PORTUGUÊS, PALAVRA DE PAZ

 Por Henrique Salles da Fonseca

ENQUADRAMENTO HISTÓRICO 

Na sequência do pedido de D. João III ao fundador da Companhia de Jesus para que trouxesse a sua Ordem para Portugal, no século XVII a Província do Oriente da Companhia tinha sede em Goa e jurisdição que se estendia do Cabo da Boa Esperança ao Japão. 

Pese embora não ser totalmente seu, este é seguramente um dos expoentes mais sublimes da História de Portugal.

A língua portuguesa era então franca desde os sertões brasileiros até aos confins do oriente e esta, sim, foi obra que totalmente se deveu ao engenho português.

E se dentre os europeus, nós fomos os primeiros a demandar o ultramar e os últimos a regressar, certo é que actualmente, limitados ao escasso território permitido, nos encontramos numa situação equiparável à que em 1415 justificou a conquista de Ceuta. Hoje, como então, urge ganhar dimensão «lá fora» como solução única contra o esmagamento europeu da nossa soberania.

Independentemente da capacidade que Portugal hoje tivesse para seguir a via dos esmagamentos militares, das conquistas territoriais ou da humilhação de outras civilizações, esse seria – neste início do século XXI – procedimento criticável e vocacionado ao fracasso. O humanismo cristão que hoje nos rege não o permitiria, o cenário internacional desmoronar-se-ia sobre nós, a restante tenacidade nacional seria incapaz de tal senda até porque vem sendo moldada com vista a mais brandos desígnios.

Tendo numa escassa quarentena passado de cabeça de Império a membro menor duma união de Estados cada vez menos soberanos e onde a solidariedade corresponde tão-somente a chavão discursivo, cumpre-nos agora reformular o modelo de desenvolvimento que já revelou plena caducidade para, tão rapidamente quanto possível, pagarmos as dívidas que a desgovernança deixou acumular.

E se esta missão é inultrapassável, ela não obsta, contudo, a que procuremos ganhar no exterior a dimensão que nos falta «cá dentro». Em paralelo e com igual urgência.

Imunes à amoralidade resultante do pós-modernismo instalado na vida pública nacional e ao resultante derrotismo da maioria da sociedade portuguesa, há por esse mundo além inúmeras comunidades que se sentem e intitulam lusíadas, que nutrem por Portugal sentimentos de grande afeição e de longínqua nostalgia, que ambicionam pela retoma de laços de que nalguns casos se viram privadas durante séculos.

Quando as novas tecnologias da comunicação nos permitem estabelecer esses contactos, sem sequer nos sujeitarmos às intempéries, não haveria desculpas para que o não fizéssemos. E se o fazemos numa perspectiva de remissão de erros cometidos ao longo da História, confessamos a ideia que nos move de contribuirmos para a criação de um novo mundo lusíada baseado nos princípios do humanismo cristão de inspiração lusíada, numa base de equidade, mesmo naqueles casos em que os povos não tenham podido passar por qualquer processo de autodeterminação.

E se não temos a pretensão de reescrever a História, deixem-nos pelo menos sonhar com a ideia de que a língua portuguesa se possa afirmar como um verdadeiro instrumento da paz ao longo deste potencialmente desvairado século XXI.

ÍNDIA

No processo de retoma de contactos com os «portugueses abandonados», saltou a Índia para o primeiro lugar das nossas preocupações e é com grande satisfação que colaboramos em tudo que nos pedem os lusófonos de Goa que, reunidos na Sociedade de Amizade Indo-Portuguesa e com o apoio da Fundação Cidade de Lisboa, já organizaram 14 cursos de português para adultos com uma frequência média de 96 alunos por curso. Distribuídos por três níveis e por duas cidades (Pangim e Margão), a aprendizagem formal conclui-se com um curso de conversação trimestral. Aqui, sim, temos colaborado entusiasticamente na procura em Portugal de professores interessados no desempenho desta função. Também este complemento suplantou as melhores expectativas pois que logo na primeira edição em vez de uma turma de 15 alunos, o professor teve que se desdobrar de modo a ensinar uma turma em Pangim e outra em Margão. O quarto curso teve 4 turmas de 15 alunos e para o que se iniciará em Janeiro de 2012, o quinto, admite-se a necessidade de deslocar mais professores de Portugal. 

É comovente entrar na sede da Sociedade de Amizade Indo-Portuguesa em Pangim e ouvir falar português como se estivéssemos em Lisboa.

O ensino de português às crianças goesas está a ser feito por professores goeses que completaram o curso ministrado localmente pelo Instituto Camões e que vêm sendo colocados pelo Governo goês na rede de escolas públicas do Estado.

A percentagem de lusófonos em Damão, Dadrá e Nagar-Aveli estima-se que ainda hoje ronde os 30% da população apesar da longa solução de continuidade que houve no ensino da nossa língua e apesar de a Igreja ter passado há uma dezena de anos a utilizar o inglês em todos os actos litúrgicos.

Sempre pela Internet, foi relativamente fácil identificar um damanense interessado em restabelecer laços culturais com Portugal e encontrar uma professora habilitada com o curso da Delegação do Instituto Camões em Macau. Tal a apetência, foi num ápice que um grupo de crianças residentes em Damão Grande passou a frequentar as aulas. O segundo curso iniciar-se-á em Outubro de 2011, passada a monção. Falta agora relançar o ensino do português no Instituto Nossa Senhora de Fátima, o que ainda não foi possível.

Mas também ainda não conseguimos tantas outras coisas…

Os católicos de Baçaim – a antiga Corte do Norte do Estado Português da Índia e hoje arredor de Mumbai (Bombaim) – terão ouvido falar da nossa acção e contactaram-nos pela Internet a fim de trocarmos impressões sobre a história do forte português daquela cidade. A propósito da interpretação das inscrições nas muitas campas existentes na igreja local, foi com a maior naturalidade que surgiu a ideia de lançar o ensino do português. Um dos objectivos entretanto definidos pelos elementos do grupo entretanto constituído no Facebook, consiste em futuramente a Missa passar a ser celebrada em português até porque pretendem que todo o processo de relançamento da Cultura Indo-Portuguesa em Baçaim se desenvolva em estreita colaboração com a respectiva Diocese.

Inesperadamente e com a maior surpresa dos locais, localizámos uma portuguesa residente naquela cidade com a formação necessária ao ensino do português. As aulas começarão brevemente, logo que a Diocese disponibilize uma sala para as aulas e logo que a monção deixe de convidar as pessoas a manterem-se em casa.

Está em constituição um núcleo de goeses residentes em Bombaim que pretende integrar este movimento de retoma da Cultura Indo-Portuguesa. Aínda estamos nos contactos preliminares com vista à confirmação da liderança local bem como à definição dos objectivos que o grupo possa vir a definir.

Inesperadamente, fomos contactados por um católico de Cochim que, no âmbito duma Associação local ligada à Igreja, mostra muito interesse pela culinária indo-portuguesa. Não sendo tema que dominemos de modo diverso do de consumidores, nada obstará a que lhe dediquemos o tempo necessário ao desenvolvimento de relações à distância que permitam retomar a tradição e confirmar que a língua portuguesa ali possa ser um instrumento da erudição e do bom entendimento entre duas Culturas que pretendem voltar a conviver em paz e a comer (comungar) com gosto à portuguesa.

Em Chaul-Korlai o processo está mais atrasado pois dizem-nos que morreu o último falante de português e o crioulo local de origem portuguesa está em vias de extinção por pressão das línguas vernáculas do Estado de Maharastra. Resta agora saber se os luso-descendentes daquelas localidades pretendem recuperar o seu crioulo ou se pretendem aprender o português moderno. Na primeira hipótese, terão que contar consigo próprios; quanto à segunda, poderemos procurar uma solução.

De qualquer modo, ao tempo em que escrevemos estas linhas, o processo ainda não foi interiorizado naquela população e os contactos que vimos recebendo têm origem noutros grupos católicos indianos.

MAIS QUÊ?

A Internet é uma verdadeira caixa de Pandora pelo que a qualquer momento nos podem surgir novas solicitações de comunidades nossas desconhecidas. Ou seja, a qualquer momento poderemos ser induzidos a mudar as prioridades que vimos estabelecendo.

Mas há uma linha de rumo que consideramos perene: com o tanto que está por fazer, não avançaremos para locais onde já esteja alguém a fazer o mesmo que nós nos propomos desenvolver.

É o caso dos «portugueses abandonados» de Malaca onde se encontra a Associação Coração em Malaca e em Batticaloa (Sri Lanka) para onde a AMI – Assistência Médica Internacional terá enviado um professor há relativamente pouco tempo.

É também o caso de todas aquelas comunidades de emigrantes portugueses na Europa e na América do norte onde o ensino da nossa língua está assegurado por Associações locais.

As nossas prioridades continuam a definir-se pelo grau de abandono em que encontramos quem se diz luso-descendente e quer retomar os laços culturais com Portugal ou, no desconhecimento da sua própria História, se sente cultural ou religiosamente diferente de quem os rodeia sentindo necessidade de algo para que consiga preservar os padrões que herdou e quer legar aos seus próprios descendentes.

Estão neste caso os católicos dos arquipélagos das Celebes e das Molucas (Indonésia) e os Melungos dos Apalaches (costa leste da América do norte).

A todos tentaremos chegar com uma palavra de amizade e de paz, por vezes com uma visita para nosso conhecimento da realidade local, concretização da missão que esperamos das pessoas envolvidas e estreitamento dos laços de fraternidade que no nosso entendimento privado deverão definir o futuro de Portugal.

Um motivo a mais: a apetência social e cultural do espaço Schengen…

Mas fora destes padrões ficam outros a que alguém há-de um dia «deitar a mão». Referimo-nos aos descendentes de Pêro da Covilhã e dos outros 400 portugueses que há séculos perambularam por terras do Preste João. A Igreja oficial etíope poderá hoje continuar monofisista mas não terá certamente sido em vão que por lá passou a Companhia de Jesus. Lá iremos…

Fica na horizonte o tanto que sonhamos mas nem sequer imaginamos.

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