mais pura e singela / que do fundo do sonho eu às vezes esposo / e confunde-se à noite à outra imagem daquela / que ama me amamentou e jaz no último pouso”.

Valdemar não perde um só instante o fio da meada (da História, da língua, da tradição literária, da realidade e de si mesmo, como cidadão nascido no Ceará, na cidade de Ipu). Não esquece as suas origens. Pelo contrário, o seu conjunto de poemas todo é como se fosse um só cântico de glorificação (e crucificação) de sua terra, a terra dos índios tabajaras, da famosa bica do Ipu, das matas tão glorificadas por Alencar (“Mais rápida que a corça selvagem, a morena virgem corria o sertão e as matas do Ipu, onde campeava sua guerreira tribo, da grande nação tabajara”). Pode-se dizer, ainda: seu responsório ipuense é uma substanciosa homenagem ao pai da literatura cearense, um dos “nacionalizadores” da literatura brasileira. É também um lamento pelo “índio inexistente”, pela seca, pela fome, pelo abandono (“tal bica, queda d’água infame em noiva”). Não um protesto, que poesia não se confunde com alterco, panfleto ou clichê.

O ritmo da poesia de Valdemar é como o da vegetação seca pisada por pés descalços. Ou de Iracema a correr pelos campos, pelas matas, em busca do litoral, ou do estrangeiro, do ádvena europeu. “Mais rápida que a corça selvagem, a morena virgem corria o sertão e as matas do Ipu” (Alencar).

A expressão poética quase isenta de lirismo de Pedro (como a de João Cabral) tem também encantos (para o leitor mais atento ao ritmo das sílabas, das palavras, das frases). Como se ouvisse notas ao piano, em noite calma, de silêncios feita. São gotas d’água a cair num chão de folhas, solo duro, superfície metálica: “A chama da vela / vale / a luz / enganada / na sombra / contra a parede”. Ouçam ou vejam a leveza dos versos.

Vê-se a mais límpida densidade nas frases dos três aedos. Pedro parece filtrar as palavras no momento do seu fluir para a campânula do poema. Não deixa passar nenhuma gordura, nenhuma sujeira: “Desperdiçado em óbolo / aguardo / o final se realizar / em glórias / e fantasmas” (p. 47 de A personificação). Carlos nem usa lápis preto ou colorido: “Que poeta sentirá a minha época / toda ela feita de coisas novas / iguais e sem surpresa”? (…). O jovem trovador de Ipu até se abstrai diante de um retrato: “sinto falta do que / não vi / sinto falta / a falta duma / nova fatia de memória” (p. 41). Isto é, não há abundância de nada, sons, palavras, imagens; há, sim, carência delas, porque a vida (como a poesia) se faz de essências. “o espírito e a essência. nada mais / o excede a não ser a essência / no escrutínio da dor, o que resta é essência” (p. 111).

Os três menestréis são uns brincalhões. São meninos a brincar com palavras, sons, imagens, enigmas. Carlos explica o mecanismo de seu brincar em “Linguajar”: “Palavras são bichinhos engraçados / que pulam de qualquer jeito / da boca dos matutos”. Pedro lembra um tempo muito antigo, como o das histórias da carochinha: “Ainda ontem / meu avô falava sobre / seus dias: // contava sobre o espantalho / estático / assustando / os pássaros”. Valdemar brinca de recordar Iracema, a serra da Ibiapaba, trovões, luares, sonhos: “eu durmo sob os olhos das árvores de / iracema” (p. 109).

Por falta de tempo, de espaço, de paciência, de… (ia dizer esperança, mas prefiro dizer capacidade de síntese), deixo de me estender nestas observações de leitor sonolento e desatento. Eu muito gostaria de estar mais com Valdemar, Pedro e Carlos, com sua poesia. Preferiria não estar preocupado com outros afazeres, e me dedicar mais a eles, até por toda a vida. E cavoucar lirismos e rapapés nas tardes do mundo, aprisionado por ninfas e musas em meu leito pagão, que me levassem ao êxtase do amor e da poesia ou à foz dos sentidos.

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